Tinha eu dez anos quando o meu pai, professor de Matemática no Liceu Pedro Nunes, abriu a Introdução à Filosofia Matemática (1919), de Bertrand Russell, e me leu a sua definição de número: “O número de uma classe (conjunto) é a classe de todas as classes que lhe são semelhantes”. E explicou-me: o que há de comum a três livros, um trio de Beethoven e a Santíssima Trindade? O número 3!
A partir desse momento, Lorde Russell – matemático, filósofo, activista e futuro Prémio Nobel da Literatura em 1950 –, passou a integrar a minha vida. Em Oxford, devorei os três volumes da sua autobiografia publicados sucessivamente em 1967-69. Aprendi o Decálogo Liberal que Lorde Russell, “como professor, gostaria de promulgar”. Sempre me impressionou o 9.º mandamento: “Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois é ainda mais inconveniente quando tentas escondê-la.”
Foi o que almejei fazer ao longo deste Após a Bomba. Quanto ao 1.º mandamento, “Não te sintas absolutamente certo de nada”, define o pensamento científico.
Ao pôr o ponto final neste livro, tenho apenas uma certeza: se toda a ciência é um infinito poema épico, a definição russelliana de número é o mais belo de todos os versos.