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Tempo da Música, Música do Tempo

Org. de Barbara Aniello

Eduardo Lourenço

  • Edição Janeiro 2012
  • Colecção Obras de Eduardo Lourenço
  • ISBN 978-989-616-462-1
  • Páginas 236
  • Dimensões 0 x 0
€13,50 €12,15
Indisponível

Novo livro da colecção «Obras de Eduardo Lourenço» que a Gradiva tem vindo a editar em estreita colaboração com o autor. Desta feita, trata-se de textos inéditos, retirados das páginas diarísticas do ensaísta – um conjunto de reflexões «ocasionais» suscit

OBRA GALARDOADA COM O PRÉMIO DE ENSAIO JACINTO DO PRADO COELHO - 2013

 

Novo livro da colecção «Obras de Eduardo Lourenço» que a Gradiva tem vindo a editar em estreita colaboração com o autor. Desta feita, trata-se de textos inéditos, retirados das páginas diarísticas do ensaísta – um conjunto de reflexões «ocasionais» suscitadas pela audição de peças musicais, seja em salas de concertos, em casa ou durante as suas numerosas deslocações. Aqui, o filósofo revela a sua sensibilidade aos estados de alma dos trechos musicais e a sua imensa erudição, que torna possível o estabelecimento de relações surpreendentes entre as várias formas de expressão artística. Da pintura à literatura, são invocados contrapontos e analogias pertinentes e iluminadores da essência musical e da alma humana. A selecção dos apontamentos e sua organização estiveram a cargo da historiadora da arte e musicóloga Barbara Aniello. O livro inclui ainda um apêndice com textos já publicados em locais dispersos sobre a mesma temática.

 

«O que eu sou como ser mortal (o que todos somos), está contido na melancolia absoluta do allegretto da Sétima Sinfonia. Mas o que desejaria ser, o que não tenho coragem de ser, só se revela nesta Suite em Si Menor, de Bach. Diante desta torrente luminosa devia depor a minha velha pele, esta pele de que só a música me despe num instante, deixando-me nu e redimido, mas que no instante seguinte afogo em trevas. Delas só um Deus me poderia libertar. Digo Deus sabendo bem que esse absoluto que me atrevo a invocar é ainda o supremo álibi. É de mim, das ardentes seduções do meu profundo ser, que não quero ou de que não sou capaz de abdicar. Queria ir por um caminho de rosas para aquele sítio onde sei que me foi fixado encontro. E ninguém lá chega nunca sem antes morrer para si mesmo.»

 

Eduardo Lourenço

 

TEXTO DE BARBARA ANIELLO, ORGANIZADORA DESTA OBRA, LIDO AQUANDO DA CERIMÓNIA DE ENTREGA DO PRÉMIO DE ENSAIO JACINTO DO PRADO COELHO NO DIA 21 DE NOVEMBRO NA SPA EM LISBOA

 

 

«Caríssimo Professor Eduardo Lourenço,

 

Não imagina a minha felicidade pelo prémio que está prestes a receber.

 

Lembro-me muito bem de quando, emocionada, entregando-lhe o primeiro esboço do livro me disse: “Nós não pensamos nada, não há um homem propriamente pensante: nós ouvimos”. Involuntariamente, como sempre, acabava de fazer o melhor retrato de si mesmo. Talvez seja este singelo e humilde adjectivo, “ouvinte”, o que pode descrever melhor a sua pessoa.

 

Quando o encontrei pela primeira vez, o que fez foi ouvir-me. A aparente banalidade do acto não deve enganar, pois é extraordinário para um jovem investigador ser “ouvido” e receber a atenção dos grandes. A imagem ainda está à minha frente: de olhos fechados, na semiobscuridade da sala do Grémio Literário, o Professor ouvia a minha conferência sobre José de Almada Negreiros, meu primeiro amor que nos fez encontrar. Com a sua proverbial curiosidade, animou depois um debate muito mais interessante do que a própria palestra. Dialogámos longamente. Raras vezes me senti assim, “ouvida” e “compreendida”, partilhando os voos de um pensamento extraordinário como o seu.

 

Pelo capricho daquele fenómeno que alguns chamam “acaso”, outros “Providência” – mas “o acaso não existe” diz Almada – naquela altura trabalhava lado-a-lado numa sala de investigadores da Biblioteca Gulbenkian com João Nuno Alçada, responsável pelo Acervo Eduardo Lourenço, sem o qual este livro não podia ter vindo à luz. De bata branca, João Nuno Alçada “navegava”, literalmente “navegava” num mar de papéis, folhas impressas, manuscritas, livros, dossiers, caixas… e foi ele que me indicou, lembro-me como se fosse hoje, uma caixa de papelão branco, que despertou logo a minha curiosidade. Eram inúmeras agendas de bolso e entre as páginas destes diários improvisados havia anotações sobre música. Assim lendo e decifrando aos poucos a sua grafia miúda, verdadeira arte hieroglífica moderna, tive o privilégio de descobrir uma faceta inédita da sua personalidade pois era inédita também para mim. Poucos sabiam, até agora, do seu longo convívio com a música, a música como presença constante na sua vida e na sua actividade de pensador. Rádio, discos, concertos, festivais musicais: tudo era ocasião para uma nova página nas pequenas agendas ou em papéis ocasionais.

 

E o que surpreendeu na leitura deste material era a sua capacidade de “ouvir”. O “ouvinte puro”, que o Professor é, entregava-se totalmente ao objecto ouvido e atingia a essência da linguagem musical através de um olhar todo seu, pessoal, íntimo, mas ao mesmo tempo universal nas suas conclusões. Não só tocava áreas afins, filosofia, pintura, literatura, mas atingia profundamente a alma, a sua e a dos leitores.

 

Não lhe sei dizer, Professor, que grande felicidade e que enorme gratidão sinto, não só por esta ocasião de festa, merecidíssima, mas sobretudo pelo facto de o ter conhecido e de me ter dado, desde então, o privilégio de acompanhar pessoalmente a minha investigação no seu Acervo, tanto neste Projecto como nos outros dois que estou a concluir.

 

A quem tenho que agradecer ainda?

 

A Almada Negreiros? Ao João Nuno Alçada? Ao Acaso? A Deus?

 

Para não me enganar, obrigada a todos mas sobretudo a si!»

 

 

Barbara Aniello