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O Rio Frio

Joaquim Almeida Lima

  • Edição Janeiro 2009
  • Colecção Gradiva
  • ISBN 978-989-616-306-8
  • Páginas 228
  • Dimensões 0 x 0
€12,11 €7,27

Então, os meninos gostam daqui?», perguntou Ti Josélia, mãe de Maria Nunes, criada lá de casa.
«Gostamos sim», respondeu, muito corado, meu irmão.
«Olhem que ar como o de Alhões não têm lá em Lisboa!», disse Ti Josélia.
«Nem um rio como este!», afirmou meu irmão.
«Ah, o rio, esse tem muito que contar», disse Ti Josélia.
E nessa noite sonhei que estava a atravessar o rio de mão dada com o meu irmão.

A estrada não passa naquela aldeia perdida na Serra de Montemuro: é preciso uma hora em cima de um burro para lá se chegar, e o tempo corre devagar, ao ritmo das badaladas do sino da igreja. Lá em baixo, no limite da povoação, corre um riacho de águas frias onde o povo lava o corpo, a roupa e a alma. Nas suas margens ouvem-se juras de amor eterno, fazem-se planos e desfazem-se sonhos, e por isso o povo da aldeia não saberia viver sem o seu rio frio. Vive-se o estertor da ditadura, os rapazes vão às sortes e logo a seguir para a guerra, mas nem todos aceitam ser carne para canhão dos senhores de Lisboa. Simão Pedro decide desertar, emigra e só volta com a liberdade. Vem diferente e sua mulher Maria Inácia mal o reconhece. Como as águas do rio que, sendo o mesmo, nunca é o mesmo, também as pessoas mudam, embora pareçam iguais.