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Segunda, 14 de Maio de 2012
Palavras de Barbara Aniello, org. da obra «Tempo da Música, Música do Tempo» de Eduardo Lourenço, na sessão de lançamento do livro na Feira do Livro de Lisboa de 2012
"É uma grande felicidade e um privilégio enorme estar aqui hoje convosco.

Quando Eduardo Lourenço acabou de ler o primeiro esboço deste livro, disse-me com a maior tranquilidade e com um dos seus habituais aforismos: “Nós não pensamos nada, não há um homem propriamente pensante: nós ouvimos”.

Assim, com poucas, rápidas pinceladas, sem se aperceber, fez o melhor retrato de si mesmo:  Eduardo Lourenço é um ouvinte.

O que sou de melhor é o OUVINTE deste apelo que Brahms está fazendo deste canto à parte eterna da minha alma. A minha pátria é aí. Aí os meus mortos, a minha infância, o meu ilimitado, o infinito céu. Aí a imagem sensível do meu Deus.

Um ouvinte permanentemente à escuta, sem dúvida. Todavia, poucos sabem, ou sabiam até agora, do seu longo convívio com a música, a música como presença constante na sua vida e na sua actividade de pensador.

Tudo começou por acaso.

Foi trabalhando lado-a-lado na Biblioteca Gulbenkian que conheci o Professor João Nuno Alçada, responsável pelo Acervo Eduardo Lourenço, sem o qual este trabalho que agora finalmente tenho entre as mãos não podia ter vindo à luz.

Na altura era bolseira de Pós-Doutoramento e investigava a obra de José Almada Negreiros, segundo o qual precisamente o Acaso não existe. E com razão!

João Nuno Alçada “navegava”, literalmente “navegava” num mar de papéis, folhas impressas, manuscritas, livros, dossiers, caixas… Enfim, foi ele que me indicou, lembro-me como se fosse hoje, uma caixa de papelão branco, que despertou logo a minha curiosidade. Eram inúmeras agendas de bolso, sabem aquelas agendas que os bancos - quando ainda tinham dinheiro - ofereciam aos clientes, agendas pequeníssimas, e, por ventura, entre as páginas destes diários improvisados havia anotações com a música como objecto. Entretanto, com a cumplicidade de Almada, conheci pessoalmente o autor deste tesouro numa palestra no Grémio Literário dedicada ao pintor. Eduardo Lourenço tinha assistido de olhos fechados à minha pobre conferência e, é claro que depois conduziu e animou um debate muito mais interessante do que a própria palestra. Dialogámos longamente.

O tempo e o espaço pararam. Parecia-me estar a falar com uma figura mística. Mais ainda: mitológica: metade Platão ou Sócrates, metade vizinho de casa pela sua humilde amabilidade.

Foi assim que tomou forma, aos poucos, o projecto de tornar pública esta faceta inédita emergida do Acervo.

Recolhemos mais de 216 reflexões - mas ainda anteontem saíram mais três do chapéu mágico de João Nuno – a maioria delas inéditas e escritas nos suportes mais surpreendentes: folhas de hotel, cadernos do tempo coimbrão, programas de sala, páginas soltas ou agrafadas guardadas entre livros de Estética, anotações à margem (ou no verso) de outras considerações reservadas à Filosofia ou à Literatura. Houve até marcadores de lugar de mesa anotados no verso ou bilhetes de concertos preenchidos durante uma fila à espera de lugar nos teatros lotados.

Oiçam esta breve composição em forma de poesia anotada por detrás do tal marcador de mesa.

Um som sem conceito.

Um som bate noutro som ou confunde-se com ele, como água com outra água.
Os sons como se alagam no ecrã do silêncio para o medir.
Recalcam-se com uma onda mais forte outra onda.
Som como vozes que se extenuam noutra pura exaltação. […]

Muitas vezes estes comentários nasciam nas viagens de carro de Vence para Nice e de Nice para Vence. Na altura o Professor dava aulas e a rádio era a ocasião para uma nova página musical. Outras vezes, na solidão do seu escritório, era a música que vinha ao seu encontro enquanto escrevia sobre Kierkegaard ou Hegel. Sem contar com as viagens pelo mundo, durante as quais assistia às representações teatrais, aos concertos, aos festivais de música, de todo o tipo de música desde o canto gregoriano até à mais experimental música contemporânea.

Não foi fácil convencer o Professor, inicialmente relutante por se considerar um simples amador. Mas, finalmente rendido ao projecto, eu tive o privilégio, durante um ano e meio, de arrumar, ordenar cronológica e topograficamente (segundo as estadas e as etapas biográficas do autor), de transcrever, organizar e prefaciar este volume, mas, sobretudo, tive o privilégio de privar com uma das pessoas mais surpreendentes que conheci na minha vida.

Deixo à vossa imaginação o que foi a descodificação da letra do Senhor Professor. Confesso que tive ainda que subir a graduação dos meus óculos, mas o que foi importante é que cada vez mais construía-se em frente dos meus olhos, um panorama totalmente novo. É que Eduardo Lourenço é um ouvinte muito especial.

Em 65 anos - calculei que a mais antiga reflexão é de 1947 - 65 anos de estadas e viagens pelo mundo, concebeu e recolheu pensamentos musicais que surpreendem pela sua capacidade invulgar de atingir a essência da linguagem musical, através de um olhar todo seu, pessoal, até íntimo diria, mas ao mesmo tempo totalmente universal nas suas conclusões.

Não é aqui o seu rigor musicológico que se pretende atestar, mas a sua habilidade em alcançar o sentido profundo da “coisa sonora”.

Ocasional? Sim. Fragmentário? Certo.

Apesar disso, cada frase, cada linha, cada palavra escrita mais para si próprio, sem o propósito de envolver um público na altura ausente, revela um profundo contacto, um profundo convívio com a música. A música “essência de todas as artes”, como dizia Schopenhauer.

Cito:

Aqui tocamos a pura interioridade da exterioridade misteriosa, da noite e seus imaginários sortilégios. Certas notas caem, tombam em qualquer não-sítio e caindo povoam uma noite branca de estrelas negras.

Aqui o nocturno musical que evoca a peça, construída sobre os poemas de Aloysius Betrand, inspira os oxímoros de Eduardo Lourenço “interioridade da exterioridade”, “noite branca de estrelas negras”, que encontra na forma poética a melhor tradução da impressão musical.

Ao longo das páginas diarísticas, Bartók surge várias vezes, é uma autêntica revelação e revolução no universo musical lourenciano. Os silêncios de Bartók e a metafísica de De Chirico são intuitivamente postos em paralelo. E enquanto as notas do fugato que conclui o primeiro movimento se apagam num uníssono em pianissimo, vemos as gares vazias do pintor atravessadas por longas sombras de estátuas ausentes.

Assim sugestões visuais nascem de estímulos sonoros. Como numa outra lapidária frase de Eduardo Lourenço: “A música é para mim vitral”. Revelando uma vocação sinestética.

Mais. “Na Fuga o infinito procura o infinito sem o tocar”. A interpretação no plano técnico e filosófico é muito apropriada, uma vez que, na Fuga, o processo imitativo da repetição com variação do mesmo tema sugere uma multiplicação infinita dos planos, criando uma estrutura entrelaçada contínua e potencialmente interminável.

E ainda.

Como difere de Reis o A. Campos

Como um scherzo molto vivace difere de um largo na mesma peça de Chopin.

Equação genial. De facto, nos andamentos da última das Sonatas de Chopin, a número 3, à qual a frase se refere, duas almas perseguem-se: uma efervescente, brilhante e extrovertida, outra meditativa e profundamente melancólica, tal como as vozes do universo pessoano: a de Reis classicamente equilibrada e ligada à tradição, e a de Campos inovadora, intimista e por vezes nostálgica.

E todos os fragmentos deste trabalho que se foi desenhando por si, como um mosaico numa expedição arqueológica, é incrível mas são unidos pelo fio subtil, o fil-rouge do Tempo. Tempo com letra maiúscula. Tempo da Música, Música do Tempo. Até no título o nosso autor propendeu para um palíndromo, pondo um espelho entre as duas semi-frases, tal como a obra é espelho da sua pessoa.

No devir entre Temporalidade e Eternidade Eduardo Lourenço coloca-se em suspenso.

Cito mais uma reflexão referida a Maria João Pires:

Os intérpretes de génio poderão falar dessa mágicas tapeçarias de sons onde a nossa temporalidade cruza e descruza os fios do tempo que a tecem e destecem.

É um milagre tão puro como o da invenção desses espaços de transparência e opacidade sonoras que nós chamamos Bach, Mozart, Chopin.

Mas o tema do Tempo e da Música leva-nos ao tema mais encoberto da relação entre o Eu e Deus.

Música e Tempo são pretextos. É outra a faceta mais secreta que a obra sela.
 
O que nós achávamos um monólogo (como seria de esperar num diário) torna-se um diálogo entre um Eu e um Deus que se perderam reciprocamente, mas que no fio invisível de Ariadne que é a música, se reencontraram e recomeçaram a falar.

De facto há vários níveis no texto: um é o do autor que, face à obra, dialoga com ela e com o seu compositor; outro é o nível do monólogo interior, do Eu que se espelha na peça musical; enfim temos o terceiro nível do diálogo do Eu com Deus.

Certamente se um dia voltar para Deus a nenhuma outra coisa o deverei senão a estas estradas de uma melancolia lancinante que desde o canto gregoriano até Messiaen devoraram em mim o sentimento da realidade do mundo visível.

A esponja seca de Deus que sou é ensopada sem misericórdia pelas lágrimas de fogo da clara noite deste canto.

Uma relação, a do Eu com Deus, nem sempre linear ou pacífica.

Entre tantas formas de tentação, e só aqueles que nada têm a perder não sabem o que é a tentação, a tentação de Deus é a mais perigosa, a mais irresistível, porque DEUS É A FORMA QUE EM ABSOLUTO CONVÉM À NOSSA ALMA.

Nem a pintura, nem a escultura, nem a poesia encontraram esta permanência, esta certeza vibrante de assassinar os deuses que a música encerra.

A Música é o único bálsamo que os homens inventaram para ouvir a voz de Deus.

Mas que na música se aquieta.

Música. A imagem sensível do meu Deus.

Muitas vezes a voz crítica de Eduardo Lourenço dilui-se em pura poesia.

A propósito de um Lohengrin Wagner, ouvido em Heidelberg em 1955:

[…] esse oceânico diálogo da memória musical consigo mesma, esse êxtase que se extasia em si mesmo, essa oração das orações, essa toalha líquida de silêncio e harmonia inseparáveis, essa melancolia de lava de um mundo sem matéria, harmonia de um espírito que por toda a parte procura essa matéria para fabricar um mundo ou se contar a si mesmo histórias impossíveis para ressuscitar o universo desértico e desabitado onde ele se move.

Sempre Wagner, Tristão:

O que não vemos em nós, esse espelho irreal no-lo mostra: a Arte é o imerecido beijo da nossa ressurreição, o estranho beijo que a alma adormecida dos homens se dá a si mesma para despertar do encantamento mortal da floresta da vida.

Enfim a propósito de Schumann e do seu Concerto para piano e orquestra em lá menor:

É esta música que desde o dia em que o vento me ensinou tudo quanto a vida tinha que me ensinar, que o mais inominável de mim canta em surdina contra a noite intacta a minha alma que não se abre a outras estigmata que a arte.

Música interior. Som interior chamava Kandinsky à sua inspiração. Volta na minha memória a felicidade criativa de Federico Fellini em 8½. Fellini que partilha com Fernando Pessoa um aforismo:

“Nada se cria, tudo se imagina”.

Obrigada, Professor, por ter imaginado esse universo sonoro e por nos ter mergulhado generosamente nesse mar de músicas imaginadas, interiores e até divinas.

Mais uma citação, se me permite Senhor Professor, mais um auto-retrato involuntário que li no seu diário: “Talvez a forma mais autêntica do génio seja sê-lo sem o saber”.

Mais ainda. “O génio é uma simplicidade que se ignora, uma cara privilegiada a quem o vento de Deus caprichosamente tocou”.

Falava no Bach, Senhor Professor, mas nós sabemos que também Eduardo Lourenço foi vítima desse “capricho divino”.

Muito Obrigada, estas palmas são para si."

Barbara Aniello, org. da  obra Tempo da Música, Música do Tempo de Eduardo Lourenço, na sessão de lançamentro do livro na Feira do Livro de Lisboa - 5 de Maio de 2012