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Quinta, 24 de Novembro de 2011
Apresentação da obra Casamentos e outros Desencontros de Jorge Buescu por Miguel Ramos - FCUL
«É com vivo prazer que tenho aqui a possibilidade de contribuir para a promoção de mais uma obra do Jorge Buescu.

Considero-me insuspeito para o fazer, não só porque sou apreciador e divulgador dos textos do Jorge desde há longa data, muito antes de o conhecer pessoalmente – mas também por, devido talvez à minha ocupação de matemático, não ser à partida grande entusiasta de obras de divulgação de matemática (de outras ciências, sim), as quais em geral me frustram as expectativas.

Felizmente as regras têm as suas excepções – e a cultura nacional tem a sorte de contar com autores da craveira de um Crato, de um Fiolhais e, claro, de um Buescu (todos eles com publicações na Gradiva, e isto não é por acaso).

Nestes meandros da divulgação de matemática, é extraordinariamente difícil atingir-se um bom equilíbrio de conteúdos e forma que satisfaçam um público variado, desde aqueles de antemão menos motivados para uma leitura deste tipo até aos leitores com maior formação científica, que não contam com novidades neste género de publicações. Mas todos o Jorge surpreende e cativa com os seus textos.

Este sucesso tem origem em pelo menos três virtudes do autor, cada uma mais invejável que a outra. Por um lado, o seu domínio profundo da matemática num leque diversificado de assuntos; uma coisa é ‘dar uns toques’ num determinado tema científico e outra, bem diferente, é conhecê-los com um nível tal que possibilite comunicá-los ao grande público. Por outro lado, a sua capacidade de permanentemente ‘ter as antenas ligadas’ às evoluções que vão surgindo na matemática; sem descurar aspectos históricos com origem remota, os seus textos estão, também e sempre, impregnados de actualidade científica. E, por fim, a sua disponibilidade para, entre muitos outros afazeres, encontrar paciência e tempo para o exercício da actividade de divulgação, em prol de um verdadeiro serviço público, algo nem sempre valorizado nos meios académicos (ou, pelo menos, pelos avaliadores do trabalho académico).

Acima de tudo – e os seus alunos na universidade sabem-no melhor que ninguém – o Jorge é um contador de histórias. Com este quarto volume na Gradiva, completa o impressionante número de 88 pequenas short stories publicadas, enredos com características de autênticos thrillers, em torno de temas, aplicações e vultos da matemática e física. Em cada uma delas é-nos revelada uma parcela da infindável, inesgotável beleza da matemática, desde as relações inesperadas entre os assuntos até às respostas que esta ciência vai encontrando aos desafios suscitados pelos progressos em outras áreas do conhecimento. O Jorge não cessa de se maravilhar com este universo, e transmite-nos esse deslumbre. Por isso lhe estamos gratos.

Concretizemos. Só neste pequeno volume de Desencontros, o leitor toma contacto com áreas tão variadas como combinatória, probabilidades, grupos de Lie, geometria euclidiana, geometria hiperbólica, teoria de matrizes, teoria de números, fractais, variável complexa, teoria de jogos, optimização discreta e não discreta, teoria de códigos, história da matemática, ...uf!

As relações com outros universos não são descuradas. Mais do que meras ilustrações das aplicações da ciência pura, são parte integrante deste volume as referências a encriptação de dados, problemas de decisão económica, modelos matemáticos em economia, redes sociais, física teórica, problemas de gestão urbanística, demografia e estatística, biologia celular e leis de processos biológicos, comunicações digitais, e por aí afora.

Um bónus para os docentes do ensino secundário: integrados em contextos particularmente apelativos, podem ser usados (mas não abusados!) pequenos exercícios sugeridos implícita ou explicitamente pelo autor, como o cálculo de probabilidades em situações de jogos (Cap. 16) e em estratégias de rejeição (Cap. 7), ou o manuseamento de grafos (Cap. 15) e do triângulo de Pascal (Cap. 11).

Todo um conjunto de boas razões para se adquirir, ler, desfrutar (e oferecer como prenda de Natal!) estes Desencontros.

Não pode ficar esquecida uma imagem de marca dos textos do Jorge – que é a forma bem humorada com que nos apresenta os assuntos de matemática. Para que ele não fique sem resposta, aproveito esta ocasião para propor a introdução de uma nova unidade de medida temporal, a ub – Unidade de Buescu. Por definição, uma ub correspondente ao tempo médio de leitura de uma qualquer das suas short stories (dever-se-ia dizer, de uma primeira leitura, pois o autor frequentemente nos remete para a consulta de bibliografia adicional, sobretudo endereços electrónicos, por onde navegamos ao longo de potências de ub).

De modo a tornar mais palpável, mais real, este conceito de Unidade de Buescu, convido o leitor a corroborar a minha experiência pessoal, segundo a qual são equivalentes temporais de 1 ub os seguintes momentos do quotidiano: o tempo de espera numa paragem de autocarro; o tempo de secagem do corpo na praia ou piscina, entre dois mergulhos; um interregno publicitário durante o visionamento de um filme televisivo; um período mais prolongado na casa de banho; um tempo de cozedura de massa, na cozinha; ... (o leitor é convidado a completar esta lista, em face da sua própria experiência).»

por Miguel Ramos, FCUL