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Quinta, 24 de Novembro de 2011
Apresentação da obra Casamentos e outros Desencontros de Jorge Buescu por Filipa Melo
«Evidentemente, este é um excerto de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, ou, melhor, um excerto da obra assinada com este pseudónimo pelo matemático e cónego anglicano Charles Lutwidge Dogson.

Durante um passeio de barco no Tamisa, Alice, uma das três irmãs Liddel, pediu-lhe que passasse a escrito a incrível história que ele lhes contara nesse dia 4 de Julho de 1862. Nasceu assim Alice no País das Maravilhas, uma das mais extraordinárias criações literárias de todos os tempos. Acontece que, segundo muitos, este romance do outro mundo é também um libelo do seu autor contra a defesa das geometrias não-euclidianas, à época recém-descobertas. Para perceber melhor do que falamos, leiam o capítulo três destes Casamentos e outros Desencontros de Jorge Buescu e actualizar-se nesta matéria.

Mas, regressemos a Alice. Dogson ter-se-à insurgido contra o fim da hegemonia dos axiomas do velho Euclides e terá decidido explorar precisamente uma das armas euclidianas – o método de demonstração reductio ad absurdum, ou seja, de redução ao absurdo – usado para contra-atacar e ridicularizar os adeptos da nova matemática.

Não é nada a mesma coisa! – protesta a Lebre de Março.

Para ti é a mesma coisa – salienta o chapeleiro Louco.

Devem estar a perguntar-se agora: e o que interessa tudo isto para o que nos traz aqui hoje. Nem sequer vamos tomar chá neste dia do nosso desaniversário!... Nem vamos entrar numa corrida eleitoral arbitrada por um Dódó, numa pista que é uma espécie de circunferência de que não interessa a forma exata! É verdade, não vamos.

Mas estamos aqui, sim, para falar de um universo de suposta coerência infinita, o da matemática, ou da manipulação de conceitos puros mediante a ferramenta da matemática. Na obra de Dogson, Alice é desafiada com enigmas de matemática e lógica, brincadeiras, autocontradições e subversões de significados, num exemplo percursor das potencialidades da poesia concreta ou do surrealismo. Afinal, como na obra de Dogson, alguma coisa une estes dois mundos: o da criação literária e o da criação e evolução da matemática. E o que os une é uma pergunta que Jorge Buescu coloca no início do seu livro: Para que servem? Para que serve a literatura? Para que serve a matemática?

Buescu responde a esta segunda questão, e diz-nos: «A um nível imediato, a matemática é crucial porque nos permite intervir quantitativamente no Mundo, através de todas as aplicações provenientes das ciências e tecnologias.» Esta é uma afirmação impensável em relação à Literatura. Mas Buescu diz-nos mais: «A matemática é uma intensa aventura intelectual, com os seus altos e baixos, momentos de desânimo e descobertas, frustrações e epifanias.» E, aqui, os universos começam a aproximar-se. A matemática quando é criada não tem de servir para nada ou, ainda, é apenas bela em si mesma. Tal qual como acontece com a Literatura. A matemática, na sua origem, é uma criação solitária (parêntesis: ou era-o, como nos alerta Jorge Buescu, quando nos apresenta o novo mundo da matemática como arma de construção maciça, fruto da colaboração de muitos) mas, voltemos ao que dizíamos, a matemática é o fruto de um investimento para o qual também muito contribui a imaginação, a vontade inata de superar e transpor os limites da realidade materialmente imposta ao homem e os limites do conhecimento. Poderão tomar a afirmação seguinte como uma redução ao absurdo, talvez, mas o matemático imaginário com o qual Jorge Buescu quer que construamos uma empatia não difere assim tanto do romancista, o criador que nos propõe o acesso a universos alternativos.

No prefácio, Carlos Fiolhais enfatiza que Jorge Buescu nos conta de forma acessível «histórias de uma mulher difícil»: a matemática. É verdade. Buescu é, aliás, um dos nossos maiores, e resistentes, divulgadores científicos, felizmente em estreita colaboração com outro grande resistente nesta matéria: a editora Gradiva, que insiste em não deixar morrer a divulgação científica em Portugal. Contra ventos e marés. E, sobretudo, sobretudo, contra o preconceito de que os diferentes universos do saber, da ciência e da criação intelectual são universos estanques, sem portas de comunicação entre si, inclinados mais para os desencontros do que para os casamentos. Esta é uma postura infelizmente comum e absurdamente contrária ao nosso necessário caminho em direcção a um verdadeiro universalismo humanista.

Neste livro, como nos títulos anteriores, Buescu traz-nos notícias urgentes do mundo. Do nosso mundo, comum a todos, e sobre o qual é cada vez mais premente agirmos com o máximo e mais amplo conhecimento de causa, não excluindo nunca os poderes da imaginação e da comunicação. O seu matemático imaginário, de que ele se tornou o arauto, preenche, em parte, um espaço quase totalmente deixado em vazio nos jornais que lemos todos os dias: o espaço do jornalista de ciência. Buescu traz-nos notícias urgentes de uma história incrível, ou quase, uma história do outro mundo, como a de Dogson, urgentemente passada para o papel. E traz-nos estas notícias da história da matemática com um cuidado que devemos todos agradecer-lhe e que corresponde perfeitamente à advertência feita pelo matemático inglês Timothy Gowers, aquando da criação do revolucionário Projecto Polymath: «Como regra prática, recomendo que seja evitado o tipo de comentário que exija pensar com um papel ao lado.» É o caso de todo o conteúdo de Casamentos e outros Desencontros.

Para mim, que há muito abandonei a prática do pensamento matemático, este livro foi um bálsamo. Permitiu-me imaginar-me, pelo menos, como uma espectadora mais informada desta corrida: a corrida contemporânea do mundo matemático. Mostrou-me que não tenho de olhar para ela como algo reduzido ao absurdo por mera ignorância própria. Permitiu-me conhecer melhor um universo supostamente hermético a partir de uma perspectiva aberta.

Ora, vejamos: Por que não há-de ser um surfista do Havai, ao mesmo tempo, o autor de uma revolução na física teórica, equiparável talvez à de um Einstein do século XXI? Porque não há-de servir o croché para permitir a visualização ou exemplificação física da geometria hiperbólica (Euclides que se cuide, já existe um modelo do plano hiperbólico em croché, e nem Dogson o teria imaginado assim no seu mais imaginativo e furioso delírio!)? Por que não aceitar-se o poder vertiginoso de uma representação gráfica, a viagem até ao admirável mundo novo do Mandelbolbo, o primeiro fractal genuinamente tridimensional (que Buescu nos apresenta, e bem como «um verdadeiro universo em si mesmo, ainda inexplorado e com uma riqueza difícil de imaginar». Espreitem na internet e sintam-se como a mergulhar no buraco fundo por onde se escapuliu o Coelho Branco)? Mais radical ainda: por que conceber que procuremos o homem, ou a mulher dos nossos sonhos, recorrendo à matemática? Ou por que não insistirmos em que é possível haver um casamento duradouro – haja quem o tenha, hoje em dia — através do chamado teorema de Gale-Shapley?

Buescu diz-nos, a meio da aventura, que «o mundo real é muito mais complicado do que a matemática, para o bem e para o mal». Mas é de uma subtileza deliciosa a ligação que faz entre estes dois mundos num texto criativo e surpreendente: As pupilas do padre Kirkman. Leiam-no.

Mais: Buescu explica-nos a mágica eficiência do Google, as semelhanças entre uma cidade e um ser vivo ou o que podem ter em comum parêntesis, eleições e cadeias montanhosas. Propõe-nos jogar de novas formas... Perder e perder para, afinal, ganhar ou sonhar um dia vir a arrebatar o prémio da lotaria. Apresenta-nos os Sangaku e a espantosa alternativa da matemática tradicional japonesa. Lá para o final – inevitável! – fala-nos da crise, justificando grande parte do desastre presente a partir da má aplicação da matemática.

Não é nada a mesma coisa! – protesta a Lebre de Março.

Para ti é a mesma coisa – salienta o chapeleiro Louco.

E porque a matemática pode ser, e é do nosso mundo, o mundo de todos, uma aventura intelectual e criativa cujos frutos são acessíveis a todos, é urgente conhecê-la e conhecer como ela é no presente. Buescu convida-nos para tomarmos uma espécie de chá com ela. Um chá divertido, cheio de surpresas e, verdade, verdadinha, onde há cadeiras e lugar para todos.»

Por Filipa Melo