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Terça, 8 de Novembro de 2011
“Trás-os-Montes” de Tiago Patrício eleito Prémio Literário Revelação Agustina-Bessa Luís 2011
Com o romance Trás-os-Montes, um farmacêutico de 32 anos, Tiago Manuel Ribeiro Patrício, sagra-se como o terceiro vencedor do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, por unanimidade do Júri, presidido pelo escritor e ensaísta Vasco Graça Moura. O Prémio foi instituído, pela primeira vez, em 2008, pela Estoril Sol, no quadro das comemorações do cinquentenário da Empresa.

Desta vez, o Júri, ao eleger o romance Trás-os-Montes, tomou em consideração “as qualidades de escrita reportadas à dureza de um universo infantil numa aldeia de Trás-os-Montes e à maneira como o estilo narrativo encontra uma sugestiva economia na expressão e comportamentos das personagens “.

O autor, Tiago Manuel Ribeiro Patrício, nasceu no Funchal, em Janeiro de 1979, mas passou toda a infância e adolescência em Trás-os-Montes. Entrou para o curso de Oficiais da Escola Naval como voluntário, realizando várias comissões de embarque em navios de guerra e participando em regatas internacionais.

No final de 1999 regressou à vida civil, para ingressar na Faculdade de Farmácia, que concluiu após 8 anos “ e muitos projectos paralelos”. De facto, fez escrita criativa em 2001, na Aula do Risco e realizou vários cursos de aperfeiçoamento em Imprensa no CENJOR, entre 2001 e 2003.

Foi membro do jornal “Os fazedores de Letras”, entre 2002 e 2007, e escreveu para o suplemento “DNJovem” durante o mesmo período.

Faz teatro desde 2000 e foi um dos fundadores do Grupo de Teatro Com-Siso, com várias peças apresentadas de 2002 a 2005.

Em 2006 entrou para o Grupo de Teatro de Letras, onde fez formação intensiva com Ávila Costa e com o qual mantém, até hoje, uma ligação estreita.

A sua poesia foi seleccionada e publicada nas colectâneas Jovens Escritores do Clube Português de Artes e Ideias, entre 2007 e 2010.

Sobre o romance Trás-os-Montes, Tiago Patrício revela que foi iniciado quando tinha 19 anos, depois de não ter conseguido entrar no curso de Medicina e ter decidido tentar melhorar a média de acesso à Universidade. “Talvez tivesse sido apenas uma daquelas desculpas providenciais – confessa -, para tornar aceitável a opção de passar um ano em casa a ler, todos os livros da biblioteca municipal. Lia 3 a 4 livros por semana, daquela colecção “Dois Mundos”, desde Steinbeck, Camus, Hemingway, até Marguerite Duras, André Malraux, Kundera e Vergílio Ferreira, cujo texto Aparição, de leitura obrigatória no 12º ano, intensificou a minha relação com a literatura e levou-me, pela primeira vez, a querer tentar escrever”.

“E foi nesse ano sabático – explica -, que comecei o meu primeiro romance, onde quis meter tudo, desde a primeira infância até à véspera, com mais de trinta personagens e histórias paralelas dos meus avós e bisavós. Era um texto em que queria justificar coisas, reabilitar-me. Havia muitos diálogos ingénuos e sem fulgor nenhum, mas ficou o substrato daquela tentativa de escrever aos 19 anos um longo romance”.

“ No ano seguinte – conta - voltei a falhar a entrada em Medicina e fui parar à Escola Naval, por questões hereditárias. Quase todos os meus tios passaram pela Marinha de Guerra e, para além disso, achava que a única maneira de regressar ao Funchal, a cidade onde vivi até aos 9 meses de idade, seria a bordo de um navio”.

“Durante a infância em Trás-os-Montes, eu era o único que tinha andado de avião, que tinha visto o mar e que tinha nascido fora daqueles 30 Km2 em redor da aldeia. Acho que desenvolvi uma certa obsessão pelo Funchal e pela ilha da Madeira, e, por vezes, usava isso como ponto de fuga e dizia: “Eu nem sequer sou daqui, o meu lugar é numa cidade grande no meio do mar e não aqui no meio dos montes”. Mas apesar de rodeado de terra, Trás-os-montes foi e é ainda um conjunto de ilhas isoladas”.

E continua:

“E regressei de facto aos 20 anos, como tripulante de uma fragata, a F486 - Baptista de Andrade. A vida na Escola Naval não era má. Comíamos bem, tínhamos uma vista magnífica sobre Lisboa e havia muitas horas de ócio, em que aproveitava para voltar à escrita do romance e à poesia. Havia alturas em que escrevia um poema por dia, sempre em soneto.

Mas a sensação de isolamento e de perda de tempo começou a reabrir novas brechas naquele edifício estável, com uma carreira definida até ao fim da vida e com todos os privilégios de um Oficial da Marinha. Foi disso tudo que prescindi no final de 1999, com o ingresso na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa”.

Tiago Patrício mais revela de si:

“Fui morar para Benfica e a minha casa teve várias noites com tertúlias, música e leituras de poesia. Obviamente que chumbei nesse primeiro ano e nunca mais voltei a ser aquele bom aluno da escola secundária”.

“Fiz um curso de escrita criativa, fui viajar de comboio pela Europa, entrei para o jornal “Os Fazedores de Letras”, comecei a fazer teatro e a trabalhar em estudos de mercado, deixei de escrever sonetos e adoptei o verso livre depois de ler Fernando Pessoa, Ruy Belo, Mário Cesariny, Herberto Helder, João Miguel Fernandes Jorge e Al Berto”.

“Mas a Faculdade – recorda - serviu para conhecer a minha companheira e a mãe do nosso filho. Passámos a viver juntos logo aos 23 anos e ela mantém-se como a minha leitora mais exigente. Este romance nunca teria sido seleccionado para o prémio Estoril-Sol, sem as alterações que ela propôs durante as várias revisões ao texto”.

“Entretanto - evoca - os meus poemas começaram a ser seleccionados para prémios a partir de 2007, especialmente para os Jovens Criadores, do Clube Português de Artes e Ideias (CPAI). Ainda nesse ano, a minha primeira residência em Praga, que o CPAI me proporcionou, tornou-se decisiva, porque me deu a entender que podia viver para a escrita. Mesmo sem saber se seria possível viver da escrita”.

“Depois da segunda residência em Praga, no Outono de 2010, decidi preparar, finalmente, o meu primeiro romance, porque já era tempo e estava na altura de concorrer ao prémio Agustina Bessa-Luis”.

E revela mais: “ Entre as quatrocentas páginas do manuscrito inicial, concentrei-me no final da infância dos personagens e, a partir daí, desliguei-me da história biográfica e tentei dar-lhes a autonomia, que eu considerava essencial, para construir uma série de momentos de tensão narrativa e de algum fulgor poético”.

“Nessa altura - diz - já tinha lido mais de dez livros da Agustina e de Lobo Antunes, já tinha estudado a obra da Maria Gabriela Llansol e analisado quase todos os livros do Gonçalo M. Tavares”.

E fala ainda doutras influências: “ Para além de muitos outros textos de referência da literatura portuguesa, os romances curtos de Peter Handke, Ian McEwan, Samuel Beckett, Virgínia Woolf, Clarisse Lispector, Flannery O’Connor e o teatro de Jean-Paul Sartre, Heiner Müller e George Büchner, também ajudaram a tecer as linhas mestras desta narrativa”.

“Desde o princípio que tentei manter uma atmosfera densa mas de leitura fluída e apostar numa riqueza formal, com um trabalho sobre a própria linguagem, sem perder a noção de economia narrativa. Porque em tempos de austeridade – conclui em tom pragmático - é necessário poupar nas palavras, mas sem abandonar o tom que seduz o leitor e mantém o texto à distância da simples ilustração quotidiana.”

No plano profissional, Tiago Patricio trabalhou como farmacêutico Adjunto na Farmácia de Vila do Bispo (Algarve) durante o ano de 2008 e, a partir de 2009 passou a trabalhar apenas a tempo parcial, até 2010, no Hospital Prisional de Caxias (Lisboa) e, actualmente, na Farmácia de Laveiras (Oeiras).

É orientador de um curso de poesia, no Hospital Psiquiátrico do Telhal, desde Maio de 2010 e realiza, ainda, uma residência artística no Estabelecimento Prisional do Linhó, no âmbito dos projectos EVA (Exclusão – Valor Acrescentado).

Trabalha como dramaturgo com várias companhias de teatro, Teatromosca (Sintra), Estaca Zero e Ponto Teatro (Porto), para as quais escreveu diversas peças (“Paula Rego”, “Hellen Keller”, “Snipers”, “Lugares”)

Em Setembro de 2011, a sua peça “Checoslováquia” foi apresentada no Teatro Nacional D. Maria II, numa leitura encenada, após a atribuição da Menção Honrosa no prémio de dramaturgia Luso-Brasileiro, António José da Silva.

Versátil, escreve, ainda, canções para a cantora japonesa Hana Koguré e o projecto “Palavras ao Vento” esteve em digressão por algumas cidades do país. Neste momento está a realizar um projecto de residência artística, no Estabelecimento Prisional do Linhó, patrocinado pelo Clube Português de Artes e Ideias e pela Direcção Geral dos Serviços Prisionais.

Tiago Patrício é um autor multifacetado que não se conforma com rotinas. Presentemente, está ainda a preparar um mestrado em Teoria da Literatura. na Faculdade de Letras de Lisboa.

O Júri do Prémio Revelação Agustina-Bessa Luís, integrou, além de Vasco Graça Moura, que presidiu, Guilherme D`Oliveira Martins, em representação do CNC – Centro Nacional de Cultura; José Manuel Mendes, pela Associação Portuguesa de Escritores; Maria Carlos Gil Loureiro, pela Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas; Manuel Frias Martins, pela Associação Portuguesa dos Críticos Literários; e, ainda, Maria Alzira Seixo e Liberto Cruz, convidados a título individual e Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu, em representação da Estoril Sol.

De acordo com o Regulamento só poderiam concorrer a este Prémio Revelação autores portugueses até aos 35 anos, com um romance inédito e ”sem qualquer obra publicada no género”. O valor do Prémio são 25 mil euros. A iniciativa conta, desde o primeiro momento, com o apoio da Gradiva, que assegura a edição da obra vencedora, através de um Protocolo com a Estoril Sol.