Há vinte e dois
anos, quando publiquei O Labirinto da Saudade, Portugal acabava de
perder o seu velho império. E com ele — pensava eu — uma certa maneira de
imaginar o seu passado através de uma mitologia responsável pelo fim da nossa
história de nação colonizadora. Parecia, então, que o aparente fracasso da
nossa mitologia imperial oferecia uma boa ocasião para «repensar Portugal»,
para pôr a nu as raízes de um comportamento colectivo que nos levara, não
àquele fim de império, que era ine-vitável, mas a uma guerra absurda,
politicamente anacrónica e eticamente contrária à mitologia mesma do nosso
colonialismo «exemplar», com o seu famoso humanismo cristão a servir-lhe de
referência e de caução.
Não fui a única
pessoa, em Portugal, que pensou, então, que era urgente reformular o nosso
discurso histórico e cultural. O
grande ensaísta e jesuíta Manuel Antunes pensou o mesmo. Creio que ambos nos
enganámos e eu, pelo radicalismo do exame de consciência que propunha, mais do
que ele.
Passado um
momento, brevíssimo, em que pareceu possível discutir, meditar, interrogar, a
nossa mitologia cultural, miticamente épica, parada na idade de ouro a que
Vasco da Gama e Camões conferiram os seus títulos de nobreza, caímos na mesma
tentação onírica e irrealista que se denunciava no Labirinto. E agora por conta de uma grandeza e de
um império que não existem. Em si, a revolução de Abril não é
responsável por este regresso recalcado. O futuro-outro que ela prometera, à
parte (e não é pouco...) o triunfo e
consolidação, na metrópole, da democracia de tipo europeu que não conhecêramos
durante meio século, não se cumpriu. Pelo menos não instituiu ou contribuiu
para instituir uma nova cultura democrática desvinculada da antiga cultura
arcaico-imperialista. Sem dúvida porque é impossível. Seria absurdo que nos
desfizéssemos, por milagre, de um passado, de uma memória, de uma identidade
que se forjou ou se exaltou precisamente com os Descobrimentos e de que a
aventura colonial foi a consequência. Mas, não sendo possível nem desejável
fazer tábua rasa do passado, mesmo na particular visão acrítica que sustentara
o regime de Salazar, era natural que esse passado fosse revisitado,
reexaminado, situado e lido na perspectiva de uma consciência mais exigente e
crítica, realista, que devia ter sido o natural complemento de uma revolução
libertadora.
Na aparência, o
país que há vinte e dois anos podia justificar um livro como O Labirinto já
não existe. Nestas duas décadas não mudámos apenas de estatuto
histórico-político, de civilização e de ritos sociais que julgávamos,
lamentando-o, característicos de uma sociedade quase marginal em relação aos
padrões europeus. Mudámos, literalmente falando, e sem quase nos darmos conta
disso, de mundo. Mudámos porque o mundo conheceu uma metamorfose sem precedentes,
não apenas exterior, mas de fundo. Já não habitamos o mesmo planeta, e não
apenas porque nos fins da década de 80 caiu o muro de Berlim e com ele findou o
conflito entre duas concepções da economia, da história e da sociedade que
julgávamos destinadas a um futuro sem fim à vista. Deixámos de ser, como
durante séculos, uma pluralidade de nações ou povos, potencialmente ou
imaginariamente senhores dos seus destinos, embora a ilusão de o ser seja mais
forte do que o desmentido permanente
que a força das coisas lhes inflige. Sem surpresa, esta avassaladora dissolução
das entidades clássicas a que chamávamos nações compensa-se com a reivindicação
de microidentidades virulentas ou superidentidades simbólicas de que o País
Basco, a Irlanda, a Flandres, os novos Estados balcânicos, a Catalunha, a
Lombardia, são exemplos. E ninguém
sabe se são apenas vestígios de arcaísmo tribal de nova espécie, se anúncio de
um mundo ao mesmo tempo globalizante e intimamente fragmentado.
Que nos aconteceu
a nós? Em Portugal como destino, que é a possível revisitação do Labirinto,
tentei responder à questão. Nos seus já longos oito séculos de existência
— fórmula, no fundo, obscura, pois não tem em conta a permanente
reciclagem de si mesma que é a vida de qualquer povo — Portugal nunca
sofreu metamorfose comparável à dos últimos vinte anos. Não foi apenas uma
mudança exterior, uma dilatação comparável à do tempo em que se tornou país das
Descobertas, mas uma alteração ontológica, se isto se aplica a um povo.
Estamos tão dentro dela que a não podemos pensar. Que mais não fosse, caracte-riza-a
o facto de tal metamorfose não ser obra sua, ou eminentemente sua, como o foi
noutras épocas. Trata-se de um fenómeno mais vasto, o fim da civilização europeia
sob paradigma cristão e iluminista, se é lícito associar estas duas matrizes da
milenária e agora defunta Europa.
Não há jubileu,
alheio ou nosso, que possa mascarar, não o mero fim de um conflito que marcou o
nosso século, mas o esgo-tamento, não apenas na cabeça e na
sensibilidade de uma elite como no século xix,
mas no coração e na inteligência do cidadão comum, de uma cultura com dois mil
anos de passado. Em pouco mais de vinte anos, o Ocidente, mas sobretudo a
Europa, entrou, com mais facilidade do que os Judeus no mar Vermelho, na idade
pós-cristã.
Muitos irão achar
o diagnóstico alucinatório, sobretudo os que mais contribuem para lhe dar vida.
O futuro o dirá. Alguns lembrar-me-ão que o folclore cristão continua intacto,
como se o do paganismo alguma vez tivesse soçobrado. Outros pensarão, como já
no fim do século xix julgava Eça
de Queirós, que uma religiosidade vagamente ecuménica, vagamente budista,
substitui e refina a clássica mitologia cristã. Poucos defenderão, como
Kierkegaard, que a derrocada do cristianismo e da cultura que ele animava é
apenas fictícia, pois esse cristianismo nunca foi mais, salvo para raros, do
que a máscara de um paganismo eterno e inexpugnável.
Sem se
problematizar tanto, como é sua tradição, o nosso Portugal — podíamos
dizer a nossa Espanha, a nossa Itália, sem falar da Europa há muito
protestante — saiu do seu cristianismo, que entre nós era e foi sempre
catolicismo, como se nunca lá tivesse entrado. Saiu por dentro, não por fora.
Talvez o país nunca tenha sido tão sociologicamente, tão consensualmente,
«católico». Já ninguém discute esse tipo de catolicismo, como se viu por
ocasião da consagração dos três pastorinhos. Pedimos até, ostensivamente,
perdão de termos sido os maus cristãos que fomos a quem não nos pediu contas de
termos sido, através de continentes, os «exemplares» portadores do Evangelho.
Embarcámos, cantando e rindo, na Nave qui va... de Fellini,
contemporâneos do Satyricon, como ontem o éramos dos «autos de fé»,
donde recebíamos o estímulo vital da ortodoxia. Tudo na mais perfeita felicidade
televisiva, convertidos nos big brothers uns dos outros, afinal castiça
vocação nossa de familiares do Santo Ofício por conta do Senhor do amor
universal.
Onde estamos,
afinal? Simbolicamente, não num sítio muito diverso do que era o nosso há vinte
anos, mas desta vez e para sempre
não sós. Como todo o Ocidente, tornámo-nos
«todo o mundo e ninguém». A nossa visceral «hiperidentidade» nada tem de
irónica, tal como era descrita no Labirinto. Somos, enfim, quem sempre
quisemos ser. E todavia, não estando já
na África, nem na Europa, onde nunca seremos o que sonhá-mos, emigrámos
todos, colectivamente, para Timor. É lá que brilha, segundo a eterna ideologia
nacional veiculada noite e dia pela
nossa televisão, o último raio do império que durante séculos nos deu a ilusão
de estarmos no centro do mundo. E, se calhar, é verdade.
Vence, 23 de Outubro de 2000
Breve esclarecimento
[...] também esse (Antero) consultou Charcot. De
nada lhe valeu, diga-se de passagem, pois a sua doença continua ainda hoje a
ser para nós um mistério.
Armando da Silva Carvalho,
Portuguex
No país vizinho
existe há muito uma reflexão tão generalizada e tão obsessiva em torno da
temática do «ser espanhol», e do perfil do destino hispânico, que uma ensaísta
pôde organizar uma nutrida antologia subordinada ao título de Preocupación por Espana. À primeira vista,
os diversos ensaios e artigos deste livro parecem relevar dessa mesma temática,
transferida para Portugal. Tal não foi, nem é, o pensamento que articula as
nossas considerações. Essa famosa «preocupação com Espanha» de ressaibo
unamuniano e muito século xix,
como diria Ortega, tem qualquer coisa de suspeito pelo egotismo e o clima de
ressentimento de que procede. Por outro lado, a Espanha tem problemas de autodefinição
nacional, dada a célebre invertebralidade diagnosticada por Ortega. O nosso
caso é outro: tivemos sempre uma vértebra supranumerária, vivemos sempre acima
das nossas posses, mas sem problemas de identidade nacional propriamente ditos.
A nossa questão é a da nossa imagem enquanto produto e reflexo da nossa
existência e projecto históricos ao longo dos séculos e em particular na época
moderna em que essa existência foi submetida a duras e temíveis privações.
O assunto
próprio do nosso livro é pois menos o da «preocupação por Portugal»,
preocupação que está inclusa por definição em todas as tentativas de autognose,
embora sem o relento narcisista de saber ou sofrer à Unamuno pelo «lugar» que
ocupamos no mundo, que o de uma imagologia,
quer dizer, um discurso crítico sobre as imagens que de nós mesmos
temos forjado. Essas «imagens» são de duas espécies: uma diz respeito àquilo
que, por analogia com o que se passa com os indivíduos, se poderia chamar
«esquema corporal», imagem condicionante do agir colectivo cuja leitura só à
rebours pode ser feita, pois são os actos decisivos dessa colectividade que
permitem induzi--la; a outra é de segundo grau e constituem-na as múltiplas
perspectivas, inumeráveis retratos que consciente ou inconscientemente
todos aqueles que por natureza são vocacionados para a autognose colectiva
(artistas, historiadores, romancistas, poetas) vão criando e impondo na
consciência comum. Por gosto, por vocação, mas também por decisão intelectual
fundamentada, este nosso primeiro esboço de imagologia portuguesa é
quase exclusivamente centrado sobre imagens de origem literária e em
particular para a época moderna, naquelas que por uma razão ou por outra
alcançaram uma espécie de estatuto mítico, pela voga, autoridade e irradiação
que tiveram ou continuam a ter.
Embora o meu
interesse pela imagem de
Portugal — e se se quiser, em particular, a «preocupação» pelo estatuto
cultural que nos é próprio — tenham estado sempre presentes ao longo da
minha reflexão avulsa, desde o primeiro volume de Heterodoxia, a decisão
de exumar uma boa parte das considerações deste novo livro prende-se, por um
lado, à mudança histórica dos últimos quatro anos, como é óbvio, por outro, à
circunstância aleatória da leitura recente de livros de índole diversa, mas
todos exprimindo uma vontade de renovação da imagerie habitual da
realidade portuguesa. Citarei ao acaso e sem hierarquia de assunto ou valor os
livros de José Cutileiro, Ricos e Pobres no Alentejo, Casas Pardas, de
Maria Velho da Costa, Portuguex, de Armando da Silva Carvalho, este
último centrado com uma acuidade e uma originalidade manifestas, como o ainda
inédito e próximo romance de Almeida Faria, na subversão a todos os níveis da
mitologia cultural lusíada e na tentativa de reformulação em termos
simbólicos, os únicos próprios da escrita romanesca, de uma imagem interna da
aventura nacional e, para lá, ou a par dela, da descoberta de uma nova e sempre
possível passagem do Nordeste capaz de unir os incomunicáveis continentes que
tempo, opressão e destino criaram no interior do nosso tão ingénuo e fabuloso
diálogo mudo de nós connosco mesmos. É com esta irresistível vontade de
redescoberta, ou mesmo de pulverização das imagens sobre que tão
preguiçosamente temos fundado as nossas apostas ou encolher de ombros
— sem esquecer as mais incisivas do nosso jovem cinema —, que me
sinto sintonizado, enquanto herdeiro e caminhante paralelo de outras tentativas,
acaso menos radicais, mas significativas da vontade de repensar a sério e a
fundo uma realidade tão difícil de aprender como a portuguesa1. Que outra oferece ao mais desprevenido exame
esta dupla e, na aparência, insolúvel particularidade: a de nos parecer a todos
ao mesmo tempo tão simples, tão desarmante e aproblemática, a pontos de
corresponder à ideia idílica da vida e da sociedade portuguesa, tantas vezes
ilustrada por nacionais e estrangeiros; e tão labiríntica e complexa apesar ou
por causa dessa rasura impossível, mas tão bem sucedida, de uma ausência de
tragédia, ressentida a cada geração como a mais refinada e incomunicável das
tragédias?
Embora pensado
e escrito fora de Portugal este livro não vem do que é moda designar como
diáspora e muito menos de qualquer lugar ou situação que o autor ressinta como
exílio. Da diáspora não procede porque nunca houve nem há diáspora alguma que
toque os Portugueses. Nenhum Tito incendiou jamais o Templo-Portugal
obrigando-nos à força a dispersar-nos pelos quatro cantos do universo. A nossa
dispersão ao longo dos séculos e em particular o êxodo contemporâneo são de
nossa exclusiva responsabilidade, determinados pela pressão secular de uma
indigência pátria a compensar, ou por uma vontade bandeirante de aceder à custa
de outros a melhor vida. Tudo o resto é fábula. A única diáspora da nossa
história foi aquela que por pressão da catolicíssima Espanha impusemos em
tempos aos nossos judeus, diáspora atroz e relativamente benigna para que
séculos mais tarde os herdeiros das vítimas se orgulhem diante de Voltaire da
sua antiga condição de portugueses. Diáspora miraculosa também; pois deu ao
mundo Beneditus Espinosa...
Também este
livro não é de exílio nem de exilado que a nenhum título o seu autor foi nunca.
Digamos que é o discurso de um ausente por motivos que só a ele dizem respeito,
mas que nada têm a ver com as exalações de exilados imaginários de uma pátria
não menos imaginariamente ingrata. Os autênticos exilados, em Portugal, à parte
o momento da reacção miguelista, foram sempre poucos, exceptuando aqueles
combatentes da sombra que por natureza se destinavam a sê-lo, sem pensar mais
tarde em dependurar o duro exílio aceito na lapela da alma. Exílio verdadeiro,
o autor destas reflexões só o conheceu no interior do seu país, como muitos outros seus
camaradas e contemporâneos, e dessa experiência procede sem dúvida a raiz
última do interesse obsessivo para ver claro na realidade do povo a que
pertence e para compreender a estrutura desse silêncio que periódica, se não em
permanência, coage do interior o diálogo sempre precário da cultura portuguesa
consigo mesma. Felizmente que os ventos mudaram, e que a muralha visível desse
silêncio orgânico ruiu, embora as pedras mortas dessa resistente Jericó tenham
encontrado já cabouqueiros ávidos de as reutilizar na construção de um outro ou
similar silêncio.
Pela força das
coisas, todos os textos deste livro foram escritos e pensados fora de Portugal,
se é que este «fora» tem algum sentido pertinente em relação ao objecto que
nele se aborda. Talvez por isso, e uma vez mais, as boas almas baptizem estas
considerações com o labéu de estrangeiradas.
Não é apodo que as humilhe, mas não o creio exacto. Se o for, será sobretudo
pelo excesso de fixação numa temática que subentende tudo quanto escrevi, mas
que a ausência porventura terá reforçado. De qualquer modo, não escrevi estes
ensaios para recuperar um país que nunca perdi, mas para o «pensar», com a
mesma paixão e sangue-frio intelectual com que o pensava quanto tive a felicidade
melancólica de viver nele como prisioneirro de alma. Menos os escrevi ainda
para me justificar de um amor pátrio que não pertence ao género dos que se
cantam ou descantam pedindo recompensa. Uma Pátria não deve nada a ninguém em
particular. Ela deve tudo a todos. Nem a Camões, Portugal, que ele encadernou
para a eternidade, devia alguma coisa. Devia--lho o rei a quem mecenaticamente
fez apelo e lhe pagou como entendeu e os tempos consentiam. Do que Portugal não
lhe devia e o seu amor por ela exigia, só ele mesmo se podia pagar pelas suas
próprias mãos, confundindo num só canto a errância pátria e a sua mortal
peregrinação. Que mais alta recompensa?
Vence, 25 de Abril de 1978.
Psicanálise mítica
do destino português
As nações, com a responsabilidade histórica da
gente portuguesa, não podem imobilizar-se extati-camente, nem devem iludir-se
infantilmente; têm que desentranhar sucessivamente da massa das suas tradições
e aspirações um ideal coerente com a conjuntura histórica, que exprima e defina
o seu estar mudável em concordância com o seu ser permanente.
Joaquim de Carvalho, Compleição
do Patriotismo Português (1953)
Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça esta vida
Que não há nela mais que o que parece.
Camões
Se a História, no
sentido restrito de «conhecimento do historiável», é o horizonte próprio onde
melhor se apercebe o que é ou não é a realidade nacional, a mais sumária
autópsia da nossa historiografia revela o irrealismo prodigioso da
imagem que os Portugueses se fazem de si mesmos. Não nos referimos às simples
deformações de carácter subjectivo ou de natureza ideológica, não só por serem
inevitáveis, como por não arrastar com elas uma fatal transfiguração no sentido
desse irrealismo. O que visamos é mais largo e profundo, pois afecta na raiz a
possibilidade mesma de nos compreendermos enquanto realidade histórica. Em
lugar da autognose de uma realidade movente mas perfeitamente definida à qual
nos referimos com o nome «Portugal», nós historiamos um ser perdido de antemão
e que milagre algum de dialéctica poderá reencontrar ao fim de uma análise que
começou sem ele. As «Histórias de Portugal», todas, se exceptuarmos o limitado
mas radical e grandioso trabalho de Herculano, são modelos de «robinsonadas»:
contam as aventuras celestes de um herói isolado num universo
previamente deserto. Tudo se passa como se não tivéssemos interlocutor. (E esta
famosa forma mentis reflecte-se na nossa criação literária, toda
encharcada de monólogos, o que explica, ao mesmo tempo, a nossa antiga
carência de fundo em matéria teatral e romanesca.) Esta
situação não pode ser objecto de uma simples referência de passagem. Reflecte a
estrutura de um comportamento nacional que a obra dos historiadores apenas
generaliza e amplia. O que é necessário é uma autêntica psicanálise do nosso
comportamento global, um exame sem complacências que nos devolva ao nosso ser
profundo ou para ele nos encaminhe ao arrancar-nos as máscaras que nós
confundimos com o rosto verdadeiro.
Na verdade nada
falta no cenário para que o símile da cura psicanalítica se justifique. O nosso
surgimento como Estado foi do tipo traumático e desse traumatismo nunca
na verdade nos levantámos até à plena assumpção da maturidade histórica prometida
pelos céus e pelos séculos a esse rebento incrivelmente frágil para ter podido
aparecer e misteriosamente forte para ousar subsistir. (Talvez não seja por
acaso que os mitos historiográficos ligados ao nascimento de Portugal tenham um
perfil tão freudiano com sacrilégios maternos e palavra quebrada, Teresa e
Egas Moniz...) A mistura fascinante de fanfarronice e humildade, de
imprevidência moura e confiança sebastianista, de «inconsciência alegre» e
negro presságio, que constitui o fundo do carácter português, está ligada a
esse acto sem história que é para tudo quanto nasce o tempo do seu
nascimento. Através de mitologias diversas, de historiadores ou poetas, esse
acto sempre apareceu, e com razão, como da ordem do injustificável, do incrível,
do milagroso, ou, num resumo de tudo isso, do providencial. É
de uma lucidez e de uma sabedoria mais fundas que a de todas as explicações
positivistas esse sentimento que o português teve sempre de se crer garantido
no seu ser nacional mais do que por simples habilidade e astúcia humana, por um
poder outro, mais alto, qualquer coisa como a mão de Deus. Esta leitura
popular do nosso destino colectivo exprime bem a relação histórica efectiva que
mantemos connosco mesmos enquanto entidade nacional. Nela se reflecte a
consciência de uma congenital fraqueza e a convicção mágica de uma protecção
absoluta que subtrai essa fragilidade às oscilações lamentáveis de todo o
projecto humano sem a flecha da esperança a orientá-lo. Esta conjunção de um
complexo de inferioridade e superioridade nunca foi despoletada como conviria
ao longo da nossa vida histórica e, por isso, misteriosamente nos corrói como
raiz que é da relação irrealista que mantemos connosco mesmos. Segundo
as contingências da situação internacional ou mundial, aparece ao de cima um
ou outro complexo, mas com mais constância os dois ao mesmo tempo, imagem
inversa um do outro.
É por de mais
claro que ambos cumprem uma única função: a de esconder de nós mesmos a
nossa autêntica situação de ser histórico em estado de intrínseca fragilidade. Não
fomos, nós somos uma pequena nação que desde a hora do nascimento se recusou a
sê-lo sem jamais se poder convencer que se transformara em grande nação.
Contudo, se exceptuarmos talvez a Macedónia e Roma, poucas vezes um povo
partindo de tão pouco alcançou (embora sob uma forma desorbitada fautora de
nova consciência de impotência mascarada de poderio) um direito tão claro a ser
tido por «grande». Acontece, todavia, que mesmo na hora solar da nossa
afirmação histórica, essa grandeza era, concretamente, uma ficção. Nós
éramos grandes, dessa grandeza que os outros percebem de fora e por isso
integra ou representa a mais vasta consciência da aventura humana, mas éramos
grandes longe, fora de nós, no Oriente de sonho ou num Ocidente
impensado ainda. A Europa via-nos mais (como dignos de ser vistos) do que nos
veria depois, mas via-nos menos do que se via a si mesma entretida nas
celebrações sumptuosas ou fúnebres de querelas de família com que liquidava o
feudalismo e gerava o mundo moderno (capitalismo, protestantismo, ciência). À
hora exacta da nossa glória excessiva, o espanhol, enfim unido, começava a
levantar a sua sombra imensa, ao mesmo tempo sobre a nossa aventura e a imagem
dela no tempo europeu, até assumir em nosso nome tanto uma como outra. Colombo
colhendo num lance de dados sem
igual os louros próximos do Gama. Os Lusíadas recebem uma luz espectral e fulgurante quando
lidos no contexto de uma grandeza que subterraneamente se sabe uma ficção ou,
se se prefere, de uma ficção que se sabe desmedida mas precisa de ser clamada à
face do mundo menos para que a oiçam do que para acreditar em si mesma.
Da nossa
intrínseca e gloriosa ficção Os Lusíadas são a ficção. Da nossa
sonâmbula e trágica grandeza de um dia de cinquenta anos, ferida e corroída
pela morte próxima, o poema é o eco sumptuoso e triste. Já se viu um poema
«épico» assim tão triste, tão heroicamente triste ou tristemente heróico, simultaneamente
sinfonia e requiem? O livro singular é o lençol de púrpura dos nossos
deuses (heróis) mortos. Mas à hora nona, o nosso cadáver era já daqueles que
Nietzsche diria prometido a todas as ressurreições. O primeiro traumatismo fora
superado por três séculos de pé no redemoinho peninsular e século e meio de
equilíbrio sobre «o mar português». Antes da noite o poema recolhe a nossa
primeira e eterna figura que acaso, sem ele, houvesse perdido a chave e
a vontade da sua ressurreição.
Sessenta anos em
contacto directo (e, na economia invisível da história, porventura frutuoso)
com o interlocutor imediato de um viver que foi e é sempre múltiplo diálogo
mas que nós teimamos em contemplar como solilóquio, permitiram,
enfim, que nos descobríssemos às avessas, que sentíssemos na carne que éramos
(também) um povo naturalmente destinado à subalternidade. Esta
experiência constitui um segundo traumatismo, de consequências mais
trágicas que o primeiro. E disto, os nossos historiadores não cuidaram. Só
Oliveira Martins, de quem se diz tão mal, mas a quem ninguém substituiu (o que
se chama substituir), pois fora da sua não há História de Portugal como
remeditação global do destino e devir colectivos, mas meras mantas de
retalhos falsamente unidas por falsos fios de opostas ideologias, anteviu
qualquer coisa nesse sentido. Os sessenta anos que, absurdamente, perpetuando o
velho jogo de avestruz que jogamos com a nossa alma, nós arredámos da
consideração séria da história, não são esse vácuo que os falsos patriotas gostavam
que tivesse sido, mas também não são a mera continuação do nosso devir
nacional. Historiograficamente, esta hipótese tem a seu favor o simples bom
senso e a realidade documental de um viver sem descontinuidade, bem pouco
«resistente» até, como uma idealística visão do nosso passado se apraz em
imaginar. O problema da independência nacional não tinha então o perfil
que a historiografia romântica e nacionalista lhe atribuirá. Hoje, todos os
escritores que nós celebramos dentro desses sessenta anos «filipinos» seriam,
pura e simplesmente, colaboracionistas. A verdade é que não há na sua
actividade literária sombra de má consciência. A vinculação política fazia--se
em relação ao Estado (a Coroa) que tinha o seu domínio próprio, hierárquico e
administrativo, mas não cultural; a vinculação orgânica fazia-se em relação à
pátria que não é ainda nação, mas terra comum, gente comum que a vicissitude
política não altera. Faria e Sousa celebra em castelhano as glórias lusitanas,
sem ver nisso contradição alguma, e, o que é mais importante, sem que os
espanhóis com elas se apoquentem. Na classe dirigente há uma oscilação de fundo
entre o vínculo natal e os deveres de «Estado», cujo estatuto político lhes
parece normal. É nas camadas populares, ou nos que estão mais próximos delas,
que o vínculo imediato ao ser racional resiste, mesmo inconscientemente, à
coexistência superficialmente pacífica de espanhóis e portugueses. Elas que têm
o largo hábito do desamparo curtem segunda experiência de desamparados de rei
próximo e aos poucos forjam uma relação diferente com a totalidade do ser
racional. Nesses sessenta anos o nosso ser profundo mudou de sinal. Como
portugueses esperámos do milagre, no sentido mais realista da palavra,
aquilo que, razoavelmente, não podia ser obtido por força humana. A morte do
Padre Malagrida, um Vieira sem génio nem sorte, pôs termo (ou interrompeu) esse
ciclo de sebastianismo activo que representou, ao mesmo tempo, o máximo de
existência irrealista que nos foi dado viver; e o máximo de coincidência
com o nosso ser profundo, pois esse sebastianismo representa a consciência
delirada de uma fraqueza nacional, de uma carência, e essa carência é real.
Das duas
componentes originais da nossa existência histórica — desafio triunfante e
dificuldade de assumir tranquilamente esse triunfo — aprofundámos então,
sobretudo, a nossa «dificuldade de ser», como diria Fontenelle, a histórica
dificuldade de subsistir com plenitude política. Tornou-se então claro que a
consciência nacional (nos que a podiam ter), a nossa razão de ser, a raiz de
toda a esperança, era o termos sido. E dessa ex-vida são Os Lusíadas a
prova do fogo. O viver nacional que fora quase sempre viver sobressaltado,
inquieto, mas confiado e confiante na sua estrela, fiando a sua teia da força
do presente, orienta-se nessa época para um futuro de antemão utópico pela
mediação primordial, obsessiva, do passado. Descontentes com o presente,
mortos como existência nacional imediata, nós começámos a sonhar
simultaneamente o futuro e o passado. Nunca se meditou a sério em actos tão
significativos como os da invenção de falsos documentos pelos monges de
Alcobaça para provar a nossa existência legal no passado, assim como, já
depois da ressurreição, no labor incrível dos nossos juristas para justificar o
nosso direito a um lugar ao sol entre os povos livres. Nós vivemos então um
drama digno do Henrique IV de Pirandello. É difícil conceber que a
confusão entre o real e o sonho possa ir mais longe do que o foi na cabeça do
António Vieira das alegações diante do Santo Ofício, mistura única de lucidez
delirante e delírio divino. Nele se operou como em ninguém mais a conversão da
nossa longa ansiedade pelo destino pátrio em exaltada aleluia, a transfiguração
do simples «cantar de amigo» com que nos embalámos no alvorecer inquieto, em
cantata sublime ao Quinto Império.
Assim liquidámos,
no imaginário e em termos magníficos, o segundo traumatismo, numa barroca
inversão que vale bem outras futuras, postas na conta larga e humanística de
nossa-senhora-da-dialéctica. De cativos, a senhores de sonho do mundo, de
humilhados e ofendidos da história, a eleitos, servidos pelos outros, paranóica
mas generosa visão, paralela à que o mesmo Vieira prometia no céu aos escravos
sem redenção terrestre dos engenhos e fazendas do Brasil, é que Pombal pensou
libertar-nos por um europeísmo à Pedro da Rússia, que não convenceu os nossos
boiardos locais, analfabetos, glutões e preguiçosos, como William Beckford os
virá encontrar. Cada período de forçado dinamismo tem sido seguido sempre do
que, em linguagem freudiana, se chamaria o regresso do recalcado. Os começos do
século xix, momento em que o raio
da história nos caiu em casa, na sossegada e sonambúlica casa portuguesa, farão
desse processo uma estrutura que se manifesta sem falhas há cento e oitenta
anos. Em nenhum tempo do seu percurso a existência nacional foi vivida em
termos tão esquizofrénicos como no século xix.
No centro desse percurso está simbolicamente o «ninguém» do Frei Luís de
Sousa e, na dramática e quotidiana realidade, um país pela primeira vez
posto na balança da Europa que era ao mesmo tempo a dos seus interesses e das
suas ideologias, tapete de guerra civil ou monarquia a salvar com invasão de
estrangeiros. Aberto com a fuga da família real para o Brasil, o século liberal
termina com a liquidação física, se não moral, de uma monarquia a quem se fazia
pagar, sobretudo, uma fragilidade nacional que era obra da nação inteira.
O século xix foi o século
em que pela primeira vez os portugueses (alguns) puseram em causa, sob todos
os planos, a sua imagem de povo com vocação autónoma, tanto no ponto de vista
político como cultural. Que tivéssemos merecido ser um povo, e povo com
lugar no tablado universal, não se discutia. Interrogávamo-nos apenas pela boca
de Antero e de parte da sua geração, para saber se éramos ainda viáveis, dada
a, para eles, ofuscante decadência. Curiosamente, o exame de consciência
parricida intentado ao «ser nacional» tinha lugar na altura mesma em que
Portugal se religava, com algum êxito, a essa Europa, exemplo de
civilização, cuja comparação connosco nos mergulhava em transes de
melancolia cívica e cultural, tais como a obra de Eça os exemplificará para o
nosso sempre. Nem Herculano nem Garrett haviam sentido assim a «decadência» que
também não lhes fora estranha. Entre a juventude de ambos e a da geração de
Antero há a revolução industrial e a não menos prodigiosa revolução cultural do
século xix de que receberemos reflexos ou restos não desprezíveis (o
criticismo patriótico da Geração de 70 faz parte deles) e com eles a
consciência, por assim dizer física, do que nos separava da maiusculada
e então orgiástica civilização. Começou então a doer-nos, não o estado de
Portugal, as suas desgraças ou catástrofes políticas, mas a existência
portuguesa, pressentida, descrita, glosada, como existência diminuída,
arremedo grosseiro da existência civilizada, dinâmica, objecto de sarcasmos e
ironias, filhos do amor desiludido que se lhe votava. Para fugir a essa imagem
reles de si mesmo («choldra», «piolheira») Portugal descobre a África,
cobre a sua nudez caseira com uma nova pele, que não será apenas imperial, mas
imperialista, em pleno auge dos imperialismos de outro gabarito. A tentativa de
recriar uma alma «à século xvi»
não foi longe: um excesso de lógica nas suas ambições, legítimas mas incómodas,
ministraria ao mundo europeu a prova absoluta da nossa absoluta subalternidade.
O Ultimatum não foi apenas uma peripécia particularmente escandalosa das
contradições do imperialismo europeu, foi o traumatismo-resumo de um
século de existência nacional traumatizada.
Podia imaginar-se
que confrontados com tão dura lição, viéssemos a reconsiderar um estado de
abatimento e um comportamento de fuga complementar dele. Passado o momento da
aflição patriótica, percorrido até ao absurdo o labirinto sem saída da nossa
impotência, voltámos à costumada e agora voluntária e irrealística pose de nos
considerarmos, por provincianice incurável ou despeito infantil, uma espécie de
nação idílica sem igual. O fim do século xix,
por reacção ao criticismo devastador e impotente da década de 70, mas também
como resposta à agressão do monstro civilizado (Inglaterra), verá eclodir a
mais nefasta flor do amor pátrio, a do misticismo nacionalista, fuga estelar a
um encontro com a nossa autêntica realidade, mas, ao mesmo tempo, expressão
profunda sob a sua forma invertida de uma carência absoluta que é necessário
compensar desse modo. O
saudosismo será, mais tarde, a tradução poético-ideológica desse nacionalismo
místico, tradução genial que representa a mais profunda e sublime
metamorfose da nossa realidade vivida e concebida como irreal. Mas nesse
final de século a própria ideologia republicana se alimentou do
ultranacionalismo da impotência gerado pelo Ultimatum. A república, conjunto
de proposições políticas de subversivo teor ideológico mas de reduzido âmbito
social, aparece então como a forma de apropriação de um destino colectivo
confiscado, como então se escrevia, pela casa de Bragança, a monarquia
liberal onde se enxertara bem a pouco dinâmica burguesia nacional (e
internacional). Poucos períodos da nossa história foram tão «patrióticos» como
aquele que a República inaugurou. O «patriotismo» fora a sua arma ideológica
antes do triunfo, seria a sua justificação permanente após 1910, como se pela
segunda vez (a primeira fora em 1820) os Portugueses tivessem uma Pátria, aquela
mesma que em música e palavras se definira na Portuguesa, como «heróis
do mar, nobre povo, nação valente». O famoso «idealismo» da República foi sobretudo
«patriotismo», este patriotismo como voluntária exaltação da entidade nacional
regenerada pela supressão dos seus maus pastores e restituída ao «povo», que
Guerra Junqueiro, à sombra do último Oliveira Martins, converteu em criança heróica,
penhor da ressurreição colectiva. Escusado será dizer que uma vez mais «este»
patriotismo mascarava, com muito mais intensidade, a consciência sempre viva de
uma «desvalia» nacional que o espectáculo político do parlamentarismo
demagógico só podia confirmar. A cobertura ideológica de «vanguarda» escondia
mal o mesmo país «cauda da Europa», escoando-se nas suas obras vivas para
Brasis, Argentinas e Áfricas e incapaz de remediar em casa males de fundo que
nenhum demagogismo liberal podia concertar.
E assim tocámos o
que o regime posterior chamaria «o fundo do abismo», para justificar os
processos com que, de intenção confessada, quis libertar-nos dele. Processos
drásticos, regresso maciço da antiga e indiscutível autoridade majestática do
Estado, mas sob a forma violenta do totalitarismo, pois sem ele não era
possível recusar em bloco a herança de cento e poucos anos de «tradição»
liberal. Era esse o preço a pagar para reajustar o País a si mesmo? Esse
foi o desígnio e a pretensão do Estado Novo, curiosa mistura, em seus começos,
de inegável sucesso, de arcaísmo e vanguardismo. O patriotismo jacobino
volve-se nacionalismo, forma de exaltação da realidade nacional, não ao
serviço do suspeito «povo» de tradição rousseanista, mas de a Nação como
totalidade orgânica, pessoa histórica, dotada de direitos e deveres enquanto
tal. A «modernidade» da reformulação é inegável, como inegável é a sua
sintonia com uma metamorfose do capitalismo ocidental que está então, após
1914, em vias de ultrapassar a sua fase ascendente e selvagem, em termos de
puro liberalismo, para aquela que a crise de 1929 tornará imperativa. O papel
impossível que, em países de capitalismo subalterno, como o nosso as grandes
empresas não podem assumir sós será assumido por «a Nação», quer dizer, o Estado
salazarista como elemento protector, e em parte dinâmico, da nossa incipiente
indústria. A resposta de Salazar, resposta ideológica e técnica a um
liberalismo incapaz de fazer funcionar o próprio sistema, continha elementos
próprios para lhe assegurar longa vida. Não era, não foi a resposta, mas
colocou o acento dela no campo onde devia e tinha de ser dada: o campo social.
Por mais escandalosa que a fórmula pareça, o corporativismo foi já uma
forma «socializante», mas de um socialismo envergonhado e contraditório, cuja
coerência histórica orgânica inegável funcionava para tornar viável o inviável
capitalismo caseiro. Concretamente, o salazarismo foi o preço forte que uma
nação agrária desfasada do sistema ocidental a que pertence teve de pagar para
ascender ao nível de nação em vias de industrialização. Desse processo, e como
coroamento dele, constituirá a emigração em massa dos nossos aldeões a
simbólica e dura expressão final. O nacionalismo orgânico do antigo regime
favoreceu a objectiva desnacionalização de milhares de portugueses. Em
compensação, teria contribuído para colmatar, melhor do que a ideologia
patriótica do liberalismo, o abismo persistente entre a nossa autêntica
realidade e a imagem hipertrofiada com que sempre temos vivido a nossa vida imaginária?
Houve no
salazarismo concreto (e na sua ideologia expressa nos «Discursos» do
universitário assaz racionalista que foi Salazar) uma tentativa para adaptar o
país à sua natural e evidente modéstia. Todavia a glosa do relativo sucesso
dessa tentativa é que não foi nada modesta e breve redundou na fabricação
sistemática e cara de uma lusitanidade exemplar, cobrindo o presente e o
passado escolhido em função da sua mitologia arcaica e reaccionária que aos
poucos substituiu a imagem mais ou menos adaptada ao país real dos começos do
Estado Novo por uma ficção ideológica, sociológica e cultural mais irrealista ainda
do que a proposta pela ideologia republicana, por ser ficção oficial, imagem
sem controlo nem contradição possível de um país sem problemas, oásis da paz,
exemplo das nações, arquétipo da solução ideal que conciliava o capital e o
trabalho, a ordem e a autoridade com um desenvolvimento harmonioso da sociedade.
Esse optimismo de encomenda teve nas famigeradas «notas do dia» o seu
evangelho radiofónico. Não vivíamos num país real, mas numa «Disneylandia»
qualquer, sem escândalos, nem suicídios, nem verdadeiros problemas. O sistema
chegou a uma tal perfeição na matéria que não parecia possível contrapor uma
outra imagem de nós mesmos àquela que o regime tão impune mas tão habilmente
propunha sem que essa imagem-curta (não apenas ideológica, mas cultural)
aparecesse como urna sacrílega contestação da verdade portuguesa por ele
restituída à sua essência e esplendor. Não se percebeu nada do espírito do
antigo regime e do seu êxito histórico quando não se vê até que ponto ele foi a
mais grandiosa e sistemática exploração do fervor nacionalista de um povo que
precisa dele como de pão para a boca em virtude da distância objectiva que
separa a sua mitologia da antiga
nação gloriosa da sua diminuída realidade presente. O Estado Novo voltou contra o sistema democrático um
patriotismo que não soubera traduzir nos factos nenhuma das promessas que o
haviam justificado nos finais do século xix.
Sob tão sólida peanha o Estado Novo, mesmo cada dia mais envelhecido, podia
durar indefinidamente. A mentira orgânica que a sua impossível consubstanciação
orgânica com «a Nação» — por mais formal
que realmente orgânica — representava junto da parte mais politizada
do povo português, poder-se-ia ter prolongado, menos pela sua própria
capacidade do que pelo vazio quase absoluto da ideologia liberal sobrevivente.
E, na verdade, em face desse obstáculo, balizado com o nome ainda mágico da
democracia, o antigo regime foi capaz durante mais de trinta anos de resistir
vitoriosamente. Essa resistência foi-lhe tanto mais fácil quanto era certo que
o ferro de lança da democracia, que na sombra, ou de quatro em quatro anos à
luz de um arremedo de dia eleitoral a defendia, era um partido que não
possuía desse ideal nem da prática democráticas tradicionais nenhuma lembrança
fervorosa ou projecto digno de crédito. Os fins dos anos 30, começos dos anos
40, veriam em Portugal uma mutação que por confinado ou claro destino
deslocou, como até então ideologia alguma o conseguira, o eixo sobre o qual
repousaram até aí todas as figuras da relação entre os Portugueses e
Portugal. Pela primeira vez o sentimento patriótico característico
da política moderna sob o signo português era desmascarado, na teoria e
na prática, e subordinado a uma concepção revolucionária da história que
transfere para a luta de classes o segredo do seu dinamismo, fiando da
sua abolição o ajustamento efectivo do indivíduo ao povo a que pertence
enquanto sociedade revolucionária pela supressão vitoriosa da classe dominante
que até então confundira como seus os interesses colectivos.
Ideologia da
fracção militante da classe operária, mas mais ainda ideologia dominante de uma
fracção cada vez mais vasta da pequena e média burguesia intelectual, o marxismo,
na sua aparência imediata, no seu vocabulário, nos seus mitos mais
actuantes, não deixava grande margem para uma identificação sentimental com o
nacionalismo sob nenhuma das suas formas. O triunfo «nacionalista» de Franco, o
lusitanismo agressivo dos ideólogos mais activos do regime de Salazar, souberam
utilizar com inegável habilidade o recurso à mitologia patriótico-clerical mais
estafada mas não de todo exausta, opondo ao «internacionalismo marxista» uma
resistência de todos os instantes. Mas, pouco a pouco, esse «internacionalismo
marxista», que era na prática militante cultural sobretudo um reflexo quase
automático de alinhamento ou exaltação das conquistas da revolução soviética
na sua versão mais apologética, nacionaliza-se por seu turno, transforma-se em populismo
graças a obras (romances ou poemas) em que uma imagem mais convincente do povo
português cumpre uma assimilação discutida mas inegável dos poderes desse
«patriotismo» vigente apenas sob a máscara e mitos de uma visão burguesa
particularmente vulnerável e já em causa desde o tempo de Eça de Queirós. Tal
foi o papel histórico con-siderável do movimento «neo-realista», cuja história
cultural e ideológica, na sua complexidade, está por fazer, mas sem o qual a
nossa futura e actual relação de portugueses com Portugal é simplesmente incompreensível.
É sob o seu império ou na sua movência que se cria em relação à clássica
imagem de Portugal como país cristão, harmonioso, paternal e salazarista,
suave, guarda-avançada da civilização ocidental antimarxista, uma outra-imagem
que não é exactamente uma contra-imagem, mas uma complexa distorção
desse protótipo que nalguns aspectos se apresenta como o pólo oposto dela
(sobretudo pela «ocultação» do carácter repressivo de índole cristã). Na
realidade, a oposição ideológico-cultural ao antigo regime não se apresentou
nunca (salvo no estilo plano de uma luta de expressão clandestina) como
obviamente marxista nem assim apareceu aos olhos públicos, salvo aos de
algum argus mais vigilante no campo dos diversos meios de comunicação de
massa. É o carácter obscurantista, a prepotência de classe ou a glosa romanesca
da multiforme miséria do povo português que servem de alvo ou justificam uma
lenta mas implacável erosão do espírito burguês provincial do salazarismo, sem
aliás lhe alterar nem a boa consciência cultural nem política. Pode mesmo
dizer-se que, à medida que triunfa, a visão «neo-realista» se integra no
horizonte global da existência portuguesa e os seus representative men são
reconhecidos pelo regime, sem que (ao menos os mais consequentes) o
reconheçam ou integrem, mesmo «objectivamente». Paradoxalmente, esta erosão
inegável de um certo conformismo ideológico e político operado graças a essa
espécie de hegemonia espiritual que foi a do neo-realismo durante quase
trinta anos não subverteu tanto como se podia imaginar a imagem
idealizante de Portugal. De
algum modo até contribuiu para a reforçar, não só como necessária para
através dela reinventar «no futuro» um outro Portugal, livre, igualitário,
fraternal, mas até no próprio presente (e no passado), reformulando no sujeito povo
praticamente todos os clichés que até então haviam funcionado em
relação ao «português» em geral e a Portugal. Claro, não com a candura e o
patriotismo incandescentes do antigo «republicanismo» mas por uma idealização
evidente dos «humilhados e ofendidos» a quem não foi difícil atribuir um
«suplemento» de consciencialização ideológica ou um heroísmo militante que
relevam mais da tradição romântica do que de um implacável e justo olhar sobre
a nossa realidade humana. Na reformulação ou metamorfose da «imagem íntima» de Portugal e dos Portugueses, o
«neo-realismo» foi, em geral, bem pouco revolucionário. Mas, se
o tivesse sido mais, não teria conhecido o inegável sucesso sociológico que
conheceu. O «neo-realismo» não teve, nem podia ter, o sentido do trágico histórico,
mesmo naqueles autores que por íntima disposição mais predispostos estariam
para o transcrever. O sentimento da «tragédia» é relativo e relativizado,
excepto num Vergílio Ferreira que escapará das suas malhas e fará dele, talvez
por obsessiva autopunição do «optimismo» inicial, o núcleo de toda a sua obra.
A imagem de Portugal não é subvertida pelo «neo-realismo» mas readaptada
à sua função reestruturante e futuramente harmoniosa de um país que um dia
se libertará de males e taras passageiros.
É à margem, mas
paralelamente ao vasto movimento neo-
-realista e consciente ou inconscientemente em reacção contra ele que se
forjam as autênticas contra-imagens de Portugal, umas de máxima
positividade, outras de total e dinamitadora subversão, tanto quanto em nós
cabe. Continuamos a referir-nos às «imagens culturais», à nossa (da maioria
letrada e ledora do país), e não à «subversão» da sua própria realidade, que a
esta só o movimento concreto da história que no cultural se investe (ou
inverte) a realizará (se realizar). Dessa «subversão» foi o nosso tardio
movimento surrealista (1947) que soube encontrar os gestos, as imagens,
picturais ou poéticas, menos lusitanistas no sentido tradicional do
termo, não apenas as que se opõem àquelas que do século xix continuavam a escoar-se e a ecoar no subconsciente
racional, mas às clericais-fascistas, aos arquétipos líricos do eterno
Portugal meu berço (de) inocente que a pedagogia do regime destilava como
mel obrigatório desde o banco da escola primária à universidade. O surrealismo,
com os caracteres bem próprios que foram os seus entre nós, redimensionava a
imagem da nossa relação com a realidade portuguesa segundo cânones, modelos,
inspirações que procediam de uma das mais radicais metamorfoses da cultura do
século xx e retomava, agora sob
um modo burlesco, alógico, provocador, a tentativa ganha e perdida pela
aventura sem herdeiro do primeiro Álvaro de Campos. Ideologicamente, o
surrealismo — apesar de uma aparente indiferença às clivagens maniqueístas
próprias do mundo político — batia-se sobre duas frentes: uma, a do
conformismo secular reformulado pelo fascismo em termos de pesadelo azul, quer
dizer, contra a ordem moral de salazarístico perfil; outra, a do
conformismo marxista, não só ideológico, como cultural, totalmente alheio às
potencialidades subversivas da linguagem em prise directa com as pulsões
do inconsciente ou da simples vocação humanística à Lewis Carrol ou Edward
Lear. O que o surrealismo, mesmo tendo em conta o seu carácter de fenómeno
citadino e de seita, contribuiu para extirpar foi a omnipotência da percepção realista,
nas letras e na cultura, abrindo assim a larga estrada por onde passará em
seguida a pé enxuto a grande enxurrada de um imaginário lusíada submerso e que
encontrará em obras não directamente ligadas ao surrealismo, como as de Agustina
Bessa-Luís e Ruben A., a sua expressão pública mais torrencial. Ao mesmo
tempo, o impacte surrealizante trabalha e metamorfoseia do interior o próprio
projecto neo-realista (em particular no campo poético), metamorfose de que os
começos dos anos 50 e as seguintes décadas acentuarão cada vez com mais
revulsiva eficácia até dissolver nela o impulso original e a figura mesmo do
neo-realismo.
Foi a esta vaga de
fundo que em tempos aplicámos o epíteto de «literatura desenvolta» mas ao qual
mais conviria o de «cultura desenvolta», pois a pressão libertária que o surrealismo
exprimiu ou canalizou em primeiro lugar (a par de outras expressões que sem
serem «surrealistas» modularam ao mesmo tempo uma exigência de libertação
cultural paralela) não se ficou apenas no campo clássico da literatura, mas
irradiou e reestruturou toda a experiência formal dos seus contemporâneos.
Marginal por definição, era uma tal pressão capaz de alterar a fundo a imagem
interior do que éramos e podíamos ser? Não é mera hipnose de «intelectual»
imaginar-lhe poderes de subversão que uma vez mais não traduziam senão o
eco atrasado de uma revolução já acabada algures e sem impacte visível sobre a
inamovível boa consciência nacional, aliás em fase de apopléctico e delirante
narcisismo? Apesar do condicionalismo tão particular da época, com a sua censura
mais ou menos ubuesca, apesar do fenómeno sociologicamente minoritário das suas
expressões oficiais, a sensibilidade que nas atitudes e gestos
surrealistas se encarnou trouxe à superfície um Portugal-outro, anómalo,
eficaz justamente até por não propor desta vez «reforma ideológica, cultural ou
ética» de nacional recorte ou aplicação, mas apenas por tornar inactual, arcaico,
fóssil, um mundo de formas que era a forma mesma do inteiro viver nacional. Mas
só o triunfo da sociedade de consumo dos anos 60 lhe dará um dia emprego
«histórico».
Talvez não por
acaso, a mesma época ou imediatamente contígua conheceu a apoteose cultural
mais nacionalista de que há memória nos nossos anais. Confundida com uma
expressão da ideologia oficial mais exorbitada, em pleno reino não só de uma
genérica hegemonia cultural da esquerda, mas sobretudo do império sempre
omnipresente do nacionalismo ou do mero «bom senso», o fenómeno da chamada filosofia
portuguesa não mereceu a atenção devida. Ou mereceu-a, quer dos seus
profetas e seguidores, quer dos seus irónicos impugnadores, em termos que não
corresponderam à importância sociológica e mesmo mítica de tão
singular aventura. Sem expressão literária eminente (no plano do romance ou da
poesia), o movimento da «filosofia por-tuguesa», apesar das suas conotações
ideológicas, do estilo provocatório e intimidativo que por vezes assumiu
(Jornal 57), ficou demasiado confinado aos limites de uma seita, à apologia sem
nuances de um «guru» (Álvaro Ribeiro) e passou aos olhos de muitos como
a ideologia cultural de um fascismo lusitano que em Portugal até aos
anos 50 não fora capaz de ter os seus Gentile ou os seus Rosenberg. Na
realidade, e pese ao estilo peremptório de muitos dos seus iluminados
seguidores (a começar pelo iniciador Álvaro Ribeiro), o movimento da «filosofia
portuguesa» interessa precisamente por representar talvez a primeira tentativa
de uma contra-imagem cultural da realidade portuguesa para inverter toda
a mitologia cultural de tradição liberal e iluminista e em particular aquela
que, confessada ou inconfessadamente, tentou refazer nessa linha a imagem
nacional, quer dizer, a da Geração de 70. Amalgamando, por vezes em termos
de duvidosa exegese, contribuições anticonformistas de variada ordem e alcance
(Sampaio Bruno, Cunha Seixas, Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoaes, Fernando
Pessoa no plano nacional e Aristóteles e Hegel no plano «universal»), a
«filosofia portuguesa» oferece de nós mesmos a mais articulada contra- -imagem cultural de tipo
místico-nacionalista que se conhece. Essa «contra-imagem» só oferece uma
organicidade potente sob a pluma exotérica e brumosa de Álvaro Ribeiro. Noutros
representantes do movimento, como Orlando Vitorino e António Quadros (sobretudo
neste último, sensível aos «movimentos» do século), essa imagem é mais fluida,
mas não tanto que não tenha de comum com a do mestre esse apologetismo
intrínseco da excelência ímpar do ser português, não apenas na sua
configuração ético-ontológica, mas cultural. Jamais o velho (mas
histórico e situável) complexo cultural lusitano foi impugnado com mais
veemência e mais cópia de argumentação do que sob as plumas dos representantes
desse movimento.
Aparentemente
desqualificado pelo seu esoterismo ou pelo seu misticismo abrupto, a imagem de
um Portugal-Super-Man, portador secreto de uma mensagem ou
possuidor virtual de um Graal futuro, encontra em cada um de nós ecos por de
mais equívocos, para poder ser considerado e atirado para o simples rol das aberrações
projectivas da nossa esquizofrénica vida nacional. Mesmo que fosse esse
apenas o seu significado objectivo, como num famoso artigo de fundo do Diário
de Notícias na época em que a política colonialista portuguesa era objecto
de denúncia nas Nações Unidas, António Quadros o formulou acusando o universo
inteiro de não nos compreender1, essa esquizofrenia sublime ressurgiu já
muitas vezes, embora não tão «sapiente» no cenário nacional, para não ser
tomada a sério. A mitificação assombrosa de natureza histórico-cultural de que
«a filosofia portuguesa» foi exemplo, vendo bem, nada tem de bem original e é
apenas, sob uma forma patológica, a reivindicação de uma identidade que
quase nos mesmos termos, em outros lugares ou tempos, outros povos e até
continentes levaram a cabo (a Alemanha romântica, a Rússia de Dostoievski, a
Espanha de 98, a América do Sul, a África de Senghor, etc.). Talvez por isso
colaboraram directa ou indirectamente nessa construção mítica da imagem de um Portugal-menino
jesus-das-nações, «éon» histórico predestinado à regeneração espiritual
do universo, gente na aparência de formação tão diferente como Jaime
Cortesão, Hernâni Cidade, José Marinho e sobretudo Agostinho da Silva, um dos
portugueses mais originais do seu tempo e que se não limitou a «teorizar» em
sentido limitado esse papel messiânico de Portugal, mas conformou a sua
experiência humana e espiritual na luz dessa mística que nele transcende a
«lusitanidade» e seus avatares metropolitanos para ser uma espécie de vivência
ecuménica profundamente sentida e interiorizada.
Na complexa
«reacção» que representou o movimento da filosofia portuguesa o que mais choca
é a impressão primeira de expressão de um complexo cultural nacional virado
do avesso e para o qual, um dia, com ironia de largo alcance, o então jovem
Santiago Quintas encontrou esta fórmula deliciosa: sendo a Alemanha o país da
«filosofia» e Portugal, por excelência, o da «não-filosofia», um e outro se
encontram na sua mesma polaridade... Ao processo que a Europa nos faz (ou nos
fez) — na realidade naquele que nós nos fizemos ou continuamos a fazer em
função de imagens-realidades exteriores à nossa e a que supomos, com
razão ou sem ela, qualidades superiores — os homens da «filosofia
portuguesa», em estilo rebarbativo, responderam com o processo da cultura
europeia, em geral, abusivamente simplificado e numa perspectiva que (no
melhor dos casos...) procedia afinal da autocrítica virulenta que no
interior dessa mesma cultura se processava. O que há de mais válido — mesmo se a originalidade é
relativa — nessa tentativa é a afir-mação de uma especificidade da
existência nacional e das suas expressões, acompanhada da recusa de as
julgar em função de um modelo cultural ou civilizacional em si (na
ocorrência o proposto ou pressuposto pela grande cultura europeia e em particular
a de tipo «universitário»), excelentes contributos mas que, exactamente por
sê-lo, interditam o pathos apologético cultural (e talvez não
acidentalmente ideológico) de tudo o que é português por ser
português. É curioso saber que muitos dos representantes da «filosofia
portuguesa» viam na ideologia oficial da época (o salazarismo) também uma forma
de positivismo, na acepção pejorativa do termo, o que não impediu, na
prática, bom número deles de hiperbolizar o que no regime ia no sentido do
culto patológico da «lusitanidade», ajudando até com veemência particular a
radicalizar nos termos mais cegos e dementes uma política «imperial» cujas
funestas consequências não escaparam a gente menos «visionária» e menos
delirantemente «patriótica».