O Jackpot Cósmico
Paul Davies
CIÊNCIA ABERTA
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Prefácio e agradecimentos
QUANDO ESTAVA A PREPARAR O MEU DOUTORAMENTO, no University College London, na década de 1960, o meu orientador deu-me um artigo técnico curioso para ler, «para me
aliviar um pouco» do meu projecto principal. O artigo (que
de facto não veio nunca a ser publicado na forma na qual
o li) baseava-se numa palestra dada nos Estados Unidos
pelo jovem cosmólogo e físico teórico inglês Brandon Carter.
O assunto era radical e diferente. O trabalho normal de
um físico teórico é investigar um problema acerca de um
dado fenómeno natural, ainda por resolver, aplicando as
leis da física sob a forma de equações matemáticas, e depois
tentar resolver as equações para ver a que ponto elas descrevem
a realidade. Mas Carter estava a tratar de um tipo
de problema completamente diferente, que tinha a ver com
a forma das leis propriamente ditas. Fez a si mesmo a
seguinte pergunta: «Suponhamos que as leis tinham sido
escritas de forma um pouco diferente do que foram na
realidade, num ou noutro aspecto— que consequências
teria isto?» Os filósofos chamam «análise contrafactual»
a este tipo de investigação, e embora os romancistas utilizem
este tipo de ideia há muito tempo (li recentemente
um romance em que os nazis derrotaram a Grã-Bretanha
na Segunda Guerra Mundial e o Reino Unido se tornou
um estado-fantoche da Alemanha), era inovadora para um
cientista.
O foco da análise do tipo «e se» de Carter era mais
uma vez pouco comum para um físico teórico. Dizia respeito
à origem da vida. Mais especificamente, os cálculos
de Carter sugeriam que, se as leis tivessem diferido mesmo
que muito ligeiramente daquilo que hoje vemos, a vida
não teria sido possível e não teria havido ninguém para
observar o universo. De facto, dizia Carter, a nossa existência
depende de uma dada quantidade de «ajustamentos
precisos» das leis. Tal como a papa da Joana, as leis da
física pareciam a Carter «mesmo boas» para a vida. Parecia
batota — uma grande batota. De forma um tanto
insensata, deu a este «ajustamento preciso» o nome de
«princípio antrópico», o que produz a falsa impressão de
que dizia respeito especificamente à humanidade (o que
não foi nunca a sua intenção).
Embora o artigo de Carter tivesse um alcance modesto
e fosse cauteloso nas suas conclusões, desencadeou nada
menos que uma revolução no pensamento científico e
provocou uma polémica furiosa que divide a comunidade
científica até hoje. O estudo da análise contrafactual na
física e na cosmologia foi levado a cabo na década de
1970 por Martin Rees e Bernard Carr, e dele resultou um
artigo de referência publicado em 1979. Inspirado por
esse artigo, escrevi um pequeno livro acerca deste assunto
intitulado The Accidental Universe, que foi publicado pela
Cambridge University Press em 1982. Alguns anos mais
tarde surgiu um texto muito mais sistemático e aprofundado
— The Anthropic Cosmological Principle, de John
Barrow e Frank Tippler2. Tem sido o ponto de partida de
centenas de artigos ao longo dos anos.
No princípio da década de 1980, o princípio antrópico
foi zurzido por muitos cientistas como uma patranha semi-religiosa. Numa crítica devastadora na New York Review
of Books em 1986, o matemático e escritor Martin Gardner
fez uma lista das várias versões do princípio antrópico
(AP*): Fraco (WAP), Forte (SAP), Participativo (PAP) e
— a sua versão favorita — o Princípio Antrópico Completamente
Ridículo (CRAP†).
Durante mais ou menos uma década o tom do debate foi esse. Contudo, os desenvolvimentos
em física de partículas de altas energias e em
cosmologia, especialmente no estudo do Big Bang que deu
origem ao universo, mudaram aos poucos as opiniões. As
leis da física, outrora encaradas como se estivessem gravadas
em tabuletas de pedra, começaram a parecer menos
absolutas. Acumularam-se indícios de que pelo menos
algumas não eram leis verdadeiras, fundamentais, mas sim
«leis efectivas», cuja forma familiar só se aplica a energias
pequenas comparadas com a violência selvagem do Big
Bang. É significativo que as análises teóricas tenham sugerido
que algumas das características das leis poderiam
ser acidentais, reflectindo os acasos da maneira como o
nosso universo arrefeceu depois do Big Bang. Isto implicava
claramente que a forma de baixas energias destas leis
poderia ter sido diferente, e poderia mesmo ser diferente,
em alguma outra região cósmica. Aquilo a que tínhamos
chamado previamente o «universo» começou a assemelhar-
se a um «multiverso» variado — «uma louca manta
de retalhos com propriedades diferentes e leis da física
diferentes», nas palavras de Leonard Susskind, um físico
teórico e cosmólogo da Universidade de Stanford e um
dos principais proponentes da ideia do multiverso.
É claro que não seria surpresa nenhuma estarmos a viver numa
região adequada à vida, porque obviamente não poderíamos
estar a viver num sítio onde a vida fosse impossível.
Por esta altura, os ateus começaram a interessar-se pelo
assunto. Insatisfeitos com o ajustamento preciso das leis
da física por ele sugerir algum tipo de desígnio divino,
agarraram-se à teoria do multiverso como explicação simpática
da incrível adequação do universo à vida orgânica.
Assim, estranhamente, o princípio antrópico acabou por
ser encarado, exactamente ao mesmo tempo, quer como
alternativa científica ao desígnio quer como teoria quasi-
-religiosa. Eu entrei para este atoleiro em 2003, quando
convenci a John Templeton Foundation a patrocinar uma
conferência acerca de cosmologia do multiverso na Universidade
de Stanford, à qual presidi com o cosmólogo
Andrei Linde. O resultado das nossas deliberações foi
publicado num volume editado por Bernard Carr.
Uma outra conferência na continuação desta, com mais atenção
à teoria das cordas (a tentativa de unificar a física actualmente
mais na moda), teve lugar em 2005.
Enquanto estes desenvolvimentos teóricos decorriam,
eram feitos alguns avanços espectaculares em cosmologia
observacional. Resultaram de levantamentos progressivamente
exaustivos do universo pelo Telescópio Espacial
Hubble e de diversas experiências terrestres, do mapeamento
pormenorizado do brilho cósmico do Big Bang por um
satélite chamado WMAP e da descoberta inesperada de
que o universo está a acelerar sob a acção de uma misteriosa
«energia escura». Quase num estalar de dedos, a cosmologia,
durante tanto tempo uma província científica longínqua
e sem grandes desenvolvimentos, tornou-se uma ciência
de vanguarda, com novas ideias a fermentarem, muitas
das quais estranhas e contrárias à intuição. Parecemos
entrar numa nova era, que está a transformar a nossa
visão do universo e o lugar que a humanidade nele ocupa.
Neste livro irei explicar as ideias que servem de base a
estes desenvolvimentos dramáticos, concentrando-me no
«factor Cachos Dourados» — o facto de o universo ser
adequado para a vida. Nos primeiros capítulos exponho
os conceitos básicos da física e da cosmologia modernas e
em seguida descrevo a teoria do multiverso e os argumentos
a seu favor e contra ela. No fim do livro faço uma
revisão crítica das diversas respostas ao problema do ajustamento
preciso. Questionarei também se os cientistas estão
prestes a produzir uma teoria de tudo — uma explicação
completa e coerente de todo o universo físico — ou se
sobrará sempre um mistério no coração da existência.
Para estes últimos capítulos inspirei-me no grande físico
teórico John Archibald Wheeler, a quem dediquei este
livro. Descobri o trabalho de Wheeler quando ainda era
estudante, e nos anos seguintes vim a conhecê-lo muito
bem, quer ao nível pessoal quer ao nível profissional.
Visitei-o em Austin, no Texas, e ele veio visitar-me a Inglaterra
em diversas ocasiões. Teve a simpatia de recomendar
o meu primeiro livro, The Physics of Time
Asymmetry, com elogios entusiásticos e dedicou grande
atenção ao meu trabalho ao longo de um período de mais
de três décadas. Foi um privilégio contribuir para a organização
da conferência de celebração do seu nonagésimo
aniversário, em Março de 2002, uma reunião de cientistas
ilustres em Princeton, na Nova Jérsia, onde Wheeler começou
e terminou a sua carreira.
No final dos anos 30, Wheeler trabalhou com o lendário
Niels Bohr em aspectos cruciais da fissão nuclear.
Prosseguiu e encarregou-se do renascimento da teoria
gravitacional na década de 1950, pegando no assunto onde
Einstein tinha parado. Foi Wheeler que criou as expressões
buraco negro e buraco de verme. Acima de tudo,
reconhecia a necessidade de conciliar os pilares gémeos da
física do século XX — a teoria da relatividade geral e a
mecânica quântica — para formar uma teoria unificada de
gravidade quântica. Muitos dos seus estudantes de pós-
-graduação seguiram carreiras científicas de grande prestígio;
um deles foi o bem conhecido Prémio Nobel Richard
Feynman.
O estilo de Wheeler era diferente. Ele era o mestre da
«experiência conceptual». Tomava uma ideia aceite e
extrapolava até ao seu limite máximo, para ver se e quando
ela deixava de funcionar. Adorava concentrar-se nas
questões realmente importantes: se a física podia ser
unificada, se o espaço e o tempo podiam ser obtidos a
partir de algum tipo de entidade mais básica, se a causalidade
podia operar para trás no tempo, se as leis complexas
e abstractas da física podiam ser reduzidas a uma
única afirmação óbvia e simples e como se enquadravam
os observadores nesse esquema. Inconformado com a mera
aplicação das leis da mecânica quântica, queria saber de
onde elas vinham: «Porquê o quantum?», perguntava. Insatisfeito
com a disjunção entre os conceitos de matéria e
informação, propôs a ideia de it from bit — a emergência
de partículas a partir de bits de informação. A mais ambiciosa
de todas as suas perguntas era «porquê a existência?
» — uma tentativa de explicar tudo sem recorrer a
nenhum tipo de fundamento para a realidade física que
tivesse de ser aceite como um «dado».
Perguntei uma vez a Wheeler o que considerava o seu
sucesso mais importante e ele respondeu, «Mutabilidade!».
Com isto queria dizer que nada é absoluto, nada é tão
fundamental que não possa mudar se for sujeito a circunstâncias
adequadamente extremas — e isso incluía as próprias
leis do universo. O conjunto destes conceitos levou-o a
propor o «universo participativo», uma ideia (ou, como preferia
Wheeler, «uma ideia para uma ideia») que ser tornou
uma parte importante da discussão multivero/universo
antrópico. Nas suas crenças e atitudes, Wheeler representava uma grande parte da comunidade científica: plenamente
dedicado ao método científico de pesquisa, mas sem medo
de enfrentar questões filosóficas profundas; sem ser convencionalmente
religioso, mas inspirado pela reverência pela
natureza e por um sentimento profundo de que os seres
humanos fazem parte de um grande esquema que só vemos
de forma incompleta; suficientemente arrojado para seguir
as leis da física onde quer que elas levem, mas não arrogante
ao ponto de acreditar que temos todas as respostas.
Tentei manter o nível das explicações neste livro o menos
técnico possível, evitando palavrões científicos e descrições
desnecessariamente pedantes. O uso de equações é reduzido
ao mínimo absoluto.
Aqui e ali usei caixas para resumir
ou expandir alguns tópicos difíceis. Em alguns aspectos,
este livro é uma continuação do meu trabalho prévio em
A Mente de Deus, mas, apesar do realce das questões
profundas e importantes, também quero que seja uma
introdução simples à cosmologia e à física fundamental
modernas. Estabeleci distinções claras entre factos estabelecidos,
teorizações razoáveis e conjecturas puras. O principal
objectivo do livro é fazer apelo à investigação científica
e à razão para tratar das grandes questões da
existência. Não fiz qualquer tentativa de considerar outros
modos de descoberta, como o misticismo, a iluminação
espiritual ou a revelação através da experiência religiosa.
Foram muitas as pessoas que me ajudaram neste projecto.
Primeiro e acima de todas vem a minha mulher,
Pauline, que tem uma atitude desprovida de quaisquer
compromissos relativamente a raciocínios descuidados ou
hipóteses injustificadas, e uma atenção escrupulosa aos
pormenores. Leu este texto com um rigor extraordinário,
atacando muitos non sequitur ou explicações confusas e
ralhando comigo pela minha tendência irreprimível para
as considerações filosóficas demasiado altivas (também
protestou por o livro ter parado precisamente quando se estava a tornar interessante).
Ter um crítico tão severo tão
perto de mim melhorou imenso o livro. O meu agente literário,
John Brockman, foi a força propulsora por trás do
projecto. Apercebeu-se de que a cosmologia está numa
encruzilhada e de que os leitores estão incrivelmente confusos
com a pletora de novas descobertas e teorias. Beneficiei
imenso das observações dos participantes nas duas
conferências de Stanford, especialmente Andrei Linde.
Estou grato à John Templeton Foundation por ter tornado
possíveis estes acontecimentos tão animados.
Ao longo dos anos, várias pessoas influenciaram o meu pensamento,
em muitos casos através do contacto pessoal e de discussões
particulares, mas também através dos seus trabalhos
escritos. Entre eles incluem-se Nancy Abrams, John Barrow,
Bernard Carr, Brandon Carter, David Deutsch, Michael
Duff, George Ellis, David Gross, John Leslie, Charles
Lineweaver, Joel Primack, Martin Rees, Frank Tipler e, é
claro, John Wheeler. Gostaria também de agradecer a Chris
Forbes os comentários a parte do manuscrito e a John
Woodruff o cuidado meticuloso com a revisão.
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