Nota do editor
É para nós uma grande honra podermos partilhar estas
brilhantes e esclarecedoras conferências, aqui publicadas pela primeira vez.
Em Abril de 1963, Richard P. Feynman foi convidado a dar uma
série de três conferências na Universidade de Washington (Seattle). Aqui temos
Feynman, o homem, revelando, como só ele sabia, as suas reflexões sobre a
ciência e a sociedade, sobre o conflito entre a ciência e a religião, sobre a
guerra e a paz, sobre o nosso fascínio universal pelos discos voadores, sobre a
fé nas curas milagrosas e na telepatia, sobre as desconfianças do povo em
relação aos políticos — sobre as grandes preocupações do
cidadão-cientista moderno.
Ouro puro,
puro Feynman.
I
A incerteza em ciência
Pretendo debruçar-me sobre o impacto da ciência nas ideias do
homem noutros campos, um assunto que o Sr. John Danz gostava particularmente de
ver discutido. Nesta primeira conferência falarei sobre a natureza da ciência,
sublinhando, em particular, a existência da dúvida e da incerteza. Na segunda
discutirei o impacto dos pontos de vista científicos nas questões políticas, em
particular a questão dos inimigos nacionais, e nas questões religiosas. E na
terceira descreverei o modo como a sociedade me olha — podia dizer como a
sociedade vê um cientista, mas é de facto apenas como a sociedade olha para
mim — e o que podem as futuras descobertas científicas produzir em termos
de problemas sociais.
O que sei de religião e política? Vários amigos do departamento
de física e de outros lugares riram-se e disseram «gostava de ir ouvir o que
tens para dizer. Não sabia que te interessavas por esses assuntos.» O que eles
queriam dizer, é claro, é que me interessava por eles, mas que nunca me
atreveria a falar sobre eles.
Ao falar do impacto das ideias de um determinado campo noutro
campo, estamos sempre sujeitos a fazer figura de parvos. Nestes dias de
especialização há muito poucas pessoas que tenham um conhecimento
suficientemente profundo de dois campos do conhecimento para não fazerem figura
de parvas num ou noutro desses campos.
As ideias que pretendo expor são antigas. Não há praticamente
nada do que vou dizer esta noite que não pudesse ter já sido dito pelos
filósofos do século xvii. Porquê
repeti-lo? Porque todos os dias nascem novas gerações. Porque há grandes ideias
desenvolvidas na história da humanidade e elas só perduram se forem intencional
e claramente transmitidas de geração em geração.
Muitas das ideias antigas são já do conhecimento comum, pelo
que não necessitam de que falemos delas nem de ser explicadas outra vez. Mas as
ideias associadas aos problemas do desenvolvimento da ciência, pelo que vejo,
olhando à minha volta, não são do tipo das que toda a gente aprecia. É verdade
que há um grande número de pessoas que se interessam por elas. Numa
universidade, em particular, a maioria das pessoas pertencem a este grupo,
razão por que talvez não me encontre perante a audiência certa para as minhas
palavras.
Sendo novo na difícil tarefa de falar sobre o impacto das
ideias de um determinado campo nas de outro, começarei pelo lado que conheço
melhor. E o que conheço de facto é a ciência. Conheço as suas ideias e os seus
métodos, as suas atitudes para com o conhecimento em geral, as fon- tes do seu progresso, a sua disciplina mental.
Portanto, nesta primeira conferência falarei sobre esta ciência que conheço,
deixando as minhas afirmações mais ridículas para as próximas duas
conferências, em que, suponho, de acordo com a regra geral, as audiências serão
menores.
O que é a ciência? A palavra é habitualmente usada para
significar uma de três coisas, ou uma mistura delas. Acho que não temos
necessidade de ser muito precisos — nem sempre é uma boa ideia ser-se muito
preciso. A ciência significa umas vezes um método especial de descobrir coisas,
outras o corpo de conhecimentos resultante dessas descobertas. Pode também
significar as novas coisas que podem fazer-se quando se descobre algo, ou mesmo
a realização dessas novas coisas. A este último campo chama-se habitualmente
tecnologia — mas, se costumam ver a secção de ciência da revista Time,
sabem que, aproximadamente, 50 % cobrem as novas coisas que foram
descobertas e outros 50 % as novas coisas que podem ou estão já a ser
feitas. Portanto, a definição popular de ciência é, em parte, também
tecnologia.
Discutirei estes três aspectos da ciência por ordem inversa.
Começarei com as coisas novas que podem fazer--se — isto é, com a
tecnologia. A característica mais óbvia da ciência é a sua aplicabilidade, o
facto de, como consequência da ciência, termos poder para fazer coisas. E o
efeito que este poder tem produzido nem precisa de ser mencionado. Toda a
revolução industrial teria sido praticamente impossível sem o desenvolvimento
da ciência. A possibilidade que
hoje temos de produzir quantidades de alimentos suficientes para alimentar uma
população tão grande, de controlar as doenças — o mero facto de poderem
existir homens livres sem que haja a necessidade de recorrer à escravatura para
aumentar a produção —, é, provavelmente, o resultado do desenvolvimento de
meios de produção científicos.
Mas este poder para fazer coisas não traz consigo instruções
sobre o modo como deve ser utilizado, se deve sê--lo para o bem ou para o mal.
O resultado deste poder é, pois, bom ou mau consoante a forma como é usado.
Gostamos de aumentar a produção, mas temos problemas com a automatização.
Ficamos felizes com o desenvolvimento da medicina, mas, por outro lado,
preocupamo-nos com o número de nascimentos e com o facto de já não morrermos das
doenças que eliminámos. Ou ainda, com base no próprio conhecimento das
bactérias, há, porventura, laboratórios secretos onde se trabalha para
desenvolver bactérias para as quais será muito difícil descobrir a cura.
Ficamos felizes com o desenvolvimento dos transportes aéreos e
impressionamo-nos com os grandes aviões, mas também conhecemos os terríveis
horrores da guerra aérea. Agrada--nos a capacidade que possuímos para comunicar
entre as nações, mas preocupamo-nos imediatamente com a possibilidade de a nossa
privacidade ser violada tão facilmente. Estamos excitados com a conquista do
espaço; bem, também aí se nos depararão dificuldades. O mais famoso de todos
estes balanços é o desenvolvimento da energia nuclear e os seus problemas
óbvios.
Será que a ciência tem algum valor?
Acho que um poder para fazer coisas tem valor. Se o resultado é algo de bom ou de mau,
depende da ma- neira como esse poder é
usado, mas o poder em si é um valor.
Uma vez no Havai fui levado a ver um templo budista. Dentro do
templo um homem disse-me: «Vou dizer-lhe uma coisa que nunca esquecerá: a cada
homem são distribuídas as chaves dos portões do céu. Mas essas chaves abrem
também os portões do inferno.»
E assim é com a ciência. De certo modo é uma chave para os
portões do céu, mas a mesma chave abre também os portões do inferno, e não
possuímos instruções que nos permitam ter a certeza de qual é o portão que
temos à nossa frente. Devemos deitar fora a chave e desistir de ter um modo de
entrar nos portões do céu? Ou devemos enfrentar o problema de decidir sobre a
melhor maneira de usar a chave? É, evidentemente, uma questão muito séria, mas
acho que não devemos negar o valor da chave para abrir os portões do céu.
Todos os problemas principais da relação entre a sociedade e
a ciência se situam nesta área. Quando dizemos ao cientista que deve ser mais
responsável pelos efeitos do seu trabalho na sociedade, é às aplicações da
ciência que nos referimos. Se alguém
trabalha para desenvolver a energia nuclear, deve ter consciência de que
ela pode ser usada per-niciosamente. Portanto, aguardar-se-ia que numa
reflexão como esta, feita por um cientista, fosse este o tópico mais
importante. Mas não falarei mais dele. Acho que é um exa-gero dizer que estes
são problemas científicos. São muito mais problemas humanos. Se fabricar o
poder é claro, já não o é tanto o
respectivo controle, pois é algo não tão cien-tífico e sobre o qual os
cientistas, em geral, pouco sabem.
Deixem-me dizer-lhes por que não quero falar sobre isto. Há
uns tempos, por volta de 1949 ou 1950, fui para o Brasil ensinar física. Nesses
tempos havia um programa de quatro pontos que era muito
entusiasmante — íamos todos ajudar os países subdesenvolvidos. Do que
eles precisavam, obviamente, era de conhecimentos técnicos.
No Brasil vivi na cidade do Rio de Janeiro. No Rio há morros
onde existem casas feitas com restos de madeiras partidas e coisas assim. As
pessoas que aí vivem são extremamente pobres. Não têm água nem esgotos. Para
obterem água transportam velhos barris de gasolina à cabeça pelos morros a
baixo, dirigem-se a um local onde esteja a ser construído um novo edifício e
onde há, portanto, água para misturar o cimento, enchem os barris e voltam a
transportá--los morro a cima. Mais tarde pode observar-se a água a escorrer
pelos morros num sujo esgoto a céu aberto. É algo muito deplorável de observar.
E logo ao lado destes morros
encontram-se os excitantes edifícios da praia de Copacabana com belos
apartamentos...
Disse aos meus amigos do programa dos quatro pontos: «Será um
problema de conhecimentos técnicos? Não sabem pôr canalizações pelo morro a
cima? Não sabem pôr um cano até ao cimo do morro de modo que as pessoas possam,
pelo menos, subir o morro com os barris vazios e descê-lo com eles cheios?»
Não, não é um problema de conhecimentos técnicos, pois nos
apartamentos vizinhos há, evidentemente, canalizações e bombas. Agora
compreendemo-lo. Achamos que é um problema de assistência económica e não
sabemos se isso resulta ou não. E acho que nem vale a pena estar aqui a
discutir quanto custa pôr um cano e uma bomba até ao cimo de cada um dos
morros.
Embora não saibamos resolver o problema, gostaria de
sublinhar que tentámos duas coisas, o conhecimento técnico e a assistência
económica. Ficámos desencorajados com ambos e estamos agora a tentar algo
diferente. Como veremos mais tarde, parece encorajante. Acho que esta é a
maneira de fazer tudo: continuar sempre à procura de novas soluções.
Esses são, pois, os aspectos práticos da ciência, as novas
coisas que podem fazer-se. São tão óbvios que acho que não precisamos de
continuar a falar deles.
O próximo aspecto é o seu conteúdo, as coisas que foram
descobertas. Este é o seu produto. Isto é o ouro. É a excitação, a paga que se
tem pelo trabalho duro, pela disciplina do pensamento. Esse trabalho não é
feito com vista às aplicações. É-o apenas pela excitação do que se descobre. A
maioria dos presentes devem saber isto. Mas àqueles que não o sabem é-me quase
impossível, numa simples conferência, transmitir este aspecto tão importante, a
parte excitante, a verdadeira razão da ciência. E sem perceber isto perde-se
quase tudo. Não é possível compreender a ciência e a sua relação com tudo o
resto sem compreender e apreciar a grande aventura dos nossos tempos. Ninguém
vive neste tempo se não compreender que esta é uma coisa louca,
excitante — uma enorme aventura.
Acham que é aborrecido? Não é. É difícil de explicar, mas
talvez consiga dar-lhes uma ideia. Deixem-me começar num ponto qualquer, numa
ideia qualquer.
Por exemplo, os antigos acreditavam que a Terra era o
traseiro de um elefante que estava por cima de uma tartaruga que nadava num mar
sem fundo. É claro que o que sustentava o mar era outra questão, cuja resposta
ignoravam.
Esta crença dos antigos era produto da sua imaginação. Era
uma bela ideia poética. Agora vejam como a encaramos hoje. Será uma ideia
aborrecida? O mundo é uma bola que gira e as pessoas estão agarradas a ela por
todos os lados, algumas de cabeça para baixo. E giramos como um espeto em torno
de uma enorme fogueira. Giramos à roda do Sol. Isto é mais romântico, mais
excitante. E o que nos mantém? A força da gravitação, que é algo que não é
apenas da Terra, mas é o que antes de mais faz a Terra ser redonda, sustenta o
Sol e nos mantém a rodar à volta do Sol na nossa perpétua tentativa de nos
afastarmos. Esta gravidade exerce o seu poder não apenas sobre as estrelas, mas
também entre as próprias estrelas; mantém-nas nas grandes galáxias ao longo de
quilómetros e quilómetros em todas as direcções.
Este universo já foi descrito por muita gente, mas os seus
limites continuam a ser tão desconhecidos como o fundo do mar sem fundo da
outra ideia — precisamente tão misterioso, tão inquietante e tão
incompleto como as descrições poéticas que o antecederam.
Mas reparem que a imaginação da natureza é muito maior do que
a imaginação do homem. Ninguém que não a tivesse desvendado através das
observações podia alguma vez ter imaginado a maravilha que é a natureza.
Ou a Terra e o tempo. Já alguma vez leram nalgum sítio, escrito
por algum poeta, alguma coisa sobre o tempo que se compare com o tempo real,
com o longo e lento processo da evolução? Primeiro havia a Terra sem nada
vivo sobre ela. Durante milhares de milhões de anos esta bola rodava com os
seus ocasos e as suas ondas, o seu mar e os seus ruídos, sem que nada de vivo
nela houvesse para apreciar. Conseguem conceber, conseguem formar uma ideia do
que seja o significado de um mundo sem um único ser vivo sobre ele? Estamos tão
habituados a olhar para o mundo do ponto de vista dos seres vivos que nos é
difícil compreender o que significa estar vivo e, no entanto, na maior parte do
tempo o mundo não possuiu qualquer ser vivo. E na maioria dos lugares do
universo ainda hoje, provavelmente, não há nada vivo.
Ou a própria vida. A maquinaria interna da vida, a química
das componentes, é algo de belo. E acontece que toda a vida está interligada
com todas as outras vidas. Há uma componente que é a clorofila, um composto
químico importante no processo de oxigenação das plantas, que tem uma espécie
de padrão anguloso; é um anel muito bonito chamado anel de benzina. Bastante
afastados das plantas estão os animais, como nós, e nos nossos sistemas de
absorção do oxigénio, no sangue, na hemoglobina, há os mesmos anéis
interessantes e tão especiais. Estes têm ferro no interior, em vez de magnésio,
e por isso são vermelhos, em vez de verdes, mas são os mesmos anéis.
As proteínas das bactérias e dos seres humanos são as mesmas.
De facto, descobriu-se recentemente que é possível ordenar à máquina de
produção de proteínas das bactérias a partir de glóbulos vermelhos que produza
proteínas de glóbulos vermelhos. Como a vida está próxima da vida. A
universalidade da química profunda dos seres vivos é, na verdade, uma coisa
fantástica e maravilhosa. E nós,
humanos, temos sido ao longo dos tempos demasiado presunçosos para
reconhecermos a nossa afinidade com os próprios animais.
Ou os átomos. Belo — quilómetros e quilómetros de bolas atrás
de bolas com um padrão repetitivo nos cristais. Coisas que parecem paradas e
sossegadas, como um copo de água tapado há vários dias, estão permanentemente
activas; os átomos deixam a sua superfície, ressaltam pelo ar e regressam. O
que à vista desarmada nos parece parado é, de facto, uma dança dinâmica e
louca.
E, uma vez mais, descobriu-se que todo o mundo é constituído
pelos mesmos átomos, que as estrelas são feitas do mesmo material que nós.
Levanta-se então a questão de saber donde veio este nosso material. Não apenas
donde veio a vida ou donde veio a Terra,
mas donde veio o material de que é constituída a vida e a Terra. Parece
que terá sido vomitado pela explosão de uma estrela, tal como hoje estão a
explodir algumas estrelas. Portanto, este pedaço de lama espera 4,5 mil milhões de anos, evolui, transforma-se,
e hoje encontra-se aqui de pé uma criatura estranha que fala para
criaturas estranhas na audiência. Que mundo maravilhoso!
Ou a fisiologia dos seres humanos. Não interessa aquilo sobre
que falo. Se observarem qualquer coisa com atenção, verão que não há nada mais
excitante do que a verdade, a reles paga do cientista, descoberta pelos seus
penosos esforços.
Em fisiologia podem pensar na bombagem do sangue, nos
excitantes movimentos de uma rapariga a saltar à corda. O que se passa lá
dentro? O sangue é bombeado, os nervos interligados — com que rapidez
os nervos dos músculos comunicam com o cérebro para lhe dizerem «agora tocámos
no chão, aumenta a tensão para não magoar os calcanhares». E, à medida que a
rapariga dança para cima e para baixo, há outro conjunto de músculos que é
alimentado por outro conjunto de nervos que diz «um, dois, três, olaré, um,
dois, três...». E enquanto faz isso, provavelmente, sorri para o professor de
fisiologia que a observa. Também isso é complicado!
E depois a electricidade! As forças de atracção, do positivo
e do negativo, são tão fortes que em qualquer substância normal todas as cargas
positivas e negativas estão cuidadosamente equilibradas, todas se atraem
mutuamente. Durante muito tempo ninguém notou sequer o fenómeno da electricidade,
excepto de vez em quando ao esfregar um pedaço de âmbar e ao verificar que
atraía pedaços de papel. E, no entanto, hoje descobrimos, brincando com estas
coisas, que temos uma enorme maquinaria dentro de nós. Mas a ciência ainda não
é completamente apreciada.
Para dar um exemplo, li a História Química de Uma Vela
de Faraday, um conjunto de seis lições de Natal para crianças. O ponto de vista
subjacente às lições de Faraday era o de que para qualquer coisa que olhemos,
se olharmos para ela suficientemente perto, estamos envolvidos com o universo
inteiro. E foi o que ele fez, olhando para os diversos aspectos de uma vela, em
combustão, a química, etc. Mas a introdução do livro, ao descrever a vida e
algumas das descobertas de Faraday, explica que ele havia descoberto que a
quantidade de electricidade necessária para realizar a electrólise perfórmica
das substâncias químicas é proporcional ao número de átomos separados dividido
pela valência. E explica, além disso, que os princípios por ele descobertos são
hoje utilizados na cromagem e na pintura anódica do alumínio, bem como em
dúzias de outras aplicações industriais. Dizer só isto é pouco. Eis o que disse
Faraday da sua própria descoberta: «Os átomos de matéria estão de certo modo imbuídos
ou associados a potências eléctricas, às quais devem as suas qualidades mais
espantosas, entre elas a sua mútua afinidade química.» Tinha descoberto que o
que determina que os átomos se juntem, o que determina as combinações de ferro
e oxigénio, é o facto de alguns deles serem electricamente positivos e outros
electricamente negativos e de se atraírem uns aos outros em proporções
definidas. Descobriu também que a electricidade aparece em unidades, em átomos.
Foram ambas descobertas importantes, mas o mais excitante foi tratar-se de um
dos momentos mais dramáticos na história da ciência, um desses raros momentos
em que dois grandes campos se juntam e são unificados. De repente descobriu que
duas coisas aparentemente diferentes eram diferentes aspectos da mesma coisa.
Estudava-se a electricidade e estudava-se a química. Eram dois aspectos da
mesma coisa — as alterações químicas resultavam de forças eléctricas.
E ainda hoje são entendidas deste modo. Assim, dizer apenas que os princípios
são usados na cromagem é indesculpável.
E os jornais, como sabem, têm um estilo-padrão para
anunciarem toda a descoberta hoje feita em fisiologia: «O inventor disse que a descoberta pode
ter aplicação na cura do cancro.» Mas não conseguem explicar o valor da
descoberta em si mesma.
Tentar compreender a maneira como funciona a natureza envolve
um terrível teste à capacidade do raciocínio humano. Envolve astúcias subtis,
belos e intricados novelos lógicos que é necessário seguir para não cometer
erros na previsão do que irá acontecer. As ideias da mecânica quântica e da
relatividade são exemplos disso mesmo.
O terceiro aspecto da minha conferência é o da ciência como
método de descobrir coisas. Este método baseia-se no princípio de que a
observação é o juiz que decide se uma determinada coisa é de uma maneira ou de
outra. Todos os outros aspectos e características da ciência podem ser
imediatamente apreendidos se se compreender que a observação é o juiz último e
definitivo da verdade de uma ideia. Mas a «prova» usada neste sentido significa
realmente um «teste», do mesmo modo que uma prova de vinho é um teste ao vinho,
e para as pessoas de hoje a ideia deve de facto ser traduzida como «a excepção testa
a regra». Ou, expressa de outro modo, «a excepção prova que a regra está
errada». É este o princípio da ciência. Se há uma excepção a uma determinada
regra que possa ser confirmada pela observação, essa regra está errada.
As excepções a qualquer regra são em si mesmas muito
interessantes ao mostrarem-nos que a velha regra está errada. Torna-se então
muito excitante descobrir qual é a regra certa, se é que ela existe. A excepção
é estudada juntamente com outras condições que produzem efeitos semelhantes. O
cientista tenta encontrar mais excepções e determinar as respectivas
características, um processo continuamente excitante em todo o seu desenrolar.
Não evita mostrar que as regras estão erradas: o progresso e a excitação estão
exactamente na atitude oposta. Tenta mostrar a si próprio o erro o mais
rapidamente possível.
O princípio de que a observação é o juiz impõe severas
limitações ao tipo de questões que podem ser respondi- das. Devem limitar-se a questões que possam
ser coloca-das do seguinte modo: «Se fizer isto, o que irá aconte-cer?» Há
maneiras de o tentar e ver. Questões como «devo fazer isto?» e «qual é o valor
disto?» não são do mesmo tipo.
Mas, se uma coisa não é científica, se não pode ser sujeita
ao teste da observação, isso não significa que esteja morta, ou errada, ou que
seja estúpida. Não estamos a tentar argumentar que a ciência seja de algum modo
boa e as outras coisas más. Os cientistas pegam em todas as coisas que podem
ser analisadas através da observação e é assim que são descobertas as coisas a
que se chama ciência. Mas há coisas que ficam de fora e para as quais este
método não funciona. Isso não quer dizer que essas coisas não sejam
importantes. São, de facto, em muitos sentidos, as mais importantes. Em
qualquer decisão para a acção, quando temos de decidir sobre o que devemos
fazer, há sempre um «devo» envolvido, e isso não pode ser concluído com um
simples «se fizer isto, o que irá acontecer?». Podem dizer: «Claro, vemos o que
aconteceria e depois decidimos se queremos que isso aconteça ou não.» Mas é
precisamente esse passo que o cientista não pode dar. Podemos imaginar o que
vai acontecer, mas temos de decidir depois se gostamos do que vier a acontecer.
Em ciência há um certo número de consequências técnicas que
resultam do princípio da observação enquanto juiz. Por exemplo, a observação
não pode ser grosseira. É preciso
ser muito cuidadoso. Pode ter havido um pedaço de poeira no aparelho que fez
mudar a cor; não foi o que pensámos. Temos de conferir, e voltar a conferir,
cuidadosamente as observações para termos a certeza de que compreendemos bem
todas as condições e que não interpretámos mal o que fizemos.
É interessante que esta meticulosidade, que é uma virtude,
seja muitas vezes mal compreendida. Quando alguém diz que uma coisa foi feita
cientificamente, o que muitas vezes quer dizer é que foi feita meticulosamente.
Já ouvi pessoas a falar do extermínio «científico» dos Judeus na Alemanha. Não
houve nada de científico nesse facto. Apenas foi meticuloso. Não se tratou de
fazer observações e de, em seguida, as verificar para determinar algo. Nesse
sentido também teria havido extermínios «científicos» de pessoas no tempo dos
Romanos e noutros períodos em que a ciência não estava desenvolvida como hoje e
não se prestava muita atenção à observação. Nesses casos deve falar--se de meticulosidade
e não de ciência.
Há um certo número de técnicas especiais associadas ao jogo
de fazer observações, e muita da chamada filosofia da ciência está relacionada
com uma discussão dessas técnicas. A interpretação de um resultado é um
exemplo. Tomando um exemplo trivial, há uma famosa anedota de um homem que se
queixa a um amigo de um fenómeno misterioso. Os cavalos brancos da sua quinta
comem mais do que os pretos. Anda preocupado e não consegue compreender a razão
de tal facto até que o amigo lhe sugere que talvez tenha mais cavalos brancos
do que pretos.
Parece ridículo, mas pensemos quantas vezes são feitos erros
semelhantes nos mais diversos julgamentos. Diz-se: «A minha irmã constipou-se e
em duas semanas seguidas...» É um daqueles casos, se pensarmos bem, em que há
mais cavalos brancos. O raciocínio científico requer uma certa disciplina e
devíamos tentar ensinar esta disciplina, pois mesmo ao nível mais corriqueiro
estes erros são hoje desnecessários.
Outra característica importante da ciência é a sua objectividade.
É necessário olhar objectivamente para os resultados da observação porque o
observador pode gostar mais de um resultado do que de outro. Realiza-se várias
vezes a experiência e, devido a irregularidades, como os pedaços de poeira que caem,
o resultado varia de cada vez que é efectuada. Não temos tudo sob controle.
Gostávamos que o resultado fosse de uma determinada maneira, razão por que,
sempre que resulta dessa maneira, dizemos: «Vêem, resultou desta maneira.» Da
próxima vez que realizamos a experiência ela resulta diferente. Provavelmente,
da primeira vez havia um pedaço de poeira, mas ignorámo-lo.
Estas coisas parecem óbvias, mas as pessoas não lhes prestam
a devida atenção ao decidirem questões científicas ou questões na periferia da
ciência. Podia haver um pouco de bom senso, por exemplo, na maneira como são
analisadas as subidas e descidas de stocks em virtude do que disse ou
deixou de dizer o presidente.
Outro ponto técnico interessante é que, quanto mais
específica é uma regra, mais interessante é. Quanto mais definida é a
afirmação, mais interessante se torna testá-la. Se alguém propusesse que os
planetas andam à volta do Sol porque toda a matéria planetária tem uma espécie
de tendência para o movimento, uma espécie de motilidade, chamemos-lhe um oomph,
esta teoria podia explicar também um bom número de outros fenómenos. Então
é uma boa teoria, não é? Não. Nem de perto é tão boa como a afirmação de que os
planetas andam à volta do Sol sob a influência de uma força central cuja intensidade
é inversamente proporcional ao quadrado da distância ao centro. A segunda
teoria é melhor por ser tão específica, por ser tão pouco provável que seja
obra do acaso. É tão definida que o menor erro de movimento pode mostrar que
está errada; se os planetas vagueassem pelo espaço, de acordo com a primeira
teoria, podia dizer-se: «Bem, essa é a piada no comportamento do oomph.»
Portanto, quanto mais específica é a regra, mais poderosa é,
mais sujeita está às excepções e mais interessante e valioso se torna
verificá-la.
As palavras podem não significar nada. Se forem usadas de tal
modo que delas não possamos tirar conclusões precisas, como no meu exemplo do oomph,
então a afirmação que estabelecem não significa quase nada, uma vez que
podemos explicar quase tudo com base na afirmação de que as coisas têm
tendência para a motilidade. Sobre isto muito foi já feito pelos filósofos, que
dizem que as palavras devem ser definidas de um modo muito preciso. Na verdade,
discordo de certo modo desta afirmação; acho que uma precisão extrema nas
definições nem sempre vale a pena e, por vezes, nem é possível — de
facto, a maioria das vezes não é
possível, mas não quero entrar aqui nessa discussão.
A maior parte do que os filósofos dizem sobre a ciência diz
respeito aos aspectos técnicos envolvidos na verificação de que o método
funciona bem. Se esses pontos técnicos são úteis num campo em que a observação
não seja o juiz, não faço ideia. Não quero dizer que tudo tenha de ser feito da
mesma maneira quando é usado um método de verificação diferente da observação.
Num campo diferente talvez não seja tão importante ter cuidado com o
significado das palavras ou que as regras sejam tão específicas, etc. Não sei.
Em tudo isto deixei de fora algo de muito importante. Disse que
a observação era o juiz da verdade de uma ideia. Mas donde vem a ideia? O
desenvolvimento rápido e o progresso da ciência requerem que os seres humanos
inventem algo para testar.
Na Idade Média pensava-se que as
pessoas faziam simplesmente muitas observações e que as próprias observações
sugeriam as leis. Mas não é assim que funciona. É preciso muito mais imaginação
do que isso. A próxima coisa sobre que temos de falar é, pois, donde vêm as
ideias novas. Na verdade, não faz muita diferença, desde que elas surjam. Temos
uma maneira de decidir se uma ideia é correcta ou não e que nada tem a ver com
o modo como surgiu. Testamo-la simplesmente pela observação. Portanto, em
ciência não nos interessa donde surgiu uma ideia.
Não há uma autoridade para decidir se uma ideia é boa.
Perdemos a necessidade de pedir a uma autoridade que decida se uma ideia é ou
não verdadeira. Podemos consultar uma autoridade e deixá-la sugerir algo;
testamo-lo e descobrimos se é verdadeiro ou falso. Se for falso, tanto
pior — assim, as «autoridades» perdem alguma da sua «autoridade».
As relações entre os cientistas, como entre a maioria das
pessoas, eram inicialmente muito argumentativas. Isto foi verdade nos
primórdios da física, por exemplo. Mas na física actual são extremamente boas.
Um argumento científico provocará, provavelmente, uma grande dose de riso e de
incerteza de ambos os lados, com ambos a imaginarem experiências e a apostarem
no seu resultado. Em física há já tanta observação acumulada que é quase
impossível pensar numa ideia verdadeiramente nova, diferente de todas as que
já foram apresentadas e que, contudo, esteja de acordo com todas as observações
que foram realizadas. Portanto, quando ouvimos algo de novo de alguém, num
lugar qualquer, não vamos indagar por que faz essa pessoa essas afirmações.
Muitas ciências ainda não se desenvolveram tanto e a sua
situação é hoje análoga à dos primeiros tempos da física, em que havia muita
discussão, pois não existiam tantas observações. Sublinho este facto porque
acho interessante que as relações humanas possam tornar-se menos argumentativas
a partir do momento em que há uma maneira independente de julgar a verdade.
A maioria das pessoas acham surpreendente que em ciência não
interesse o passado do autor de uma ideia nem as motivações que o levam a
expô-la. Ouvimos, e, se nos soa a algo que vale a pena ser tentado, algo que
pode ser tentado, que é diferente e não, obviamente, contrário ao que
anteriormente observámos, torna-se excitante e compensador. Não temos de nos
preocupar com o tempo que terá levado a estudá-la ou por que pretende ser
ouvido. Neste sentido, pois, não interessa donde vêm as ideias. A sua origem real é desconhecida;
chamamos-lhe — como se sabe — a imaginação do cérebro humano, a
imaginação criativa; é simplesmente um desses eurekas.
É surpreendente que as pessoas suponham que não há imaginação
em ciência. É um tipo de imaginação muito interessante, diferente da do
artista. A grande dificuldade reside em tentar imaginar algo que nunca se viu,
que seja consistente em todos os pormenores com o que já se observou e ao mesmo
tempo seja diferente do que até aí se pensava; mais, terá de ser uma afirmação
bem definida, e não apenas uma proposição vaga. É, na verdade, difícil.
Incidentalmente, o mero facto de haver regras que devam
verificar-se é uma espécie de milagre; é, sem dúvida, um milagre que seja
possível encontrar uma regra como, digamos, a lei da gravitação universal. Não
é completamente compreendida, mas dá-nos a
possibilidade da pre-visão, isto é, diz-nos o que devemos esperar que
aconteça numa determinada experiência que ainda não realizámos.
É interessante, e absolutamente essencial, que as diversas
regras da ciência sejam mutuamente consistentes. Uma vez que as observações são
sempre as mesmas, não pode uma regra prever uma coisa e outra regra uma coisa
diferente daquela. A ciência não é, portanto, um assunto para especialistas; é
completamente universal. Falei dos átomos em fisiologia, em astronomia, em
electricidade, em química. São universais e têm de ser mutuamente
consistentes. Não é possível avançar com algo de novo que não seja constituído
por átomos.
É interessante que a nossa razão esteja sempre a tentar
adivinhar novas regras e que, pelo menos em física, essas regras sejam cada vez
mais reduzidas. Dei o exemplo da maravilhosa redução das regras em química e em
electricidade a uma só, mas há muitos outros exemplos.
As regras que descrevem a natureza parecem ser matemáticas.
Isto não resulta de a observação ser o juiz e não é uma necessidade
característica da ciência ser matemática. Simplesmente acontece que, pelo
menos em física, podem enunciar-se leis matemáticas que permitem fazer
previsões poderosas. Por que é matemática a natureza é, uma vez mais, um
mistério.
E agora chegamos a um ponto importante. As antigas leis podem
estar erradas. Mas como é que uma observação pode estar incorrecta? Se foi
cuidadosamente verificada, como pode estar errada? A resposta é que, em
primeiro lugar, as leis não são as observações e, em segundo, as experiências
são sempre imprecisas. As leis são leis adivinhadas, extrapolações, e não algo
que as observações insistam em mostrar. Não passam de bons palpites que até ao
momento conseguiram atravessar o crivo. Acontece, porém, que mais tarde os
crivos têm os buracos mais estreitos do que os usados anteriormente e a lei é
apanhada. Portanto, as leis são adivinhadas; são extrapolações na direcção do
desconhecido. Não se sabe o que vai acontecer; por isso faz-se um palpite.
Por exemplo, pensava-se — foi descoberto — que o
movimento não afecta o peso das coisas — se pesarmos um pião a rodar
e depois de parado, pesará o mesmo. Isto é o resultado de uma observação. Mas
não podemos pesar uma coisa com a aproximação de um número infinitesimal de
casas decimais, às bilionésimas, digamos. Hoje sabemos que um pião a rodar pesa
mais algumas partes em 1 bilião
do que parado. Se o pião rodar tão depressa que o seu bordo percorra 300 000 quilómetros num segundo, o aumento
de peso torna-se apreciável — mas não abaixo desse valor. As
primeiras experiências foram feitas com piões
que rodavam a velocidades muito inferiores a 300 000 quilómetros
por segundo. Parecia, pois, que a massa do pião em rotação e parado era a
mesma, tendo alguém palpitado que a massa nunca variava.
Que loucura! Mas que louco! É apenas uma lei adivinhada, uma
extrapolação. Por que fez algo tão pouco científico? Nada havia de pouco
científico nesse palpite; era apenas incerto. Teria sido não científico não adivinhar.
Tem de ser feito porque as extrapolações são a única coisa que tem algum valor
real. Trata-se do princípio de que vale a pena conjecturar o que pensamos que
acontecerá num caso em que não fizemos a observação. O conhecimento não tem
valor real se apenas me dizem o que aconteceu ontem. Se queremos fazer alguma
coisa — não apenas necessária, mas também divertida —, temos de dizer
o que acontecerá amanhã. Temos de deitar a cabeça de fora, de nos expor.
Qualquer lei científica, qualquer princípio científico,
qualquer descrição dos resultados de uma observação, são sempre uma espécie de
resumo que deixa os pormenores de fora, pois nada pode ser afirmado com
precisão absoluta. O homem simplesmente esqueceu-se — devia ter
enunciado a lei «a massa não muda muito desde que a velocidade não seja muito
elevada.» O jogo consiste em enunciar uma regra específica e ver se ela
consegue atravessar o crivo. Portanto, a conjectura específica era a de que a
massa nunca se altera. Que possibilidade excitante! E nem importa que se tenha
verificado não ser este o caso. Era simplesmente uma conjectura incerta e não
há mal nenhum nisso. É preferível dizer algo, mesmo quando não se tem a
certeza, a não dizer nada.
É necessariamente verdade que todas as coisas que afirmamos
em ciência, todas as conclusões que tiramos, são incertas, pois são apenas
conclusões. São conjecturas sobre o que irá passar-se e não podemos saber
exactamente o que vai passar-se porque nunca fazemos todas as experiências.
É curioso como o efeito sobre a massa de um pião a girar é
tão pequeno que podemos dizer «bem, não faz diferença nenhuma». Mas chegar a
uma lei correcta, ou pelo menos a uma que se mantenha após crivos sucessivos,
requer uma tremenda inteligência e imaginação e um completo remendo na nossa
filosofia, na nossa compreensão do espaço e do tempo. Refiro-me à teoria da
relatividade. Acontece que os efeitos insignificantes daí resultantes requerem
sempre as mais revolucionárias modificações de ideias.
Os cientistas estão, pois, habituados a lidar com a dúvida e
a incerteza. Todo o conhecimento científico é incerto. E esta experiência com a dúvida e a
incerteza é importante. Creio mesmo que tem um valor tão alto que se estende
para lá da ciência. Creio que para resolver qualquer problema que ainda não
tenha sido resolvido é preciso deixar entreaberta a porta para o desconhecido.
É preciso manter aberta a possibilidade de não termos toda a razão. De outro
modo, se já temos uma ideia predefinida, podemos não conseguir resolver nada.
Quando o cientista nos diz que não sabe a resposta, é um
ignorante. Quando diz que tem um palpite sobre o modo como as coisas vão
funcionar, está inseguro a esse respeito. Quando tem a certeza sobre o modo
como as coisas irão passar-se e afirma «aposto que é assim que tudo vai
passar-se», ainda continua em dúvida. E para podermos progredir é de extrema
importância que saibamos reconhecer essa ignorância e essa dúvida. É por termos
dúvidas que nos propomos olhar em novas direcções à procura de novas ideias. A velocidade
de desenvolvimento da ciência não é apenas a velocidade a que realizamos as
observações, mas, muito mais importante do que isso, a velocidade a que criamos
novas coisas para testar.
Se não fôssemos capazes ou não desejássemos olhar em novas
direcções, se não tivéssemos dúvidas e não soubéssemos reconhecer a nossa
ignorância, nunca chegaríamos a ter ideias novas. Não haveria nada para
verificar pois já conheceríamos a verdade. Aquilo a que hoje chamamos
conhecimento científico é, pois, um corpo de afirmações com diversos graus de
certeza. Algumas são muito incertas, outras são quase certas, mas nenhuma é
absolutamente certa. Os cientistas estão habituados a isso. Sabemos que é
consistente conseguir viver sem saber toda a verdade. Algumas pessoas perguntam:
«Como é que conseguem viver sem saber?» Não percebo o que querem dizer
com isso. Sempre vivi sem saber. É fácil. O que quero saber é como é possível
saber.
Esta liberdade de duvidar é uma questão importante em ciência
e, creio, também noutros campos. Nasceu de uma luta. Foi uma luta ser permitido
duvidar, não ter certezas. Não queria que esquecêssemos a importância dessa
luta e, como consequência, que a abandonássemos. Sinto uma grande
responsabilidade enquanto cientista que sabe do grande valor de uma filosofia
da ignorância e do progresso que essa filosofia tornou possível, progresso esse
que é fruto da liberdade de pensamento. Sinto a responsabilidade de proclamar o
valor dessa liberdade e de ensinar que não devemos temer a dúvida, mas antes
devemos acolhê-la como a possibilidade de um novo potencial para os seres
humanos. Se sabemos que não temos a certeza, temos a possibilidade de melhorar
a situação. Quero exigir esta liberdade para as gerações futuras.
A dúvida é claramente um valor em ciência. Se o é também
noutros campos, é uma questão em aberto e uma matéria incerta.
Espero poder discutir este tópico nas próximas conferências e
demonstrar que é importante duvidar e que a dúvida não é uma coisa que devamos
temer, mas antes algo de um valor inestimável.