Afinal de contas, de
que trata exactamente este livro,
Gödel, Escher, Bach: Laços Eternos — mais conhecido pela sigla GEB?
Esta questão
tem-me perseguido desde que principiei a escrevinhá-lo, em 1973. Alguns amigos
procuravam saber, é claro, o que me prendia tanto, mas sempre tive enorme
dificuldade em explicá-lo concisamente. Anos mais tarde, em 1980, quando GEB
já se encontrava durante algum tempo na lista do topo de vendas do The New
York Times, a frase sumária obrigatória que publicitava o título durante várias
semanas dizia: «Um cientista argumenta que a realidade é um sistema de tranças
interligadas.» Depois de eu ter protestado veementemente contra esta evidente
grosseria, substituíram-na por algo um pouco melhor, apenas com precisão
suficiente para apaziguar os meus protestos.
Muitas pessoas
pensam que o título diz tudo: um livro sobre um matemático, um artista e um
músico. Mas o olhar mais casual mostrará que estes três indivíduos per se,
notáveis como são, apenas desempenham funções minúsculas no conteúdo do livro.
O livro não é sobre estas três pessoas, de modo nenhum!
Bem, então que tal
a descrição de GEB como «um livro que mostra como a matemática, a arte e
a música são, no fundo, uma e a mesma coisa?» Também isto está a milhas de
distância — mas já o entendi vezes sem conta, da parte de não leitores como de
leitores e até de leitores fervorosos do livro.
Nas livrarias já
vi GEB decorar as prateleiras de secções muito diversas, não apenas de
matemática, de ciência em geral, filosofia e das ciências cognitivas (tudo
bem), mas também de religião, do oculto, e Deus sabe que mais. Por que será tão
difícil descobrir de que trata este livro? Certamente não é por causa do seu
tamanho. Não, em parte deve ser porque GEB mexe, não apenas
superficialmente, com tantos e heterogéneos tópicos — fugas e cânones, lógica e
verdade, geometria, recorrência, estruturas sintácticas, a natureza do
significado, budismo zen, paradoxos, cérebro e mente, reducionismo e holismo,
colónias de formigas, conceitos e representações mentais, tradução,
computadores e suas linguagens, ADN, proteínas, o código genético, inteligência
artificial, criatividade, consciência e livre arbítrio — até arte e música, por
vezes, vejam só! — que muitas pessoas acham impossível localizar o núcleo central.
As imagens-chave e ideias que estão no cerne
de GEB
Escusado será
dizer que esta profusa confusão tem sido muito frustrante para mim ao longo dos
anos, pois tinha a certeza de que expusera vezes sem conta os meus objectivos
no próprio texto. É claro, todavia, que não o fiz suficientes vezes ou com
clareza bastante. Mas, já que tenho agora a oportunidade de o fazer mais uma
vez — e num local proeminente no livro, por certo —, deixem-me tentar dizer,
pela última vez, por que escrevi este livro, de que trata e qual a tese
principal que encerra.
Numa palavra, GEB
é uma tentativa muito pessoal de dizer como é que os seres animados podem
emergir da matéria inerte. O que é um ego e como pode um ego sair de uma coisa
tão sem ego como um charco ou uma pedra? O que é um «eu» e por que se encontram
tais coisas somente (pelo menos, até agora) em associação com «bolbos
tilintantes de medo e sonho», como fraseou lindamente uma vez o poeta Russell Edson, isto é, somente em associação com
uma certa espécie de massas viscosas enclausuradas em cascas
protectoras endurecidas, montadas sobre pedestais móveis que vagueiam pelo
mundo aos pares de andas articuladas tremendo ligeiramente?
GEB aborda estas questões construindo lentamente
uma analogia que liga moléculas inanimadas a símbolos sem significado, e depois
liga egos (ou «eus», ou «almas», se preferirem — seja o que for que distingue
os animais da matéria inerte) a certos padrões especiais, enrolados, retorcidos
e rodopiantes, providos de significado, que só ocorrem em tipos
particulares de sistemas de símbolos sem significado. É destes padrões
estranhos e retorcidos que tanto se ocupa o livro, porque são pouco conhecidos
e apreciados, contra-intuitivos e cheios de mistério. E, por razões que não
serão difíceis de descortinar, chamo a tais padrões estranhos e entrelaçados,
ao longo do livro, «voltas estranhas» (strange loops), embora nos
capítulos mais avançados também utilize a designação de «hierarquias entrelaçadas»
para descrever basicamente a mesma ideia.
De muitas
maneiras, é por isso que M. C. Escher — ou, mais precisamente, a sua arte — é
proeminente no «entrançamento dourado», porque, à sua maneira especial, estava
tão fascinado como eu pelas «voltas estranhas» e, de facto, desenhou-as
numa variedade de contextos, todos eles maravilhosamente desorientadores e
fascinantes. Todavia, quando comecei a trabalhar no livro, Escher estava
totalmente ausente do panorama (ou da volta, como agora se diz); o título provisório
era o mundano Gödel’s Theorem and the Human Brain (GTHB, O
Teorema de Gödel e o Cérebro Humano), e não encarava a inclusão de figuras
paradoxais, quanto mais de diálogos divertidos. Vezes sem conta, porém, ao
escrever sobre a minha noção de volta estranha, visualizava mentalmente esta ou
aquela estampa de Escher quase subliminarmente, até que um dia, finalmente, me
apercebi de que estas imagens estavam tão ligadas no meu pensamento às ideias
sobre que estava a escrever que não podia deixar de fazer sentir aos leitores
essa ligação, sob pena de perversidade. E, assim, a arte de Escher foi acolhida
a bordo. Quanto a Bach, falarei mais adiante da sua entrada nesta minha «fuga
metafórica sobre mentes e máquinas».
Regressando às
voltas estranhas, GEB foi inspirado pela minha convicção de longa data
de que a noção de «volta estranha» continha a chave da revelação do mistério
daquilo a que nós, seres conscientes, chamamos «ser» ou «consciência».
Confrontei-me com esta ideia pela primeira vez na adolescência, quando me
encontrava obcecadamente absorvido na volta estranha perfeita que está no cerne
do famoso teorema de incompletude de Kurt Gödel na lógica matemática — um lugar
bem arcano, poderá pensar-se, para tropeçar nos segredos por detrás dos egos e
dos «eus»; todavia, praticamente ouvira gritar nas páginas de Nagel e Newman
que era exactamente disso que se tratava.
Este prefácio não
é a ocasião nem o lugar para entrar em pormenores — na realidade, foi por isso
que o volume que têm nas mãos foi escrito, de modo que seria presunçoso da
minha parte supor que poderia superar o seu autor nestas breves páginas! —, mas
uma coisa tem de ser dita desde já: a volta estranha godeliana que surge nos
sistemas formais em matemática (isto é, colecções de regras para gerar uma
série sem fim de verdades matemáticas apenas por meio de manipulação simbólica
mecanizada, sem atenção aos significados ou ideias escondidos nas formas
manipuladas) é uma volta que permite ao sistema «ver-se a si próprio», falar de
si próprio, tornar-se «autociente», e não seria ir longe de mais dizer que, em
virtude de possuir uma tal volta, um sistema formal adquire um ego.
Símbolos sem significado adquirem significado
sem querer
O que é tão
estranho nisto é que os sistemas formais em que estes «egos» esqueléticos
assomam são construídos a partir de nada mais do que símbolos sem significado.
O ego, como tal, desponta somente por virtude de um tipo especial de padrão enrodilhado
entre os símbolos sem significado. Mas devo confessar: estou a ser um pouco
esquivo ao repetir a frase «símbolos sem significado» (como no final dos dois
últimos parágrafos), pois uma parte crucial do argumento do livro reside na
ideia de que o significado não pode ser mantido fora dos sistemas formais,
quando têm lugar isomorfismos suficientemente complexos. O significado surge
apesar dos melhores esforços para manter a ausência de significado dos
símbolos!
Deixem-me
refrasear as duas últimas frases sem utilizar o termo, ligeiramente técnico,
«isomorfismo». Quando um sistema de símbolos «sem significado» possui padrões
que rastreiam ou reflectem com precisão vários fenómenos no mundo, então o
rastro ou reflexo impregna os símbolos com alguma dose de significado — na realidade,
tal rastro ou reflexo é nem mais nem menos aquilo que o significado é.
Dependendo de quão complexo, subtil ou fidedigno é o rastro, assim se revelam
diferentes graus de significação. Não desenvolvo mais este ponto aqui, pois é
tese que retomo bastantes vezes no livro, principalmente nos capítulos 2, 4, 6,
9 e 11.
A linguagem
humana, comparada com um sistema formal típico, é incrivelmente fluida e subtil
nos seus padrões de rastreio da realidade, razão pela qual os símbolos dos
sistemas formais podem parecer bastante áridos; podemos olhar para eles,
realmente, como desprovidos de significado. Mas também é verdade que, se
olharmos para um jornal escrito numa língua desconhecida, as formas estranhas
não parecem mais do que padrões maravilhosamente intrincados sem significado. A
linguagem humana, rica como é, pode assim ser esvaziada do seu pretenso
significado.
Na realidade,
muitos filósofos, cientistas e outros acreditam que os padrões de símbolos per
se (como livros, filmes, bibliotecas, CD-ROMs ou programas computacionais,
por mais complexos ou dinâmicos que sejam) nunca possuem significado por
si próprios, mas, ao invés, da maneira mais misteriosa, tal significado brota
apenas da química orgânica, ou talvez da mecânica quântica dos processos alojados
nos cérebros biológicos de base carbónica. Embora não admita este ponto de
vista paroquial, biochauvinista, reconheço, todavia, claramente o seu apelo
intuitivo. Tentando vestir o fato de um crente na primazia, unicidade mesmo,
dos cérebros, consigo ver donde vêem tais pessoas.
Elas pensam que
alguma espécie de «magia semântica» tem lugar somente dentro dos nossos «bolbos
tilintantes», algures atrás de pares de glóbulos oculares, embora nunca sejam
capazes de dizer como e por que é assim; além disso, crêem que essa magia
semântica é responsável pela existência dos egos humanos, almas, consciências,
«eus». E eu, na realidade, também penso que os egos e semânticas — por outras
palavras, eus e significados — efectivamente brotam de uma só fonte, mas discordo
de que tais fenómenos se devam inteiramente a quaisquer propriedades especiais,
ainda não descobertas, da estrutura microscópica dos cérebros.
Tal como vejo a
questão, a única maneira de ultrapassar esta visão mágica do «eu» e da
consciência consiste em continuar a lembrar, por muito desagradável que possa
parecer, que o «bolbo tilintante de medo e sonho» que se aninha dentro do nosso
crânio é um objecto puramente físico constituído por componentes inanimadas
completamente estéreis, que seguem exactamente as mesmas leis que regulam o
resto do universo, como porções de texto, CD-ROMs ou computadores. Somente
persistindo na consideração deste facto perturbador poderemos, gradualmente,
começar a desenvolver uma intuição para sair do mistério da consciência: a de
que a chave não está nos materiais que compõem os cérebros, mas nos padrões
que se organizam no interior dos materiais do cérebro.
Esta é uma mudança
libertadora, pois permite alcançar um nível diferente de consideração do que
constitui um cérebro: como media que suportam padrões complexos que
reflectem o mundo, ainda que imperfeitamente, esse mesmo mundo no qual,
desnecessário é dizê-lo, os próprios cérebros são residentes — e é na
inevitável auto-reflexão que daí resulta, por muito imparcial ou imperfeita que
seja, que as voltas estranhas da consciência começam a evoluir.
Kurt Gödel despedaça a linha Maginot de
Bertrand Russell
Acabei de defender
que a mudança de enfoque das componentes materiais para os padrões abstractos
permite que seja dado o salto quase mágico do inanimado para o animado, do não
semântico para o semântico, do sem sentido para o significável. Afinal de
contas, nem todos os saltos da matéria para o padrão dão origem à consciência,
alma ou ego, obviamente: numa palavra, nem todos os padrões são conscientes.
Que espécie de padrão é então aquele que constitui a marca identificadora de um
ego? A resposta de GEB é: uma volta estranha.
A ironia é que a primeira volta estranha — e
o meu modelo para o conceito em geral — foi descoberta num sistema talhado de
encomenda para deixar as voltas estranhas de fora! Estou a referir-me ao famoso
tratado Principia Mathematica, de Bertrand Russell e Alfred North
Whitehead, uma trabalho gigantesco, proibitivo, tecido com simbolismo denso e
escrupuloso que preenche volume após volume, cuja realização nos anos 1910–1913
foi despoletada pela busca desesperada do primeiro autor para obviar aos
paradoxos da auto-referência em matemática.
No cerne dos Principia
Mathematica está a chamada «teoria dos tipos» de Russell, a qual, à
semelhança da mais ou menos contemporânea linha Maginot, foi concebida para
manter de fora «o inimigo» da maneira mais firme e estanque. Para os Franceses,
o inimigo era a Alemanha; para Russell era a auto-referência. Russell
acreditava que a possibilidade de um sistema matemático falar de si próprio de
alguma maneira era o seu beijo-de-morte, pois a auto-referência — assim
pensava — abriria necessariamente a porta à autocontradição e arrastaria
assim a matemática para o colapso. Para evitar este destino inevitável inventou
uma hierarquia elaborada (e infinita) de níveis, completamente separados uns
dos outros, de modo a impedir definitivamente — ou assim ele pensava — que o
temido vírus da auto-referência infectasse o frágil sistema.
Demorou um par de décadas até o jovem lógico austríaco Kurt Gödel se
aperceber de que a linha Maginot matemática de Russell e Whitehead contra a
auto-referência podia ser habilmente circundada (tal como os Alemães, na
segunda grande guerra, cedo acabariam por habilmente passar ao lado da
verdadeira linha Maginot) e que a auto-refe-rência não apenas espreitava os Principia
Mathematica desde o primeiro dia, mas de facto infestava os pobres PM
de maneira completamente insanável. Além disso, como Gödel brutalmente
demonstrou, esta infestação completa do sistema pela auto-referência não se
devia a qualquer fraqueza nos PM, mas, pelo contrário, à sua potência.
Qualquer sistema semelhante teria exactamente o mesmo «defeito». A razão pela
qual levara tanto tempo para o mundo se aperceber deste facto espantoso é que
ele dependeu de se fazer um salto algo análogo ao do cérebro para um ego,
aquele famoso salto dos constituintes materiais para os padrões animados.
Para Gödel, tudo confluiu por volta de 1930 graças a uma descoberta
simples, mas maravilhosamente rica, que ficou conhecida por «numeração de
Gödel» — uma transformação mediante a qual as longas sequências de símbolos num
sistema formal são reflectidas de maneira precisa por relações matemáticas
entre determinados números inteiros (em geral, astronomicamente grandes).
Utilizando essa correspondência entre padrões intrincados de símbolos sem
significado (para utilizar novamente este termo duvidoso) e números enormes,
Gödel mostrou como uma proposição acerca de um sistema matemático
qualquer (como a afirmação de que os Principia Mathematica estão livres
de contradições) pode ser traduzida numa proposição matemática dentro da
teoria dos números (o estudo dos números inteiros). Por outras palavras,
qualquer proposição metamatemática pode ser importada pela matemática, e sob
este novo disfarce a proposição afirma simplesmente (como qualquer outra
proposição da teoria dos números) que determinados números inteiros possuem
certas propriedades ou estão numa determinada relação entre si. Mas, noutro
nível, também possui um significado muito diferente, o qual, à superfície,
parece tão remoto em relação a uma proposição da teoria dos números como uma
frase de um conto de Dostoievski.
Através da
transformação de Gödel, qualquer sistema formal concebido para produzir
verdades sobre «meros» números também produziria — inadvertida mas
inexoravelmente — verdades sobre as próprias propriedades e, deste modo,
tornar--se-ia, por assim dizer, «autoperceptivo». De todos os casos
clandestinos de auto- -referência
que infestavam os PM trazidos à luz por Gödel, as doses mais
concentradas escondiam-se naquelas proposições que falavam dos próprios
números de Gödel e, em particular, diziam coisas muito estranhas acerca de si
próprias, como «eu não sou demonstrável em PM». Deixem-me repetir:
inversões de marcha, tais enlaces consigo mesmos, tais enrolamentos, longe de
serem um defeito eliminável, eram um subproduto inevitável da vasta potência do
sistema.
Sem grande surpresa, pois, consequências matemáticas e filosóficas
revolucionárias caíram em catadupa da súbita revelação de Gödel de que a
auto-referência abundava no seio do tão cuidadosamente concebido bastião
construído por Russell para a deixar de fora a todo o custo; a mais famosa
dessas consequências foi a chamada «incompletude essencial» da matemática
formalizada. Esta noção será cuidadosamente tratada nos capítulos vindouros,
mas, por muito fascinante que seja, a incompletude em si mesma não é central à
tese de GEB. Para GEB, o aspecto mais crucial do trabalho de
Gödel é a sua demonstração de que o significado de uma proposição
matemática pode ter consequências profundas, mesmo num universo supostamente
destituído de significado. Portanto, é o significado da proposição G
de Gödel (aquela que afirma «G não é demonstrável em PM») que
garante que G não é demonstrável em PM (o que é precisamente o
que G afirma). É como se o significado godeliano escondido da proposição
tivesse alguma espécie de poder sobre as regras do sistema, manipuladoras de
símbolos no vazio e insensíveis ao significado, impedindo-as de alguma vez
comporem uma demonstração de G, façam o que fizerem.
Causalidade às avessas e emergência de um «eu»
Este tipo de
efeito dá uma sensação de causalidade loucamente retorcida, ou invertida.
Afinal de contas, não deverão os significados que decidimos atribuir às
sequências de símbolos sem significados ser totalmente desprovidos de
consequências? Ainda mais estranho é o facto de a única razão para a
proposição G não ser demonstrável em PM ser o seu significado
auto-referente; na realidade, pareceria que G, sendo uma proposição verdadeira
acerca de números inteiros, deveria ser demonstrável, mas — graças ao
seu nível extra de significado como proposição acerca de si própria, afirmando
a sua indemonstrabilidade — não é.
Algo muito
estranho emerge, pois, da revolução godeliana: a revelação do poder causal do
significado num universo regulamentado mas livre de significados. E é aqui que
a minha analogia com cérebros e egos regressa, sugerindo que a volta retorcida
da consciência de si mesmo presa dentro de um bolbo inanimado chamado
«cérebro» também possui poder causal — ou, de outro modo, que um mero padrão
chamado «eu» pode remexer no meio de partículas inanimadas no cérebro não menos
do que as partículas inanimadas no cérebro podem remexer nos padrões. Para
abreviar, um «eu» assume-se — pelo menos do meu ponto de vista — através de uma
espécie de um vórtice mediante o qual os padrões no cérebro reflectem o
espelhar cerebral do mundo e, mais tarde ou mais cedo, espelham-se a si
próprios e, no seguimento, o vórtice do «eu» torna-se uma entidade real,
causal. Para uma vívida analogia concreta, embora imperfeita, deste curioso
fenómeno abstracto, pensemos no que acontece quando uma câmara de TV é apontada
a um televisor de modo a exibir-se a si própria no écran (e o écran
no écran, etc.) — aquilo a que chamo em GEB «televisão
autodevoradora» e em escritos posteriores, por vezes, chamo «passagem de nível
de volta de retrocarga» (level-crossing feedback loop).
Quando e somente
quando tal volta ocorre num cérebro ou em qualquer outro substrato é que uma pessoa
— um único «eu» novo — é trazida à existência. Além disso, quanto mais
auto-referencialmente rica uma tal volta é, mais consciente é o ego a que dá
origem. Sim, por muito chocante que isto possa parecer, a consciência não é um
fenómeno apaga-acende, mas admite graus, graduações, tonalidades. Ou, para ser
mais directo, há almas maiores e almas mais pequenas.
Homens de almas pequenas, precavejam-se!
Não posso deixar de recordar, nesta altura, uma observação
horrivelmente elitista, mas muito bem-humorada, de um dos meus escritores
favoritos, o «crítico das sete artes» americano James Huneker, na sua
cintilante biografia de Frederico Chopin a pro-pósito do Étude, Op. 25,
n.º 11, em lá menor, que, tanto para mim como para Huneker, é uma
das mais emotivas e sublimes peças de música jamais escritas: «Os homens de
alma pequena, por muito ágeis que sejam os seus dedos, devem evitar tocá-la.»
«Homens de alma pequena?!»
Que horror! Não há frase que mais contrarie o espírito da democracia americana!
E, todavia, pondo de lado o seu sexismo ofensivo e arcaico (um crime que também
eu cometo em GEB, o que muito lamento), sugiro que é apenas porque
acreditamos tacitamente em algo como a distinção feita por Huneker que estamos
dispostos a comer animais de uma ou outra espécie, a matar moscas e a esmagar
mosquitos, a combater bactérias com antibióticos e tudo o mais. Concordamos
geralmente que «homens» como uma vaca, um peru, uma rã e um peixe possuem alguma
faísca de consciência, algum tipo de «alma» primitiva, mas, francamente, bem
mais pequena do que a nossa — e é por isso, sem tirar nem pôr, que nós,
«homens», sentimos que temos todo o direito de extinguir as fracas luzes nas
cabeças destas bestas de alma fraccionária e de engolir com imenso gosto os
seus protoplasmas, antes quentes e vibrantes, agora frios e inertes, e
fazemo-lo sem o mais leve rastro de sentimento de culpa.
Chega de sermões!
O verdadeiro ponto aqui, caro leitor, é que nem todas as voltas estranhas dão
origem a almas tão grandes e gloriosas como a sua e a minha. Assim, por
exemplo, não desejaria que você ou outrem deixasse de ler a totalidade ou parte
de GEB, abanasse a cabeça e dissesse com pesar «este esquisito
Hofstadter convenceu-se de que os Principia Mathematica de Russell e
Whitehead são uma pessoa consciente com alma!». Balelas! Tolice! Asneira! A
volta estranha de Gödel, sendo embora o meu paradigma do conceito, é, todavia,
o exemplo mais esquelético de volta estranha e reside num sistema cuja
complexidade é patética, se comparada com a de um cérebro orgânico. Além disso,
um sistema formal é uma coisa estática, não muda ou cresce com o tempo. Um
sistema formal não vive numa sociedade de outros sistemas formais,
espelhando-os dentro de si e sendo, por sua vez, espelhado dentro dos seus
«amigos». Bem, retiro a última observação, pelo menos um pouco: qualquer
sistema formal tão poderoso como os PM contém, de facto, modelos não
apenas de si próprio, mas de uma infinidade de outros sistemas formais, alguns
semelhantes, outros muito diferentes de si mesmo. Foi essencialmente disto que
Gödel se apercebeu. Mas, por outro lado, não há contrapartida para o tempo,
para o desenvolvimento, quanto mais para o nascimento e a morte.
Portanto, tudo
quanto diga sobre os «eus» a assumirem a sua existência nos sistemas
matemáticos formais tem de ser temperado com uma adequada pedra de sal. As
voltas estranhas são estruturas abstractas que surgem em vários meios e com diferentes
graus de riqueza. GEB é, na essência, uma longa proposta de voltas
estranhas enquanto metáfora para o modo como é originada a autoconsciência, uma
metáfora como ponto de partida para começar a apreender o que faz um «eu»
parecer num dado momento tão terrivelmente real e tangível como o seu possuidor
e ao mesmo tempo tão vago, tão impenetrável, tão profundamente elusivo.
Pessoalmente não
imagino que a consciência possa ser completamente entendida sem referência às
voltas estranhas godelianas ou passagens de nível de voltas de
retroalimentação. Devo dizer, por isso, que estou surpreendido e confuso pelo
facto de os livros publicados nos últimos anos que tentam desvendar os
mistérios da consciência quase nunca mencionarem nada a esse respeito. Muitos dos
seus autores leram e saborearam GEB; todavia, em nenhum lugar é
referenciada a sua tese central. Parece, por vezes, como se eu tivesse gritado
uma mensagem profundamente sentida para um abismo vazio e ninguém me tivesse
escutado.
As primeiras sementes de GEB
Se o objectivo do
autor era apenas o de propor uma teoria das voltas estranhas como o cerne da
nossa consciência e a fonte do nosso sentimento irreprimível do «eu», porquê,
perguntar-se-á, acabou por escrever um livro tão vasto com tantas aparentes
digressões pelo meio? Por que razão divaga por fugas e cânones? Porquê a
recorrência? E o zen? E a biologia molecular? Et cetera...
A verdade é que,
quando comecei, não tinha a menor ideia de que acabaria por falar de todas
estas coisas. Nem sequer sonhava que o meu livro incluiria diálogos, quanto
mais diálogos sobre formas musicais. A natureza complexa e ambiciosa do meu
projecto evoluiu apenas gradualmente. Em traços largos, aconteceu da maneira
seguinte.
Já referi anteriormente
a minha leitura, na adolescência, do livrinho Gödel’s Proof, de Ernest
Nagel e James R. Newman. Bem, esse livro irradiou-me de excitação e
profundidade e lançou-me como uma flecha direitinha ao estudo da lógica
simbólica. Assim, enquanto estudante de matemática em Stanford e, uns anos mais
tarde, numa curta carreira de pós-graduação em Berkeley, frequentei diversos
cursos avançados de lógica, mas, para minha completa desilusão, todos eles eram
arcanos, técnicos e completamente desprovidos da magia que conhecera em Nagel e
Newman. O resultado destes estudos pretensiosos foi que o meu activo interesse
juvenil pela maravilhosa demonstração de Gödel e as suas «voltas estranhas»
quase desfaleceu. Fiquei realmente com uma tal sensação de esterilidade que em
finais de 1967, quase em desespero, abandonei os estudos pós-graduados em
Berkeley e assumi uma nova identidade como estudante pós-graduado de física na
Universidade do Oregon em Eugene, onde a minha antiga fascinação ardente pela
lógica e pela metamatemática entrou num estado de letargia profunda.
Vários anos
passaram, e num belo dia de Maio de 1972, vasculhando nas prateleiras de
matemática da livraria da Universidade do Oregon, deparei com o estupendo livro
A Profile of Mathematical Logic, do filósofo Howard DeLong, arrisquei na
sua compra e, num espaço de semanas, a minha velha paixão pelos grandes
mistérios godelianos e tudo o que com eles se relaciona reacendeu-se. As ideias
começaram a jorrar como loucas no meu titubeante bolbo de medo e sonho.
Apesar desta
alegria, estava muito desanimado com o curso dos meus estudos de física e com a
minha vida em geral; por conseguinte, chegado o mês de Junho, empacotei todos
os meus haveres numa dúzia de caixotes de cartão e lancei-me numa migração para
oriente através do vasto continente americano encavalitado no Quicksilver,
o meu fiel Mercury de 1956. Para onde ia, não tinha a certeza. Só sabia
que procurava uma vida nova.
Após atravessar as
belas cascatas a nascente do deserto do Oregon, cheguei a Moscovo, no estado do
Idaho. Como o Quicksilver apresentava alguns problemas mecânicos e
precisava de reparações, aproveitei o tempo livre e fui até à biblioteca da
Universidade do Idaho pesquisar alguns artigos sobre a demonstração de Gödel
referidos na bibliografia comentada de DeLong. Fotocopiei vários e, passado um
dia ou dois, arranquei em direcção a Montana e Alberta. Cada noite que parava e
montava a tenda, umas vezes numa floresta, outras à beira de um lago, ansiava
por ler os artigos à luz da lanterna, até acabar por adormecer no saco-cama.
Estava a compreender cada vez mais claramente muitas coisas godelianas, e o que
estava a aprender era verdadeiramente fascinante.
De carta para panfleto a seminário
Após alguns dias
nas montanhas Rochosas canadianas, virei novamente para sul e cheguei a
Boulder, no Colorado. Aí, numa tarde, uma série de ideias novas começou a fluir
numa carta espontânea ao meu amigo de longa data Robert Boeninger. Ao fim de
várias horas de escrita apercebi-me de que, embora a carta fosse mais longa do
que idealizara — cerca de trinta páginas manuscritas —, apenas
dissera metade do que tencionara dizer. Isto fez-me pensar que talvez devesse
escrever um panfleto, em vez de uma carta, e Robert nunca chegou a receber a
missiva incompleta.
De Boulder
caminhei mais para este, saltando de uma cidade universitária para outra, até
que New York City me surgiu à frente como se tivesse sido sempre o meu destino
final. Na realidade, acabei por passar vários meses em Manhattan, frequentando
cursos pós-graduados no City College e leccionando física a enfermeiras no
Hunter College, mas, à medida que ia correndo o ano de 1973, ia encarando o
facto de, por muito que gostasse de Nova Iorque sob variados aspectos, andar
mais agitado do que durante a permanência em Eugene e decidi que seria mais
sensato regressar ao Oregon e terminar aqui os estudos pós-graduados.
O meu sonho de
«vida nova» não se tinha materializado, mas em certo sentido senti-me aliviado
por regressar. Por um lado, a Universidade do Oregon mantinha naquela época a
política iluminada de permitir que qualquer membro podia criar e reger um curso
creditado de «pesquisa», desde que fosse aprovado por um ou mais departamentos.
Submeti, pois, aos departamentos de filosofia e de matemática um curso
trimestral de pesquisa centrado no teorema de Gödel, e o pedido foi atendido.
As coisas estavam a melhorar.
A intuição
dizia-me que a minha fascinação pessoal pelas voltas estranhas — não
apenas a sua importância filosófica, mas também o seu encanto estético —
não era apenas uma pequena obsessão neurótica minha, mas podia tornar-se
infecciosa se, pelo menos,
conseguisse transmitir aos meus alunos que aquelas noções não eram aborrecidas nem áridas, como naqueles
frígidos e estéreis cursos de lógica
que frequentara, mas antes — como Nagel e Newman tinham sugerido — intimamente
relacionadas com uma plêiade de ideias profundas e belas em matemática, física,
ciências da computação, psicologia, filosofia, linguística, e assim sucessivamente.
Dei ao curso o
nome, meio piroso, meio romântico, de «O Mistério do Indecidível», na esperança
de atrair estudantes de áreas muito diversas, e o truque funcionou. Foram
aliciadas 25 almas, todas elas entusiásticas. Recordo vivamente as lindas
florações que observava da janela sempre que dava uma aula nessa Primavera e
ainda mais intensamente me lembro de David Justman, da área da história da
arte, de Scott Buresh, das ciências políticas, e de Avril Greenberg, finalista
nas artes. Estes três devoraram simplesmente as ideias, falávamos sem fim sobre
elas. O curso correu, portanto, muito bem tanto para os aliciados como para o
aliciador.
Algures durante o
Verão de 1973 fiz um rascunho de um índice de matérias para o meu «panfleto» e
nesse momento a ambição do projecto começou a perseguir-me, mas ainda me
parecia mais um panfleto do que um livro. Foi somente no Outono que comecei a
escrever com determinação. Nunca antes tinha escrito mais de meia dúzia de
páginas de uma vez só, mas lancei-me ferozmente para a frente, convicto de que
seria apenas uma questão de dias — talvez uma ou duas semanas. Fiquei
ligeiramente desconsolado, pois, de facto, a primeira versão (manuscrita, tal
como a carta para Robert, só que com mais emendas e cortes) levou-me um mês a
concluir — um mês pautado pela «guerra do Yom Kippur», que me impressionou
profundamente. Apercebi-me de que esta versão não era o produto final, mas
pensei que o principal estava feito e que o resto era apenas uma questão de
revisão.
Começam as experiências com a forma literária
Enquanto escrevia
aquela primeira versão não estava certamente a pensar nos desenhos de Escher. Nem estava a pensar na música de
Bach. Mas um dia, num fervilhar de
ideias sobre a mente, o cérebro, a identidade humana e coisas semelhantes,
apropriei-me sem vergonha do par de personagens de Lewis Carroll, Aquiles e
Tartaruga, cujas estranhas personalidades sempre me divertiram imenso,
sentei-me e, num febril assombro, escrevi um longo e complexo diálogo
sobre um imenso e fictício livro
do qual cada página continha informação exaustiva sobre um neurónio específico
no cérebro de Einstein. Acontece que o diálogo continha uma curta secção em que
as duas personagens se imaginavam uma à outra noutro diálogo e cada uma delas
dizia «você poderá então dizer isto... a que eu poderei responder o seguinte...
e você continuará assim...», e assim sucessivamente. Por causa desta característica
estrutural, quando coloquei o último ponto final na última fala, regressei ao
topo da página inicial e aí, num impulso, dactilografei a palavra «FUGA».
É claro que o meu
diálogo do livro-Einstein não era realmente uma fuga — longe disso —, mas de
alguma maneira fazia-me lembrar uma fuga. Desde a mais tenra juventude ficara
profundamente emociado com a música de Bach, e esta ideia inesperada de ligar
formas contrapontuais bachianas a diálogos vivos impregnados de conteúdo
intelectualmente rico apossou-se de mim como uma paixão. Nas semanas seguintes,
enquanto a ideia circulava de um lado para o outro na minha cabeça, apercebi-me
das potencialidades de exploração desta via e imaginei quão sofregamente teria
devorado diálogos semelhantes durante a minha adolescência. Fui assim levado à
ideia de inserir amiúde diálogos contrapontuais não só para amenizar o tédio
das ideias pesadas nos capítulos, mas também para me permitir a introdução de
versões mais leves e alegóricas de todos os conceitos difíceis.
Finalmente, acabei
por decidir — o que demorou muitos meses — que a estrutura óptima seria uma
alternância estrita entre capítulos e diálogos. Uma vez ultrapassado este
ponto, apenas me restava a alegre tarefa de assinalar as ideias mais cruciais
que queria transmitir aos leitores e, de algum modo, incorporá-las tanto na
forma como no conteúdo de diálogos ora fantasiados ora simples entre Aquiles e
a Tartaruga (e alguns amigos mais).
GEB esfriado,
depois reaquecido
Nos princípios de
1974 troquei de orientador de doutoramento pela quarta e última vez e ataquei
um problema totalmente novo na física do estado sólido que parecia bem dócil,
mas se perfilava como espinhoso. O meu mais recente orientador, Gregory
Wannier, queria que me dedicasse em profundidade, e eu sabia que desta vez ou
me mantinha à tona ou me afundava para sempre no mundo da física. Queria um
doutoramento — um objectivo precioso mas horrivelmente elusivo com o qual me
debatia havia quase uma década — e era agora ou nunca! E então, com grande
relutância, guardei o precioso manuscrito numa gaveta e disse para mim próprio:
«Intocável! E nada de espreitadelas!» Cheguei ao ponto de instituir castigos de
autoprivação de alimento para o caso de ousar abrir a gaveta e simplemente
folhear o livro-em-construção. Pensar em pensamentos GEB — ou antes
pensamentos GTHB — era estritamente verboten (proibido).
A propósito de alemão, Wannier calendarizara uma estada semestral na
Alemanha para o Outono de 1974, e como eu sempre gostara da Europa, perguntei
se havia alguma maneira de também ir com ele. Gentilmente, conseguiu obter para
mim uma posição de wissenschaftlicher Assistent — essencialmente, um
assistente — de Física na Universidade de Regensburg, o que fiz durante um
semestre, até inícios de 1975. Foi durante esse período que completei a maior
parte da minha tese de doutoramento. Como não tinha amigos próximos, os dias e
noites em Regensburg eram longos e solitários. De uma maneira muito particular,
o meu melhor amigo durante esse período foi Frederico Chopin, pois quase todas
as noites, à meia-noite, sintonizava a Rádio Varsóvia e escutava vários pianistas
interpretarem muitas das suas obras que conhecia e apreciava, e muitas outras
que desconhecia, mas de que vim a gostar igualmente.
Todo esse tempo
foi GEB-verboten, e assim continuou até finais de 1975, quando,
finalmente, dei por concluída a tese. Embora este trabalho fosse sobre uma
requintada estrutura visual (v. capítulo 5 deste livro) e parecesse constituir
um bom trampolim para uma carreira, já tinha sofrido demasiados golpes no meu
ego durante a pós-graduação para acreditar que seria alguma vez um bom físico.
Por outro lado, o reacender de velhas chamas intelectuais e, especialmente, a
escrita de GTHB tinham insuflado em mim uma nova espécie de
autoconfiança.
Sem emprego, mas
altamente motivado, mudei-me para a minha terra natal de Stanford, onde, graças
ao generoso e incondicional apoio financeiro dos meus pais (uma «bolsa
Hofstadter» por dois anos, como por brincadeira lhe chamei), decidi
«readaptar-me» como investigador em inteligência artificial. Ainda mais
importante foi o facto de poder retomar a relação apaixonada com as ideias que
tanto me tinham atraído um par de anos atrás.
Em Stanford, o meu
«panfleto» de outrora floresceu. Foi totalmente reescrito, pois senti que os
anteriores rascunhos, embora focados nas ideias certas, eram imaturos e
inconsistentes no estilo. E tirei partido de um dos primeiros e melhores
processadores de texto do mundo, o programa tremendamente flexível e cómodo do
meu novo amigo Pentti Kanerva, TV-EDIT. Graças a este programa, a nova versão
fluiu com suavidade. Não consigo imaginar como teria escrito GEB sem
ele.
Somente nesta fase
é que as marcas distintivas do estilo do livro realmente emergiram — as
brincadeiras por vezes infantis com as palavras, a trama de estruturas verbais
novas que imitam formas musicais, o chapinhar em analogias de toda a espécie, o
tecer de histórias cuja estrutura espelha os assuntos tratados, a mistura de
personagens loucas em cenários fantásticos. Enquanto escrevia, sabia certamente
que o meu livro seria bastante diferente de outros sobre assuntos nele versados
e que estava a violar não poucas convenções. No entanto, persisti ousadamente,
porque senti que o que estava a fazer tinha de ser feito e tinha o direito
intrínseco a ser feito. Uma qualidade-chave para me fazer acreditar no que estava
a fazer foi que este era um livro em que a forma era tratada a par do conteúdo
— e isso não era acidental, pois GEB é em grande parte sobre como o
conteúdo é inseparável da forma, como a semântica o é da sintaxe, como são
inextricáveis uns dos outros as matérias e os seus padrões.
Sempre soube que,
em muitos aspectos da vida, me envolvi tanto com a forma como com o conteúdo,
mas nunca suspeitara do que iria ser a profundidade do meu envolvimento na
escrita deste meu primeiro livro, na questão da aparência visual a todos os
níveis. Assim, graças à facilidade de utilização do TV-EDIT, tudo o que
escrevia era sujeito a polimento no sentido de melhorar a aparência no écran
e, embora tal controle tivesse em tempos sido considerado um luxo para um
autor, fiquei muito cativo dessa facilidade e detestaria prescindir dela.
Quando, finalmente, obtive uma versão substancial do manuscrito pronta para
enviar aos editores para apreciação, já a concepção visual e a estrutural
estavam intimamente entrelaçadas.
A
chamada de Clarion
Perguntaram-me
muitas vezes se, como autor desconhecido de um manuscrito heterodoxo com um
título estranho, tivera de enfrentar durante anos o receio monolítico da
indústria editorial de correr riscos. Bem, talvez tenha sido sorte, mas a minha
experiência a este respeito foi bem mais agradável.
Em meados de 1977
enviei uma amostra a cerca de quinze editoras de prestígio, só para sentir o
pulso da reacção, tendo a maioria respondido polidamente que este «não era o tipo
de coisa» em que se empenhavam. Tudo bem. Contudo, três ou quatro mostraram
interesse em ver mais e, assim, uma de cada vez, fui-lhes facultando a obra
completa. É claro que fiquei desapontado quando duas delas a recusaram
(demorando, em cada caso, alguns meses para decidir, o que só aumentou a minha
frustração), mas nem por isso me deixei desencorajar em demasia. Então, perto
do Natal, Martin Kessler, director da Basic Books, uma editora que sempre
admirara, deu-me alguns sinais de esperança.
O Inverno de
1977–1978 foi tão severo na Universidade de Indiana, onde me encontrava como
professor assistente, que o carvão para aquecimento se esgotou e em Março a
universidade foi forçada a encerrar durante três semanas, esperando o regresso
de clima mais quente. Decidi utilizar este tempo livre para viajar de carro até
Nova Iorque e alguns outros lugares mais a sul para rever velhos amigos. Clara
como uma campainha na minha memória tantas vezes confusa está uma breve paragem
num pequeno restaurante na vila de Clarion (Clarim), Pensilvânia, de cuja
cabina telefónica fiz uma chamada rápida para Martin Kessler, em Nova Iorque,
para saber se tinha novidades. Foi um momento grande da minha vida quando ele
disse que estava «encantado» por trabalhar comigo — e pensar que tudo ocorreu
naquela apropriadamente designada aldeola, de todos os lugares...
A vingança das prensas furadas
Agora, que tinha encontrado um editor,
restava o problema de transformar a impressão rudimentar de computador do
manuscrito num livro finamente impresso. Foi uma sorte que Pentti, para
melhorar o TV-EDIT, tivesse acabado de desenvolver um dos primeiros sistemas
tipográficos de computador, que me encorajou fortemente a utilizar. Kessler,
sempre aventureiro, estava disposto a ensaiar o esquema — em parte, é claro,
porque pouparia alguns cobres à Basic Books, mas também porque gostava, por
natureza, de correr alguns riscos calculados.
Tipografia
faça-você-mesmo, uma grande oportunidade para mim, não era nenhuma pêra doce.
Os computadores eram muito mais primitivos do que actualmente, e para utilizar
o sistema de Pentti tinha de inserir virtualmente milhares de comandos
crípticos em cada capítulo ou diálogo, em seguida cortar cada ficheiro em
vários mais pequenos — cinco ou seis, em média —, cada um dos quais tinha de
ser processado por vários programas computacionais, após o que cada parte
resultante tinha de ser fisicamente perfurada num padrão críptico de miríades
de buracos numa longa e estreita fita de papel. Eu próprio tinha de caminhar
200 metros até ao edifício onde estava localizada a perfuradora, carregar a
fita perfurada e controlá-la cuidadosamente para que não encravasse.
Em seguida, carregava este conjunto de fitas sujas de óleo outros 400
metros até ao edifício onde era impresso o The Stanford Daily e, se
estivesse livre, utilizava eu mesmo a máquina de fotoimpressão. Tudo isto era
uma operação longa e elaborada, envolvendo caixas de papel fotográfico, câmaras
escuras, banhos químicos, prensas rolantes por onde o papel tinha de passar
para limpar os químicos e estendais onde se penduravam para secarem as provas
de papel com 1,5 m de comprimento durante um ou dois dias. O processo de ver,
finalmente, o resultado dos milhares de comandos tipográficos era extremamente
pesado e moroso. Mas a verdade é que não me importava muito com isso; era, de
facto, arcaico, especial e até excitante, à sua maneira.
Mas, um dia,
quando quase todas as provas estavam impressas — entre duas e três centenas — e
pensava estar próximo da conclusão, fiz uma descoberta terrível. Tinha
assistido à tiragem de cada uma dos banhos de revelação com tinta preta bem
destacada, mas algumas das recentemente saídas da secagem apresentavam um tom
acastanhado. O quê!? Verifiquei outras, menos recentes, com tons
castanho-claro, alaranjado e até amarelo-pálido!
Não podia
acreditar no que os meus olhos viam. Como teria acontecido isto? A resposta simples deixou-me furioso e
desamparado: as velhas prensas rolantes apresentavam desgaste desigual e já não
limpavam completamente os químicos, de modo que o ácido ia corroendo dia a dia
a tinta preta. Para o Daily isso não fazia diferença — as provas
eram utilizadas numa questão de horas —, mas para um livro era um desastre
total. Era impossível a impressão a partir de provas amareladas! E as fotocópias que tinha feito de
imediato após a tiragem eram nítidas, mas não o suficiente. Que pesadelo! Tanto
trabalho para nada. Senti-me como um defesa de uma equipa de futebol que faz
uma corrida com a bola por todo o comprimento do campo para a perder a um metro
da baliza do adversário.
O Verão de 1978
tinha sido quase todo gasto na produção destas provas, mas agora chegava ao fim
e tinha de regressar a Indiana para dar aulas. Que fazer? Como poderia salvar GEB?
A única solução que antevia era a de, às minhas custas, voar para Stanford
todos os fins de semana do Outono e fazer tudo de novo. Por sorte, só tinha
aulas às terças-feiras e quintas-feiras e, assim, cada quinta-feira à tarde
saía a correr da aula, apanhava um avião para Stanford e aí trabalhava como um
louco até à tarde da segunda-feira seguinte e regressava de avião a Indiana.
Nunca esquecerei o pior desses fins de semana, durante o qual consegui, não sei
como, trabalhar quarenta horas seguidas sem piscar um olho. É a isto que se
chama paixão!
No meio desta
embrulhada houve uma coisa boa, bendita seja: tive a oportunidade de corrigir
todos os erros tipográficos das primeiras provas. O plano original tinha sido o
de utilizar um conjunto de provas para correcção, que teriam de ser cortadas
nos escritórios da Basic em Nova Iorque e coladas nos locais onde houvesse
espaços suficientes — e nesse primeiro conjunto de provas tinha deixado muitos
espaços. Este processo teria, provavelmente, resultado em centenas de erros de
paginação. Mas, graças à paragem a um metro da baliza, tinha podido fazer todas
as correcções e produzido um conjunto quase perfeito de provas para impressão.
Deste modo, embora a catástrofe química tivesse atrasado a publicação de GEB
em cerca de dois meses, ela fora, no fim de contas, uma benesse.
Azares...
Durante todos
esses anos houve muitas ideias em gestação a competirem umas com as outras para
entrarem no livro, e algumas conseguiram-no, mas outras não. Uma das ironias é
que o diálogo do livro-Einstein, que na sua «fugalidade» constituiu a
inspiração de todos os diálogos a incluir, foi eliminado.
Um outro longo e
intrincado diálogo também foi eliminado, ou melhor, sofreu uma transfiguração
que o deixou irreconhecível, e a sua história curiosa liga-se com um intenso
debate que na época esquentava a minha cabeça.
Alguns panfletos
que lera na associação de estudantes em Oregon em 1970 tinham-me tornado
agudamente ciente da linguagem sexista e dos seus inconscientes efeitos
insidiosos. A minha mente tinha acordado para as maneiras subtis que o genérico
«ele» e «homem» (e muitas outras palavras e frases similares) contribuem para a
formação do sentido do que é um ser humano «normal» e do que é uma «excepção» e
abraçava aquela nova perspectiva. Mas não era escritor naquela altura — era
estudante pós-graduado — e estas questões não pareciam prender-se com a minha
própria vida. Quando comecei a escrever diálogos, todavia, as coisas mudaram.
Chegou uma altura em que me apercebi de que as personagens dos meus diálogos —
Aquiles, a Tartaruga, o Caranguejo, o Tamanduá e um par de outras personagens
secundárias — eram todas masculinas, sem excepção. Senti-me chocado por
eu próprio ter sucumbido às pressões inconscientes contra a introdução de
personagens femininas. No entanto, quando brinquei com a ideia de voltar atrás
e fazer uma «operação de mudança de sexo» em alguma ou algumas destas
personagens, a ideia não me agradou. Porquê?
Bem, só conseguia
dizer para mim mesmo «faz entrar as fêmeas e acabarás por importar o mundo
confuso da sexualidade para aquilo que é essencialmente uma pura discussão
abstracta, o que distrairá a atenção dos objectivos principais do livro». Este
tolo ponto de vista resultou de, e deu eco a, muitas pressuposições tácitas da
civilização ocidental na época (e ainda hoje). Enquanto me esforçava para
chegar a termos com a minha feia atitude, uma batalha real desenrolava-se na
minha mente, com um lado a argumentar que retornasse ao texto e tornasse
algumas personagens femininas e o outro a tentar manter o status quo.
Deste debate
interno surgiu de repente um longo e divertido diálogo em que as minhas
diversas personagens, tendo percebido serem todas elas do sexo masculino,
discutem a razão disso e decidem, apesar do seu sentido de livre arbítrio, que
são meras personagens de um autor sexista masculino. De uma maneira ou de
outra, conseguem convocar essa personagem autor para o seu
diálogo — e o que faz ele quando é acusado de sexismo? Clama a
sua inocência, defendendo que o que o seu cérebro faz está fora do seu
controle — a culpa do seu sexismo deve antes ser atribuída a um deus
sexista. Logo de seguida, Deus irrompe no diálogo — e adivinhem
quem? —, é um deus feminino (oh!, oh!, oh!). Já não me lembro do seguimento,
mas a questão é que estava profundamente dividido e enfrentava como podia estes
problemas complexos.
Lamentavelmente
— lamento daquele que eu era nos anos que se seguiram —, o lado que
acabou por ganhar aquela batalha foi o lado sexista, com apenas algumas
concessões ao outro lado (por exemplo, a torre de Djinns no diálogo Pequeno
labirinto harmónico e Madame Formigueiros no Prelúdio... e Fuga da
Formiga). GEB permaneceu um livro com profunda parcialidade sexista
no seu tecido. Curiosamente, é uma parcialidade que muito poucos leitores,
masculinos ou femininos, comentaram (o que, por sua vez, suporta a minha crença
de que as coisas deste tipo são muito subtis e insidiosas e escapam à percepção
de quase toda a gente).
Quanto ao «homem»
e «ele» genéricos, desagradou-me por certo o seu uso naquela época e tentei
evitá-los o mais que pude (ou melhor, sempre que era fácil evitá-los),
mas, por outro lado, não estava especialmente preocupado em expurgá--los
totalmente da minha prosa e, por isso, as páginas do livro exibem, aqui e além,
esta mais óbvia e explícita forma de sexismo. Hoje em dia encolho-me sempre que
topo uma frase de GEB que fala do leitor como um «ele», ou casualmente
da «humanidade», como se a humanidade fosse um enorme e abstracto «eles».
Vive--se e aprende-se, é o que me parece.
Finalmente, sobre
aquele diálogo introspectivo em que o autor e Deus são convocados por Aquiles e
companhia para responderem à acusação de sexismo, bem, ele foi transformado,
por uma série de muitas e pequenas alterações, no diálogo conclusivo do GEB,
«Ricercar» a seis vozes. Se o leitor(a) o ler com a sua génese em mente,
poderá encontrar um acrescido motivo de interesse.
O Sr. Tartaruga encontra Madame Tortue
Anos mais tarde
surgiu uma inesperada oportunidade de corrigir, pelo menos parcialmente, o meu
pecado sexista. Essa oportunidade foi-me dada pelos desafios da tradução de GEB
em várias línguas estrangeiras.
A ideia de que o
livro pudesse alguma vez ser publicado noutras línguas nunca me ocorreu
enquanto o escrevia. Não sei explicar porquê, pois sempre gostei de línguas e
de tradução, mas nunca tal me ocorreu. Todavia, mal a ideia me foi proposta
pelo editor, fiquei muito excitado com a perspectiva de o ver noutras línguas,
especialmente naquelas em que falava alguma coisa — sobretudo o
francês, por ser uma língua que falava fluentemente e que adorava.
Em qualquer
tradução potencial há mil e uma questões a considerar, pois no livro abundam
não apenas jogos explícitos de palavras, mas também aquilo que Scott Kim
denominou de «trocadilhos estruturais» — passagens em que forma e conteúdo se
ecoam ou reforçam de alguma maneira inesperada e muitas vezes graças a
coincidências felizes que envolvem palavras específicas da língua inglesa. Por
causa destas intrincadas misturas média-mensagem, pesquisei a pente fino cada
frase de GEB, anotando uma cópia para os tradutores em qualquer língua a
considerar. Isto demorou-me cerca de um ano entremeado, mas cheguei ao fim
mesmo a tempo, pois os contratos com editores estrangeiros começaram a cair com
abundância em finais de 1982. Podia escrever um livro curto — um panfleto? — só
com as charadas divertidas, tontas e retorcidas que vieram a lume com a
tradução de GEB, mas aqui vou mencionar apenas uma: como converter a
expressão aparentemente simples «Sr. Tartaruga» em francês.
Na Primavera de
1983, quando Jacqueline Henry e Bob French, os tradutores da excelente edição
francesa, começaram a trabalhar nos diálogos, chocaram logo de frente com o
conflito entre o género feminino do nome francês tortue e a
masculinidade da minha personagem Tartaruga. Devo, tristemente, mencionar que
no maravilhoso, mas pouco conhecido, diálogo de Lewis Carrol a que fui buscar
estas personagens deliciosas (o diálogo Invenção a duas vozes no GEB),
se lido com cuidado, à Tartaruga não é atribuído qualquer género. Mas, quando o
li pela primeira vez, a questão nem sequer me ocorreu. Esta era claramente uma
tartaruga-ele. Caso contrário, teria sabido não apenas que ele era
feminino como porquê. Afinal de contas, um autor só introduz uma
personagem feminina por alguma razão especial, não é? Enquanto uma personagem masculina num
contexto «neutro» (por exemplo, filosofia) não necessita de qualquer raison
d’être, uma feminina sim. E, assim, sem nenhuma pista sobre o sexo da
Tartaruga, assumi sem pensar que se tratava de um macho. E desta maneira o
sexismo invade silenciosamente os cérebros susceptíveis bem-intencionados.
Mas não esqueçamos
Jacqueline e Bob! Embora pudessem simplesmente contornar o problema inventando
uma personagem «Sr. Tortue», este caminho soava nitidamente pouco natural em
francês para o seu gosto, e numa das inúmeras cartas que trocaram comigo
perguntaram-me ingenuamente se podia considerar autorizá-los a mudarem o sexo
da Tartaruga para o feminino. Para eles, é claro, a proposta parecia,
provavelmente, tão descabida que o autor não a teria seriamente em conta, mas,
de facto, mal tive conhecimento dela, aquiesci com grande entusiasmo. Como
resultado, as páginas francesas de GEB estão decoradas com a atrevida e
fantástica figura de Madame Tortue, que se entretém em círculos intelectuais
perversos com o companheiro masculino Aquiles, guerreiro grego de outros tempos
e filósofo amador.
Havia algo tão
encantador e gratificante para mim nesta nova versão «da Tartaruga» que fiquei
simplesmente extático com ela. O que me divertiu particularmente foram algumas
conversações bilingues acerca da Tartaruga, em que eu começava em inglês usando
o pronome «ele» e depois mudava para francês e para elle ao mesmo tempo.
Qualquer dos pronomes parecia perfeitamente natural, e até sentia que ele se
referia à mesma «pessoa» em ambas as línguas. Isto parecia, à sua maneira, ser
fiel à neutralidade sexual da tartaruga de Lewis Carroll.
Para cúmulo, e meu
agrado redobrado, os tradutores para italiano, outra língua que adorava e
falava bastante bem, escolheram a mesma via e converteram «Sr. Tartaruga» em «signorina
Tartaruga». É claro que estas mudanças em nada afectam as percepções dos
leitores anglófonos de GEB, mas sinto que ajudam, em pequena escala, a
compensar o lamentável resultado da minha luta interior alguns anos antes.