Durante os
últimos trinta anos da sua vida, Albert Einstein tentou implacavelmente
encontrar a chamada teoria unificada do campo — uma teoria capaz de
descrever as forças da natureza dentro de um formalismo único, coerente e
englobador. Einstein não foi motivado pelas coisas que vulgarmente associamos
aos empreendimentos científicos, tais como tentar explicar este ou aquele
aspecto de alguns dados experimentais. Pelo contrário, ele foi guiado por uma
crença ardente de que o conhecimento mais profundo do universo iria revelar a
sua mais verdadeira maravilha: a simplicidade e o poder dos princípios em que é
baseado. Einstein queria explicar a forma de funcionar do universo com uma
clareza nunca antes alcançada, permitindo-nos a todos nós contemplar respeitosamente
toda a sua beleza pura e elegância.
Mas Einstein
nunca concretizou o seu sonho, em grande parte porque o baralho de cartas
estava viciado contra ele: no seu tempo, um grande número de aspectos
essenciais da matéria e das forças da natureza era ou desconhecido ou, na
melhor das hipóteses, muito pouco compreendido. Mas, na metade de século que
entretanto decorreu, físicos em cada nova geração — passando por testes e
sobressaltos e excursões que acabaram em becos sem saída — têm vindo a
construir firmemente sobre as descobertas dos seus predecessores, por forma a
edificar um conhecimento cada vez maior sobre o modo de funcionamento do
universo. E agora, tanto tempo depois de Einstein se ter empenhado na sua busca
de uma teoria unificada e de ter voltado de mãos vazias, os físicos finalmente
acreditam que encontraram um formalismo para juntar todas estas ideias numa
peça sem costuras — uma teoria única que, em princípio, é capaz de descrever
todos os fenómenos físicos. Esta teoria, a teoria de supercordas, é o
assunto que este livro retrata.
Escrevi O
Universo Elegante numa tentativa de tornar estas ideias incríveis, que
estão a emergir das primeiras linhas de investigação em física, acessíveis a um
largo espectro de leitores, em especial aqueles sem qualquer conhecimento
prévio de matemática ou física. Através de palestras que tenho dado ao longo
dos últimos anos, para audiências de público geral, tenho testemunhado um
crescente desejo por parte das pessoas de compreender o que a investigação
actual tem a dizer sobre as leis fundamentais do universo, de que forma essas
leis acarretam uma reconstrução monumental da nossa concepção do cosmo e que
desafios ainda se encontram no horizonte na decorrente busca dessa teoria
final. Espero que, ao explicar os principais sucessos da física desde o tempo
de Einstein e Heisenberg e ao descrever de que forma as suas descobertas
semearam os avanços da nossa era, este livro consiga enriquecer e satisfazer
essa curiosidade.
Espero também
que O Universo Elegante interesse aos leitores que têm alguma
experiência científica. Para os estudantes de ciência e seus professores,
espero que este livro cristalize algum do material básico da física moderna,
tal como relatividade restrita, relatividade geral e mecânica quântica, e que,
ao mesmo tempo, transmita alguma da excitação contagiante dos investigadores
que tentam agora alcançar a tão procurada teoria final. Para o leitor
entusiasta de ciência popular tentei explicar muitos dos estimulantes avanços
na nossa compreensão do cosmo que surgiram durante a última década. E para os
meus colegas das outras áreas científicas espero que este livro transmita, de
uma forma honesta e equilibrada, a razão pela qual os físicos teóricos de
cordas se encontram tão entusiasmados sobre o progresso que se tem desenrolado
na busca dessa teoria final sobre a natureza.
A teoria de
supercordas estende-se por uma grande rede. É um assunto vasto e profundo que
se baseia em muitas das descobertas centrais em física. Uma vez que a teoria
unifica as leis do muito grande com as do muito pequeno, leis que governam a
física nos recantos mais longínquos do cosmo e nos mais pequenos pedaços de
matéria, existem muitas avenidas por onde nos podemos dirigir para este
assunto. Escolhi focar-me no nosso crescente conhecimento do espaço e do tempo.
Penso que este caminho é particularmente cativador por conseguir mostrar uma
grande parte rica e fascinante das
novas ideias principais. Einstein mostrou ao mundo que o espaço e o tempo se
podem comportar de formas impressionantemente pouco familiares. E, agora, a
investigação de ponta juntou as suas descobertas num universo quântico com
numerosas dimensões escondidas incrustadas no tecido do
cosmo — dimensões cuja geometria profusamente entrelaçada pode
conter a chave para algumas das mais profundas questões alguma vez feitas.
Embora alguns destes conceitos sejam subtis, vamos ver que eles podem ser
entendidos através de analogias bastante terra-a-terra. E, ao serem
compreendidas, estas ideias fornecem uma renovada e revolucionária perspectiva
sobre o universo.
Ao longo deste
livro tentei manter-me perto da ciência e, ao mesmo tempo, dar ao leitor uma
compreensão intuitiva — muitas vezes através da analogia e da
metáfora — de como os cientistas alcançaram esta concepção actual do
cosmo. Embora eu evite uma linguagem técnica e com equações, devido aos
conceitos novos e radicais envolvidos, o leitor poderá ter de fazer uma pausa
aqui e ali, ponderar sobre uma secção aqui ou pensar sobre uma explicação ali,
por forma a acompanhar completamente a progressão de ideias. Algumas secções da
parte iv (que foca os
desenvolvimentos mais recentes) são um pouco mais abstractas que o resto; tenho
a precaução de avisar o leitor sobre estas secções e de estruturar o texto de
forma que elas possam ser omitidas numa primeira leitura com um impacte mínimo
na sequência lógica do livro. Incluí também um glossário de termos científicos
que poderá servir para o leitor refrescar a memória sobre muitas das ideias
introduzidas no texto principal. Embora o leitor mais casual possa querer
omitir as notas finais, o leitor mais assíduo encontrará nelas ampliações de
alguns pontos apresentados no texto, clarificações de ideias que foram no mesmo
simplificadas, bem como algumas incursões técnicas para aqueles que possuem
algum treino em matemática.
Devo
agradecimentos a muitas pessoas pela sua ajuda ao longo da escrita desta livro.
David Steinhardt leu o manuscripto com muito cuidado e forneceu generosamente
fortes sugestões editoriais e um apoio muito valioso. David Morrison, Ken
Vineberg, Raphael Kasper, Nicholas Boles, Steven Carlip, Arthur Greenspoon,
David Mermin, Michael Popowits e Shani Offen leram o manuscrito atentamente e
ofereceram reacções e sugestões detalhadas que melhoraram muito a apresentação.
Outras pessoas que leram todo ou parte do manuscrito e que ofereceram conselhos
e apoio são Paul Aspinwall, Persis Drell, Michael Duff, Kurt Gottfried, Joshua
Greene, Teddy Jefferson, Marc Kamionkowski, Yakov Kanter, Andras Kovacs, David
Lee, Megan McEwen, Nari Mistry, Hasan Padamsee, Ronen Plesser, Massimo Poratti,
Fred Sherry, Lars Straeter, Steven Strogatz, Andrew Strominger, Henry Tye,
Cumrun Vafa e Gabriele Veneziano. Devo um agradecimento especial a Raphael
Gunner pelas, entre muitas outras coisas, suas críticas positivas numa primeira
fase da escrita, críticas que ajudaram a criar a forma global do livro, e a
Robert Malley pelo seu apoio gentil, mas persistente, ao fazer-me, além de
pensar sobre o livro, pôr realmente a «pena no papel». Steven Weinberg e Sidney
Coleman ofereceram conselhos e assistência muito valiosa, e é um prazer
agradecer muitas interacções proveitosas com Carol Archer, Vicky Carstens,
David Cassel, Anne Coyle, Michael Duncan, Jane Forman, Erik Jendresen, Gary
Kass, Shiva Kumar, Robert Mawhinney, Pam Morehouse, Pierre Ramond, Amanda
Salles e Eero Simoncelli. Estou em dívida para com Costas Efthimiou pela sua
ajuda em confirmar factos e encontrar referências e por transformar os meus desenhos
iniciais em desenhos precisos de onde Tom Rockwell criou — com a paciência de um santo e
um olho artístico de mestre — as figuras que ilustram o texto. Também agradeço
a Andrew Hanson e Jim Sethna a sua ajuda na preparação de algumas das figuras
mais especializadas.
Por terem concordado
em ser entrevistados e em dar as suas perspectivas pessoais em diversos tópicos
aqui descritos, agradeço a Howard Georgi, Sheldon Glashow, Michael Green, John
Schwarz, John Wheeler, Edward Witten e, outra vez, Andrew Strominger, Cumrun
Vafa e Gabriele Veneziano.
Fico feliz ao
agradecer os comentários valiosos e sugestões críticas de Angela Von der Lippe
e a sensibilidade ao detalhe de Traci Nagle, os meus editores na W. W. Norton,
ambos tendo melhorado significativamente a clareza da apresentação. Agradeço
também aos meus agentes literários, John Brockman e Katinka Matson, por me
terem guiado de forma profissional na criação deste livro desde a ideia até à
publicação.
Por terem
generosamente dado apoio financeiro à minha investigação em física teórica por
mais de uma década e meia, agradeço profundamente à National Science
Foundation, à Alfred P. Sloan Foundation e ao Departamento de Energia dos EUA.
Talvez não seja surpreendente que a minha própria investigação se tenha focado
no impacte que a teoria de supercordas tem nos nossos conceitos de espaço e
tempo, e nalguns dos capítulos finais descrevo determinadas descobertas em que
tive a sorte de participar. Embora espere que o leitor goste de ler estes
relatos «pessoais», também me apercebo de que eles podem deixar uma impressão
exagerada do papel que tive no desenvolvimento da teoria de supercordas. Por
isso, deixem-me aproveitar esta oportunidade para agradecer aos mais de mil
físicos por esse mundo fora que são participantes cruciais e dedicados no esforço
de criação da última teoria do universo. Peço desculpas a todos aqueles cujo
trabalho não está incluído neste texto; isto apenas reflecte a perspectiva
temática que escolhi e as limitações de uma apresentação geral.
Finalmente,
agradeço do coração a Ellen Archer pelo seu amor sempre presente e pelo seu
apoio, sem os quais este livro nunca teria sido escrito.
Parte I
As Fronteiras
do Conhecimento
1
Ligados com corda
Chamar-lhe uma
operação de encobrimento seria de longe dramático de mais. No entanto, durante
mais de meio século — mesmo simultaneamente com o aparecimento dos maiores
feitos científicos de toda a história — os físicos têm estado serenamente
conscientes de que uma nuvem negra se aproxima no horizonte distante. O
problema é o seguinte: A física moderna está assente em dois pilares
fundamentais. Um deles é a teoria da relatividade geral, de Albert Einstein,
que fornece um modelo teórico que permite compreender o universo em grandes
escalas: estrelas, galáxias, agrupamentos de galáxias e ainda mais para além
disso, até à imensidão do próprio universo. O outro é a mecânica quântica, que
nos dá os princípios teóricos que permitem compreender o universo nas mais
pequenas escalas: moléculas, átomos e por aí abaixo até às partículas
subatómicas, como os electrões e os quarks. Ao longo de anos de investigação,
os físicos confirma- ram
experimentalmente, e com uma precisão quase inimaginável, todas as previsões feitas por cada uma
destas teorias. Mas estes mesmos procedimentos teóricos levam inexoravelmente
a uma outra conclusão perturbadora: Tal como estão formuladas presentemente, a
relatividade geral e a mecânica quântica não podem estar as duas certas.
As duas teorias que estão por trás dos tremendos progressos da física dos
últimos cem anos — progressos que explicaram a expansão dos céus e a
estrutura fundamental da matéria — são mutuamente incompatíveis.
Se o leitor nunca
tinha ouvido falar deste feroz antagonismo, pode neste momento estar a
perguntar-se porquê. A resposta não é difícil de encontrar. Em todas as
situações, excepto nas mais extremas, os físicos estudam coisas que são ou
pequenas e leves (como os átomos e os seus constituintes), ou enormes e pesadas
(como as estrelas e as galáxias), mas não ambas as coisas ao mesmo tempo. Isto
significa que eles têm de usar somente a mecânica quântica ou somente a
relatividade geral e podem, com um olhar furtivo, ignorar as ameaças que
sonoramente uma faz à outra. Durante cinquenta anos esta atitude não nos tor- nou tão obviamente felizes como o faria a
ignorância, mas esteve lá perto.
No entanto, o
universo pode ser extremista. Nas profundezas centrais de um buraco negro,
uma massa enorme encontra-se esmagada até proporções minúsculas. No instante do
big bang, todo o universo surgiu de uma noz microcópica cujo tamanho
faria um grão de areia parecer um colosso. Estes são reinos minúsculos e, no
entanto, são também incrivelmente maciços, e portanto requerem o emprego
simultâneo da relatividade geral e da mecânica quântica. Por razões que ficarão
mais claras à medida que continuarmos, as equações da relatividade geral e da
mecânica quântica, quando combinadas, começam a agitar-se, a tremer e a expelir
vapor como um automóvel acelerado até ao limite. Menos figurativamente,
perguntas sensatas sobre questões físicas provocam respostas sem qualquer
sentido da parte da amálgama infeliz destas duas teorias. Mesmo que estejamos dispostos
a deixar as questões sobre o interior profundo de um buraco negro ou o
princípio do universo envoltas em mistério, não podemos deixar de sentir que a
hostilidade entre a mecânica quântica e a relatividade geral nos está a alertar
para a existência de um mais profundo nível de conhecimento. Será mesmo
possível que, ao seu nível mais fundamental, o universo se encontre dividido,
requerendo um conjunto de leis para as coisas grandes e um conjunto diferente e
incompatível de leis para as coisas pequenas?
A teoria de
supercordas, uma jovem principiante quando comparada com os edifícios
veneráveis da mecânica quântica e da relatividade geral, responde com um não
ressoante. Intensas investigações realizadas ao longo da última década por
físicos e matemáticos de todo o mundo revelaram que esta nova maneira de
descrever a matéria no seu nível mais fundamental resolve as tensões entre a
relatividade geral e a mecânica quântica. Na verdade, a teoria de supercordas revela
mais ainda: neste novo cenário a relatividade geral e a mecânica quântica precisam
uma da outra para que a teoria faça sentido. De acordo com a teoria de
supercordas, o casamento das leis que regem o grande e o pequeno é não só
feliz, como também inevitável.
Estas são
algumas das boas notícias. Mas a teoria de supercordas — ou simplesmente
teoria de cordas — leva esta união a mais um gigante passo em frente. Ao
longo de três décadas, Einstein procurou uma teoria unificada da física, uma
teoria que entrelaçasse todas as forças da natureza e todos os constituintes da
matéria numa única tapeçaria universal teórica. E falhou. Agora, na alvorada do
novo milénio, os proponentes da teoria de cordas afirmam que as malhas desta
tapeçaria unificada foram finalmente reveladas. A teoria de cordas tem o potencial
de mostrar que todos os diversos acontecimentos do universo — desde a
dança frenética dos quarks subatómicos até à valsa aristocrática das estrelas
binárias, desde a bola de fogo primordial do big bang até ao rodopio
majestoso das galáxias nos céus — são consequência de um grande princípio
físico, de uma equação mestra.
Estas
características da teoria de cordas requerem que alteremos drasticamente as
nossas concepções de espaço, tempo e matéria, e por isso demoram algum tempo
até se tornarem familiares e as podermos apreciar com conforto. No entanto,
como se tornará claro, quando examinada no seu contexto apropriado, a teoria de
cordas emerge como um produto dramático, mas natural, das descobertas
revolucionárias da física dos últimos cem anos. Veremos de facto que o conflito
entre a relatividade geral e a mecânica quântica não é na verdade o primeiro,
mas sim o terceiro numa série de conflitos cruciais que surgiram no século
passado e cuja resolução tem resultado em revisões estonteantes do nosso modo
de compreender o universo.
Os três conflitos
O primeiro
conflito, já conhecido desde o fim do século xix,
está relacionado com propriedades curiosas do movimento da luz. Indo direitos
ao assunto, de acordo com as leis do movimento de Isaac Newton, se corrermos
suficientemente depressa podemos apanhar um feixe de luz que acabou de partir,
enquanto de acordo com as leis do electromagnetismo de James Clerk Maxwell não
o conseguiríamos fazer. Como será discutido no capítulo 2, Einstein resolveu
este conflito através da sua teoria da relatividade restrita e, ao fazê-lo,
revolucionou por completo a nossa maneira de compreender o espaço e o tempo. De
acordo com a relatividade restrita, o espaço e o tempo deixam de poder ser
vistos como conceitos universais gravados em pedra, sentidos por toda a gente
da mesma maneira. Em vez disso, na reinterpretação de Einstein, espaço e tempo
passam a ser conceitos maleáveis, cuja forma e aparência dependem do estado de
movimento de cada um.
O
desenvolvimento da relatividade restrita preparou de imediato o terreno para o
aparecimento do segundo conflito. Uma das conclusões do trabalho de Einstein é
que nenhum objecto — e até nenhuma influência ou perturbação de nenhum
tipo — pode viajar mais depressa do que a luz. No entanto, como iremos
descrever no capítulo 3, a teoria gravitacional de Newton, que é
experimentalmente um sucesso e intuitivamente satisfatória, envolve
«influências» que são transmitidas através de vastas regiões de espaço instantaneamente.
Foi Einstein quem, mais uma vez, se adiantou e resolveu este conflito, propondo
uma nova concepção da gravidade com a sua teoria geral da relatividade de 1915.
Espaço e tempo não só são influenciados pelo estado de movimento de cada um,
mas também podem encurvar-se e formar rugas como resposta à presença de matéria
ou energia. São estas deformações do tecido do espaço e tempo que, como
veremos, transmitem a força gravítica de um local para outro. Espaço e tempo,
portanto, já não podem ser vistos como palcos inertes onde os acontecimentos do
universo se desenrolam; em vez disso, através da relatividade restrita e depois
da relatividade geral, eles são participantes íntimos nesses própios
acontecimentos.
Uma vez mais a
história se repete: embora a descoberta da relatividade geral tenha resolvido
um conflito, também criou um outro. Desde 1900, e ao longo de três décadas, os
físicos desenvolveram a mecânica quântica (discutida no capítulo 4) em resposta
a um número de problemas prementes que surgiram quando os conceitos da física do século xix
foram aplicados ao mundo microscópico. Como mencionámos acima, este terceiro e
mais profundo dos conflitos tem origem na incompatibilidade entre a mecânica
quântica e a relatividade geral. Como veremos no capítulo 5, a suave curvatura
da forma geométrica do espaço que emerge da relatividade geral é frontalmente
antagónica ao frenético e borbulhante comportamento microscópico do universo
que a mecânica quântica implica. Uma vez que uma resolução só surgiu na década
de 80 deste século com a sugestão da teoria de cordas, este conflito é
justamente conhecido como o problema central da física moderna. A teoria de
cordas, apoiando-se na relatividade restrita e na relatividade geral, requer,
além disso, próprias e severas modificações das nossas concepções de espaço e tempo.
Por exemplo, a maioria de nós acredita que o universo tem três dimensões
espaciais. No entanto, isso não é verdade de acordo com a teoria de cordas, que
afirma ter o nosso universo muitas mais dimensões do que parece à primeira vista — dimensões
que se encontram muito compactamente enroladas no tecido rugoso do cosmo. Estas
ideias notáveis sobre a natureza do espaço e tempo são tão centrais que as
usaremos como um guia no caminho que vamos seguir. Num sentido concreto, a
teoria de cordas é a história do espaço e tempo desde Einstein.
Para podermos
perceber o que a teoria de cordas realmente é precisamos de dar um passo atrás
e descrever brevemente aquilo que aprendemos ao longo do último século acerca
da estrutura microscópica do universo.
O universo no seu mais pequeno:
o que sabemos acerca da matéria
Os Gregos
antigos afirmaram que a matéria do universo é formada de pequenos ingredientes
indivisíveis chamados átomos. Tal como o número enorme de palavras de
uma linguagem alfabética é formado pela riqueza das possíveis combinações de um
pequeno número de letras, os Gregos sugeriram que também os vastos tipos
diferentes de objectos materiais poderiam resultar da combinação de um pequeno
número de constituintes elementares distintos. Foi uma proposta digna de
adivinho. Mais de 2000 anos mais tarde ainda acreditamos que isso é verdade, embora a identidade dessas
unidades fundamentais tenha vindo a ser revista ao longo do tempo. No século xix, os cientistas mostraram que
substâncias familiares como o oxigénio ou o carbono possuem constituintes
reconhecíveis mais pequenos que todos os outros; seguindo a tradição proposta
pelos Gregos, chamaram-lhes átomos. O nome pegou, embora a história tenha
mostrado que não é muito apropriado porque é possível sem dúvida «cortar»
átomos e separá-los em partes mais pequenas. Por volta do começo da década de
30, o trabalho colectivo de J. J. Thompson, Ernest Rutherford, Niels Bohr e
James Chadwick tinha estabelecido o modelo atómico do tipo sistema-solar,
familiar para a maioria de nós. Longe de serem os constituintes fundamentais,
os átomos são formados por um núcleo, que contém protões e neutrões e que está
rodeado por enxames de electrões orbitais.
Durante algum
tempo, os físicos pensaram que os protões, neutrões e electrões eram os
«átomos» dos Gregos. Mas, em 1968, experimentalistas no Stanford Linear
Accelerator Center, fazendo uso de uma cada vez maior capacidade tecnológica
para a exploração das profundezas da matéria, descobriram que os protões e os
neutrões também não são fundamentais. Em vez disso, mostraram que cada um é
formado por três partículas mais pequenas chamadas quarks — um nome
inspirado, retirado de uma passagem do romance Finnegan’s Wake, de James
Joyce, pelo físico teórico Murray Gell-Mann, que tinha anteriormente feito
conjecturas sobre a sua existência. Os experimentalistas confirmaram que os
quarks formam, eles próprios, duas variedades diferentes que foram apelidadas,
um pouco menos creativamente, de up e down.
Tudo o que observamos
no mundo terrestre e também lá em cima nos céus é aparentemente formado por
combinações de electrões, quarks-up e quarks-down. Não existe qualquer
resultado experimental que indique que alguma destas partículas seja formada
por outras mais pequenas.
Mas existem
muitos indícios de que o próprio universo contém outras partículas como
ingredientes adicionais. Por volta de meados dos anos 50, Frederick Reines e
Clyde Cowan encontraram dados experimentais conclusivos quanto à existência de
um quarto tipo de partícula fundamental chamada neutrino — uma partícula
cuja existência havia sido prevista no início dos anos 30 por Wolfgang Pauli.
Os neutrinos mostraram-se extremamente difíceis de encontrar, pois são como que
partículas fantasmas que apenas raramente interagem com outra matéria: um
neutrino de energia média pode facilmente passar através de muitos triliões de
quilómetros de chumbo sem que isso tenha qualquer efeito na sua trajectória.
Isto deve deixar o leitor aliviado, pois neste momento, enquanto lê este texto,
biliões de neutrinos ejectados para o espaço pelo Sol estão a passar pelo seu
corpo, bem como pela Terra, dando os primeiros passos da sua solitária viagem
pelo cosmo. No final dos anos 30, uma outra partícula chamada muão
— idêntica ao electrão, excepto que um muão é aproximadamente 200 vezes
mais pesado — foi descoberta por físicos que estudavam raios cósmicos
(chuvas de partículas que bombardeiam a Terra vindas do espaço exterior).
Porque não havia nada na ordem cósmica, nenhum puzzle por resolver,
nenhum argumento particular que necessitasse da existência do muão, o físico de
partículas Isidor Isaac Rabi, vencedor do Prémio Nobel, acolheu a descoberta do
muão com um não muito entusiástico «E quem encomendou isso?». E, no entanto,
ali estava. E mais ainda estava para vir.
Usando
tecnologia cada vez mais poderosa, os físicos têm continuado a fazer colidir
bocados de matéria uns contra os outros e cada vez a uma energia mais elevada,
conseguindo assim momentaneamente ir recriando condições não vistas desde a
ocorrência do big bang. Nos restos deixados pelas colisões têm então
procurado novos ingredientes fundamentais para adicionar à crescente lista de
novas partículas. Eis o que eles encontraram: quatro novos quarks — charm,
strange, bottom e top — e um outro primo do electrão ainda mais
pesado, chamado tau, bem como duas outras partículas com propriedades
semelhantes às dos neutrinos (chamadas neutrino do muão e neutrino do
tau, para as distinguir do neutrino original, agora chamado neutrino do
electrão). Estas partículas são produzidas através de colisões a alta
energia e existem apenas efemeramente; não são constituintes de nada que
possamos encontrar casualmente. Mas isto não é ainda o final da história. Cada
uma destas partículas tem uma antipartícula — uma partícula de massa
idêntica, mas com outras diversas propriedades opostas, tal como a carga
eléctrica (e também as cargas das outras forças que discutiremos mais adiante).
Por exemplo, a antipartícula correspondente ao electrão é denominada positrão — tem
exactamente a mesma massa que um electrão, mas a sua carga eléctrica é + 1,
enquanto a carga eléctrica do electrão é - 1. Quando postas em contacto,
matéria e antimatéria podem aniquilar-se uma à outra, produzindo energia
pura — e é por isso que existe extremamente pouca antimatéria de
origem natural no mundo que nos rodeia.
Os físicos
reconheceram padrões de comportamento destas partículas, que se encontram na
tabela 1.1. As partículas de matéria organizam-se em três grupos, que são muitas
vezes chamados famílias. Cada família contém dois dos quarks, um
electrão ou um dos seus primos e um neutrino de uma dada espécie. Os tipos de
partículas correspondentes, ao longo das três famílias, têm propriedades
idênticas, com excepção da sua massa, que cresce cada vez mais de família para
família. O resultado que se destaca é que neste momento os físicos analisaram a
estrutura da matéria em escalas da ordem de um bilionésimo de um bilionésimo de
um metro e mostraram que tudo o que foi encontrado até à data
— quer exista naturalmente quer tenha sido criado artificialmente com
gigantescos trituradores de átomos — consiste em alguma combinação de
partículas destas três famílias e dos seus parceiros de antimatéria.
Uma breve
olhadela à tabela 1.1 deverá bastar para deixar o leitor com um sentimento de
espanto ainda mais forte que o de Rabi, aquando da descoberta do muão. A
organização em famílias deixa pelo menos alguma aparência de ordem, mas
inúmeros «porquês» saltam à vista. Porque existem tantas partículas
fundamentais, em particular quando é aparente que a grande maioria das coisas
que constituem o mundo que nos rodeia apenas necessita de electrões, quarks-up
e quarks-down? Porque existem três famílias? Porque não apenas uma família, ou
quatro famílias, ou qualquer outro número? Porque têm as partículas massas tão
variadas entre elas — porque, por exemplo, o tau pesa aproximadamente
3520 vezes o que pesa um electrão? Porque pesa o quark-top aproximadamente
40 200 vezes mais do que um quark-up? Estes são números muito estranhos e
aparentemente aleatórios. Será que eles surgiram por acaso, por alguma escolha
divina, ou existirá uma explicação científica compreensível para estes aspectos
fundamentais do nosso universo?
As forças, ou onde está o fotão?
As coisas tornam-se ainda mais complicadas quando consideramos também
as forças da natureza. O mundo à nossa volta está recheado de maneiras de se
exercerem influências: bolas podem ser atingidas com bastões, entusiastas de bungee
podem atirar-se em direção à Terra a
partir de plataformas altíssimas, ímanes podem ser usados para manter
comboios super-rápidos suspensos ligeiramente acima dos carris, os contadores
de Geiger emitem pequenos tiques na presença de material radioactivo, bombas
nucleares podem explodir. Podemos exercer influência sobre objectos
empurrando-os, puxando-os ou sacudindo-os vigorosamente; atirando ou
disparando outros objectos contra eles; esticando-os, torcendo-os ou
esmagando-os; congelando-os, aquecendo-os ou queimando-os. Durante as últimas
centenas de anos, os físicos têm acumulado indicações de que todas estas
interacções entre vários objectos e materiais, assim como de milhares e
milhares de outras que encontramos diariamente, podem ser reduzidas a
combinações de somente quatro forças fundamentais. Uma destas forças é a força
gravítica. As outras são a força electromagnética, a força fraca
e a força forte.
A gravidade é a
mais familiar destas forças, sendo responsável por nos mantermos em órbita à
volta do Sol e também por termos os pés firmemente plantados na Terra. A massa
de um objecto mede a quantidade de força gravitacional que ele pode exercer,
assim como sentir. A força electromagnética é, das quatro, a força que a seguir
nos é mais familiar. É a força que faz mexer todas as conveniências da vida
moderna — luzes, computadores, TV, telefones — e que é responsável
pela enorme potência dos relâmpagos durante as trovoadas e pelo toque suave de
uma mão humana. Microscopicamente, a carga eléctrica de uma partícula
desempenha o mesmo papel para a força electromagnética que a massa desempenha
para a força gravítica: determina com que intensidade pode a partícula exercer
ou sentir a força electromagnética.
As forças forte
e fraca são menos familiares porque a sua intensidade diminui muito rapidamente
assim que deixamos a escala das distâncias subatómicas; elas são as forças
nucleares. É por esta razão que estas duas forças só foram descobertas muito
mais recentemente. A força forte é responsável por manter os quarks «colados» uns
aos outros dentro dos protões e neutrões e por manter protões e neutrões unidos
dentro dos núcleos atómicos. A força fraca é mais conhecida como a força
responsável pelo decaimento radioactivo de substâncias como o urânio ou o
cobalto.
Durante o último
século, os físicos identificaram duas características comuns a todas estas
forças. Em primeiro lugar, como veremos no capítulo 5, ao nível microscópico
todas as forças têm uma partícula associada em que podemos pensar como a
«quantidade» mais pequena dessa força. Quando emitimos um feixe de laser — uma
«pistola de raios electromagnética» —, estamos a emitir correntes de
fotões, os «pacotes» mais pequenos de força electromagnética. De um modo
semelhante, os constituintes mais pequenos dos campos das forças fraca e forte
são partículas chamadas bosões fracos e gluões. (O nome gluão é
particularmente descritivo: Podemos pensar nos gluões como os ingrediente da
supercola microscópica que mantém os núcleos atómicos unidos.) Por altura de
1984, os experimentalistas tinham já estabelecido definitivamente a existência
e as propriedades detalhadas destes três tipos de partículas de força,
apresentadas na tabela 1.2. Os físicos acreditam que a força gravítica também
tem uma partícula associada — o gravitão —, mas a sua existência
ainda não foi confirmada experimentalmente.
A segunda
propriedade partilhada por todas estas forças é que, tal como a massa determina
como a gravidade afecta uma partícula e a carga eléctrica determina como essa
partícula é afectada pela força electromagnética, as partículas também possuem
determinados valores de «carga forte» e «carga fraca», que determinam como elas
são afectadas pelas forças forte e fraca. (Estas propriedades são examinadas
em detalhe na tabela das notas referentes a este capítulo.)1 Mas, tal como com as massas das
partículas, para além do facto de os físicos experimentais terem medido com
todo o cuidado estas propriedades, ninguém tem uma explicação para o porquê
de o nosso universo ser composto de tais partículas, com estas massas e cargas
particulares.
Apesar das suas
propriedades comuns, um estudo das forças fundamentais faz simplesmente que se
ponham mais questões. Por- que
existem, por exemplo, quatro forças fundamentais? Porque não cinco, ou três ou
talvez só uma? Porque têm estas forças proprie- dades tão distintas? Porque estão as forças forte e fraca
confinadas a operar somente à
escala microscópica, enquanto a gravidade e
a força electromagnética têm uma influência de alcance ilimitado? E porque diferem tão enormemente as
intensidades intrínsecas destas forças?
Para se
aperceber melhor da última pergunta, o leitor pode imaginar ter um electrão na
sua mão esquerda e um outro na sua mão direita e tentar aproximar estas duas
partículas com carga eléctrica idêntica até ficarem muito perto uma da outra. A
sua mútua atracção gravitacional tenderá a aproximá-las, ao passo que a
repulsão eléctrica tentará afastá-las. Qual das duas será mais forte? Não há
qualquer dúvida: a repulsão electromagnética é cerca de um milhão de um bilião
de um bilião de um bilião de um bilião (1042) mais forte! Se o seu
bíceps direito representasse o poder da força gravítica, então o seu bíceps
esquerdo estender-se-ia para além da fronteira do universo conhecido para
conseguir representar o poder da força electromagnética. A única razão por que
a presença da força electromagnética não ofusca completamante a gravidade no
mundo que nos rodeia é o facto de a maioria das coisas ser composta de quantidades
idênticas de carga eléctrica positiva e negativa cujas forças se anulam uma à
outra. Por outro lado, como a gravidade é sempre atractiva, não existem neste
caso cancelamentos análogos — mais matéria significa sempre mais
gravidade. No entanto, a um nível fundamental, a gravidade é uma força
fraquíssima. (Este facto explica porque é tão difícil confirmar
experimentalmente a existência do gravitão. É um grande desafio encontrar a
manifestação mais pequena da força mais fraca.) Várias experiências também mostraram
que a força forte é cerca de cem vezes mais forte que a força electromagnética
e cerca de cem mil vezes mais forte que a força fraca. Mas qual será a
explicação — a raison d’être — para o facto de o nosso
universo ter estas características?
Esta questão não
surge de uma inconsequente discussão filosófica sobre as razões por que as
coisas acontecem de uma maneira, e não de outra; o universo seria um lugar
drasticamente diferente se as propriedades da matéria e das partículas de
força fossem alteradas mesmo que só um pouco. Por exemplo, a existência de
núcleos estáveis que formam os mais de cem elementos da tabela periódica
depende delicadamente da razão entre as intensidades das forças forte e
electromagnética. Os protões no núcleo repelem-se uns aos outros electromagneticamente;
a força forte actuando nos seus quarks constituintes, felizmente, supera esta
repulsão e obriga os protões a manterem-se fortemente unidos. Mas uma pequena
alteração nas relativas intensidades das duas forças facilmente perturbaria
este equilíbrio e causaria a desintegração da maioria dos núcleos atómicos.
Mais ainda, se a massa do electrão fosse algumas vezes maior do que é, os
electrões e os protões tenderiam a combinar-se e a formar neutrões, engolindo
os núcleos de hidrogénio (o elemento mais simples do universo, com um núcleo
constituído por um só protão) e, mais uma vez, complicando a produção de
elementos mais complexos. As estrelas dependem da fusão entre núcleos estáveis
e não se formariam com tais alterações à física fundamental. A força da
gravidade também tem um papel formativo. A densidade esmagadora de matéria no
coração das estrelas alimenta as suas fornaças nucleares e é a base do
resultante brilho da luz das estrelas. Se a intensidade da força gravítica fosse
aumentada, a matéria estelar ficaria ligada mais fortemente e isso causaria um
aumento significativo no ritmo das reacções nucleares. Tal como um foguete
brilhante gasta o seu combustível mais depressa que uma vela ardendo
lentamente, também um aumento no ritmo das reacções nucleares faria que
estrelas como o Sol queimassem o seu combustível muito mais depressa, o que
teria um efeito devastador na formação da vida tal como a conhecemos. Por outro
lado, se a intensidade da força gravítica fosse diminuída significativamente, a
matéria não formaria aglomerados e do mesmo modo se impediria a formação das
estrelas e galáxias. Poderíamos continuar, mas a ideia ficou clara: o universo
é como é porque a matéria e as partículas de força são como são. Mas será que
existe uma explicação científica que nos diz porque é que elas são
assim?
A teoria de cordas: a ideia básica
A teoria de
cordas oferece-nos um paradigma poderoso do qual, pela primeira vez, emergem
maneiras de responder a estas questões. Vamos primeiro descrever a ideia
básica.
As partículas da
tabela 1.1 são as «letras» de toda a matéria. Tal como as suas correspondentes
linguísticas, elas aparentemente não têm nenhuma subestrutura interna. A teoria
de cordas contradiz isso. De acordo com a teoria de cordas, se pudéssemos
examinar essas partículas com ainda maior
precisão — com uma precisão muitas ordens de magnitude para além do
que a presente tecnologia é capaz —, iríamos descobrir que cada uma delas
não é pontual, mas que consiste, em vez disso, num minúsculo loop
unidimensional. Tal como um elástico infinitamente fino, cada partícula contém
um filamento dançante que vibra e oscila que os físicos, na falta da elegância
literária de Gell-Mann, chamaram corda. Na figura 1.1 está ilustrada a
ideia essencial da teoria de cordas, começando-se com um pedaço de matéria
comum — uma maçã — e ampliando repetidamente cada vez mais a sua
estrutura para se revelarem os seus ingredientes em escalas cada vez mais
pequenas. A teoria de cordas acrescenta mais uma nova escala microscópica, a de
um loop a vibrar, à progressão já previamente conhecida que partia dos
átomos e passava pelos protões, neutrões, electrões e até pelos quarks2.
Embora tal não
seja de modo nenhum evidente, veremos no capítulo 6 que esta simples substituição
de partículas constituintes de materiais pontuais por cordas resolve a
incompatibilidade entre a mecânica quântica e a relatividade geral. A teoria de
cordas, portanto, desfaz o nó górdio central da física teórica contemporânea.
Esta é uma conquista tremenda, mas é só uma das razões por que a teoria de
cordas tem gerado tantas expectativas.
A teoria de cordas como a teoria unificada de tudo
Nos tempos de
Einstein, as forças forte e fraca ainda não tinham sido descobertas, mas para
ele até a existência de duas forças distintas — a gravidade e o
electromagnetismo — era profundamente perturbadora. Para Einstein era
inaceitável que a natureza se fundamentasse num design tão extravagante.
Este foi o ponto de partida para a sua jornada de trinta anos na procura da
chamada teoria do campo unificada, que ele esperava que conseguisse
mostrar que estas duas forças são de facto manifestações de um mesmo grande
princípio fundamental. Esta busca quixotesca isolou Einstein da física
praticada pela maioria dos outros físicos, que compreensivelmente achavam mais
excitante mergulhar nos recém-aparecidos desenvolvimentos da mecânica quântica.
Ele escreveu a um amigo no princípio da década de 40: «Tornei-me num velho
solitário que é sobretudo conhecido porque não usa meias e é exibido como uma
curiosidade em ocasiões especiais.»3
Einstein estava
simplesmente à frente do seu tempo. Mais de meio século depois, o seu sonho de
uma teoria unificada tornou-se no Santo Gral da física moderna. E uma parte
apreciável da comunidade física e matemática tem estado cada vez mais
convencida de que a teoria de cordas pode fornecer a resposta. De um único
princípio — o de que tudo ao nível microscópico é formado por combinações
de cordéis vibrantes —, a teoria de cordas fornece um cenário de
explicações capaz de incluir todas as forças e toda a matéria.
A teoria de
cordas proclama, por exemplo, que as propriedades observadas das partículas, os
dados resumidos nas tabelas 1.1 e 1.2, são reflexos das várias maneiras como
uma corda pode vibrar. Tal como as cordas de um violino ou de um piano têm
frequências de ressonância com que preferem vibrar — efeitos que os nossos
ouvidos sentem como várias notas musicais e as suas harmónicas mais
altas —, o mesmo se aplica aos loops da teoria de cordas. Mas
veremos que, em vez de se produzirem notas musicais, cada um dos modos de
vibração preferidos de uma corda se realiza como uma partícula cujas cargas de
massa e de força são determinadas pelo padrão de oscilação da corda. O electrão
é uma corda a vibrar de uma maneira, o quark-up é uma corda a vibrar de uma
outra maneira diferente, etc. Longe de ser uma colecção de factos experimentais
caóticos, na teoria de cordas as propriedades das partículas são manifestação
de uma única característica física: os
modos ressonantes de vibração — a música, digamos assim — dos
loops fundamentais de corda. A mesma ideia também se aplica às forças da
natureza. Como veremos, as partículas de força também estão associadas a
estados particulares de vibração de cordas e portanto tudo, toda a matéria e
todas as forças, é unificado sob o mesmo conceito de oscilações de
corda — as «notas» que as cordas tocam.
Pela primeira
vez na história da física temos, portanto, um contexto com a capacidade de
explicar todas as características fundamentais sobre as quais o universo é
construido. Por esta razão, a teoria de cordas é por vezes descrita como uma
possível «teoria de tudo» (TDT), teoria «última» ou «final». Estes grandiosos
termos descritivos são usados como significando a mais profunda possível teoria
da física — uma teoria que está por trás de todas as outras, uma teoria
que não requer e nem sequer deixa espaço para outra base explanatória mais
profunda. Na prática, muitos dos físicos de cordas adoptam um ponto de vista mais
«terra-à-terra» e pensam numa TDT num sentido mais limitado de uma teoria capaz
de explicar as propriedades das partículas fundamentais e das forças por meio
das quais elas interagem umas com as outras. Um reducionista convicto diria que
tal não significa de modo nenhum uma limitação e que, em princípio,
absolutamente tudo, desde o big bang até ao facto de às vezes sonharmos
acordados, pode ser descrito em termos dos processos físicos básicos que
envolvem os constituintes fundamentais da matéria. Segundo o reducionista, se
compreendemos tudo sobre os ingredientes, então compreendemos tudo.
Esta filosofia
reducionista facilmente origina debates acalorados. Muitos julgam que é uma
vaidade inútil, e até mesmo repugnante, afirmar que as maravilhas da vida e do
universo são meros reflexos de partículas elementares dançando uma dança
fortuita coreografada pelas leis da
física. Será mesmo que os sentimentos de alegria, pena ou aborrecimento não
passam de reacções químicas no cérebro — reacções entre moléculas e átomos
que, ainda mais microscopicamente, são reacções entre algumas das partículas
da tabela 1.1, que não passam de cordas a vibrar? Em resposta a esta linha de
crítica, o Prémio Nobel Steven Weinberg acautela no seu livro Dreams of a
Final Theory:
No outro lado do espectro estão os opositores do
reducionismo, que se encontram chocados com o que entendem ser a frieza da
ciência moderna. Qualquer que seja o ponto a que eles e o seu mundo possam ser
reduzidos a uma questão de partículas e campos e das suas interacções, eles
sentem--se diminuídos por saberem isso [...] Eu não tentaria responder a estes
críticos com um discurso enérgico sobre a beleza da ciência moderna. O ponto de vista reducionista é frio e
impessoal. Tem de ser aceite tal como é, não porque gostemos dele, mas porque é
assim que o mundo funciona4.
Algumas pessoas concordam com este ponto de vista firme, outras não.
Outros tentaram
argumentar que desenvolvimentos recentes como a teoria do caos nos dizem que há
novos tipos de leis em jogo que surgem quando o nível de complexidade do
sistema aumenta. Compreender o comportamento de um electrão ou quark é uma
coisa; usar este conhecimento para compreender o comportamento de um furacão é
outra coisa muito diferente. Neste ponto a maioria concorda. Mas as opiniões
divergem quanto ao problema de saber se os diversos e inesperados fenómenos que
podem ocorrer em sistemas mais complexos que partículas individuais significam
de facto a existência de novos princípios físicos, ou se os princípios físicos
envolvidos são derivados e assentam, embora de uma maneira terrivelmente
complicada, nos princípios físicos que governam o número enorme de
constituintes fundamentais. A minha própria opinião é que eles não representam
novas leis físicas independentes. Embora seja difícil explicar as propriedades
de um furacão em termos da física de electrões e quarks, eu vejo isso como uma
situação de impossibilidade de cálculo, não como um indicador da necessidade de
novas leis físicas. Mas, mais uma vez, há algumas pessoas que discordam deste
ponto de vista.
O que está
largamente fora de questão, e que é de importância primordial para a viagem
descrita neste livro, é que, mesmo que se aceitem os princípios debatíveis do
reducionista convicto, princípios são uma coisa e a prática é outra muito
diferente. Quase toda a gente acredita que encontrar uma TDT não significaria
de maneira nenhuma que a psicologia, biologia, geologia, química e até a física
ficassem resolvidas ou nalgum sentido abrangidas. O universo é um lugar de tal
modo maravilhosamente rico e complexo que a descoberta da teoria final, no
sentido que temos estado a descrever, não ditaria o fim da ciência. Muito pelo
contrário: a descoberta da TDT — a última explicação do universo ao seu
nível mais microscópico, uma teoria que
não exija mais nenhuma explicação ainda mais profunda — forneceria
a fundação mais firme sobre a qual poderíamos construir a nossa compreensão do
mundo. A sua descoberta marcaria um começo, não um fim. A teoria final seria um
pilar inamovível de coerência, assegurando-nos para sempre que o universo é um
lugar que conseguimos entender.
Em que estado está a teoria de cordas
A preocupação
central deste livro é a de explicar o funcionamento do universo de acordo com a
teoria de cordas, com uma ênfase principal nas implicações desses resultados
para a nossa compreensão de espaço e tempo. Ao contrário de muitas outras
exposições sobre desenvolvimentos científicos, esta não se dirige a uma teoria
que esteja completamente resolvida, confirmada por vigorosos resultados
experimentais ou aceite pela comunidade científica. A razão para este facto,
como veremos ao longo dos capítulos seguintes, é que a teoria de cordas é uma
construção teórica de tal modo sofisticada e profunda que, mesmo com o
progresso impressionante que se atingiu nos últimos vinte anos, ainda temos
muito caminho a percorrer antes de podermos dizer que somos os seus mestres.
Consequentemente,
a teoria de cordas deve ser vista como trabalho em desenvolvimento e cujos
resultados parciais revelaram já ideias surpreendentes sobre a natureza do
espaço, tempo e matéria. A união harmoniosa entre a mecânica quântica e a
relatividade geral é um sucesso maior. Além disto, ao contrário de todas as
teorias anteriores, a teoria de cordas tem a capacidade de responder a questões
primordiais relacionadas com os constituintes e forças mais fundamentais da
natureza. De igual importância, mas mais difícil de transmitir, é a elegância
notável das respostas e do cenário em que se podem formular essas respostas que
a teoria de cordas propõe. Por exemplo, na teoria de cordas, muitos aspectos da
natureza que podem parecer detalhes técnicos arbitrários — como o número
de partículas fundamentais distintas e as suas propriedades respectivas —
têm origem em aspectos essenciais e concretos da geometria do universo. Se a
teoria de cordas estiver certa, o tecido microscópico do nosso universo é um
labirinto multidimensional ricamente entrelaçado onde as cordas se torcem e
vibram sem fim, tamborilando ritmicamente as leis do cosmo. Longe de serem detalhes acidentais, as propriedades dos
constituintes elementares da natureza estão profundamente relacionadas com o
tecido de espaço e tempo. Numa última análise, no entanto, nada serve de
substituto para predições concretas e testáveis que possam determinar se a
teoria de cordas levantou de facto o véu de mistério que esconde as verdades
mais profundas do nosso universo. Talvez demore algum tempo até que o nosso
nível de compreensão seja suficientemente profundo para atingirmos este
objectivo, embora, como veremos no capítulo 9, resultados experimentais possam,
talvez dentro de dez anos, fornecer apoios circunstanciais à teoria de cordas.
Além disto, veremos no capítulo 13 que a teoria de cordas resolveu um puzzle
central relacionado com os buracos negros e com a chamada entropia de
Bekenstein-Hawking, que durante mais de vinte cinco anos tinha resistido
teimosamente a uma resolução mais convencional. Este sucesso convenceu muitos
de que a teoria de cordas está agora a fornecer-nos o nosso conhecimento mais
profundo sobre o funcionamento do universo. Edward Witten, um dos pioneiros e
um dos peritos líderes em teoria de cordas, resume a situação dizendo que «a
teoria de cordas é um pedaço da física do século xxi que caiu por acaso no século xx», uma afirmação primeiro proferida pela celebrada física
italiana Danielle Amati5. Num certo sentido, então, é como se os
nossos antepassados no fim do século xix
tivessem sido presenteados com um supercomputador dos dias de hoje, mas sem o
manual de instruções. Através de inventivos processos de tentativa e erro,
algumas indicações do poder do supercomputador poderiam tornar-se evidentes,
mas seria necessário um esforço enérgico e prolongado para atingir a mestria na
sua utilização. Essas indicações do poder do super-computador, tal como os
nossos vislumbres do poder explanatório da teoria de cordas, teriam sido uma
motivação muito forte para se tentar obter o seu domínio completo. Motivos
parecidos levam hoje uma geração de físicos teóricos a perseguir energicamente
o completo e preciso conhecimento analítico da teoria de cordas.
Os comentários
de Witten e de outros peritos da área indicam que poderá levar décadas ou até
mesmo séculos até que a teoria de cordas esteja completamente compreendida e
desenvolvida. Isto pode muito bem ser verdade. Na realidade, a matemática da
teoria de cordas é tão complicada que, até à data, ninguém sabe exactamente
quais são as equações da teoria. Em vez disso, os físicos conhecem apenas
aproximações a essas equações, e mesmo essas aproximações são tão complicadas
que até agora só parcialmente foram resolvidas. Apesar disso, uma série
inspiradora de descobertas na última metade da década de 90 — descobertas
que responderam a questões teóricas de uma dificuldade que até aqui era
inimaginável — podem indicar que um conhecimento quantitativo completo da
teoria de cordas pode estar muito mais perto do que se julgava inicialmente. Em
todo o mundo, os físicos estão a desenvolver técnicas poderosas que transcendem
as numerosas aproximações feitas até aqui, colocando colectivamente no lugar as
peças do puzzle da teoria de cordas a um ritmo rápido.
Surpreendentemente,
estes desenvolvimentos estão a proporcionar novas posições para se
reinterpretarem alguns aspectos mais básicos da teoria que já tinham sido
arrumados há algum tempo. Por exemplo, uma pergunta que o leitor poderá fazer
ao olhar para a figura 1.1 é: porquê cordas? Porque não pequenos discos de
jogar frisbee? Ou bolhas microscópicas? Ou uma combinação de todas estas
possibilidades? Como veremos no capítulo 12, os resultados mais recentes mostram que estes tipos diferentes de ingredientes têm
um papel importante na teoria de cordas e revelaram que esta é na
verdade parte de uma síntese ainda maior do que hoje em dia se chama
(misteriosamente) teoria-M. Estes últimos desenvolvimentos serão o assunto dos
capítulos finais deste livro.
O progresso em
ciência acontece atravessando-se períodos de calmaria interrompidos por saltos
bruscos. Alguns períodos são cheios de grandes avanços; noutros os
investigadores atravessam desertos áridos. Os cientistas apresentam resultados
teóricos e experimentais. Esses resultados são debatidos pela comunidade,
algumas vezes rejeitados, outras vezes modificados e outras vezes, ainda,
proporcionam pontos de partida e inspiração para uma nova e mais precisa
maneira de compreender o universo físico. Por outras palavras, a ciência avança
seguindo caminhos em ziguezague, dirigindo-se àquilo que esperamos seja a
última verdade, um caminho que começou com as primeiras tentativas humanas para
peceber o cosmo e cujo fim não podemos prever. Se a teoria de cordas é um ponto
fortuito neste caminho, ou um ponto de referência marcante, ou até o destino
final, não o sabemos. Mas as últimas duas décadas de investigação por centenas
de físicos e matemáticos dedicados em numerosos países deixa-nos a esperança
bem justificada de que estamos no bom caminho e até talvez no troço final.
É um testemunho
eloquente da riqueza e longo alcance da teoria de cordas o facto de mesmo o
nosso nível presente de conhecimento nos ter permitido obter ideias
surpreendentes acerca do funcionamento do universo. Um ponto central no que se
vai seguir vão ser os resultados que fizeram avançar a nossa compreensão de
espaço e tempo, iniciados pelas teorias da relatividade restrita e geral de
Einstein. Veremos que, se a teoria de cordas estiver correcta, o tecido que
forma o nosso universo tem propriedades que teriam provavelmente espantado até
o próprio Einstein.