Decompondo O Arco-Íris
Richard Dawkins
CIÊNCIA ABERTA

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Prefácio

Prefácio

 

Um editor estrangeiro do meu primeiro livro confessou-me que não conseguiu dormir durante três noites seguidas depois de o ler, tão perturbado ficou pelo que considerou a sua mensagem fria e árida. Outras pessoas têm-me perguntado como consigo levantar-me todas as manhãs. Um professor de um país distante escreveu-me, em tom de reprovação, dizendo que uma aluna sua foi ter com ele em lágrimas depois de ler o mesmo livro porque este a tinha persuadido de que a vida era vazia e sem sentido. Ele aconselhou-a a não mostrar o livro a nenhum dos seus amigos, com receio de os contaminar com o mesmo pessimismo niilista. A ciência em geral é frequentemente alvo de acusações semelhantes de desolação estéril, de promoção de uma mensagem árida e triste, e é fácil para os cientistas encorajá-las. O meu colega Peter Atkins começa o seu livro The Second Law (1984) neste estilo:

 

Somos os filhos do caos e a estrutura profunda da mudança é a decadência. Na base existe apenas corrupção e a imparável maré do caos. O objectivo é desaparecer; tudo o que resta é a direcção. É esta a frialdade que temos de aceitar enquanto espreitamos, profunda e desapaixonadamente, para o coração do universo.

Mas estas muito necessárias purgas de intenções enganadoras, esta louvável teimosia em destronar o sentimentalismo cósmico não deve ser confundida com uma perda de esperança pessoal. Presumi­velmente, não existe de facto uma finalidade no destino último do cosmo, mas haverá alguém que baseie realmente as suas expectati­vas de vida no destino final do cosmo? É claro que não, se estiver­mos no nosso juízo perfeito. As nossas vidas são guiadas por todo o tipo de ambições e percepções mais limitadas, mais calorosas e humanas. Acusar a ciência de roubar à vida o calor que faz que valha a pena vivê-la é tão absurdamente erróneo, tão diametral­mente oposto aos meus próprios sentimentos e aos da maioria dos cientistas, que sou quase levado ao desespero de que sou erradamente acusado. Mas neste livro tentarei uma resposta mais positiva, apelando ao sentido de deslumbramento da ciência, porque é muito triste pensar no que estes críticos e negativistas estão a perder. Esta era uma das coisas que o falecido Carl Sagan fazia tão bem e que nos faz sentir tanto a sua falta. O sentimento de respeitoso deslumbramento que a ciência nos pode oferecer é uma das experiências mais notáveis da mente humana. É uma profunda paixão estética que tem o seu lugar entre o melhor que a música e a poesia podem proporcionar. É verdadeiramente uma das coisas que fazem que a vida mereça ser vivida e, sobretudo, fá-lo mais eficazmente se nos convencer de que o tempo que temos para viver é finito.

O título deste livro vem de Keats, que acreditava que Newton tinha destruído toda a poesia do arco-íris ao reduzi-lo às cores prismáticas. Keats dificilmente se poderia ter enganado mais, e o meu objectivo é levar todos os que estão tentados a adoptar uma visão semelhante a chegarem à conclusão contrária. A ciência é, ou deveria ser, a inspiração da grande poesia, mas não tenho talento suficiente para o provar através da demonstração e tenho, portanto, de me fazer valer de uma persuasão mais prosaica. Alguns dos capítulos são inspirados nas palavras de Keats; os leitores podem aliás reconhecer a semicitação e a alusão ocasional ligando o texto a ele (e a outros). Estão lá como tributo ao seu génio sensível. Keats era uma personagem mais simpática do que Newton e a sua sombra foi um dos avaliadores imaginários que espreitavam sobre o meu ombro à medida que escrevia.

A decomposição do arco-íris de Newton conduziu à espectrosco­pia, que se provou ser a chave de muito daquilo que hoje sabemos sobre o cosmo. E o coração de qualquer poeta merecedor do título de romântico bateria certamente mais depressa se observasse o universo de Einstein, Hubble e Hawking. Lemos a sua natureza nas linhas de Fraunhofer — «Códigos de Barras nas Estrelas» — e nos seus desvios ao longo do espectro. A imagem dos códigos de barras leva-nos ao muito diferente, mas igualmente intrigante, domínio do som («Códigos de Barras no Ar»); e depois do fingerprinting de ADN («Códigos de Barras na Barra do Tribunal»), que nos dá a oportunidade de reflectir sobre outros aspectos do papel da ciência na sociedade.

Naquela que chamo a secção da ilusão, «Ludibriados pela crença no reino das fadas» e «Decompondo o sobrenatural», dirijo-me às muitas pessoas supersticiosas que, menos exaltadas do que os poe­tas na defesa dos arco-íris, se deliciam com o mistério e se sentem defraudadas quando ele é explicado. São os que adoram uma boa história de fantasmas e cujas mentes ficam fascinadas por espíritos ou milagres sempre que algo estranho (mesmo que apenas vagamente) acontece. Nunca perdem uma oportunidade de citar as palavras de Hamlet:

 

Existem mais coisas no céu e na Terra, Horácio,

Do que as sonhadas na tua filosofia.

 

e a resposta do cientista («Sim, mas estamos a trabalhar nisso») não os sensibiliza. Para eles, esclarecer um mistério é destruir a sua beleza, o mesmo que alguns poetas românticos pensavam da explicação de Newton do arco-íris.

Michael Shermer, editor da revista Skeptic, conta uma história salutar de uma ocasião em que destronou publicamente um famoso espírita de televisão. Este homem estava a fazer vulgares truques de invocação de espíritos e a intrujar as pessoas, levando-as a pensar que comunicava com os mortos. Mas, em vez de ser hostil com o agora desmascarado charlatão, a audiência voltou-se contra quem revelava o logro e apoiou uma mulher que acusou o editor de comportamento «inapropriado» porque estava a destruir as ilusões das pessoas. Poderia pensar-se que ela ficaria agradecida por se lhe tirar a venda dos olhos, mas, aparentemente, preferia mantê-la posta. Acredito que um universo ordenado, um universo indiferente às preocupações humanas, no qual tudo tem uma explicação, ­mesmo que ainda tenhamos um longo caminho a percorrer antes de a encon­trar, é um lugar mais belo, mais deslumbrante do que um universo ornamentado com magia ad hoc e caprichosa.

O paranormal poderia classificar-se como um abuso do sentido legítimo de deslumbramento poético que a verdadeira ciência deveria estar a alimentar. Uma ameaça diferente vem do que se pode chamar má poesia. O capítulo «Enormes símbolos confusos de um romance imaginário» adverte contra a sedução pela má ciência poética e contra o encanto da retórica enganadora. A título de exemplo, analiso espe­cificamente alguém que contribuiu para a minha própria área e cuja escrita imaginativa lhe permitiu uma desproporcionada — e creio que lamentável — influência na compreensão da evolução pelos Norte-Americanos. Mas a orientação dominante do livro é em favor da boa ciência poética, o que não significa, claro, ciência escrita em verso, mas ciência inspirada por um sentido poético do deslumbramento.

Os quatro últimos capítulos tentam, no que diz respeito a quatro tópicos diferentes, mas inter-relacionados, sugerir o que pode ser feito por cientistas poeticamente inspirados mais talentosos do que eu. Os genes, ainda que «egoístas», têm de ser também «cooperativos» — num sentido Adam Smithiano (que é a razão pela qual o capítulo        «O cooperador egoísta» abre com uma citação de Adam Smith, ainda que, reconhecidamente, não sobre este tema, mas sobre o próprio deslumbramento). Os genes de uma espécie podem ser encarados como uma descrição de mundos ancestrais, um «Livro Genético dos Mortos». De forma análoga, o cérebro «recompõe o mundo», construindo uma espécie de «realidade virtual» continuamente actualizada na cabeça. Em «O balão da mente» especulo sobre as origens das características mais invulgares da nossa própria espécie e regresso, finalmente, ao deslumbramento pelo próprio impulso poético e ao papel que pode ter desempenhado na nossa evolução.

 

O software dos computadores está a impulsionar um novo renascimento e alguns dos seus génios criativos são benfeitores e simultaneamente homens do Renascimento por direito próprio. Em 1995, Charles Simonyi, da Microsoft, patrocinou um novo cargo de professor de Compreensão Pública da Ciência na Universidade de Oxford e fui nomeado primeiro detentor. Estou grato ao Dr. Si­monyi, obviamente pela sua generosidade perspicaz relativamente a uma universidade com a qual não tinha qualquer relação anterior, mas também pela sua visão imaginativa da ciência e da forma como ela deve ser transmitida. Isto ficou magnificamente expresso na sua declaração escrita à Oxford do futuro (o seu legado é perpétuo, mas ele renuncia caracteristicamente à mediania cautelosa da linguagem dos juristas) e temos discutido estes assuntos de tempos a tempos desde que nos tornámos amigos depois da minha nomeação. Decom­pondo o Arco-Íris pode ser visto como a minha contribuição para a discussão e como a minha declaração inaugural como professor Simonyi. E, se «inaugural» soar um pouco inadequado ­depois de dois anos no cargo, posso talvez tomar a liberdade de citar Keats outra vez:

 

Por isto, amigo Charles, podes ver total e claramente

Porque nunca escrevi uma linha para ti:

Porque os meus pensamentos nunca estiveram livres e claros

E são pouco apropriados para agradar a um ouvido clássico.

 

Faz, no entanto, parte da natureza de um livro demorar mais tempo a produzir do que um artigo de jornal ou uma palestra. Durante a sua gestação, este livro fez uso de alguns artigos, palestras e também de algumas emissões de rádio e televisão. Tenho de admitir isto já, no caso de algum leitor reconhecer, aqui e ali, um parágrafo avulso. Usei pela primeira vez publicamente o título «Decompondo o Arco-Íris» e o tema da irreverência de Keats em relação a Newton quando fui convidado para apresentar a Palestra C. P. Snow de 1997 no Christ’s College, em Cambridge, a antiga faculdade de Snow. Ainda que não tenha explicitamente retomado o seu tema de The Two Cultures, ele está obviamente presente. Mais ainda o está o The Third Culture, de John Brockman, que tem sido também muito útil, embora desempenhando um papel bastante diferente, como meu agente literário. O subtítulo «A Ciência, a Ilusão e o Apetite pelo Deslumbramento» era o título da minha Palestra Richard Dimbleby de 1996. Alguns parágrafos de uma primeira versão deste livro estavam incluídos nessa palestra transmitida pela BBC. Também em 1996, apresentei um documentário televisivo de uma hora no Canal Quatro, Quebre a Barreira da Ciência. Este documentário era sobre o tema da ciência na cultura e algumas das ideias de base, desenvolvidas durante discussões com John Gau, o produtor, e Simon Raikes, o realizador, influenciaram este livro. Em 1998 incorporei algumas passagens do livro na minha palestra da série Sondando o Século, transmitida pela Rádio BBC 3 a partir do Queen Elizabeth Hall, em Londres (agradeço à minha mulher o título da minha palestra, «Ciência e Sensibilidade», e não sei bem o que pensar do facto de já ter sido pla­-giado, imagine-se, numa revista de supermercado). Também utilizei parágrafos do livro em artigos encomendados pelo Independent, o Sunday Times e o Observer. Quando fui galardoado com o In­ternational Cosmos Prize de 1997, escolhi o título «O Cooperador Egoísta» para a palestra de atribuição do prémio, apresentada em Tóquio e Osaka. Partes da palestra foram reformuladas e alargadas no capítulo 9, que tem o mesmo título.

O livro beneficiou enormemente das críticas construtivas, a uma primeira versão, de Michael Rodgers, John Catalano e Lorde Birkett. Michael Birkett tornou-se o meu ideal de leigo inteligente. A sua inteligência académica faz que seja, por direito próprio, um prazer ler os seus comentários críticos. Michael Rodgers foi o editor dos meus primeiros três livros e, por vontade minha e generosidade sua, desempenhou também um papel importante nos últimos três. Gostaria de agradecer a John Catalano, não só pelos seus úteis comentários ao livro, mas também pelo wesite http://www.spacelab.net/~catalj/home.html1, cuja excelência — que nada tem a ver comigo — será notória para quem o visitar. Stefan McGrath e John Radziewicz, editores da Penguin e da Houghton Mifflin, respectivamente, deram-me encorajamento paciente e conselhos literários que muito valorizei. Sally Holloway trabalhou incansável e animadamente na preparação da versão final. Os meus agradecimentos também a Ingrid Thomas, Bridget Muskett, James Randi, Nicholas Davies, Daniel Dennett, Mark Ridley, Alan Grafen, Juliet Dawkins, Anthony Nuttall e John Batchelor.

A minha mulher, Lalla Ward, criticou cada capítulo uma dúzia de vezes, em várias versões, e com cada uma das suas leituras beneficiei do seu ouvido de actriz sensível à língua e às suas cadências. Sempre que tive dúvidas, ela acreditou no livro. A sua visão manteve-o de pé e não o teria terminado sem a sua ajuda e encorajamento. Dedico-o a ela.

1

O efeito anestésico da familiaridade

 

Viver é por si só um milagre.

 

Mervyn Peake,

The Glassblower (1950)

 

Vamos morrer e isso faz de nós uns felizardos. A maior parte das pessoas nunca irá morrer porque nunca chegará a nascer. O número de pessoas que potencialmente poderia estar aqui no meu lugar, mas que de facto nunca verá a luz do dia, excede os grãos de areia do deserto da Arábia. Certamente, esses fantasmas não nascidos in­cluem poetas mais sublimes do que Keats, cientistas mais notáveis do que Newton. Sabemo-lo porque o conjunto de pessoas que existem e existiram constitui uma ínfima parte do que é permitido pelo nosso ADN. Contrariando estas probabilidades assombrosas, somos nós que, na nossa normalidade, estamos aqui.

Os moralistas e teólogos dão grande ênfase ao momento da concepção, considerando-o como o instante em que a alma inicia a sua existência. Se, como eu, não fica comovido com tal discurso, tem, no entanto, de considerar este instante específico, nove meses antes do nascimento, como o mais decisivo do seu destino. Foi o momento em que, subitamente, a sua consciência se tornou triliões de vezes mais previsível do que o era uma fracção de segundo antes. Naturalmente, o ser embriónico que surge tem ainda de ultrapassar muitos obstáculos. A maior parte dos óvulos fertilizados termina em aborto prematuro, antes mesmo que a mãe saiba da sua existência, e nós temos todos sorte de não nos ter acontecido o mesmo. Além disso, há algo mais na identidade pessoal para além dos genes, como nos revelam os gémeos verdadeiros (que se separam após o momento da fecundação). Contudo, o instante em que um espermatozóide específico penetrou num óvulo específico terá sido, do seu ponto de vista, um momento de espantosa singulari­dade. Foi então que a probabilidade de se tornar uma pessoa aumentou vertiginosamente.

A lotaria começa antes de sermos concebidos. Os seus pais tiveram de se conhecer e a concepção de cada um deles foi tão improvável como a sua. E assim sucessivamente, passando pelos seus quatro avós e oito bisavós, e ainda mais para trás até onde é inimaginável pensar. Desmond Morris inicia a sua autobiografia, Animal Days (1979), no seu estilo característico e cativante:

 

Foi Napoleão quem começou tudo. Se não fosse ele, eu poderia não estar aqui agora escrevendo estas palavras [...] já que foi uma das suas balas de canhão disparadas na Guerra Peninsular que arrancou o braço do meu trisavô, James Morris, e alterou todo o curso da história da minha família.

 

Morris descreve como a alteração forçada da carreira do seu antepassado teve várias consequências que culminaram no interesse que desenvolveu pela história natural. No entanto, não precisava de se ter preocupado. Não existem dúvidas. É claro que ele deve a sua própria existência a Napoleão. Tal como nós. Napoleão não precisava de atingir o braço de James Morris para que o destino do jovem Desmond ou o nosso fosse traçado. Não apenas Napoleão, mas também o mais humilde camponês medieval necessitaria apenas de espirrar para afectar algo que alterasse um outro acontecimento, que, por sua vez, após uma longa reacção em cadeia, teria tido como consequência que um dos seus potenciais antepassados deixasse de o ser e se tornasse o de outra pessoa. Não estou a falar da «teoria do caos» ou da igualmente na moda «teoria da complexidade», mas apenas da trivial estatística da causação. A nossa existência está suspensa por uma linha de acontecimentos históricos assustadoramente frágil:

 

Quando comparada com a extensão de tempo para nós desconhecida, ó Rei, a vida presente do homem na Terra é como o voo de um simples pardal através do salão onde, no Inverno, Vossa Majestade se senta com os vossos capitães e ministros. Entrando por uma porta e saindo por outra, enquanto lá está dentro não é tocado pela tempestade de Inverno; mas este breve intervalo de calmaria termina num instante e o pardal retorna ao Inverno donde veio, desaparecendo da vossa vista. A vida do homem é semelhante; e sobre aquilo que se segue ou que ocorreu antes, somos totalmente ignorantes.

 

O Venerável Beda, A History of the English Church and People (731)

 

Este é outro aspecto em que temos sorte. O universo tem mais de uma centena de milhões de séculos. Num período de tempo comparável, o Sol dilatar-se-á e tornar-se-á um gigante vermelho que engolirá a Terra. Cada século, em centenas de milhões, foi        no seu tempo, ou será quando chegar a altura, «o século actual».       É interessante verificar que alguns físicos não gostam da ideia de um «presente em movimento», considerando-o um fenómeno sub­jectivo para o qual não encontram lugar nas suas equações. A verdade é que estou a expor um argumento subjectivo. O que me parece a mim, e talvez a si também, é que o presente se move do passado para o futuro, como um minúsculo foco de luz que avança vagarosamente ao longo de uma gigantesca régua de tempo. Tudo o que fica para trás da luz está na escuridão, nas trevas do passado morto. Tudo o que fica para a frente da luz está na escuridão do futuro desconhecido. A probabilidade de o seu século estar sob esse foco de luz é a mesma de uma moeda, atirada ao acaso, acertar numa determinada formiga que se desloca algures no percurso entre Nova Iorque e São Francisco. Por outras palavras, é altamente provável que o leitor esteja morto.

Apesar desta probabilidade, verificará que de facto está vivo. As pessoas por quem a luz já passou e as pessoas a quem a luz ainda não alcançou não estão em condições de ler um livro. Também eu tenho sorte por poder escrever um, embora possivelmente já não a tenha quando o leitor estiver a ler estas palavras. Na verdade, desejo estar morto quando o fizer. Não me interprete mal. Amo a vida e espero viver ainda por muito tempo, mas qualquer escritor deseja que o seu trabalho chegue ao maior número possível de leitores. Uma vez que a população futura provavelmente excederá por uma larga margem o número dos meus contemporâneos, não posso senão ambicionar estar morto quando o leitor estiver a ler estas palavras. Ironicamente, o meu livro não deixar de ser brevemente reeditado não passa de uma esperança. No entanto, o que vejo, à medida que escrevo, é que tenho sorte em estar vivo e o leitor também.

Vivemos num planeta que é quase perfeito para o nosso tipo de vida: não demasiado quente nem demasiado frio, exposto à amável luz do Sol, delicadamente banhado pelas águas; um planeta verde, em rotação suave, numa festa permanente de colheitas douradas. Sim, e lamentavelmente há desertos e bairros da lata; há fome e miséria dilacerante. No entanto, repare na concorrência. Compa­rado com a maior parte dos planetas, este é o paraíso e alguns locais da Terra são ainda paradisíacos quaisquer que sejam os padrões. Qual é a probabilidade de um planeta escolhido ao acaso ter estes atributos aprazíveis? Até mesmo o cálculo mais optimista seria inferior a um num milhão.

Imagine uma nave espacial cheia de exploradores adormecidos, potenciais colonizadores congelados de um qualquer mundo distante. A nave estará porventura numa missão desesperada para salvar a espécie antes de um cometa imparável, como aquele que matou os dinossauros, atingir o seu planeta. Os viajantes entram em estado de congelação, avaliando lucidamente a reduzida probabilidade de a sua nave alguma vez encontrar um planeta compatível com a vida. Se, na melhor das hipóteses, um em cada milhão de planetas é adequado, e considerando que demora séculos a viajar de cada estrela para a seguinte, é pateticamente improvável que a nave encontre um refúgio tolerável, para não dizer seguro, para a sua carga adormecida.

Contudo, imagine que o piloto-robot da nave tem uma sorte inacreditável. Depois de milhões de anos a nave encontra, de facto, um planeta capaz de manter a vida: um planeta de temperatura estável, banhado pela luz quente das estrelas, refrescado por oxigénio e água. Os passageiros, tal como Rip van Winkle2, acordam hesitantes em direcção à luz. Depois de um milhão de anos de sono, aqui está um novo globo fértil, um planeta exuberante de pastagens calorosas, de cursos de água cintilantes e cascatas, um mundo benévolo para com os seres, que aí emergem com uma nova e estranha felicidade. Os nossos viajantes caminham fascinados, estupefactos, incapazes de acreditar nos seus sentidos desabituados ou na sua sorte.

Como referi, a história requer demasiada sorte; nunca aconteceria. E, no entanto, não foi isso que aconteceu a cada um de nós? Acordámos depois de centenas de milhões de anos de sono, desafiando probabilidades ínfimas. Reconhecidamente, não chegámos numa nave espacial, mas através do nascimento, e não surgimos já conscientes no mundo, mas fomos gradualmente acumulando discernimento durante a tenra infância. O facto de apreendermos o nosso mundo de uma forma lenta em vez de o descobrirmos subitamente não lhe deveria retirar fascínio.

É claro que estou a servir-me incorrectamente da ideia de sorte, pondo o carro à frente dos bois. Não é por acidente que o nosso tipo de vida se encontra num planeta cuja temperatura, precipitação e tudo o resto são ideais. Se o planeta fosse adequado a um outro tipo de vida, seria esse que aqui se teria de­-senvolvido. No entanto, como indivíduos, somos imensamente abençoados. Estamos também em posição privilegiada para desfrutar o nosso planeta. Mais do que isso, é-nos concedida a oportunidade de compreender porque estão abertos os nossos olhos e porque vêem aquilo que vêem no curto período de ­tempo antes de se fecharem para sempre.

A meu ver, é aqui que se encontra a melhor resposta para aqueles avarentos de espírito limitado que estão sempre a perguntar qual é a utilidade da ciência. Num daqueles comentários míticos de autoria incerta, terá sido alegadamente perguntado a Michael Faraday qual era a utilidade da ciência. «Sir», respondeu Faraday, «qual é a utilidade de um recém-nascido?» O sentido óbvio do que Faraday (ou Benjamim Franklin, ou quem quer que tenha sido) disse é que um bebé pode não ter qualquer utilidade no presente, mas tem um grande potencial para o futuro. Agrada-me agora pensar que ele também queria dizer outra coisa: qual é a utilidade de trazer um bebé ao mundo, se a única coisa que ele faz com a sua vida é trabalhar para continuar a viver? Se tudo é julgado pela sua «utilidade» — isto é, utilidade para permanecer vivo —, somos ­colocados perante uma circularidade fútil. Tem de haver algum valor acrescentado. Pelo menos parte da vida deveria ser dedicada a viver essa vida, não apenas a trabalhar para evitar que ela acabe. É desta forma que acertadamente justificamos gastar o dinheiro dos contribuintes nas artes. É uma das justificações correctamente invocadas para conservar espécies raras e belos edifícios. É como respondemos àqueles bárbaros que pensam que os elefantes selvagens e as casas históricas devem ser preservados apenas se «se pagarem a si próprios». E a ciência também. É claro que a ciência «se paga a si própria», é claro que ela é útil. Mas não é só isso que ela é.

Depois de dormirmos durante centenas de milhões de séculos abrimos finalmente os olhos num planeta sumptuoso, reluzente de cores, favorável à vida. Dentro de décadas teremos de fechar os olhos outra vez. Não será uma forma nobre e iluminada de pas­-     sar o nosso breve tempo ao sol, tentar compreender o universo e como acordámos nele? É assim que respondo quando me perguntam — e é surpreendente a frequência com que o fazem — porque me dou ao trabalho de acordar de manhã. Dito de outra forma, não é triste ir para a sepultura sem nunca sequer nos perguntarmos porque nascemos? Quem, com tal pensamento, não saltaria da cama, ansioso para continuar a descobrir o mundo e rejubilando por fazer parte dele?

A poetisa Kathleen Raine, que leccionou Ciências Naturais em Cambridge, infeliz no amor enquanto jovem e desejando desesperadamente aliviar o seu coração despedaçado, encontrou algum conforto especializando-se em Biologia:

 

Então o céu falou-me numa linguagem clara,

familiar como o coração, mais clara do que o amor mais próximo.

O céu disse à minha alma: «Tens o que desejas!

 

Sabe agora que nasces juntamente com estas

nuvens, ventos, e estrelas, e mares sempre em movimento,

e habitantes das florestas. Esta é a tua natureza.

 

Levanta outra vez o teu coração, sem medo,

dorme no túmulo ou respira o ar da vida,

com a flor e o tigre este mundo partilharás.

 

«Passion» (1943)

 

Existe uma anestesia na familiaridade, um sedativo na banalidade, que adormece os sentidos e esconde a maravilha da existência. Para os que não são dotados para a poesia vale pelo menos a pena, de tempos a tempos, fazer um esforço para sacudir este efeito anestésico. Qual a melhor maneira de contrariarmos a habituação entorpecedora pro­vocada pela nossa gradual e lenta saída da infância? Decididamente, não podemos voar para outro planeta. Mas podemos reconquistar essa sensação de ter acabado de surgir para a vida num mundo novo, olhando para o nosso próprio mundo de forma não familiar. É tentador usar um exemplo simples como uma rosa ou uma borboleta, mas vamos directos ao extremo oposto. Recordo-me de assistir, há alguns anos, a uma palestra de um biólogo que trabalhava com polvos e com os seus parentes, as lulas e os chocos. Começou por explicar o seu fascínio por estes animais. «Estão a ver», disse, «eles são os marcianos.» Já alguma vez viu uma lula a mudar de cor?

As imagens de televisão são por vezes exibidas em écrans gigantes LED (light emitting diode)3. Em vez de um écran fluorescente com um feixe de electrões percorrendo-o de um lado ao outro, o écran LED é constituído por numerosas filas de pequenas luzes brilhantes, controláveis independentemente. As luzes são indivi­dualmente intensificadas ou obscurecidas de forma que, à distân­-cia, toda a matriz brilha difusamente com imagens em movimento. A pele de uma lula comporta-se como um écran LED. Em vez de luzes, a pele da lula está repleta de milhares de sacos minúsculos cheios de tinta. Cada um destes sacos de tinta tem pequenos músculos para os apertar. Com fios de marioneta conduzindo a cada um destes músculos independentes, o sistema nervoso da lula pode controlar a forma, e consequentemente a visibilidade, de cada saco de tinta.

Em teoria, se ligasse com fio condutor os nervos que conduzem a cada um dos pixels4 de tinta e os estimulasse electricamente através de um computador, poderia mostrar na pele da lula os filmes de Charlie Chaplin. A lula não o faz, mas o seu cérebro controla os fios condutores com precisão e rapidez e as alterações súbitas na sua pele são espectaculares. Ondas de cor perseguem-se através da superfície como nuvens num filme em movimento acelerado; as ondas e remoinhos atravessam o écran vivo. O animal sinaliza prontamente as suas mudanças de emoções: castanho-escuro num segundo, branco estiolado e espectral no seguinte, modulando rapidamente padrões entrelaçados de pontos e riscos. No que diz respeito a mudanças de cor, os camaleões são, comparativamente, meros amadores.

O neurobiólogo americano William Calvin é um dos que hoje reflectem seriamente sobre o que o pensamento realmente é. Ele enfatiza, como outros já o fizeram antes, a ideia de que os pensamentos não residem em locais específicos do cérebro, mas constituem padrões de actividade em movimento sobre a sua superfície, unidades que recrutam unidades vizinhas para populações que se tornam no mesmo pensamento, competindo de um modo darwi­niano com populações rivais de pensamentos alternativos. Não vemos estes padrões em movimento, mas, presumivelmente, poderíamos vê-los se os neurónios se iluminassem quando activos. Se assim fosse, o córtice cerebral poderia assemelhar-se à superfície do corpo de uma lula. Será que uma lula pensa com a sua pele? Quando uma lula altera subitamente o seu padrão de cores, supomos que se trata de uma manifestação de mudança de humor para sinalização a outra lula. Uma alteração de cor anuncia que a lula passou, digamos, de uma disposição agressiva para uma temerosa. É natural presumir que a mudança de disposição ocorreu no cérebro e provocou a alteração de cor como manifestação visível de pensamentos internos, exteriorizados para efeitos de comunicação. A fantasia que estou a acrescentar é a de que os próprios pensamentos da lula podem residir só na pele. Se as lulas pensam com a pele, são ainda mais «marcianas» do que julgou o meu colega. Mesmo que esta seja uma especulação demasiado forçada (e é), o espectáculo das suas ondulantes alterações de cor é suficientemente estranho para sacudir o efeito anestésico da familiaridade.

As lulas não são os únicos «marcianos» a um palmo dos nossos narizes. Pense nas faces grotescas dos peixes das grandes profundidades, nos ácaros do pó, ainda mais assustadores se não fossem tão minúsculos; pense nos tubarões-frade, realmente aterradores. Pense, de facto, nos camaleões com as suas línguas de arremesso como catapultas, nos olhos giratórios e no seu passo frio e lento. Podemos também, de maneira igualmente eficaz, apreender esse sentido de um «outro mundo estranho» olhando para dentro de nós próprios, para as células que constituem os nossos corpos. Uma célula não é apenas um saco de sumo. Está carregada de estruturas sólidas, labirintos de membranas intrincadamente pregueadas. Existem cerca de 100 milhões de milhões de células num corpo humano e a área total da estrutura membranar dentro de um de nós é superior a 200 acres5, o que equivale a uma quinta de dimensões consideráveis.

Qual a função de todas estas membranas? Aparentemente, recheiam a célula como um estofo, mas não é essa a sua única função. Grande parte da área de membranas pregueadas é destinada a linhas de produção química, com tapetes rolantes em movimento, centenas de etapas em cascata, cada uma levando à seguinte em sequências rigorosamente concebidas, sendo o todo guiado por engrenagens químicas em rotação rápida. O ciclo de Krebs, a roda dentada de 9 dentes que é grandemente responsável por nos disponibilizar energia, gira até 100 rotações por segundo, duplicado milhares de vezes em cada célula. Esta engrenagem química específica encontra-se no interior das mitocôndrias, corpúsculos minúsculos que se reproduzem independentemente dentro das nossas células como bactérias. Como veremos, é hoje amplamente aceite que as mitocôndrias, assim como outras estruturas vitais existentes nas células, não só se assemelham às bactérias, como são descendentes directos de bactérias ancestrais que, há biliões de anos, ­abdicaram da sua independência. Cada um de nós é uma cidade de células e cada célula uma vila de bactérias. O leitor é uma gigantesca metrópole de bactérias. Não é verdade que isto levanta o manto negro da anestesia?

Assim como um microscópio ajuda as nossas mentes a mergulhar em estranhas galerias de membranas celulares e um telescópio nos eleva a galáxias distantes, outra forma de nos libertarmos da anestesia é retrocedermos, na nossa imaginação, através do tempo geológico. É a idade inumana dos fósseis que nos traz de volta à realidade. Pegamos numa trilobita e os livros dizem-nos que tem 500 milhões de anos. No entanto, não conseguimos compreender tal idade e existe um prazer ansioso na tentativa. Os nossos cérebros evoluíram no sentido de apreender as escalas temporais da nossa própria vida. Segundos, minutos, horas, dias e anos são fáceis para nós. Conseguimos lidar com séculos. Quando chegamos aos milé­nios — milhares de anos — começamos a ficar baralhados. Os mitos épicos de Homero, proezas dos deuses gregos Zeus, Apolo e Ártemis, dos heróis judeus Abraão, Moisés, David e do seu deus aterrador Iavé, dos antigos Egípcios e do deus do Sol, Rá, inspiram poetas e dão-nos esse frisson da idade imensa. Parece estarmos a olhar para trás, através de brumas misteriosas, para a estranheza ecoante da antiguidade. Todavia, na escala temporal da nossa trilobita, estas celebradas antiguidades são apenas ontem.

Têm sido apresentadas muitas dramatizações e irei expor aqui mais uma. Escrevamos a história de um ano numa única folha de papel, o que não deixa muito espaço para o detalhe. Seria mais ou menos equivalente aos elucidativos «Acontecimentos do Ano» que os jornais publicam a 31 de Dezembro. A cada mês correspondem algumas frases. Agora, noutra folha de papel, escreva a história do ano anterior. Continue através dos anos, à razão de um ano por folha, esboçando o perfil do que aconteceu em cada ano. Encaderne as folhas em livros e numere-as. O Decline and Fall of the Roman Empire, de Gibbon (1776-88), abrange uns 13 séculos em 6 volumes de cerca de 500 páginas cada, ou seja, cobre o terreno aproximadamente ao ritmo a que nos estamos a referir:

 

Outro livro maldito, grosso e pesado. Sempre a escrevinhar, escrevinhar, escrevinhar! Não é, Sr. Gibbon?

 

William Henry, primeiro duque de Gloucester (1829)

 

Esse livro esplêndido que é o The Oxford Dictionary of Quota­tions (1992), do qual acabei de retirar esta citação, é, também ele, um livro maldito, grosso e pesado e mais ou menos do tamanho certo para nos levar até ao tempo da rainha Isabel I. Temos uma medida aproximada do tempo: 4 polegadas ou 10 cm de espessura para registar a história de um milénio. Tendo estabelecido a nossa medida, olhemos para trás, para o estranho mundo do profundo tempo geológico. Colocamos o livro do passado mais recente no chão e depois empilhamos livros de séculos anteriores em cima dele. Estamos agora perante a pilha de livros que representa uma medida da vida. Se queremos ler, por exemplo, sobre Jesus, temos de escolher o volume que está a 20 cm do chão ou logo acima do tornozelo.

Um arqueólogo famoso desenterrou um guerreiro da idade do bronze com a sua máscara perfeitamente conservada e exultou: «Eu contemplei a face de Agamémnon.» Estava a ser respeitosamente poético em relação à sua incursão na antiguidade fantasiada. Para encontrar Agamémnon na nossa pilha de livros teria de se inclinar aproximadamente até ao nível do meio da perna. Algures nas proximidades encontraria Petra («Uma cidade vermelho-rosa, com metade da idade do tempo»), Ozymandias, rei dos reis («Olha a minha obra, vós, ó Poderoso, e desespera»), e essa maravilha enigmática do mundo antigo, os Jardins Suspensos da Babilónia. Ur, dos Caldeus, e Uruk, a cidade do herói lendário Gilgamesh, tiveram a sua época ligeiramente mais cedo e encontraria a história da sua fundação um pouco mais acima na sua perna. Mais ou menos a este nível encontraria a data mais antiga de todas, segundo James Ussher, o arcebispo do século xvii que calculou como a data da criação de Adão e Eva o ano de 4004 a. C.

O domínio do fogo foi decisivo na nossa história; dele resultou a maior parte da tecnologia. A que altura da nossa pilha de livros se encontra a página na qual está registada esta descoberta épica? A resposta é uma verdadeira surpresa se recordarmos que poderia sentar-se confortavelmente na pilha de livros que envolve toda a história de que há registo. Indícios arqueológicos sugerem que o fogo foi descoberto pelo nosso antepassado, o Homo erectus, ainda que não saibamos se ele era capaz de o produzir ou apenas de o transportar e utilizar. O fogo é utilizado há cerca de um milhão e meio de anos, portanto, na nossa analogia, para consultar o volume que regista a descoberta, teria de subir a um nível um pouco superior ao da Estátua da Liberdade. Uma altura vertiginosa, especialmente se considerarmos que Prometeu, o lendário portador do fogo, tem a sua primeira referência na nossa pilha de livros um pouco abaixo do joelho. Para ler sobre Lucy e os austra­lopitecos, os nossos antepassados africanos, teria de subir a um ponto mais alto do que qualquer edifício de Chicago. A biografia do antepassado comum que partilhamos com os chimpanzés seria uma frase num livro empilhado ao dobro daquela altura.

No entanto, apenas começámos a nossa viagem até à trilobita. Que altura deveria ter a nossa pilha de livros para acomodar a página onde a vida e a morte desta trilobita, no seu mar câmbrico pouco profundo, estariam superficialmente celebradas? A resposta é aproximadamente 56 km ou 35 milhas. Não estamos habituados a lidar com alturas como esta. O cume do monte Evereste encontra-se a menos de 9 km acima do nível médio da água do mar. Podemos ter uma ideia acerca da idade da trilobita se tombarmos a pilha de livros para a horizontal. Imagine uma prateleira de livros com três vezes o comprimento da ilha de Manhattan, repleta de volumes do tamanho do Decline and Fall, de Gibbon. Ler todo o texto até à trilobita, com uma página atribuída a cada ano, seria mais laborioso do que soletrar todos os 14 milhões de volumes da biblioteca do Congresso Norte-Americano. Mas mesmo a trilobita é jovem quando comparada com a idade da própria vida. Os primeiros seres vivos, os antepassados comuns da trilobita, das bactérias e de nós próprios, têm a suas vidas químicas ancestrais registadas no volume 1 da nossa saga. Este volume encontra-se no extremo longínquo da nossa gigantesca prateleira, que se estenderia de Londres às fronteiras da Escócia, ou atravessaria a Grécia, do Adriático ao Egeu.

Possivelmente, estas distâncias são ainda irreais. A arte de estabelecer analogias para números extensos não está em sair da escala que as pessoas conseguem compreender. Se o fizermos, não ficamos mais esclarecidos com a analogia do que com a realidade. Ler um trabalho de história, cujos volumes numa prateleira se estendem de Roma a Veneza, é uma tarefa incompreensível, tão incompreensível quanto a nudez do número 4000 milhões de anos.

Aqui fica outra analogia, uma que já foi utilizada anteriormente. Abra os braços num amplo gesto de modo a abarcar toda a evolução, da sua origem, na ponta dos dedos da mão esquerda, até ao presente, na ponta dos dedos da mão direita. Desde o início, passando pela linha média, e até bem depois do seu ombro direito, a vida consiste em nada mais do que bactérias. A vida pluricelular invertebrada floresce por volta do seu cotovelo direito. Os dinossauros têm a sua origem no centro da palma da mão direita e extinguem-se por volta da última articulação do dedo. Toda a história do Homo sapiens e do nosso antepassado Homo erectus está contida na espessura de uma apara de unha. No que diz respeito à história de que há registo; aos Sumé­-rios, aos Babilónios, aos ­patriarcas judeus, às dinastias de faraós,   às legiões romanas, aos padres da Igreja, às leis dos Medos e dos Persas, que nunca se alteram; a Tróia e aos Gregos, Helena e Aqui­-les e Agamémnon morto; a Napoleão e Hitler, aos Beatles e Bill Clinton, estes e todos os que os conheceram desvanecem-se em pó ao leve toque de uma lima:

 

Os pobres são rapidamente esquecidos,

São mais numerosos do que os vivos, mas onde estão todos os seus

[ossos?

Por cada homem vivo há um milhão de mortos,

Terá todo o seu pó ido para a terra de modo a nunca mais ser visto?

Não haveria ar para respirar, de tão denso,

Nem espaço para o vento soprar, ou a chuva cair;

A terra seria uma nuvem de pó, um solo de ossos,

Sem espaço sequer para os nossos esqueletos.

 

Sacheverell Sitwell, «Agamemnon’s Tomb» (1933)

 

Ainda que não seja relevante, a terceira linha do poema de Sitwell é destituída de rigor. Foi estimado que as pessoas actual­mente vivas correspondem a uma fracção substancial de todos os humanos que já viveram. Contudo, isto apenas reflecte o poder do crescimento exponencial. Se contarmos gerações em vez de corpos, e especialmente se retrocedermos para além do género humano ao início da vida, o pensamento de Sacheverell Sitwell ganha uma nova força. Suponhamos que cada indivíduo na nossa linhagem feminina directa, desde o florescimento da vida pluricelular, há pouco mais de meio bilião de anos, morria exactamente sobre a sepultura da sua mãe para, mais cedo ou mais tarde, ser fossilizado. Como nas sucessivas camadas da soterrada cidade de Tróia, ocorreriam muitas compressões e abatimentos, portanto consideremos que cada fóssil da série foi achatado até à espessura de uma panqueca de 1 cm. Qual seria a profundidade de rocha necessária para acomodar o nosso registo fóssil contínuo? A resposta é 1000 km ou 600 milhas, ou seja, aproximadamente dez vezes a espessura da crosta terrestre.

O Grande Canion, cujas rochas, das mais profundas às mais superficiais, abrangem a maior parte do período a que nos estamos a referir agora, tem apenas cerca de uma milha de profundidade. Se os estratos do Grande Canion fossem aglomerados de fósseis, sem rocha na sua constituição, haveria espaço na sua espessura para acomodar apenas cerca de 1/600 das gerações que foram morrendo sucessivamente. Este cálculo ajuda-nos a não valorizar as exigências fundamentalistas daqueles que refutam a evolução com base na inexistência de um registo fóssil contínuo. As rochas terrestres simplesmente não têm espessura para tal luxo — não a têm por várias ordens de grandeza. Qualquer que seja a perspectiva, apenas uma fracção extremamente pequena dos seres vivos tem a sorte de ser fossilizada. Como já tenho referido, eu considerá-lo-ia uma honra:

 

O número de mortos há muito que excedeu aquele dos que alguma vez viverão. A noite do tempo superou largamente o dia, e alguém saberá quando foi o equinócio? Cada hora soma-se a essa aritmética corrente, incapaz de se deter por um momento [...] Quem sabe se o melhor dos homens será reconhecido, ou se não existirão mais pessoas extraordinárias esquecidas do que aquelas que são recordadas no relato do tempo?

 

Sir Thomas Browne, Urne Buriall (1658)

               

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