ENCICLOPÉDIA DE TERMOS LÓGICO-FILOSÓFICOS
João Branquinho
Desidério Murcho
FILOSOFIA ABERTA

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Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos

Esta enciclopédia abrange, de uma forma introdutória mas desejavelmente rigorosa, uma diversidade de conceitos, temas, problemas, argumentos e teorias localizados numa área relativamente recente de estudos, os quais tem sido habitual qualificar como «estudos lógico-filosóficos». De uma forma apropriadamente genérica, e apesar de o território teórico abrangido ser extenso e de contornos por vezes difusos, podemos dizer que na área se investiga um conjunto de questões fundamentais acerca da natureza da linguagem, da mente, da cognição e do raciocínio humanos, bem como questões acerca das conexões destes com a realidade não mental e extra-linguística. A razão daquela qualificação é a seguinte: por um lado, a investigação em questão é qualificada como filosófica em virtude do elevado grau de generalidade e abstracção das questões examinadas (entre outras coisas); por outro, a investigação é qualificada como lógica em virtude de ser uma investigação logicamente disciplinada, no sentido de nela se fazer um uso intenso de conceitos, técnicas e métodos provenientes da disciplina de lógica.

      O agregado de tópicos que constitui a área de estudos lógico-filosóficos é já visível, pelo menos em parte, no Tractatus Logico-Philosophicus de Ludwig Wittgenstein, uma obra publicada em 1921. E uma boa maneira de ter uma ideia sinóptica do território disciplinar abrangido por esta enciclopédia, ou pelo menos de uma porção substancial dele, é extrair do Tractatus uma lista dos tópicos mais salientes aí discutidos; a lista incluirá certamente tópicos do seguinte género, muitos dos quais se podem encontrar ao longo desta enciclopédia: factos e estados de coisas; objectos; representação; crenças e estados mentais; pensamentos; a proposição; nomes próprios; valores de verdade e bivalência; quantificação; funções de verdade; verdade lógica; identidade; tautologia; o raciocínio matemático; a natureza da inferência; o cepticismo e o solipsismo; a indução; as constantes lógicas; a negação; a forma lógica; as leis da ciência; o número.

      Deste modo, a área de estudos lógico-filosóficos abrange não apenas aqueles segmentos da lógica propriamente dita (liberalmente concebida) que são directa ou indirectamente relevantes para a investigação filosófica sobre a natureza da linguagem, do raciocínio e da cognição (incluindo, por exemplo, aspectos da teoria dos conjuntos e da teoria da recursão), como também um determinado conjunto de disciplinas filosóficas – ou melhor, de segmentos disciplinares – cuja relevância para aqueles fins é manifesta e que se caracterizam pelo facto de serem logicamente disciplinadas (no sentido acima aludido). Entre estas últimas contam-se as seguintes disciplinas: a) aquelas que foram originariamente constituídas como extensões da lógica, ou seja, disciplinas como a filosofia da linguagem executada na tradição analítica, a filosofia da lógica, a filosofia da matemática, alguma da filosofia da mente mais recente, etc.; b) aquelas cujo desenvolvimento foi de algum modo motivado ou estimulado por desenvolvimentos surgidos no interior da lógica, como certas secções da actual metafísica, ontologia, teoria do conhecimento, etc.

      Com respeito à lógica propriamente dita, é bom notar que houve uma preocupação central no sentido de que a enciclopédia abrangesse de uma forma exaustiva as noções e os princípios mais elementares ou básicos da disciplina. Muito em particular, a exigência de completude deveria ser naturalmente satisfeita com respeito ao material nuclear – conceitos, princípios, regras de inferência, etc. – da lógica clássica de primeira ordem (e também da chamada «lógica tradicional» ou «aristotélica»); ilustrando, coisas como as leis de De Morgan, o princípio ex falso quod libet, os paradoxos da implicação material e a falácia da ilícita menor não poderiam obviamente deixar de ser aqui contempladas. Pensamos que esse desideratum foi, em termos gerais, realizado; com efeito, temos um número substancial de artigos dedicados a esse fim e não parece haver lacunas significativas na área. Em relação ao restante material de lógica, o guia utilizado para a sua inclusão foi o da relevância ou significado, directo ou indirecto, do material para a investigação filosófica (ou melhor, para a investigação lógico-filosófica na acepção anterior). Assim se explica, por exemplo, a quantidade substancial de artigos dedicados à teoria dos conjuntos; e assim se percebe como a enciclopédia contém artigos extremamente técnicos mas cujas conexões filosóficas são evidentes, como os artigos sobre as relações recursivas e o problema da paragem. O guia utilizado está bem longe de constituir um critério preciso: é certamente vago, admite certamente graus, autoriza certamente um grande número de casos de fronteira; mas nem por isso deixou de ser útil para o efeito.

      Uma característica importante desta enciclopédia é a sua dimensão interdisciplinar. Com efeito, as conexões existentes entre o território teórico por ela abrangido e os domínios de muitas outras disciplinas científicas são bastante estreitas, fazendo a área de estudos lógico­‑filosóficos ser, por excelência, uma área vocacionada para a investigação pluridisciplinar. Basta reparar que muitos dos segmentos da área são naturalmente convergentes com disciplinas que têm contribuído decisivamente para o estudo de aspectos importantes da linguagem, da mente, do raciocínio e da cognição humanos; esse é, em especial, o caso das chamadas «ciências cognitivas», de disciplinas como a linguística teórica, a psicologia cognitiva e do desenvolvimento, as ciências da computação, a inteligência artificial, etc. A convergência em questão é, em muitos casos, bidireccional, com a investigação nas outras disciplinas simultaneamente a alimentar e a ser alimentada pela investigação lógico-filosófica.

      Outra característica importante da enciclopédia, ou do modo de encarar a filosofia que lhe está subjacente, é uma maior atenção dada ao valor intrínseco das teorias, argumentos e problemas examinados, e uma concomitante menor atenção dada a quem propõe a teoria, o argumento ou o problema, ou às circunstâncias históricas e pessoais em que o fez. Isto explica em parte o facto de esta ser uma enciclopédia de termos, e logo uma enciclopédia primariamente acerca de conceitos (os conceitos associados a esses termos). Por conseguinte, nela não estão incluídos os habituais artigos sobre personalidades e grandes figuras do pensamento lógico e lógico-filosófico. Todavia, note-se que o facto de não conter qualquer artigo sobre uma dada figura (por exemplo, Gottlob Frege ou Willard Quine) não impede de forma alguma que as principais ideias e teses dessa figura sejam contempladas (por exemplo, uma das mais célebres distinções de Frege, a distinção função/objecto, é o tema do artigo «conceito/objecto»; e um dos mais célebres argumentos anti-essencialistas de Quine, o argumento do matemático ciclista, é também contemplado). A outra razão para a exclusão de nomes é inteiramente contextual: o projecto não foi, desde o início, concebido nesse sentido; em particular, as competências a reunir para o efeito seriam outras. Na verdade, o plano inicial previa um modesto glossário, onde os termos fundamentais seriam definidos com brevidade. Mas o entusiasmo dos autores cedo ultrapassou em muito aquilo que estava previsto e muitos artigos constituem verdadeiros ensaios onde o estado actual da discussão de um tópico ou problema é minuciosamente descrito. A propósito, a extensão dos artigos varia enormemente, podendo ir de poucas linhas a muitas páginas; mas a desproporção é em geral justificada, uma vez que resulta muitas vezes da natureza ou da importância actual do conceito ou tópico tratado.

      Terminamos, em primeiro lugar, com algumas palavras sobre os antecedentes históricos da enciclopédia, e, depois, com observações sobre alguns aspectos práticos.

      O volume que agora vem a público resulta na sua maior parte de um projecto de investigação desenvolvido na Sociedade Portuguesa de Filosofia durante os anos de 1994 a 1996. O projecto foi financiado pela então Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica no âmbito do seu Programa Estímulo para as Ciências Sociais e Humanas e deu pelo nome de «Projecto Glossário Lógico-Filosófico» (PCSH/C/FIL/502/93). O Projecto Glossário reuniu, de uma forma que se veio a revelar inegavelmente frutífera, uma vasta equipa pluridisciplinar composta por investigadores provenientes quer de diversas instituições académicas nacionais (Universidade Nova de Lisboa, Universidade de Lisboa, Instituto Superior Técnico, Universidade do Algarve, etc.) quer de diversas áreas e disciplinas científicas (a filosofia, a linguística, a matemática, as ciências da computação, etc.). A equipa foi dirigida por M. S. Lourenço e, durante mais de três anos, os seus membros foram redigindo o grosso da obra que agora vem a lume. O projecto permitiu também estabelecer contactos frutíferos com especialistas estrangeiros de elevada reputação oriundos das Universidades de Edimburgo, Oxford, Califórnia (Los Angeles), Londres, Nova Iorque, Maryland, Stirling e outras. Estiveram entre nós, nessa qualidade, pessoas como John R. Searle, Jerry Fodor, Hilary Putnam, Paul Horwich, Paul Boghossian, James Higginbotham, Timothy Williamson, Kit Fine, Mark Sainsbury, David Papineau, Christopher Peacocke, Susan Carey, Ned Block, Simon Blackburn e outros. Para ter uma ideia da importância desses contactos, observe-se que se a enciclopédia tivesse incluído artigos sobre autores, muitos dos nossos convidados dariam eles próprios origem a artigos separados. Para além de a enciclopédia ter beneficiado imenso com o intercâmbio, pois alguns desses especialistas acabaram por redigir artigos nela incluídos, a comunidade científica nacional na área também beneficiou imenso e a investigação na área recebeu assim um forte estímulo.

      Quando o projecto terminou, no primeiro trimestre de 1997, ficou decidido que o seu produto seria transformado numa publicação. Para dirigir esses trabalhos nomearam-se as duas pessoas que agora o assinam como organizadores. A actividade de preparação do material para publicação decorreu durante os anos de 1997 e 1998 e consistiu nas seguintes tarefas (entre muitas outras): complementar os artigos existentes com novos artigos por nós julgados imprescindíveis, os quais assumiram muitas vezes a forma de artigos curtos; sugerir aos autores de artigos já disponíveis diversas correcções, ampliações, reformulações e melhoramentos (estilísticos e de outro género); pedir novos artigos aos colaboradores existentes, assim como a jovens investigadores (em especial, estudantes de cursos de pós-gra­duação na área); e elaborar um sistema razoável de remissões que permitisse ao leitor ter uma ideia das conexões entre os diversos conceitos e temas abrangidos. Parte do trabalho de Desidério Murcho foi generosamente financiado por uma bolsa da JNICT, atribuída em 1996 e com a duração de um ano. Além disso, mais recentemente, o trabalho de organização foi integrado no âmbito do Programa As Ciências da Cognição no Final do Século, tendo nessa qualidade beneficiado do apoio financeiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

      O sistema de remissões é com certeza claro. Os termos em versalete indicam a presença de artigos relevantes para o tema em causa, se bem que o verbete possa não ser exactamente igual ao termo destacado, mas uma sua variação. Por exemplo, apesar de o termo universais surgir em versalete em alguns artigos, não há um verbete «universais» mas sim «universal», o que parece razoável.

      O método de alfabetização merece também uma menção especial. A regra seguida foi esta: tudo o que surge a negrito, no verbete, antes da primeira vírgula (caso exista) é considerado como uma palavra. Assim, a priori surge depois de abdução, ao contrário do que aconteceria se considerássemos o «a» de a priori como uma palavra (que é, precisamente, o que fazem as rotinas de alfabetização dos computadores). Pela mesma razão, adequação, teorema da surge antes de adequação material, o que também não aconteceria caso a vírgula não fosse tomada em consideração.

      Procurámos dar aos verbetes principais a sua designação mais comum, excepto quando uma inversão poderia ser informativa por agrupar várias definições (como é o caso dos paradoxos ou das teorias da verdade). Em qualquer caso, procurámos dar conta de todas as variações possíveis, remetendo para o local adequado. Todavia, o leitor que procura uma definição deve ser astuto na sua procura.

      A importante distinção entre o uso e a menção de palavras merece uma nota. Em português usa-se por vezes o itálico, em vez das aspas, para falar de palavras e termos, grafando-se

 

A palavra filosofia tem 9 letras.

 

em vez de

 

A palavra «filosofia» tem 9 letras.

 

que é a prática corrente em língua inglesa. Nesta enciclopédia seguimos a convenção portuguesa, excepto nos casos em que poderiam surgir ambiguidades, situações em que recorremos às aspas. Um outro aspecto quanto ao uso e à menção diz respeito aos símbolos lógicos e matemáticos. Em geral, optámos por não usar aspas ao mencionar símbolos, pois raramente tal prática dá lugar a ambiguidades, e tem a vantagem de evitar que as linhas de texto fiquem horrivelmente carregadas de aspas. Assim, escreve-se em geral

 

A ® é uma função de verdade.

 

em vez de

 

A «®» é uma função de verdade.

 

Uma vez que a ® não pertence à língua portuguesa, não há o risco, geralmente, de se pensar que a esta está a ser usada quando estamos apenas a mencioná-la. Todavia, há situações em que tal ambiguidade pode surgir; nesses casos, recorremos às aspas.

      É nossa esperança que esta enciclopédia seja um instrumento de trabalho útil a estudantes e professores das diversas disciplinas aqui representadas. Aliás, uma das motivações centrais que presidiram à sua composição e publicação foi a de contribuir para a fixação da terminologia científica portuguesa a utilizar pelas pessoas a trabalhar na área, especialmente aquela fatia substancial da terminologia que diz respeito à lógica propriamente dita. Note-se, a propósito, que esta é uma disciplina cultivada por muitas pessoas, de proveniências bem diversas: filósofos, matemáticos, informáticos, linguistas, psicólogos, etc. A fixação em português do vocabulário básico da área constitui, escusado será dizer, um passo fundamental em direcção ao incremento e reforço entre nós da investigação de qualidade na área; e a enciclopédia contribuirá certamente para realizar esse objectivo.

      Como é óbvio, o conteúdo dos artigos é da estrita responsabilidade dos seus autores. Agradecemos a todos eles a ajuda e cooperação durante o processo de organização. Há dois agradecimentos especiais que gostaríamos de aqui deixar. Um vai para Fernando Ferreira, pela ajuda técnica preciosa dada relativamente ao material de lógica. O outro vai para M. S. Lourenço, pelo simples facto de ter, nos anos 70, introduzido em Portugal os estudos lógico-filosóficos e ter assim tornado possível o projecto.

      As pequenas definições não assinadas são da responsabilidade dos organizadores do volume. Todas as sugestões e críticas são bem-vindas.

 

João Branquinho

Desidério Murcho


autores principais

·       António Horta Branco: Licenciado em Filosofia, Mestre em Linguística e doutorado em Linguística Computacional pela Universidade de Lisboa. Professor auxiliar na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Artigos: ambiguidade; anáfora; competência; cooperação, princípio da; estrutura profunda; gramática de Montague; gramática generativa; idiolecto; implicatura convencional; implicatura conversacional; inatismo; língua natural; máximas conversacionais; pressuposição; produtividade; quantificação generalizada; semântica; significado; sinonímia; sintaxe.

·       João Branquinho: Licenciado e Mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Doutor em Filosofia pela Universidade de Oxford. Professor associado de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e coordenador do programa de Mestrado em Filosofia da Linguagem e da Consciência na mesma instituição. Artigos: abstracta; acontecimento; actual; actualismo; afirmação; âmbito; antilogismo; argumento da catapulta; argumento do matemático ciclista; atitude proposicional; atributo; Bedeutung; bivalência, princípio da; compromisso ontológico; conceito/objecto; condição; condição de adequação material; condições de verdade; conotação; contingente; contrapartes, teoria das; crença de re; de dicto/de re; definição contextual; deflacionismo; deícticos; denotação; descitação; de se; designação; determinável; dictum de omni et nullo; dilema; eliminação da identidade; equivalência; espécime-reflexivo; estado de coisas; exemplificação; existência; existência, princípio da; extensão/intensão; falácia da permutação dos quantificadores; fecho; fórmula de Barcan; função proposicional; identidade, necessidade da; identidade relativa; implicação; indexicais; intencionalidade; lei da identidade; leis do pensamento; lógica epistémica; modo formal/material; necessitação; nome próprio; objecto; para-aspas; particular egocêntrico; polissilogismo; princípio KK; propriedade; quantificação substitutiva; referência; relação; símbolo de asserção; tonk; universal.

·       Fernando Ferreira: Doutorado em Matemática pela Universidade da Pensilvânia. Professor associado de Matemática na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Investigador do Centro de Matemática e Aplicações Fundamentais. Artigos: abstracção, princípio da; aridade; associatividade, leis da; axioma da escolha; axioma da extensionalidade; axioma da fundação; axioma das partes; axioma do infinito; boa ordem; cardinal; classe; classe virtual; comutatividade, leis da; conjunto; conjunto aritmético; conjunto infinito; consistência, problema da; contínuo; correspondência biunívoca; De Morgan, leis de; diagonalização; distributividade, leis da; hipótese do contínuo; indução transfinita; lema de Zorn; modelo­; modelos, teoria dos; negação dupla; new foundations; numerável; números de Gödel; ordens; ordinal; paradoxo de Burali-Forti; paradoxo de Cantor; paradoxo de Russell; princípio do círculo vicioso; proto-elemento; sequência; subconjunto; sucessão; teorema de Cantor; teorema de Löwenheim-Skolem; teoria dos conjuntos.

·       Narciso Garcia: Professor associado de Lógica Matemática no Instituto Superior Técnico. Doutorado em Matemática pela Universidade de Oxford. Artigos: computabilidade; funções parciais; funções recursivas; máquina de Turing; operador de minimização; problema da paragem; problemas de decisão; recorrência primitiva; relação recursiva; relação recursivamente enumerável; relações; teorema da forma normal; tese de Church.

·       M. S. Lourenço: Licenciado e doutorado em Filosofia pela Universidade de Lisboa, detém também um BA em Filosofia pela Universidade de Oxford. Professor catedrático de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Artigos: análise; aritmética; constante lógica; definição indutiva; demonstração condicional; formalismo; função; fundamentos da matemática; identidade; indução matemática; lógica; logicismo; número; operador de Hilbert; operador lambda; platonismo; predicativismo; programa de Hilbert; quadrado de oposição; quantificador; reductio ad absurdum; silogismo; sistema formal; teorema da dedução; teorema da incompletude de Gödel; teoria das descrições definidas.

·       António Marques: Professor catedrático de Filosofia da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Doutor em Filosofia Contemporânea pela mesma instituição. Investigador no Instituto de Filosofia da Linguagem. Artigos: analítico; a priori; argumento transcendental; conhecimento; consciência; estado mental; falácia naturalista; identidade de indiscerníveis; indivíduo; perspectiva da primeira pessoa; qualidade primária/secundária; realismo; representação; verificacionismo.

·       Fernando Martinho: Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Artigos: cálculo proposicional; demonstração; fórmula; metalinguagem; notações; paradoxo; tabela de verdade; tautologia; teorema; teoria dos tipos; teorias axiomáticas; validade; variável; verdade de Tarski, teoria da.

·       Desidério Murcho: Licenciado em Filosofia e Mestre em Filosofia da Linguagem e da Consciência pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Artigos: acessibilidade; adição, regra da; a dicto secundum quid ad dictum simpliciter; a dicto simpliciter ad dictum secundum quid; adjectivo pseudoqualificativo; alefe; alético; algoritmo; ambiguidade sistemática; anti-simetria; assimetria; autocontradição; axioma; batalha naval, argumento da; cérebro numa cuba; círculo vicioso; círculo virtuoso; citação; co-extensivo; compossível; condição necessária; conjuntamente suficientes; contraditórias; contra-exemplo; contraposição; contrárias; convencionalismo; conversão; definição implícita/explícita; derivabilidade; distribuição; entimema; equivalência, relação de; erro categorial; essencialismo; exportação; falácia da afirmação da consequente; falácia da negação da antecedente; falsidade lógica; fbf; importação; impossibilidade; incompossível; inconsistência; independência; indiscernibilidade de idênticos; indução; intransitividade; irreflexividade; jogo de linguagem; lógica modal, sistemas de; martelo; modalidade; mundo actual; mundos possíveis; não-reflexividade; não-simetria; não-transitividade; necessidade; negação alternada; negação conjunta; nominalismo; obversão; opacidade referencial; paradoxo da análise; paradoxo de Electra; paradoxo de Goodman; paradoxo de Grelling; paradoxo de Richard; paradoxo do barbeiro; paradoxo do mentiroso; paradoxo dos corvos; proposição; proposição afirmativa; psicologismo; quadrado modal de oposição; reflexividade; regra de inferência; regras de dedução natural; sentido/referência; separadamente necessárias; simetria; solipsismo; subcontrárias, proposições; suposição; tipo/espécime; transitividade; uso/menção; valor de verdade; verdade lógica; verofuncional.

·       A. J. Franco de Oliveira: Doutor em Matemática pela Universidade de Lisboa. Professor associado de Lógica Matemática na Universidade de Évora. Artigos: álgebras da lógica; álgebras de Boole; compatível; consistência; definibilidade; domínio; lógica de segunda ordem; lógica infinitária; lógica intuicionista; lógica livre; lógica modal; lógica paraconsistente; lógica polivalente; lógica quântica; lógicas não clássicas; lógica temporal; teorema da compacidade; teorema da indecidibilidade de Church.

·       João Sàágua: Doutor em Filosofia Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa. Professor associado de Lógica para as Humanidades na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Investigador do Instituto de Filosofia da Linguagem. Artigos: anfibolia; argumento; argumento ad baculum; argumento ad hominem; argumento ad ignorantium; argumento ad misericordiam; argumento ad populum; argumento ad verecundiam; árvores semânticas; barra de Sheffer; cálculo de sequentes; conectivo; consequência; dedução natural; definição; diagramas de Venn-Euler; eliminação da conjunção; eliminação da disjunção; eliminação do quantificador existencial; eliminação do quantificador universal; falácia; falácia da causa única; falácia da composição; falácia da divisão; falácia da ilícita maior; falácia da ilícita menor; falácia do equívoco; falácia do termo não distribuído; falácia ignoratio elenchi; forma normal; holismo; inferência; interpretação radical; introdução da conjunção; introdução da disjunção; introdução do quantificador existencial; introdução do quantificador universal; linguagem formal; lógica de primeira ordem; modus ponens; modus tollens; notação canónica; par ordenado; postulado de sentido; predicado; semântica lógica; sintaxe lógica; teorema da completude; teorema da correcção; termo.

·       Pedro Santos: Assistente na Universidade do Algarve. Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Mestre em linguística pela mesma instituição. Artigos: acto de fala; acto ilocutório; acto locutório; acto perlocutório; asserção; atributivo/referencial; competência; composicionalidade, princípio da; condicionais, teorias das; condicional; condicional contrafactual; condições de assertibilidade; condições de felicidade; cooperação, princípio da; designador; designador rígido; é; factivo; filosofia da linguagem comum; genéricas; gramática de Montague; implicatura convencional; implicatura conversacional; lógicas relevantes; máximas conversacionais; metáfora; paradoxo de Moore; pragmática; pressuposição; princípio do contexto; quantificação generalizada; semântica; sorites; termo contável/termo de massa; vagueza.

·       António Zilhão: Professor auxiliar de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Licenciado e Mestre em Filosofia pela mesma instituição. Doutor em Filosofia pela Universidade de Londres. Artigos: abdução; agência; argumento ontológico; argumento per analogiam; behaviorismo; ceteris paribus, leis; dilema do prisioneiro; disposição; dualismo; exteriorização; fisicalismo; funcionalismo; implicação existencial; linguagem do pensamento; linguagem privada, argumento da; monismo; problema da mente-corpo; ramseyficação; sobreveniência; teoria da decisão.

 

Autores estrangeiros

·       Paul Boghossian: Professor de Filosofia e Director do Departamento de Filosofia da Universidade de Nova Iorque. Autor de diversos artigos especializados. Artigo: conteúdo.

·       Christopher Cherniak: Professor na Universidade de Maryland, nos EUA. Autor de Minimal Rationality. Artigo: racionalidade.

·       Paul Horwich: Professor na Universidade de Londres. Autor de diversos artigos e das obras Truth e Meaning. Artigo: verdade, teorias da.

·       Dick de Jongh: Professor na Universidade de Amesterdão. Artigo: intuicionismo.

·       David Papineau: Professor de Filosofia da Ciência na Universidade de Londres. Autor de Theory and Meaning (1979), Reality and Representation (1987) e Philosophical Naturalism (1993). Presidente do Departamento de Filosofia do King's College de Londres e Director do British Journal for the Philosophy of Science. Artigo: teleo-semântica.

·       Mark Sainsbury: Professor na Universidade de Londres. Autor de Russell (1979), Paradoxes (1988, 1995) e Logical Forms (1991). Artigo: forma lógica.

·       Charles Travis: Professor de Filosofia na Universidade de Stirling. Autor de Saying and Understanding (1975), The True and the False (1981) e The Uses of Sense (1989). Artigo: pensamento.

·       Timothy Williamson: Professor Wikeham de Lógica na Universidade de Oxford. Autor de Vagueness e The Limits of Knowledge. Artigo: possibilia.

 

Autores convidados

·       José Carmo: Professor associado de Teoria da Computação no Instituto Superior Técnico. Artigo: lógica deôntica.

·       João Pavão Martins: Professor associado no Instituto Superior Técnico. Artigo: lógicas não monótonas.

·       Adriana Silva Graça: Professora Auxiliar na Faculdade de Letras de Lisboa. Artigo: atomismo lógico.

 

Jovens autores

·       Sara Farmhouse Bizarro: Licenciada em Filosofia e Mestre em Filosofia da Linguagem e da Consciência pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Artigos: conteúdo estrito/lato; modo de apresentação; navalha de Ockham.

·       Ana Cristina Domingues: Licenciada em Filosofia. Artigos: possibilidade; termo geral; Terra Gémea.

·       João Fonseca: Licenciado e Mestre em Filosofia. Investigador do Instituto de Filosofia da Linguagem da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Artigos: indeterminação da tradução; relatividade ontológica.

·       Miguel Fonseca: Licenciado em Filosofia. Artigo: modalidade de re; propriedade essen­cial/acidental.

·       Pedro Galvão: Professor eventual do ensino secundário. Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Artigos: positivismo lógico; proposição protocolar; regressão ad infinitum; verdade como redundância, teoria da.

·       Teresa Marques: Licenciada em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Artigos: referência, teorias da; tipo natural.

·       Célia Teixeira: Licenciada em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Artigos: non sequitur; petitio principii; proposição categórica; proposição geral/singular; proposição hipotética; subalternas, proposições.


 


 


 

 

 

A

 

 

 


abdução Termo introduzido por Charles Sanders Peirce (1839-1914) para referir uma inferência com o seguinte aspecto:

 

Se A, então B

B

\ A

 

      Embora uma abdução tenha a estrutura acima apresentada, nem todas as inferências com esta estrutura são abduções. O aspecto crucial na caracterização da abdução é então o de determinar o que distingue as inferências realizadas de acordo com esta estrutura que admitem ser consideradas como abduções, daquelas que não o admitem. O esclarecimento desta questão vem a par com a necessidade de distinguir entre uma inferência abdutiva e uma falácia da afirmação da consequente. Com efeito, a estrutura formal acima apresentada em nada parece distinguir-se da formulação que caracteriza esta falácia.

      Há, todavia, uma distinção. Esta consiste em que o idioma «se¼, então¼» da primeira premissa do esquema acima apresentado deve ser entendido como referindo não a função de verdade implicação material mas antes a relação de causalidade. Considera-se por isso que uma inferência realizada de acordo com este esquema é uma abdução se, e só se, a primeira premissa da mesma estabelecer a existência de uma relação de causalidade entre A e B (de A para B).

      Repare-se que, mesmo nas circunstâncias acima descritas, a abdução estabelece apenas a probabilidade da conclusão da inferência e não necessariamente a sua verdade. Na realidade, um mesmo efeito pode ser o efeito de diferentes causas e, por conseguinte, a simples constatação da presença de um dado efeito B em determinadas circunstâncias juntamente com o conhecimento de que, nessas circunstâncias, a putativa presença do acontecimento A teria constituído uma causa da ocorrência do acontecimento B pode não ser suficiente para permitir a identificação categórica daquela de entre as suas possíveis causas que efectivamente originaram a presença de B.

      Para ilustrar esta ideia, consideremos o seguinte argumento:

 

Se choveu, a rua estará molhada; a rua está molhada; logo, choveu.

 

Embora ambas as premissas possam ser verdadeiras numa determinada circunstância, é perfeitamente possível que a causa de a rua estar molhada nessa circunstância tenha sido a passagem pela mesma do camião cisterna de lavagem de ruas dos serviços municipalizados de limpeza e não a queda de chuva. Para que a inferência abdutiva possa ter um grau de fiabilidade aceitável é então necessário, de um modo geral, identificar previamente outros efeitos habitualmente produzidos por A e verificar se a presença de esses outros efeitos é concomitante com a presença de B.

      No caso do exemplo acima apresentado, para que a inferência abdutiva fosse fiável seria então necessário ter identificado outros efeitos habitualmente produzidos pela queda de chuva (como, por exemplo, o facto de os telhados das casas ficarem molhados, um efeito da queda de chuva que não teria podido ser causado, em circunstâncias normais, pela passagem do camião cisterna dos serviços municipalizados) e ter verificado a sua presença concomitante com o facto de a rua estar molhada.

      Assim, uma formulação mais geral da estrutura de uma inferência abdutiva tem, na realidade, o seguinte aspecto (em que 0 £ i £- 1):

 

Se A, então B1,

Se A, então B2,

Ç

Se A, então Bn,

B1,

B2,

Ç

Bn-i

\ A

 

      Este esquema da estrutura de uma inferência abdutiva não constitui todavia ainda uma formalização rigorosa, uma vez que o mesmo não fornece qualquer indicação acerca nem de qual o valor de i acima do qual a inferência passa a ser fiável nem de qual o valor de i abaixo do qual a inferência deixa de ser fiável. Infelizmente, não parecem existir quaisquer receitas infalíveis para a determinação de tais valores em casos de dados insuficientes. Por outro lado, mesmo naqueles casos em que a massa de dados disponíveis a favor de uma dada hipótese é tão grande quanto poderíamos desejar, é sempre possível imaginar consistentemente que uma outra causa originou o conjunto de efeitos conhecido.

      No caso do exemplo acima referido, a hipótese de que uma nave extraterrestre gigante tenha pairado por momentos, sem que ninguém a tivesse observado, sobre a área molhada e a tenha borrifado com o objectivo de proceder a uma experiência para determinar melhor as características do meio ambiente da Terra pode ser tão compatível com os dados disponíveis como a hipótese da chuva. A selecção de uma dada hipótese causal como a melhor tem então sempre que depender também de outros critérios de escolha tais como a simplicidade da explicação a que dá origem ou o carácter conservador da mesma. Por isso, este método de inferência é também conhecido como inferência para a melhor explicação.

      Seja como for, quando se alcança uma identificação da causa da ocorrência de um dado efeito ou conjunto de efeitos diz-se que essa identificação permite explicar a ocorrência desse efeito ou conjunto de efeitos. O objectivo de um processo abdutivo é assim o de alcançar uma explicação para um determinado acontecimento ou conjunto de acontecimentos. A abdução pode portanto ser vista como um género de inferência por meio do uso da qual se podem gerar explicações de acontecimentos. Ver também inferência, leis ceteris paribus, indução.

António Zilhão

 

Bibliografia

Dancy, J. e Sosa, E. (orgs.) (1992) A Companion to Epistemology, Blackwell, Oxford.

Peirce, C. S. (1931-35) Collected Papers, Harvard University Press, Cambridge, MA.

Ruben, D.-H. (1990) Explaining Explanation, Routledge, Londres.

 

aberta, fórmula Ver fórmula aberta.

 

aberta, frase Ver fórmula aberta.

ab esse ad posse valet consequentia (lat., a consequência do ser para o possível é válida) Designação tradicional para o princípio elementar do raciocínio modal que estabelece ser sempre legítimo inferir a possibilidade, aquilo que pode ser o caso, a partir do ser, aquilo que é o caso. Por outras palavras, se uma frase ou proposição p é verdadeira, então a sua possibilitação, a frase ou proposição é possível que p, será também verdadeira.

      Em símbolos, o princípio garante a validade de qualquer inferência da forma p \ àp. Do ponto de vista da semântica de mundos possíveis, a validade do princípio exige apenas que a relação de possibilidade relativa ou acessibilidade entre mundos possíveis seja reflexiva: se p é verdadeira num mundo w, então p será verdadeira em pelo menos um mundo w' acessível a partir de w, viz., o próprio w. Ver também introdução da possibilidade.

 

absorção, lei da Princípio da teoria dos conjuntos segundo o qual, para quaisquer conjuntos X e Y, se tem a seguinte identidade: X = X È (X Ç Y). A designação também é empregue para referir a seguinte tautologia da lógica proposicional: « (p Ú (p Ù q)).

 

abstracção, axioma da Ver abstracção, princípio da.

 

abstracção, princípio da Princípio da teoria dos conjuntos que permite formar o conjunto de todas as entidades, e só daquelas entidades, que possuem uma dada propriedade Px – este conjunto denota-se simbolicamente por {x : Px}. O princípio da abstracção está implícito na lei básica V de Grundgesetze der Arithmetik (1893) de Gottlob Frege (1848-1925). O uso irrestrito do princípio da abstracção leva a situações paradoxais (ver paradoxo de Russell). Ver também teoria dos conjuntos, paradoxo de Burali-Forti, paradoxo de Cantor, classe.

Fernando Ferreira

 

abstracta (lat., entidades abstractas) De acordo com uma respeitável tradição, tornou-se habitual distinguir em filosofia entre, de um lado, entidades concretas (concreta) como mesas e cadeiras, e, do outro lado, entidades abstractas (abstracta) como qualidades e números. Todavia, esta distinção, apesar de ser útil para certos propósitos, é frequentemente deixada num estado bastante impreciso. E talvez uma das consequências de tal situação seja a fusão incorrecta (veja-se abaixo) que é muitas vezes feita de abstracta com universais e de concreta com particulares, sendo desta maneira aquela classificação confundida com outra classificação com profundas raízes na tradição, a divisão entre universais e particulares. As duas classificações pertencem por excelência à província da metafísica; e, dada a importância que a disciplina tem readquirido na filosofia mais recente (materializada em livros como Armstrong, 1997), elas têm sido objecto de estudo intenso.

      Tal como sucede relativamente a outras classificações, talvez a melhor maneira (muito provavelmente a única) de introduzir os conceitos a distinguir consista simplesmente em listar um conjunto de ilustrações paradigmáticas daquilo que é por eles subsumido. Com efeito, é extremamente difícil proporcionar definições estritas para os termos «abstracto» e «concreto» aplicados a objectos.

      Exemplos tradicionalmente apresentados como típicos de (subcategorias de) objectos abstractos são os seguintes:

 

a) propriedades ou atributos de particulares, como a Brancura e a Honestidade (e também propriedades de propriedades, como a propriedade de ser uma qualidade rara);

b) relações entre particulares, como a Semelhança e a Amizade;

c) proposições, como a proposição que os homens são todos iguais perante a lei, e estados de coisas (ou factos), como o estado de coisas (ou o facto) de Teeteto estar sentado;

d) classes de particulares, como a classe dos políticos corruptos e a classe dos barbeiros que não fazem a barba a si próprios;

e) números, como o número 7 e o número das luas de Marte;

f) instantes e intervalos de tempo, como o momento presente e o mês de Setembro de 1997.

g) tropos, ou seja, propriedades consideradas como indissociáveis dos particulares que as exemplificam, como por exemplo a honestidade de Sócrates, a brancura desta peça de roupa e a elegância da Schiffer;

 

      E exemplos tradicionalmente apresentados como típicos de (subcategorias de) objectos concretos são os seguintes:

 

a) particulares espácio-temporais de dimensões variáveis, bem como as suas partes componentes (caso as tenham), como pedras, asteróides, planetas, galáxias, pessoas e outros animais, partículas atómicas, etc.;

b) acontecimentos no sentido de acontecimentos-espécime, como o naufrágio do Titanic, a queda do Império Romano e a reunião de ontem do Conselho de Ministros;

c) lugares, como a cidade de Edimburgo, o meu quarto e o Algarve;

d) agregados mereológicos de objectos físicos, como a soma mereológica daquela mesa com este computador e o agregado mereológico de Ramalho Eanes e Mário Soares;

e) segmentos temporais de particulares materiais, como estádios temporais de coelhos (por exemplo, os discutidos por Quine), de pessoas (por exemplo, o corte temporal na existência       de Cavaco que corresponde ao período em      que ele foi Primeiro Ministro), de estátuas       (por exemplo, esta estátua de Golias desde que foi comprada até à altura em que foi roubada), etc.

 

      A consideração da lista de exemplos supra introduzidos é por si só suficiente para bloquear qualquer assimilação da distinção concreto/abstracto à distinção particular/universal; de facto, basta reparar que objectos como classes ou proposições exemplificam a categoria de particulares abstractos. A incorrecção da assimilação em questão reflecte-se na ambiguidade com a qual são por vezes caracterizados certos pontos de vista em Ontologia, pontos de vista esses definidos pela rejeição, ou pela postulação, de determinadas categorias de objectos. Assim, por exemplo, o nominalismo tanto é caracterizado como consistindo na rejeição de abstracta, como sendo a doutrina de que apenas há objectos concretos, como é caracterizado como consistindo na rejeição de universais, como sendo a doutrina de que apenas há particulares; analogamente, o ponto de vista rival do nominalismo, habitualmente designado como realismo, tanto é caracterizado como consistindo na admissão de abstracta (ao lado de concreta), como é caracterizado como consistindo na admissão de universais (ao lado de particulares). Por exemplo, em filosofia da matemática, o formalismo, o qual é a variedade do nominalismo na área, tanto é descrito como consistindo na rejeição de classes e outros objectos abstractos como consistindo na rejeição de universais (cf. Quine, 1980, pp. 14-15). Naturalmente, tais caracterizações estão longe de ser equivalentes.

      Como já foi dito, é difícil encontrar um princípio, ou um conjunto de princípios, que permitam discriminar rigorosamente entre as duas putativas grandes categorias de entidades ou objectos. Todavia, os seguintes três parâmetros têm sido sugeridos, conjunta ou separadamente, como bases para a classificação.

 

I – Localização espacial

 

      Os objectos abstractos, ao contrário dos objectos concretos, são aqueles objectos que não podem em princípio ocupar qualquer região no espaço; grosso modo, x é um objecto abstracto se, e só se, x não tem qualquer localização no espaço (presume-se que os predicados concreto e abstracto são predicados mutuamente exclusivos e conjuntamente exaustivos de objectos). A proposição que Londres é maior que Lisboa não está ela própria em Londres, ou em Lisboa, ou em qualquer outro sítio; e o mesmo sucede com o atributo da Brancura e com a classe das cidades europeias, muito embora os exemplos daquele e os elementos desta possam ter uma localização espacial. Associada a esta característica está a inacessibilidade de objectos abstractos à percepção sensível (mesmo quando esta é tomada como ampliada por meio do uso de certos dispositivos e aparelhos); proposições, atributos, ou classes, não se podem ver, ouvir, cheirar, sentir, ou saborear. Um problema com o parâmetro I é o de que uma entidade como Deus, se existisse, não estaria no espaço; mas também não seria, por razões óbvias, um objecto abstracto. Esta objecção milita contra a suficiência do parâmetro I, não contra a sua necessidade.

 

 

II – Existência necessária

 

      Os objectos abstractos, ao contrário dos objectos concretos, são aqueles objectos cuja existência é não contingente, ou seja, aqueles objectos que existem em todos os mundos possíveis, situações contrafactuais, ou maneiras como as coisas poderiam ter sido; grosso modo, x é um objecto abstracto se, e só se, x existe necessariamente. Em contraste com isto, a existência de objectos concretos ou particulares materiais é caracteristicamente contingente: eles poderiam sempre não ter existido caso as coisas fossem diferentes daquilo que de facto são. A proposição que Londres é maior que Lisboa, ao contrário daquilo que se passa com os objectos acerca dos quais a proposição é, viz. as cidades de Londres ou Lisboa, é um existente necessário; e o mesmo sucede com o atributo da Brancura e com a classe das cidades europeias, muito embora os exemplos daquele e os elementos desta gozem apenas de uma existência contingente. Um problema com o parâmetro II é o de que, segundo certos pontos de vista acerca de proposições, há certas proposições cuja existência é contingente. A razão é basicamente a de que tal existência é vista como dependendo da existência dos particulares materiais acerca dos quais essas proposições são, e esta última existência é manifestamente contingente. Todavia, as proposições em questão não deixam por isso de ser abstracta. Assim, a adopção do parâmetro II teria o efeito imediato de excluir os pontos de vista sob consideração. Esta objecção milita contra a necessidade do parâmetro II, não contra a sua suficiência.

 

 

III – Interacção causal

 

      Os objectos abstractos, ao contrário dos objectos concretos, são aqueles objectos que não são capazes de figurar em cadeias causais, aqueles objectos que nem estão em posição de ter algo como causa nem estão em posição de ter algo como efeito; grosso modo, x é um objecto abstracto se, e só se, x não tem poderes causais. Em contraste com isto, objectos concretos ou particulares materiais são, por excelência, susceptíveis de interagir causalmente com outros objectos, igualmente concretos, de figurar em eventos que são causas ou efeitos de outros eventos. Um problema com o parâmetro III é o de que determinados pontos de vista atribuem certos poderes causais, designadamente aqueles que são requeridos para efeitos de explicação científica, a objectos abstractos como propriedades. Esta objecção milita contra a necessidade do parâmetro III, não contra a sua suficiência. Ver também propriedade, nominalismo.

João Branquinho

 

Bibliografia

Armstrong, D. (1977) A World of States of Affairs, Cambridge University Press, Cambridge.

Quine, W. V. O. (1980) «On What There Is» in From a Logical Point of View, Harvard University Press, Cambridge, MA, pp. 1-19.

absurdo, redução ao Ver reductio ad absurdum.

 

absurdo, símbolo do Ver símbolo do absurdo.

 

acessibilidade Na semântica dos mundos possíveis de Saul Kripke (1940- ), a acessibilidade, ou possibilidade relativa, é uma relação lógica entre mundos possíveis, em particular entre o mundo actual e os outros mundos possíveis. Um mundo w' é acessível a partir de um mundo w (ou um mundo w' é possível relativamente a w) quando qualquer proposição verdadeira em w' é possível em w. Intuitivamente, diz-se por vezes que w «vê» w'.

      Este conceito é de importância central uma vez que permite sistematizar as diferenças entre as várias lógicas modais. Se definirmos a acessibilidade entre o mundo actual e os outros mundos possíveis como reflexiva, obtemos o sistema T; se a definirmos como reflexiva e transitiva, obtemos S4; se a definirmos como reflexiva e simétrica obtemos B; se a definirmos como reflexiva, transitiva e simétrica, obtemos S5.

      A acessibilidade é um conceito puramente lógico e não epistémico, ao contrário do que pode parecer se tomarmos a metáfora dos mundos possíveis literalmente e apesar das ressonâncias epistémicas do termo acessibilidade.

      A ideia intuitiva na base do conceito de possibilidade relativa é a de que nem tudo o que é possível, em termos absolutos, é realmente possível relativamente a toda e qualquer situação. Por exemplo, eu poderia ter sido um pianista de renome. Essa é uma possibilidade razoável. Mas, relativamente à situação de hoje em dia, essa possibilidade tem de ser excluída, uma vez que eu teria de ter iniciado o estudo do piano aos 8 ou 9 anos, coisa que não fiz. Por isso, ser um pianista de renome só é uma possibilidade relativamente a uma situação contrafactual diferente da actual, contrastando claramente com a possibilidade de ser dactilógrafo, que é algo que ainda posso ser. Ver também lógica modal, sistemas de; fórmula de Barcan.

 

Desidério Murcho

Bibliografia

Chellas, Brian F. (1980) Modal Logic: an introduction, Cambridge University Press, Cambridge.

Forbes, Graeme (1985) The Metaphysics of Modality, Clarendon Press, Oxford.

Kripke, Saul (1963) «Semantical Considerations on Modal Logic» in Acta Philosophica Fennica, 16, pp. 83-94, reimpresso em Leonard Linsky, org., Reference and Modality, Oxford University Press, Oxford, 1971.

 

acidental, propriedade Ver propriedade essencial/acidental.

 

acidente Ver propriedade essencial/acidental.

 

acidente, falácia do Ver falácia do acidente.

 

acontecimento Um acontecimento – ou, num registo talvez mais formal mas filosoficamente irrelevante, um evento – é algo que ocorre, toma lugar, ou sucede, numa determinada região do espaço ao longo de um determinado período de tempo. Deste modo, exemplos de acontecimentos são a erupção do Etna, a corrida de Rosa Mota quando venceu a maratona olímpica, a dor de barriga de Jorge Sampaio, a irritação de Soares quando um jornalista lhe fez uma pergunta, a Batalha de Aljubarrota, o naufrágio do Titanic, o casamento de Édipo com Jocasta, o assassínio de Júlio César por Bruto, a partida de xadrez entre Kasparov e o computador Deep Blue, etc. Acontecimentos tanto podem ser instantâneos ou de curta duração, como é o caso do meu presente erguer do braço direito para chamar um táxi ou de uma elocução por alguém da expressão «Arre!», como de longa duração, como é o caso da tomada de Constantinopla pelos Turcos ou de certas reuniões de certos Departamentos de Filosofia.

      A palavra «acontecimento» é, tal como a palavra «palavra», ambígua entre uma interpretação em que é tomada no sentido daquilo a que é usual chamar um acontecimento-tipo, e uma interpretação em que é tomada no sentido daquilo a que é usual chamar um acontecimento-espécime (ver tipo/espécime). Acontecimentos-tipo são entidades universais, no sentido de repetíveis ou exemplificáveis, e abstractas, no sentido de não localizáveis no espaço-tempo. Acontecimentos-tipo são, por exemplo, a Maratona Anual de Bóston e o Grande Prémio de Portugal de F1; ou seja, aquilo que todas as realizações da maratona na cidade de Bóston em cada ano têm em comum, respectivamente aquilo que todas as corridas de bólides de F1 que tomam lugar no autódromo do Estoril em cada ano têm em comum. Um tipo de acontecimento pode ser assim visto como sendo simplesmente uma certa classe de acontecimentos específicos (ou, se preferirmos, uma certa propriedade de acontecimentos específicos); dizer que o Grande Prémio de Portugal de F1 vai deixar de ter lugar é o mesmo que dizer que, a partir de uma certa ocasião futura, a classe de acontecimentos específicos identificada com esse acontecimento-tipo deixará de ter mais elementos, pelo menos elementos actuais (ou, se preferirmos, que a propriedade de acontecimentos específicos com ele identificada deixará de ser exemplificada, pelo menos por acontecimentos actuais). Acontecimentos-espécime são por sua vez entidades particulares, no sentido de irrepetíveis ou não exemplificáveis, e concretas, no sentido de datáveis e situáveis no espaço; exemplos de acontecimentos-espécime são pois uma edição particular, por exemplo, a edição de 1995, do Grande Prémio de Portugal de F1 e a edição de 1997 da Maratona de Bóston. Naquilo que se segue, e dado que a discussão filosófica acerca de acontecimentos procede assim em geral, tomamos o termo «acontecimento» apenas no sentido de acontecimento-es-pécime.

      Outra maneira de classificar acontecimentos consiste em distinguir entre acontecimentos gerais e acontecimentos particulares. Esta distinção está longe de ser precisa, e o mesmo sucede com as distinções que se lhe seguem; mas o recurso a ilustrações é suficiente para dar uma ideia geral daquilo que se pretende. Quando, por exemplo no contexto de um jogo, todas as pessoas vestidas de vermelho correm atrás de uma (pelo menos uma) pessoa vestida de azul, aquilo que temos é um acontecimento (puramente) geral; de um modo aproximado, dizemos que um acontecimento é (puramente) geral quando a sua descrição não envolve a presença de quaisquer termos singulares, isto é, de quaisquer dispositivos de identificação de objectos particulares. Quando, por exemplo no contexto de um jogo às escondidas desenrolado em São Bento, Marques Mendes corre atrás de António Vitorino, aquilo que temos é um acontecimento particular. Por outro lado, é também possível classificar acontecimentos em acontecimentos simples e acontecimentos complexos. Quando, por exemplo, Carlos e Carolina sobem a colina numa certa ocasião, ou quando Pedro ou Paulo disparam sobre Gabriel, ou ainda (mais controversamente) quando Carolina não sobe a colina, aquilo que temos são acontecimentos complexos (os quais, por sinal, são também particulares); de um modo aproximado, dizemos que um acontecimento é complexo quando a sua descrição envolve a presença de pelo menos um operador frásico ou conectiva (uma frase como «Carlos e Carolina esmurraram-se» não contém uma referência a um acontecimento complexo nesse sentido, pois a conjunção não ocorre aí como operador frásico). Quando, por exemplo, o mais alto espião do mundo (quem quer que seja) dispara sobre o mais baixo filósofo português (quem quer que seja), aquilo que temos é um acontecimento simples (o qual, por sinal, é também um acontecimento geral; supomos, evidentemente, que descrições definidas em uso atributivo não são dispositivos de referência singular). No entanto, há quem não queira admitir de forma alguma certos géneros de acontecimentos complexos, em especial putativos acontecimentos negativos como a não subida da colina por Carolina. Em todo o caso, é ainda possível distinguir entre acontecimentos actuais e acontecimentos meramente possíveis. Os primeiros são acontecimentos que ou ocorreram, ou estão a ocorrer, ou virão a ocorrer. Os segundos são acontecimentos que nem ocorreram, nem estão a ocorrer, nem virão a ocorrer; mas que poderiam ter ocorrido, ou poderiam estar a ocorrer, ou poderiam vir a ocorrer. Suponha-se que eu nunca atravessei até ao momento, nem virei a atravessar no futuro, o rio Tejo a nado; então a minha travessia do Tejo a nado é um exemplo de um acontecimento meramente possível. Todavia, mais uma vez, há também quem não admita de forma alguma acontecimentos meramente possíveis, e apenas considere como um acontecimento algo que de facto ocorreu, está a ocorrer, ou virá a ocorrer; por outras palavras, há quem defenda a ideia de que só factos, isto é, estados de coisas actuais, são acontecimentos. Finalmente, é também possível dividir os acontecimentos em acontecimentos contingentes e acontecimentos não contingentes. Um acontecimento contingente é simplesmente um acontecimento que ocorreu, mas que poderia não ter ocorrido (se as coisas tivessem sido outras); por exemplo, a dor no calcanhar esquerdo que eu senti ontem à tarde é um acontecimento contingente: num mundo possível certamente melhor do que este ela não existiria. Um acontecimento não contingente é simplesmente um acontecimento que, não só ocorreu, como também não poderia não ter ocorrido (por muito diferentes que as coisas tivessem sido); para muitos deterministas, fatalistas e pessoas do género, certos factos históricos (por exemplo, a Batalha das Termópilas) são acontecimentos não contingentes. De novo, há quem não admita de forma alguma acontecimentos não contingentes, pelo menos no que diz respeito ao caso de acontecimentos simples, e quem defenda a ideia de que só os factos contingentes são acontecimentos.

      Entre outras razões, o tópico dos acontecimentos é de grande importância para a filosofia, e em particular para a metafísica, porque a relação de causalidade é normalmente considerada como uma relação que tem acontecimentos como relata. Quando, por exemplo, se diz que o gato acordou porque o Manuel bateu com a porta, ou que o bater da porta pelo Manuel causou o acordar do gato, é plausível ver a relação causal como uma relação entre dois acontecimentos: um acontecimento que é uma causa (o bater da porta) e um acontecimento que é um seu efeito (o acordar do gato). Para obtermos uma concepção adequada acerca da natureza da causalidade, precisamos assim, presumivelmente, de dispor de uma noção apropriada de acontecimento. De particular relevância para a actual filosofia da mente é o problema da causalidade mental, em especial a questão da aparente existência de relações causais entre, de um lado, acontecimentos mentais (não observáveis) e, do outro, comportamentos e acções (acontecimentos observáveis). Por exemplo, prima facie existe uma conexão causal entre o meu pensamento ocorrente de que vai chover daqui a pouco (um acontecimento mental), tomado em conjunto com o meu desejo ocorrente de não me molhar (outro acontecimento mental), e um determinado acontecimento físico, o qual pode ser descrito como consistindo em eu ir buscar um impermeável ao armário; é natural dizer-se que, dada a presença daquele desejo, a ocorrência do pensamento em questão é uma causa de um tal comportamento. Outra razão pela qual o tópico dos acontecimentos é central para a metafísica e para a filosofia da mente reside no facto de o problema da mente-corpo ser muitas vezes formulado num vocabulário de acontecimentos. Em particular, as identidades psicofísicas defendidas pelo fisicalismo são frequentemente formuladas em termos de acontecimentos e propriedades de acontecimentos: segundo o fisicalismo tipo-tipo, propriedades de acontecimentos mentais, por exemplo, a propriedade de ser uma dor, são identificadas com propriedades de acontecimentos físicos (no cérebro), por exemplo, a propriedade de ser um disparar de tal e tal neurónio; segundo o fisicalismo exemplar-exemplar, acontecimentos mentais específicos, por exemplo, a dor de dentes que uma pessoa sente numa certa altura, são identificados com acontecimentos físicos específicos, por exemplo, o disparar de tal e tal neurónio no cérebro dessa pessoa nessa ocasião.

      Os tópicos centrais da filosofia dos acontecimentos, um segmento importante da metafísica, parecem ser os seguintes dois (os quais não são certamente independentes um do outro):

 

a) O problema da existência – Existem de facto acontecimentos? Será que precisamos de admitir uma tal categoria de entidades na nossa ontologia?

b) O problema da identidade – Quine ensinou-nos que não há entidade sem identidade. O que são então acontecimentos? Como é que se individualizam e contam acontecimentos? Em particular, quando é que temos um acontecimento e não dois?

 

      Em relação à questão da existência, uma linha de argumentação familiar introduzida por Donald Davidson (veja-se Davidson, 1980) pretende estabelecer a necessidade da admissão de acontecimentos na nossa ontologia a partir de observações acerca da forma lógica correcta para um determinado fragmento de frases de uma língua natural. A ideia é pois a de que uma porção importante do nosso esquema conceptual estaria comprometida com a existência de acontecimentos. As frases em questão são paradigmaticamente frases que contêm verbos de acção. Tome-se para o efeito a frase «A Claudia Schiffer caiu aparatosamente na cozinha.» E suponha-se, o que é bem razoável, que muitas frases deste género (incluindo esta) são verdadeiras. Então, grosso modo, há duas pretensões que são avançadas a seu respeito. A primeira é a de que a forma lógica destas frases é aquela propriedade das frases que é inter alia responsável pelo seu papel inferencial, pela sua posição numa certa estrutura de inferências válidas. Assim, a forma lógica da frase «A Claudia Schiffer caiu aparatosamente na cozinha» tem de ser tal que seja em virtude dela que, por exemplo, a frase seguinte é uma sua consequência lógica: «A Claudia Schiffer caiu.» Com base num determinado género de inferência para a melhor explicação, Davidson e outros argumentam em seguida que a melhor maneira (senão mesmo a única!) de acomodar a validade intuitiva de inferências daquele tipo é atribuir a uma frase como «A Schiffer caiu aparatosamente na cozinha» a forma lógica de uma quantificação existencial sobre acontecimentos do seguinte género (ignoro certas complicações irrelevantes):

 

$e (e é uma queda Ù e foi dada pela Schiffer Ù e foi aparatosa Ù e ocorreu na casa de banho)

 

A variável e toma valores num domínio de acontecimentos (no sentido de acontecimentos-exemplar), e a modificação adverbial é interpretada como consistindo em predicados de acontecimentos. Através de lógica elementar, segue-se a conclusão

 

$e (e é uma queda Ù e foi dada pela Schiffer)

 

a qual é (simplificadamente) a regimentação da frase «A Schiffer caiu.» A segunda pretensão consiste simplesmente na aplicação do critério quineano de compromisso ontológico, e na constatação do facto de que, de maneira a que afirmações daquele género possam ser verdadeiras, é necessário que entidades como acontecimentos estejam entre os valores das nossas variáveis quantificadas. Por conseguinte, existem acontecimentos; ou antes, o nosso esquema conceptual – a «teoria» incorporada na nossa linguagem – diz que há acontecimentos.

      Apesar deste género de argumento ser bastante influente, há quem não se deixe impressionar. Com efeito, pode-se simplesmente ser céptico em relação a quaisquer inferências que pretendam ir de considerações linguísticas, de observações acerca da forma lógica de certas frases, para conclusões metafísicas; em especial, pode-se ser em geral céptico em relação à doutrina davidsoniana de que uma identificação das propriedades centrais da linguagem nos dá uma identificação das características centrais da realidade. Por outro lado, e mais modestamente, é sempre possível objectar à análise lógica particular proposta para frases com verbos de acção e resistir assim à inferência associada para a melhor explicação; ou pode-se simplesmente rejeitar o próprio critério quineano de existência. Todas estas linhas de oposição são, naturalmente, possíveis. Mas não se segue, naturalmente, que elas sejam plausíveis; e o que é certo é que, tanto na filosofia da mente e da linguagem como na semântica linguística e em outras disciplinas, a introdução de acontecimentos tem-se revelado extremamente vantajosa do ponto de vista teórico (veja-se, por exemplo, Parsons, 1990).

      Quanto ao problema da identidade, a questão de saber que género de coisas são acontecimentos, é possível distinguir na recente filosofia dos acontecimentos dois pontos de vista principais. Num desses pontos de vista, subscrito por Davidson e outros, os acontecimentos são particulares concretos, entidades no espaço-tempo, semelhantes em muitos aspectos a objectos materiais. Assim, o que é um e o mesmo acontecimento pode ser identificado através de uma diversidade de descrições. Considere-se, por exemplo, aquilo que sucedeu no senado romano, durante os Idos de Março, e que envolveu Bruto e César. O acontecimento em questão tanto pode ser identificado através da descrição definida «O assassínio de César por Bruto» como através da descrição «O esfaquear de César no peito por Bruto»; estas descrições de acontecimentos, bem como outras descrições apropriadas, são co-referenciais, designam o mesmo acontecimento (no sentido de acontecimento-exemplar, claro). E isto sucede de um modo análogo ao modo pelo qual um e o mesmo objecto material, por exemplo, Vénus, pode ser identificado através do uso de uma variedade de descrições co-referenciais («A Estrela da Manhã», «A Estrela da Tarde», etc.) A ideia geral é a de que a identidade de um acontecimento, aquilo que um acontecimento é, é determinado pela posição particular que o acontecimento ocupa no espaço e pelo intervalo particular de tempo ao longo do qual ocorre; por outras palavras, a propriedade de ter uma determinada localização espácio-temporal é uma propriedade constitutiva de cada acontecimento. Considere-se, por exemplo, o meu presente erguer do braço esquerdo; então qualquer erguer do meu braço esquerdo que ocorra numa ocasião diferente é um acontecimento diferente (por muito qualitativamente idêntico que seja àquele acontecimento). Grosso modo, o princípio de individuação de acontecimentos aqui sugerido é o seguinte: e e e' são o mesmo acontecimento (acontecimento-exemplar) se, e só se, e e e' ocupam exactamente a mesma região do espaço durante exactamente o mesmo período de tempo. Uma vantagem conspícua deste ponto de vista é a de que, assim concebidos, os acontecimentos são entidades adequadas para desempenhar o papel de relata da relação de causalidade; pois é natural ver esta relação como uma relação entre particulares concretos no mundo. Mas este ponto de vista tem sido criticado com base no facto de discriminar entre acontecimentos de uma maneira que não é suficientemente fina. Suponha-se que numa certa ocasião eu espirro, e que, simultaneamente, ergo o braço direito. Em seguida, um táxi pára para eu entrar. É o meu espirro o mesmo acontecimento do que o meu erguer do braço direito? Se sim, então, supondo que ter certos efeitos (bem como ter certas causas) é uma característica de cada acontecimento, seríamos obrigados a dizer que o meu espirro causou a paragem do táxi. Ora, isto não parece estar em ordem. Presumivelmente, diríamos que o táxi parou porque eu ergui o braço, mas não diríamos que o táxi parou porque eu espirrei. E, supondo que quando o táxi pára alguém diz «Santinho!», diríamos que esta elocução teve lugar porque eu espirrei e não porque eu ergui o braço.

      Num ponto de vista diferente, subscrito por Jaegwon Kim e outros, os acontecimentos são particulares abstractos, entidades mais semelhantes a proposições do que a objectos materiais. Uma posição habitual nesse sentido consiste em identificar acontecimentos com estados de coisas, ou seja, com exemplificações de atributos por sequências de objectos em ocasiões dadas. No caso mais simples, o caso de acontecimentos como a subida da colina por Carolina numa certa altura, um acontecimento seria simplesmente identificado com a exemplificação de uma propriedade, a propriedade de subir a colina, por um indivíduo, Carolina, numa ocasião. Na notação de conjuntos, é habitual representar estados de coisas como n-tuplos ordenados de n-1 objectos e um atributo (com n maior ou igual a 2); assim, por exemplo, o acontecimento que consistiu no assassínio de César por Bruto numa certa ocasião t pode ser identificado com o estado de coisas representado pelo quádruplo ordenado <Bruto, César, assassinar, t> (em que assassinar é o atributo diádico de assassinar). Obtemos assim um princípio de individuação de acontecimentos bastante mais fino do que o supra proposto. Grosso modo, e e e' são o mesmo acontecimento quando, e somente quando, o mesmo atributo é exemplificado pelos mesmos objectos na mesma ocasião. Por conseguinte, à luz do princípio, o casamento de Édipo com Jocasta e o casamento de Édipo com a sua mãe constituiriam um e um só acontecimento, identificado através do quádruplo ordenado <Édipo, Jocasta, casar, t> (em que casar é a relação de casar). Todavia, em contraste com o ponto de vista anterior, a proposta impõe restrições severas sobre as descrições que podem ser usadas correctamente para identificar um dado acontecimento. Por exemplo, o nosso acontecimento do senado romano já não pode ser indiferentemente especificado através das descrições «O assassínio de César por Bruto» e «O esfaquear de César por Bruto»; por outras palavras, temos aqui, não um acontecimento, mas dois acontecimentos: um representado pelo quádruplo ordenado <Bruto, César, assassinar, t>, o outro pelo quádruplo <Bruto, César, esfaquear, t> (supõe-se, natural e razoavelmente, que os atributos diádicos assassinar e esfaquear são atributos distintos). Uma vantagem conspícua deste ponto de vista é a de que ele discrimina onde é razoável discriminar. Por exemplo, permite distinguir entre o acontecimento que consiste no meu espirro e o acontecimento que consiste no meu erguer do braço esquerdo (propriedades distintas, acontecimentos distintos); logo, o ponto de vista acomoda a aparente intuição no sentido de dizer que o segundo acontecimento, mas não o primeiro, causou a paragem do táxi. Mas o ponto de vista tem sido criticado com base no facto de, em relação a certos casos, discriminar entre acontecimentos de uma maneira demasiadamente fina. Por outro lado, é difícil ver como é que, concebidos como particulares abstractos, acontecimentos podem ser entidades adequadas para desempenhar o papel de relata da relação de causalidade.

João Branquinho

Bibliografia

Bennett, J. (1988) Events and Their Names, Blackwell, Oxford.

Davidson, D. (1980) Essays on Actions and Events, Oxford University Press, Oxford.

Horgan, T. (1978) «The case against events», Philosophical Review, LXXXVII, pp. 28-37.

Kim, J. (1976) «Events as property exemplifications» in M. Brand e D. Walton, orgs., Action Theory, Reidel, Dordrecht.

Parsons, T. (1990) Events in the Semantics of English: A Study in Subatomic Semantics, MIT Press, Cambridge, MA.

Strawson, P. F. (1959) Individuals, Methuen, Londres.

 

acto comissivo Na taxinomia de John Austin, os actos comissivos formam uma subclasse dos actos de fala ilocutórios comunicativos. Exemplos típicos são as promessas, as ofertas e as apostas.

 

acto constativo Na taxinomia de John Austin, os actos constativos formam uma subclasse dos actos de fala ilocutórios comunicativos. Exemplos típicos são as asserções, as previsões e as respostas.

 

acto de fala J. L. Austin (1911-60), em How to do Things with Words, analisa os actos que consistem na elocução de certas sequências de palavras numa língua natural – os quais são por isso usualmente designados de «actos de fala». A teoria dos actos de fala de Austin parte da observação de que existem frases nas línguas naturais que, apesar da sua aparência gramatical de frases declarativas indicativas, não podem ser consideradas como fazendo asserções. Exemplos de tais frases são «quero convidá-la (a si) para ir ao cinema esta noite», ou «prometo entregar o material dentro do prazo» ou ainda «aposto que o Benfica perde nas Antas» enquanto proferidas por alguém num contexto conversacional qualquer. O facto de tais frases, apesar da sua forma gramatical assertórica, não funcionarem assertoricamente, implica que não podem ser avaliadas quanto à sua veracidade ou falsidade e que talvez sejam boas candidatas a serem recusadas como asserções falhadas ou pseudo-asserções e, assim, produções linguísticas destituídas de sentido. Mas, diz Austin, elas só poderiam ser consideradas como asserções falhadas se as pessoas que as proferem pretendessem de facto produzir asserções, isto é, se tivessem por objectivo descrever um certo estado de coisas ou transmitir informação acerca de factos. Mas acontece que não têm. Ao proferi-las, as pessoas não pretendem transmitir qualquer informação factual acerca de si mesmas, como seria o caso se dissessem outras frases com o verbo na primeira pessoa, como «prometo poucas coisas» ou «quero o bem de Portugal». Pretendem, respectivamente, com-vidar alguém para ir ao cinema, prometer algo e fazer uma aposta. Logo, conclui Austin, tais frases não podem ser recusadas como constituindo pseudo-asserções.

      Esta descoberta de Austin não foi destituída de alcance filosófico. Com efeito, ela infirma o argumento, usual no positivismo lógico, que leva a classificar como sem sentido quaisquer produções linguísticas que sejam gramaticalmente  (isto é, pela sua forma gramatical declarativa) assertóricas mas não produzam qualquer asserção. Esse argumento não pode, nestes casos, ser usado. As produções linguísticas exemplificadas acima são de facto gramaticalmente assertóricas e não exprimem qualquer asserção – mas, crucialmente, não estão a ser usadas para fazer asserções. De facto, observa Austin, a característica distintiva da elocução de uma tal frase é a de ser um «acto» linguístico diferente daqueles que consistem em produzir uma frase declarativa capaz de descrever um estado de coisas (designadamente, pelo contrário, é o acto de convidar, ou de prometer, ou de apostar). Embora seja verdade que descrever um estado de coisas é também um acto linguístico, o argumento de Austin de que muitas vezes dizer coisas é fazer coisas diferentes de descrever estados de coisas parece, na presença dos indícios mencionados, razoável.

      Um contra-argumento que, no entanto, vale a pena considerar é o seguinte. Parece também haver bons motivos para dizer que produções linguísticas como as exemplificadas acima não fazem outra coisa do que descrever estados de coisas. Por exemplo, «prometo entregar o material dentro do prazo» pode aparentemente ser classificada como a descrição de um estado de coisas mental que consiste, ele sim, no acto de prometer entregar o material dentro do prazo. Deste modo, poderia dizer-se que «prometo entregar o material dentro do prazo» exprime de facto uma asserção susceptível de ser classificada como verdadeira ou falsa, consoante a pessoa que a profere tenha ou não realizado o acto mental de prometer entregar o material dentro do prazo. E o mesmo raciocínio aplicar-se-ia a sequências iniciadas por «quero convidá-la/o para¼», «aposto que¼» ou outras do género.

      Este argumento é discutido e refutado pelo próprio Austin. É possível observar, diz ele, que a realização de certos actos (por exemplo, convidar, prometer) consiste em não mais do que a elocução de certas frases. Por exemplo, o procedimento básico através do qual eu pratico o acto de convidar alguém para jantar resume-se a proferir uma sequência de palavras como «quero convidá-la para jantar esta noite» ou outra semelhante. Isto é, se eu não tiver proferido uma tal sequência de palavras, não é simplesmente o caso de que eu não reportei o convite que fiz; se eu não a tiver proferido, então não fiz nenhum convite. E exactamente o mesmo raciocínio se aplica, por exemplo, aos casos de promessas. Mesmo que a elocução de certas sequências de palavras como as iniciadas por «prometo» nem sempre seja uma condição suficiente da realização bem sucedida do acto de prometer, ele é certamente uma sua condição necessária, de modo que somos levados a concluir que o acto linguístico que consiste em proferir uma tal sequência de palavras, em vez de descrever o que quer que seja (por exemplo, o acto mental de prometer entregar o material dentro do prazo), realiza (pelo menos em parte) o acto de prometer (por exemplo, entregar o material dentro do prazo). Por outras palavras, em casos como os exemplificados não há nenhum acto (mental ou não) independente da elocução de uma certa sequência de palavras (por exemplo, uma sequência iniciada por «prometo» ou por «convido-a») que possa estar a ser descrito por tais sequências – de modo que se tem de concluir que é essa mesma elocução que realiza os actos de prometer, de convidar ou de apostar.

      Se aceitarmos este argumento de Austin somos levados, portanto, a distinguir a elocução de sequências como as exemplificadas da elocução de sequências genuinamente assertóricas. As primeiras têm forma declarativa mas contêm como verbo principal –tipicamente na primeira pessoa do presente do indicativo – ou único um «verbo performativo», isto é, um verbo cuja elocução «faz» qualquer coisa diferente de descrever um estado de coisas, resultando em que a elo­cução das frases de que faz parte não tenha também esse carácter. Se V for um verbo não-performativo, é evidente que se eu proferir uma sequência do tipo «eu V-o» pode muito bem acontecer que, com  uma tal sequência, eu esteja a descrever erradamente a realidade e, portanto, que eu não V-o. Mas se V for um verbo performativo (como «prometer», «apostar», «convidar», etc.), então o facto de eu dizer «eu V-o» num contexto conversacional implica (em princípio) que eu V-o (por exemplo, a minha elocução de «prometo entregar o material dentro do prazo» implica que eu prometi entregar o material dentro do prazo, ao passo que a minha elocução de «eu detesto ser pontual» nas mesmas ciscunstâncias não implica que eu deteste ser pontual: eu posso estar a mentir). Jamais se pode dar o caso de a sequência de palavras proferida por mim ser falsificada pelos factos, visto que, justamente, eu não estou a proferir uma genuína asserção – por outras palavras, uma sequência de palavras susceptível de ser descrita ou como verdadeira ou como falsa, isto é, como condizendo ou não com os factos.

    O conceito de acto de fala e a tese associada de que a elocução de certas sequências de palavras em língua natural equivale à prática de actos que podem não ser o acto de descrever ou «constatar» um estado de coisas (sendo, segundo a dicotomia que Austin veio a dissipar depois, «performativas» e não «constativas») aplica-se não só a frases gramaticalmente assertóricas na primeira pessoa do singular do presente do indicativo mas, mais obviamente, a frases interrogativas e imperativas, as quais constituem evidência particularmente ilustrativa da referida tese. A elocução de frases dessas variedades é um exemplo mais óbvio dos actos linguísticos referidos visto que não pode, nem sequer pela forma, ser confundida com a constatação de um facto. Assim, o acto ilocutório que consiste num pedido de ajuda tanto pode ser realizado através da elocução da sequência «peço-te que me ajudes a abrir a garrafa» como da sequência – gramaticalmente na forma imperativa – «ajuda-me a abrir a garrafa». O interesse particular de Austin no primeiro tipo de frases – frases na primeira pessoa do presente do indicativo contendo verbos «performativos» como «prometer» ou «convidar» ou «pedir» – justifica-se basicamente de duas maneiras. Em primeiro lugar, ele achava (e aparentemente tinha razão) que elas mereciam uma análise mais sofisticada do que aquela que as caracterizava como frases destituídas de sentido; como vimos, a sua teoria dos actos de fala pode ser vista como proporcionando justamente uma tal análise. Em segundo lugar, elas tornam explícito que a ideia de que dizer coisas é fazer coisas é ilustrada por um conjunto muito mais vasto de produções linguísticas do que a elocução de frases na forma interrogativa e imperativa.

      O facto de que, em geral, a elocução de uma «performativa» (não necessariamente usando um verbo performativo, como quando se promete asserindo «vou entregar o material dentro do prazo») não é uma condição suficiente para a realização do acto respectivo (por exemplo, prometer ou convidar) – apesar de, na medida em que esse acto é linguístico, ser uma condição necessária – leva à observação de que um certo número de requisitos têm de ser respeitados para que um acto de fala possa ser considerado «bem conseguido» ou «feliz» (felicitous). E esses requisitos são válidos para qualquer tipo de acto de fala, incluindo aqueles que não pretendam mais do que descrever estados de coisas (daí que Austin tenha, ainda em How to do Things with Words, abandonado a dicotomia entre «performativas» e «constativas»: as segundas são um subconjunto próprio das primeiras). Tal como o acto de fala que consiste em descrever um estado de coisas qualquer só é feliz se descrever correctamente esse estado de coisas (i.e se exprimir uma asserção verdadeira), assim também um acto de fala que consista em prometer alguma coisa ou em convidar alguém para alguma coisa só é feliz se a pessoa que promete ou que convida tencionar, de facto, (respectivamente) cumprir a promessa ou levar a cabo o convite. Grande parte do restante argumento de Austin em How to do Things with Words é dedicado à análise das «infelicidades» que podem acometer os diferentes tipos de actos de fala e à discussão dos requisitos que tais infelicidades mostram infringir (ver condições de felicidade).

      A teoria dos actos de fala de Austin foi prosseguida e sofisticada pelo trabalho posterior de John Searle (1932- ), cuja análise é mais sistemática e mais obviamente enquadrável numa «teoria» propriamente dita. Searle defende a tese forte de que a componente ilocutória da linguagem (ou o facto de que usar a linguagem é sempre praticar um tipo específico de acto ilocutório) é o aspecto fundamental da (para usar uma formulação de inspiração chomskiana de uma tese que Chomsky não subscreveria) competência linguística – o que por sua vez milita a favor da tese de que a teoria dos actos de fala é conceptualmente mais básica do qualquer outro ramo da filosofia da linguagem e (forçando um pouco a nota) talvez mesmo da linguística. A tipologia de Searle dos actos ilocutórios é, por outro lado, mais solidamente argumentada do que a original de Austin, defendendo ele que esses actos se dividem em exactamente cinco tipos básicos, de acordo com a força e o objectivo ilocutório que têm (ver acto ilocutório).

      A análise de Searle é também mais atenta às implicações filosóficas do próprio conceito de acto de fala – designadamente no que diz respeito à necessidade do recurso a conceitos mentais como crença e intenção para o analisar (na linha do trabalho pioneiro de Grice (1913-88) sobre o conceito de significado).  A descoberta de conexões deste género tem levado a que, por vezes, se defenda que a investigação dos actos de fala deve ser vista como pertencendo ao domínio da filosofia da mente – uma tese que, conjugada com a tese da prioridade conceptual        da teoria dos actos de fala em filosofia da linguagem (ou pelo menos em teoria do significado), parece estar comprometida          com o ponto de vista de que a filosofia da linguagem (ou pelo menos a teoria do signi­ficado) é um ramo da filosofia da mente. Ver também acto ilocutório, acto ilo­cutório, acto perlocutório, positi-    vismo lógico, pragmática, condições de felicidade.

Pedro Santos

Bibliografia

Austin, J. L. (1962) How to do Things with Words, Clarendon Press, Oxford.

Grice, H. P. (1989) Studies in the Way of Words, Harvard University Press, Cambridge, MA.

Levinson, S. (1983), Pragmatics, Cambridge University Press, Cambridge.

Searle, J. (1969) Speech Acts: an Essay in the Philosophy of Language, Cambridge University Press, Cambridge.

 

acto directivo Na taxinomia de John Austin, os actos directivos formam uma subclasse dos actos de fala ilocutórios comunicativos. Exemplos típicos são as ordens, as permissões e os pedidos.

 

acto ilocutório Acto linguístico praticado quando, ao proferir uma frase gramatical e com significado (isto é, ao praticar um acto locutório), o falante é bem sucedido na sua intenção de tornar clara a função que a sua elocução cumpre no contexto em que foi produzida, isto é, em tornar clara a força ilocutória – por exemplo, de prometer ou ameaçar – conseguindo assim também tornar claro também o seu objectivo ilocutório – por exemplo, comprometer-se com a realização de uma certa acção futura. Enquanto o tipo de acto locutório praticado depende de factores estritamente linguísticos (designadamente aqueles que determinam o conteúdo proposicional da elocução), o tipo de acto ilocutório praticado depende do tipo de função que lhe tenha sido cometida pelo locutor num contexto de elocução específico, isto é, da força ilocutória e do objectivo ilocutório que lhes estão associados.

      Austin e Searle apresentaram tipologias que visam discriminar as várias categorias de actos ilocutórios. A tipologia de Searle, que resulta de uma crítica da de Austin e é normalmente aceite como canónica, integra as seguintes categorias: actos assertivos (os que, como o de declarar, têm por objectivo comprometer o locutor com a veracidade da frase proferida), directivos (os que, como o de pedir ou ordenar, que têm por objectivo tornar claro ao alocutário que ele deve proceder de certo modo), compromissivos (os que, como o de prometer, comprometem o locutor com a prática de uma acção futura), expressivos (os que, como o de agradecer ou lamentar, pretendem exprimir um estado psicológico relativo ao estado de coisas expresso pelo conteúdo proposicional da frase, cuja veracidade é pressuposta), declarativos (os que, como o de nomear ou excomungar, criam um estado de coisas novo através da correspondência que induzem entre o conteúdo proposicional da frase produzida e a realidade) e os declarativos assertivos (os que, como o de declarar alguém inapto para o serviço militar, reúnem os objectivos ilocutórios de asserções e de declarações).

      A intenção de praticar um certo tipo de acto ilocutório está sujeita a um conjunto de condições de felicidade, cuja infracção conduz a diversos tipo de falhanço. Ver também acto de fala, acto locutório, acto perlocutório, asserção, condições de assertibilidade, condições de felicidade, pragmática.

Pedro Santos

 

Bibliografia

Austin, J. L. (1962) How to do Things with Words, Clarendon Press, Oxford.

Searle, J. (1979) Expression and Meaning, Cambridge University Press, Cambridge.

 

acto locutório Acto linguístico que consiste na elocução de uma sequência de sons (ou de sinais gráficos, se aplicarmos a noção à linguagem escrita) identificável com uma frase-espécime gramatical e com significado. O facto de tais sequências terem significado faz com que as elocuções delas tenham (convencionalmente) associadas a si uma força ilocutória específica. Por outras palavras, quando alguém pratica um acto locutório está também a praticar um tipo específico de acto ilocutório. Por exemplo, quando eu profiro a sequência «Prometo chegar a horas amanhã» eu estou, por um lado, a emitir um conjunto de sons identificável com uma frase portuguesa gramatical e com significado e, por outro, a comprometer-me com um comportamento futuro através da força ilocutória associada à elocução dessa frase (e visível a partir do significado do verbo «prometer»). E quando eu profiro a sequência «Ontem cheguei a horas» estou, de novo, quer a praticar o acto locutório de proferir uma frase portuguesa com significado quer a praticar o acto ilocutório de descrever um estado de coisas passado (ou, equivalentemente, o acto ilocutório de me comprometer com a veracidade da frase que descreve esse estado de coisas). Esta conexão entre actos locutórios e ilocutórios ilustra o dictum de Austin segundo o qual «dizer (qualquer coisa com sentido) é fazer (qualquer coisa)». Ver também acto de fala, acto ilocutório, acto perlocutório.

Pedro Santos

acto/objecto Ver ambiguidade acto/           /objecto.

 

acto perlocutório O acto linguístico praticado quando, ao proferir uma frase gramatical e com significado (isto é, ao praticar um acto locutório) com uma certa força ilocutória associada (praticando assim também um acto ilocutório), o falante de uma língua produz, além disso, efeitos específicos na audiência. Por exemplo, quando eu profiro «prometo chegar a horas amanhã», eu estou, em primeiro lugar, a emitir uma frase gramatical com significado e, em segundo lugar, a comprometer-me com um comportamento futuro específico; mas, se estes meus actos locutório e ilocutório forem eficazes, eu estou também a produzir o efeito no(s) meu(s) interlocutor(es) que consiste em fazê-los acreditar que esse comportamento vai ter lugar – caso em que estarei a praticar o acto perlocutório de o(s) persuadir disso mesmo. O carácter condicional desta caracterização sugere correctamente que, apesar de cada acto perlocutório específico ser uma consequência da (no sentido de estar tipicamente associado à) prática de um tipo específico de acto ilocutório, um acto ilocutório pode ser praticado com sucesso sem que o acto perlocutório respectivo o seja. Por exemplo, com a minha elocução de «prometo chegar a horas amanhã», eu posso (se satisfiz as condições de felicidade associadas a tal elocução) ter tido sucesso em prometer chegar a horas amanhã, mas posso não ter persuadido os meus interlocutores de que isso vai acontecer de facto. A diferença entre as condições de sucesso dos dois tipos de acto decorre directamente da diferença entre as intenções que lhes estão associadas (por exemplo, a intenção de prometer algo, por um lado, e a intenção de persuadir alguém de algo, por outro) e do facto de que uma condição suficiente da satisfação do primeiro, mas não do segundo, tipo de intenção é ser reconhecida como tal pela audiência. Ver também acto de fala, acto ilocutório, acto perlocutório, condições de feli­cidade.

Pedro Santos

 

actual Na semântica de mundos possíveis, o mundo actual – no sentido metafísico de mundo real e não no sentido temporal de mundo no momento presente – é aquele mundo possível particular que é seleccionado, de entre uma colecção dada de mundos possíveis, para desempenhar o papel de ponto de referência para efeitos de avaliação semântica, ou determinação de condições de verdade, das frases de uma linguagem (em especial, de uma linguagem com operadores modais).

      Informalmente, o mundo actual é simplesmente a maneira como as coisas de facto são: a totalidade dos factos ou estados de coisas disponíveis (no passado, presente e futuro), ou a totalidade das exemplificações verificadas de atributos por sequências de objectos existentes (passados, presentes e futuros). Assim, o mundo actual contém (presumivelmente) o estado de coisas que consiste na exemplificação da propriedade de ter bebido a cicuta por Sócrates, mas não contém (certamente) o estado de coisas que consiste na exemplificação da relação ser mais alto do que pelo par ordenado de Marques Mendes e Michael Jordan.

      O mundo actual é habitualmente designado pelo símbolo @, o qual é uma constante individual metalinguística, pertencente à linguagem na qual a semântica é formulada. Na semântica estandardizada de mundos possíveis, há duas maneiras pelas quais o mundo actual @ funciona como ponto de referência para a avaliação de frases.

      Em primeiro lugar, a noção (não relativizada) de verdade é analisada em termos de uma noção de verdade relativizada ao mundo actual: dizer que uma frase P é verdadeira (ou falsa) tout court é uma maneira abreviada de dizer que P é verdadeira (ou falsa) em @. Deste modo, por exemplo, uma frase modalizada – uma necessidade da forma «Necessariamente, P», ou uma possibilidade da forma «Possivelmente, P» – é verdadeira se, e só se, a frase necessitada, respectivamente a frase possibilitada, P é verdadeira em todos os mundos possíveis, respectivamente em alguns mundos possíveis, acessíveis a partir do mundo actual; por conseguinte, o valor de verdade de uma frase modalizada depende, em certa medida, de determinadas características do mundo actual (pois são elas a determinar quais os mundos possíveis que lhe são acessíveis). De particular interesse é o caso de frases cujo operador dominante é um quantificador. Supondo que a quantificação é actualista, o valor de verdade de uma frase quantificada depende em parte daquilo que se passa com objectos existentes no mundo actual @, uma vez que as variáveis quantificadas tomam valores em (e apenas em) objectos em @. Por exemplo, a frase «Algo é possivelmente omnisciente» é verdadeira se, e só se, pelo menos um indivíduo existente em @ satisfaz o predicado «é omnisciente» em pelo menos um mundo possível acessível a partir do mundo actual.

      Em segundo lugar, e com respeito a linguagens modais que incluem no seu léxico o operador de actualidade, a avaliação semântica de frases que contêm esse operador relativamente a um mundo possível arbitrário tem o efeito de nos reenviar para o mundo actual @. Por conseguinte, o valor de verdade de tais frases depende crucialmente daquilo que se passa no mundo actual. O operador de actualidade, usualmente denotado pelo símbolo A, é um operador frásico monádico o qual, quando prefixado a uma frase (aberta ou fechada) P, gera uma frase mais complexa, A P. E uma frase da forma A P (que se lê «Actualmente, P» ou «No mundo actual, P») é verdadeira num mundo possível w se, e só se, a frase P for verdadeira em @. Assim, por exemplo, a frase «É possível que algo seja actualmente omnisciente» é verdadeira num mundo w se, e só se, há um mundo w' (acessível a partir de w) tal que pelo menos um dos objectos existentes no mundo actual @ é omnisciente. Isto tem uma aplicação interessante ao caso de descrições definidas (tomadas em uso atributivo). Uma descrição definida como «O filósofo que bebeu a cicuta» (em símbolos, Qx Fx) é um designador flácido do seu referente actual: relativamente ao mundo actual, a descrição designa Sócrates; mas, relativamente a um mundo não actual w, ela designará a pessoa em w que satisfaz univocamente o predicado «filósofo que bebeu a cicuta», a qual pode ser alguém diferente de Sócrates (ou pode simplesmente não existir). Porém, a descrição «O filósofo que actualmente bebeu a cicuta» (em símbolos, Qx A Fx) já é um designador rígido do seu referente actual: relativamente a um mundo não actual w, ela designará aí a pessoa que no mundo actual satisfaz univocamente o predicado «filósofo que bebeu a cicuta» (assim, a descrição designará o seu referente actual, Sócrates, em todos os mundos possíveis em que Sócrates exista). Deste modo, e em geral, a prefixação do operador de actualidade a uma descrição não rígida tem o efeito de a converter numa descrição rígida. Ver mundos possíveis, lógica modal, operador, acessibilidade.

João Branquinho

 

actualidade Ver actual.

 

actualismo Em geral, a doutrina metafísica segundo a qual, necessariamente, só os objectos actuais existem. O actualismo acerca de indivíduos é a doutrina de q­ue, necessariamente, só os indivíduos actuais existem; e o actualismo acerca de mundos possíveis é a doutrina de que, necessariamente, só o mundo actual (ou real) existe. Na sua forma contemporânea, esta doutrina surgiu no âmbito de discussões recentes em torno da lógica modal e dos seus fundamentos filosóficos e metafísicos; entre os defensores da doutrina contam-se filósofos como Alvin Plantinga, Kit Fine e Robert Stalnaker.

      Uma maneira de representar, na habitual linguagem da lógica modal quantificada, a doutrina actualista acerca de indivíduos é através da fórmula

 

a) , "x A Ex,

 

em que E é o predicado monádico de existência e A é o operador unário de actualidade. Grosso modo, a semântica do operador A é a seguinte: uma fórmula Ap (actualmente, p) é verdadeira num mundo possível w se, e só se, a subfórmula p é verdadeira naquele mundo possível que se seleccionou para desempenhar o papel de mundo actual. E a semântica do predicado E é a seguinte: uma fórmula Ex (x existe) é verdadeira num mundo w, sob uma atribuição s de valores às variáveis, se, e só se, o indivíduo atribuído por s a x é um dos existentes em w. A fórmula (a) estabelece assim que, para qualquer mundo possível dado, todo o indivíduo existente nesse mundo é um indivíduo actualmente existente (isto é, um indivíduo que existe no mundo actual).

      A doutrina metafísica que se opõe ao actualismo é conhecida sob a designação de possibilismo e tem sido defendida (embora de maneiras bem diferentes) por filósofos como David Lewis e David Kaplan. O possibilismo é, em geral, o ponto de vista segundo o qual há objectos (indivíduos, mundos) que são meramente possíveis (ver possibilia); ou seja, há objectos que actualmente não existem mas que poderiam ter existido (se as coisas tivessem sido apropriadamente diferentes). Uma maneira de representar, na habitual linguagem da lógica modal quantificada, a doutrina possibilista acerca de indivíduos é através da fórmula

 

p) à $x ¬A Ex;

 

ou, de forma equivalente, através da fórmula à $x A ¬Ex. (p) estabelece que há mundos possíveis tais que pelo menos um indivíduo neles existente actualmente não existe (isto é, não existe no mundo actual).

      É também usual caracterizar a oposição entre o actualismo e o possibilismo por meio das diferentes interpretações dadas nessas doutrinas à quantificação objectual (todavia, é bom reparar que esta maneira de desenhar a oposição não é equivalente à anteriormente feita). A semântica para o chamado quantificador existencial actualista é (simplificadamente) a seguinte: uma fórmula $x Fx é verdadeira num mundo possível w se, e só se, pelo menos um indivíduo existente em w satisfaz o predicado F (em w). E a semântica para o chamado quantificador universal actualista é (simplificadamente) a seguinte: uma fórmula "x Fx é verdadeira num mundo possível w se, e só se, todo o indivíduo existente em w satisfaz F (em w). A cada mundo possível w é feito corresponder um certo conjunto de indivíduos, digamos o conjunto d(w), cujos elementos são os indivíduos existentes em w; no ponto de vista actualista, d(w) funciona como domínio de quantificação e recebe a designação de domínio interior do mundo em questão. O conjunto de indivíduos, digamos D, que resulta da união dos domínios interiores de todos os mundos (pertencentes a uma colecção de mundos dada) forma o chamado domínio exterior ou inclusivo. Assim, numa semântica actualista para os quantificadores, o valor de verdade num mundo possível de uma fórmula quantificada depende unicamente de como as coisas são relativamente aos indivíduos existentes nesse mundo; estes, e só estes, são admitidos como valores das variáveis ligadas. Note-se que a interpretação que acima demos dos quantificadores universal e existencial nas fórmulas (a) e (p) é assim uma interpretação actualista.

      Em contraste com isto, a semântica para a chamada quantificação existencial possibilista é (simplificadamente) a seguinte: uma fórmula $x Fx é verdadeira num mundo possível w se, e só se, pelo menos um indivíduo pertencente a D satisfaz F (em w). E a semântica para a chamada quantificação universal possibilista é (simplificadamente) a seguinte: uma fórmula "x Fx é verdadeira num mundo possível w se, e só se, todo o indivíduo pertencente a D satisfaz F (em w). Assim, é o conjunto D, e não o conjunto d(w), que é aqui tomado como sendo o (único) domínio de quantificação; do ponto de vista possibilista, o valor de verdade num mundo possível w de uma fórmula quantificada depende de como as coisas são relativamente aos indivíduos em D, os quais (pelo menos na maioria das versões da semântica possibilista) não pertencem todos necessariamente a d(w). Para evitar a ambiguidade, é conveniente ter símbolos diferentes para os quantificadores actualistas e possibilistas; é usual utilizar os símbolos canónicos " e $ para os primeiros e os símbolos P e S para os segundos (respectivamente). Naturalmente, o valor de verdade de uma quantificação actualista relativamente a um mundo pode divergir do da quantificação possibilista correspondente (relativamente a esse mundo). Por exemplo, poder-se-ia tomar a quantificação actualista $x x é omnisciente como falsa relativamente ao mundo actual, supondo que nenhuma das criaturas actualmente existentes é omnisciente. Mas tal suposição é consistente com a suposição de que um certo mundo possível não actual contém pelo menos uma criatura (não actual) omnisciente; e assim a quantificação possibilista Sx x é omnisciente será verdadeira relativamente ao mundo actual. As quantificações actualistas podem, no entanto, ser definidas em termos de quantificações possibilistas restritas com a ajuda do predicado monádico de existência; as definições são as seguintes:

 

"x Fx é definível em termos de Px (Ex ® Fx)

$x Fx é definível em termos de Sx (Ex Ù Fx)

 

Este resultado tem sido visto por alguns filósofos possibilistas como militando a favor do possibilismo. Dado que não se tem aparentemente o mesmo resultado por parte do actualismo, e dada em particular a alegada incapacidade de uma linguagem actualista para exprimir certos factos metafísicos e modais importantes, uma linguagem possibilista seria mais recomendável em virtude do seu maior poder expressivo; tudo aquilo que é exprimível numa linguagem actualista seria representável numa linguagem possibilista, mas a conversa não seria verdadeira.

      A doutrina expressa na fórmula (a) pode ser representada por meio da fórmula mais simples Px Ex, a qual é uma fórmula inválida numa semântica possibilista (ou na maioria das versões desta); e a doutrina expressa na fórmula (p) pode ser representada por meio da fórmula mais simples Sx ¬Ex, a qual é uma fórmula válida numa semântica possibilista. Por outro lado, a fórmula (a) torna-se numa verdade lógica à luz de uma semântica para a lógica modal quantificada em que os quantificadores sejam actualistas e em que, para além disso, se estipule que o conjunto dos indivíduos existentes em qualquer mundo possível acessível a partir do mundo actual esteja necessariamente incluído no conjunto de indivíduos actualmente existentes; e, obviamente, (p) torna-se numa falsidade lógica nessa semântica. Podemos chamar a uma semântica deste género uma semântica fortemente actualista.

      Todavia, aquela estipulação, apesar de ser tecnicamente satisfatória, não é filosoficamente plausível para alguns filósofos (mesmo para filósofos de inclinação actualista). Com efeito, a seguinte afirmação geral parece ser, não apenas inteligível, mas intuitivamente verdadeira: poderiam ter existido mais indivíduos (por exemplo, mais pessoas) do que aqueles que de facto existem. Assim, e ainda de um ponto de vista actualista, há quem pense que uma semântica kripkeana para a lógica modal quantificada é filosoficamente mais adequada. Esta semântica, a qual podemos classificar como moderadamente actualista, caracteriza-se por combinar quantificadores actualistas com um abandono da estipulação acima mencionada e com a consequente admissão de mundos possíveis cujos domínios interiores contêm indivíduos que actualmente não existem. O resultado é que se torna possível introduzir interpretações nas quais a fórmula (p) é verdadeira (no mundo actual), e nas quais a fórmula (a) é falsa (no mundo actual). Deste modo, a semântica kripkeana nem valida (a), uma fórmula que tomámos como definidora do actualismo acerca de indivíduos, nem invalida (p), uma fórmula que tomámos como definidora do possibilismo acerca de indivíduos. Por conseguinte, pode legitimamente perguntar-se se uma semântica moderadamente actualista, apesar de se basear numa interpretação actualista dos quantificadores, não é au fond uma semântica possibilista. Para além disso, o seguinte género de crítica tem sido erguido contra a semântica kripkeana: embora na linguagem-objecto os quantificadores sejam actualistas, na metalinguagem – ou seja, na linguagem na qual a semântica é formulada – a quantificação parece ser possibilista: as variáveis metalinguísticas quantificadas tomam aparentemente valores num único domínio inclusivo que inclui todos os domínios interiores dos mundos.

      As considerações precedentes sugerem o seguinte dilema para o filósofo actualista: ou ele rejeita liminarmente indivíduos meramente possíveis, adoptando uma semântica fortemente actualista e exigindo que o domínio interior de cada mundo acessível contenha apenas indivíduos actuais; ou então encontra uma maneira satisfatória de reduzir a quantificação possibilista a uma quantificação que seja, na verdade, executável apenas sobre objectos actuais. O primeiro ramo do dilema é, como vimos, metafisicamente implausível; embora alguns filósofos actualistas (veja-se, por exemplo, Ruth Barcan Marcus, 1994) estejam preparados para o defender. Quanto ao segundo ramo do dilema, diversas tentativas têm sido feitas (veja-se, por exemplo, Fine, 1977) no sentido de tomar indivíduos meramente possíveis como sendo simples construções lógicas feitas a partir de certas categorias de objectos actualmente existentes: tipicamente, objectos abstractos como propriedades, ou conjuntos, ou proposições. E o mesmo tipo de estratégia reducionista tem sido ensaiada em relação a mundos possíveis não actuais, os quais têm sido igualmente tomados como sendo simples construções lógicas feitas a partir de certos objectos actuais: objectos abstractos como certas propriedades modais do mundo actual, ou certos conjuntos maximamente consistentes de proposições. Não é, no entanto, claro que as reduções propostas do discurso possibilista ao discurso actualista sejam técnica e/ou metafisicamente satisfatórias; mas também não é claro que uma redução técnica e/ou metafisicamente satisfatória não possa vir a ser alcançada. Ver também fórmula de Barcan; mundo possível; quantificador; existência.

João Branquinho

Bibliografia

Adams, Robert M. (1979) «Theories of Actuality» in Loux (1979), pp. 190-209.

Fine, Kit (1977) «Prior on the Construction of Possible Worlds and Instants», postscript to A. N. Prior e K. Fine, Worlds, Times and Selves, University of Massachusetts Press, Amherst, pp. 116-161.

Forbes, Graeme (1989) Languages of Possibility, Blackwell, Oxford.

Kaplan, David (1979) «Trans-World Heir Lines» in Loux (1979), pp. 88-109.

Kripke, Saul (1963) «Semantical Considerations on Modal Logic» in Acta Philosophica Fennica, 16, pp. 83-94.

Lewis, David (1986) On the Plurality of Worlds, Blackwell, Oxford.

Loux, Michael, org. (1979) The Possible and the Actual, Cornell University Press, Ítaca.

Barcan Marcus, Ruth (1994) Modalities: philosophical essays, Oxford University Press, Oxford.

Plantinga, Alvin (1974) The Nature of Necessity, Clarendon Press, Oxford.

Stalnaker, Robert (1988) Inquiry, MIT Press, Cambridge, MA.

 

adequação, teorema da O mesmo que teorema da correcção.

 

adequação material Ver condição de adequação material.

 

adição, regra da Qualquer uma das seguintes duas inferências: 1) p; logo, p ou q; 2) p; logo, q ou p. Na maioria dos sistemas de dedução natural esta inferência é uma das regras primitivas e é conhecida como introdução da disjunção.

Desidério Murcho

 

a dicto secundum quid ad dictum simpliciter (lat., da afirmação qualificada para a inqualificada) Também conhecida como falácia conversa do acidente, o erro de raciocínio que consiste em retirar uma restrição, qualificação ou acidente que não pode ser retirada: «os números pares são divisíveis por 2; logo, os números são divisíveis por 2.»

Desidério Murcho

 

a dicto simpliciter ad dictum secundum quid (lat., da afirmação inqualificada para a qualificada) Também conhecida como falácia do acidente, o erro que resulta de introduzir uma restrição, qualificação ou acidente que não pode ser introduzida: «alguns números primos são ímpares; logo, o primeiro número primo é ímpar.»

Desidério Murcho

 

ad infinitum, regressus Ver regressão ad infinitum.

 

adjectivo pseudoqualificativo Quando afirmamos que o João é uma potencial vítima, isso não implica que o João seja de facto uma vítima. Chama-se «pseudoqualificativo» ao adjectivo potencial, uma vez que não qualifica realmente o substantivo. Este tipo de adjectivos contrastam com adjectivos como constante: se afirmarmos que o João é uma vítima constante, o João é uma vítima. Ver também factivo.

Desidério Murcho

afirmação O termo geral «afirmação» está sujeito à seguinte ambiguidade acto/ /objecto. Por um lado, o termo pode aplicar-se a um determinado acto de fala, o acto de afirmar algo, o qual consiste tipicamente na produção de uma elocução (ou inscrição) assertiva de uma frase declarativa. Por outro lado, o termo pode aplicar-se ao resultado ou produto de um tal acto, ou seja, àquilo que é dito ou afirmado por meio de uma elocução desse género. Porém, mesmo que consideremos apenas este último significado do termo, é ainda possível distinguir entre as seguintes duas coisas: a) uma afirmação no sentido de um item linguístico, uma frase declarativa (entendida como um universal, uma frase-tipo); e b) uma afirmação no sentido de aquilo que é expresso por, ou o conteúdo de, uma elocução (ou inscrição) de uma frase declarativa em certas circunstâncias. Assim, a mesma frase-tipo (afirmação no sentido (a)), por exemplo a frase «Hoje estou doente», por exemplo, dita por mim hoje e dita pelo leitor amanhã, pode ser utilizada para fazer diferentes afirmações (afirmações no sentido (b)), uma acerca do meu estado de saúde num certo dia e a outra acerca do estado de saúde de uma pessoa distinta num dia distinto. Grosso modo, dois usos de uma dada frase-tipo, ou duas frases-espécime do mesmo tipo, exprimem a mesma afirmação somente se predicam a mesma coisa do mesmo objecto (ou sequência de objectos); uma afirmação nesta acepção é algo que está bastante próximo de uma proposição.

João Branquinho

 

afirmação da antecedente O mesmo que modus ponens.

 

afirmação da consequente O mesmo que falácia da afirmação da consequente.

 

afirmativa, proposição Ver proposição afirmativa.

 

agência Aristóteles definiu o homem como sendo o animal racional. Prima facie, um animal é racional se, e somente se, de uma forma geral, age racionalmente. Mas o que é agir racionalmente?

      A resposta aristotélica a esta pergunta encontra-se na Ética Nicomaqueia. Aí Aristóteles delineia os contornos da sua teoria da acção racional. Esta pode ser resumida através da seguinte tese. Uma acção é racional se, e somente se, pode ser representada como constituindo o resultado da exemplificação por um dado agente A do seguinte silogismo prático:

 

a tem um desejo d o conteúdo do qual é e;

a tem uma crença g o conteúdo da qual é que fazer q é a melhor maneira de alcançar e;

\ a faz q.

 

      Um indivíduo cujas acções admitem ser derivadas de acordo com este algoritmo é então um indivíduo que age racionalmente ou um agente racional. Por outro lado, um indivíduo acerca do qual as premissas do silogismo prático são, em cada circunstância, verdadeiras, mas que, nas circunstâncias nas quais elas são verdadeiras, não se comporta de acordo com a conclusão do mesmo é um indivíduo que age irracionalmente; não é, portanto, um agente racional.

      A avaliação desta teoria coloca-nos perante uma encruzilhada fundamental: será que, dada a natureza das nossas atribuições de crenças e desejos, é possível determinar em cada caso o valor de verdade das premissas de forma independente da determinação do valor de verdade da conclusão? Ou será que a teoria tem uma validade a priori e que é apenas por intermédio da sua pressuposição que atribuímos crenças e desejos aos agentes?

      A opção por uma resposta afirmativa à primeira pergunta coloca-nos dois novos e difíceis problemas: primeiro, quais são então as condições de verdade das frases que ocorrem nas premissas? segundo, se não somos obrigados pelo nosso próprio quadro conceptual a associar a verdade das premissas à verdade da conclusão, então, e uma vez que a conexão entre elas não é uma conexão lógica, a verdade das premissas e a verdade da conclusão do silogismo prático deveriam encontrar-se entre si numa relação apenas contingente.

      Comecemos por considerar este segundo problema. Se a relação entre as premissas e a conclusão do silogismo prático é apenas contingente, então deveria ser possível, pelo menos, colocar a hipótese de que a teoria poderia ser falsa a nosso respeito. Mas a consideração desta última possibilidade parece, por seu turno, conduzir-nos à seguinte alternativa indesejável: ou se pode dar o caso de que seres racionais sejam os protagonistas de acções irracionais ou se pode dar o caso de que o homem não seja racional. Ora, o primeiro termo desta alternativa tem um toque de paradoxo e o seu segundo termo parece pôr em causa os fundamentos da nossa concepção do humano. O primeiro problema, por seu lado, tem alimentado todo um ramo de investigação filosófica sem que se tenha chegado a qualquer acordo substancial sobre a questão.

      A opção por uma resposta afirmativa à segunda pergunta da encruzilhada mencionada acima leva-nos também para caminhos difíceis. Com efeito, a selecção deste termo da alternativa parece levar a que se tenha que pôr em causa o valor psicológico da teoria. Na realidade, se a teoria é válida a priori e se é apenas por ela constituir o quadro conceptual por intermédio do qual nós percepcionamos os comportamentos humanos como acções de sujeitos racionais que nós podemos, em cada caso, transformar as frases abertas das premissas em frases propriamente ditas, então a teoria torna-se psicologicamente vazia. Isto é, se este é o caminho correcto para sair da encruzilhada, então quando dizemos que o fulano A fez T porque A tinha um desejo D o conteúdo do qual era E e A tinha uma crença C o conteúdo da qual era que fazer T seria a melhor maneira de agir para alcançar E, não estaremos a dizer outra coisa senão que A é uma pessoa, o comportamento da qual nós somos, ipso facto, levados a interpretar como sendo o de um sujeito racional. A causa eficiente das movimentações observáveis de A fica, porém, totalmente por esclarecer e, portanto, a teoria não tem valor empírico.

      A despeito desta dificuldade, Platão parece ter favorecido a opção por algo como este caminho. Com efeito, ele considera no Protágoras que não é possível imaginar-se que alguém dotado de desejos e crenças possa agir contra a sua própria crença acerca de qual é a melhor forma de agir numa dada ocasião para satisfazer o seu desejo. Isto é, que alguém acerca de quem algo como as premissas do silogismo prático possam ser consideradas como verdadeiras possa não agir de acordo com o que Aristóteles veio a considerar ser a conclusão do mesmo é uma hipótese considerada por Platão como sendo destituída de sentido. A satisfação da condição da racionalidade parece, portanto, ser vista por este como necessária para que um dado comportamento seja considerado como uma acção; um comportamento que, por qualquer razão, não seja enquadrável na teoria que Aristóteles veio a codificar no algoritmo do silogismo prático não seria, pura e simplesmente, uma acção e, portanto, não contaria como contra-exemplo à validade da teoria, a qual deveria ser entendida como uma teoria da acção e não como uma teoria geral do comportamento.

      A despeito das dificuldades mencionadas acima, Aristóteles parece inclinar-se mais para o primeiro caminho definido na encruzilhada mencionada acima do que para o segundo. Com efeito, ele aceita como plausível a ideia de que indivíduos racionais possam por vezes agir em desarmonia com a doutrina codificada no silogismo prático. Ele considera, em particular, duas situações nas quais isso é possível: a situação da fraqueza da vontade, na qual o indivíduo racional tem um mau momento e se deixa dominar por impulsos sensíveis que determinam que ele desempenhe uma acção que ele próprio não considera como sendo a melhor para atingir os seus fins; e a situação na qual o agente aplica incorrectamente o princípio geral a um caso particular, isto é, aquela situação na qual o agente pretende, de facto, agir de acordo com o conteúdo da sua crença, mas na qual a acção que ele de facto leva a cabo não constitui realmente uma instância do género de acção que ele pretendia ter levado a cabo. Ora, se casos como estes são imagináveis, isto tem que significar que as frases constantes nas premissas do silogismo prático têm um valor de verdade intrínseco, o qual deverá ser acessível independentemente do nosso uso interpretativo da teoria.

      O toque de paradoxo associado à ideia de que seres racionais poderiam agir irracionalmente é combatido por Aristóteles com a introdução daquilo a que se poderia chamar uma concepção disposicionalista da acção. Isto é, para Aristóteles, comportamentos irracionais poderiam também ser considerados como acções, desde que fossem comportamentos de indivíduos que, em geral, agem, ou tenham a disposição para agir, racionalmente. Em todo o caso, convém salientar que, a menos que um agente racional seja vítima momentânea de alguma das insuficiências cognitivas tipificadas acima, Aristóteles, tal como Platão, tão-pouco parece conceber a possibilidade de que um agente racional possa realmente agir contra a sua crença acerca de qual é a melhor forma de agir. Isto é, os casos de irracionalidade considerados por Aristóteles são, na realidade, ou casos de desvios pulsionais ou casos de uso inadequado de termos gerais e não genuínos contra-exemplos, mesmo que apenas imaginários, à validade necessária do silogismo prático para seres como nós.

      Isto é insatisfatório porque, das duas, uma: ou a conexão entre a verdade das premissas e a verdade da conclusão do silogismo prático é realmente uma conexão necessária ou essa conexão não é necessária. No primeiro caso, dado que essa conexão não é uma conexão lógica, isso implica que ela é conceptualmente determinada por uma teoria interpretativa implícita, como defende o ponto de vista platonista. Mas nessas circunstâncias torna-se difícil conceber como seria então possível determinar de forma independente o valor de verdade das premissas.

      No segundo caso, teria de ser possível imaginar, mesmo que isso fosse empiricamente falso, que seres como nós poderiam agir contra a sua própria crença acerca da melhor maneira de agir numa dada ocasião, hipótese essa que Aristóteles parece não aceitar. Saliente-se, ainda, que Aristóteles não esclarece de todo como determinar quais possam ser as condições de verdade debaixo das quais as premissas de um silogismo prático poderiam ser verificadas, respectivamente, falsificadas, de forma independente.

      As posições expostas no Protágoras e na Ética Nicomaqueia cristalizam o essencial dos pontos de vista posteriormente exemplificados pelos diferentes intervenientes no debate da tradição filosófica ocidental em torno do problema da acção racional (nomeadamente, Tomás de Aquino, Kant, Dray, Hempel ou von Wright, apenas para citar alguns). Mais recentemente, todavia, no artigo «How is weakness of the will possible?», Davidson defendeu, tanto contra Platão como contra Aristóteles, que é não apenas possível como factual que um indivíduo racional (nomeadamente, um ser humano) aja contra a sua crença acerca de qual é a melhor forma de agir sem estar a ser vítima ou de um assalto incontrolável das suas pulsões instintivas ou de um erro de identificação ou de qualquer outro fenómeno psicológico que o diminua enquanto agente. Neste caso, o agente racional estará, pura e simplesmente, a agir irracionalmente.

      A posição de Davidson sobre esta questão pode, todavia, ser vista como uma extensão da posição disposicionalista de Aristóteles. Com efeito, aquele considera, tal como este, que um comportamento dirigido de um ser que é, prima facie, racional é uma acção, mesmo que seja irracional. Por outro lado, desde que as acções irracionais constituam a excepção e não a regra, um agente não deixa de ser racional por, de quando em vez, agir irracionalmente. De um modo um pouco paradoxal, porém, Davidson combina esta sua tese com a adesão à perspectiva platonista de acordo com a qual uma dada teoria adequada da acção racional (que, no caso de Davidson, é não a teoria do silogismo prático mas uma versão particular da teoria bayesiana da decisão) tem uma validade a priori para a explicação da acção humana, constituindo, por conseguinte, a rede interpretativa no interior da qual é possível, e fora da qual não é possível, desenvolver um trabalho fecundo de explicação psicológica.

António Zilhão

Bibliografia

Aristóteles, Ética Nicomaqueia, trad. ingl. de David Ross, The Nichomachean Ethics, Oxford University Press, Oxford, 1925.

Churchland, Paul (1970) «The Logical Character of Action-Explanations» in The Philosophical Review, 79.

Davidson, Donald (1963) «Actions, Reasons and Causes» in Davidson (1980).

—— (1970) «How is weakness of the will possible?» in Davidson (1980).

—— (1974) «Psychology as Philosophy» in Davidson (1980).

—— (1980) Essays on Actions and Events, Clarendon Press, Oxford.

—— (1995) «Could There Be a Science of Rationality?» in Journal of Philosophical Studies, 3.

Dray (1963) «The Historical explanation of Actions Reconsidered» in Gardiner, org., The Philosophy of History, Oxford University Press, Oxford, 1974.

Hempel, Carl (1965) «Aspects of Scientific Explanation» no seu Aspects of Scientific Explanation, Free Press, Nova Iorque, 1970.

Kant, Immanuel (1785) Fundamentação da Metafísica dos Costumes, trad. de Paulo Quintela, Edições 70, Lisboa, 1991.

Platão, Protágoras in The Collected Dialogues of Plato, E. Hamilton e H. Cairns, orgs., Pantheon, Nova Iorque, 1966.

Tomás de Aquino, Summa Theologicae, Parte II, Q. 11, Art. 2, resposta à objecção 4. Ed. de T. Gilby et al., Blackfriers and Eyre & Spottiswoode, Londres.

von Wright (1971) Explanation and Understanding, Routledge, Londres.

 

aglomeração Diz-se que um operador frásico O é governado por um princípio de aglomeração quando, dadas premissas da forma Op, Oq (em que p, q são frases), é legítimo inferir uma conclusão da forma O (p Ù q ). Por outras palavras, a aglomeração é válida para a operação associada quando ela é fechada sob deduções feitas por meio da regra da introdução da conjunção (ver fecho). Há operadores para os quais a aglomeração é manifestamente válida; um exemplo é o operador clássico de negação: se se tem ¬p e ¬q, tem-se necessariamente ¬(p Ù q). E há operadores para os quais a aglomeração não é manifestamente válida; um exemplo é o operador modal de possibilidade: de premissas àp e àq não se segue em geral a conclusão à(p Ù q). Mas os casos filosoficamente interessantes são os daqueles operadores em relação aos quais há disputa sobre se obedecem ou não à aglomeração; um exemplo é o operador de crença: não é claro que, dadas premissas da forma x acredita que p e x acredita que q, se possa inferir uma conclusão da forma x acredita que p Ù q. Suponha-se que p e q são proposições inconsistentes; presumivelmente, uma pessoa racional pode ter um par de crenças inconsistentes (entre si), sem que desse modo tenha uma crença numa inconsistência.

 

alcance (de um operador) O mesmo que âmbito.

 

alefe Primeira letra do alfabeto hebraico, À, conhecida em lógica e matemática por ter sido escolhida para denotar os números cardinais infinitos, o mais pequeno dos quais (a cardinalidade dos números naturais) é denotado por À0.

Desidério Murcho

 

alético (do gr. alêtheia, verdade) Que diz respeito à verdade. Uma proposição pode ser possível, impossível, necessária ou contingente. Estas modalidades são apropriadamente conhecidas como «aléticas», pois trata-se de modos como uma proposição pode ser verdadeira ou falsa – possivelmente, necessariamente ou contingentemente. As modalidades aléticas, por vezes também conhecidas como metafísicas, contrastam com as modalidades epistémicas, como o a priori, modalidades que dizem respeito ao modo como uma proposição pode ser objecto de conhecimento.

Desidério Murcho

 

álgebras da lógica A utilização de leis lógicas ou tautologias notáveis (como as leis distributivas, as leis de De Morgan, etc.) permite manipular «algebricamente» as fórmulas para obter fórmulas logicamente equivalentes, utilizando a transitividade da relação « de equivalência lógica: se « Q e « R, então P « R. Por exemplo: (P ® Q) Ù ¬R «P Ú Q) Ù ¬R «P Ù ¬R) Ú (Q Ù ¬R).    

      A sistematização e desenvolvimento deste processo é um dos aspectos característicos da chamada «lógica algébrica», que trata do estudo da lógica do ponto de vista algébrico, e foi iniciada em meados do século passado por G. Boole (1815–1864) (ver álgebras de Boole) e continuada por A. De Morgan (1806–1871), C. S. Peirce (1839–1914) e outros. Já nos nossos dias o assunto foi retomado com grande fôlego por A. Lindenbaum (jovem matemático polaco falecido em 1941, durante o cerco de Varsóvia), A. Tarski (1901/2-1983), P. Halmos, D. Monk e também pelo nosso António A. R. Monteiro.

      Um exemplo muito simples de algebrização é o respeitante à lógica proposicional clássica. A primeira coisa a fazer é considerar os conectivos (ou conectivas) proposicionais como operações algébricas no conjunto F de todas as fórmulas proposicionais. Quer dizer, encara-se F como uma «álgebra», na qual distinguimos as seguintes operações: as operações binárias usuais de disjunção (Ú), conjunção (Ù), uma operação unária de negação (¬), e duas constantes ou operações 0-árias menos familiares, I e H. Intencionalmente, H representa uma fórmula válida (sempre verdadeira) e I uma contradição (sempre falsa). À estrutura (F, Ú, Ù, ¬, I, H) chama-se álgebra das fórmulas proposicionais. Identificando fórmulas logicamente equivalentes nesta estrutura obtém-se um exemplo de álgebra de Boole, a álgebra das proposições. Processos análogos a este podem ser efectuados para outras lógicas, nomeadamente, para a lógica intuicionista e alguns subsistemas da lógica proposicional clássica. Ver também álgebra de Boole.

A. J. Franco de Oliveira

Bibliografia

Halmos, P. R. (1956) «The Basic Concepts Of Algebraic Logic» in American Mathematical Monthly, 53, pp. 363-387.

Rasiowa, H. (1974) An Algebraic Approach to Non-classical Logics, North-Holland, Amesterdão.

Rasiowa, H. e Sikorski, R. (1963) The Mathematics of Metamathematics, Varsóvia.

 

álgebras de Boole Uma analogia entre as operações lógicas de disjunção e conjunção e as operações aritméticas ou algébricas de adição e multiplicação de números foi reconhecida por Leibniz (1646-1716) no séc. XVII, mas a formulação precisa dessa analogia e o estabelecimento de um cálculo lógico semelhante a uma álgebra simbólica (mas com propriedades ou leis nem sempre comuns às leis vulgares da álgebra dos números) foi realizada por George Boole (1815–1864) em 1847. As álgebras de Boole são as estruturas matemáticas que, modernamente, correspondem às ideias de Boole sobre a algebrização da lógica, nomeadamente, da lógica proposicional. São álgebras da forma (B, +, ∙, –, 0, 1) – ou da forma (B, Ú, Ù, –, 0, 1), se quisermos sublinhar o parentesco com a lógica –, onde B é um conjunto de objectos de natureza qualquer, 0 e 1 são elementos de B, + e ∙ são operações binárias em B e – é uma operação unária em B, com as propriedades seguintes, chamadas os axiomas das álgebras de Boole: para quaisquer elementos a, b, c de B,

 

a + (b + c) = (a + b) + c

a ∙ (bc) = (ab) ∙ c

a + b = b + a

ab = ba

a + (bc) = (a + b) ∙ (a + c)

a ∙ (b + c) = (ab) + (ac)

a + 0 = a

a ∙ 1 = a

a + (-a) = 1

a ∙ (-a) = 0

0 ¹ 1

 

De entre os muitos exemplos de álgebras de Boole são de mencionar especialmente os seguintes:

 

1) a álgebra de Boole dos valores lógicos, ou álgebra de Boole minimal, onde B contém somente os valores lógicos 0 (falsidade) e 1 (verdade), e as operações são definidas por:

 

0 + 0 = 0

0 + 1 = 1 + 0 = 1 + 1 = 1

0 ∙ 0 = 0 ∙ 1 = 1 ∙ 0 = 0

1 ∙ 1 = 1

–0 = 1

–1 = 0

 

2) a álgebra das proposições, ou álgebra de Lindenbaum, onde B se obtém a partir do conjunto das fórmulas de uma linguagem proposicional «identificando» fórmulas logicamente equivalentes, e as operações definem-se de maneira natural; por exemplo, se a = [P], b = [Q] são as classes de fórmulas logicamente equivalentes às fórmulas P e Q, respectivamente, então –a = [¬P] é a classe das fórmulas equivalentes à negação ¬P e b = [Ú Q] é a classe das fórmulas equivalentes à disjunção P Ú Q.

3) as álgebras de conjuntos, que são da forma (B, È, Ç, –, Æ, I), onde B é um conjunto de subconjuntos de um conjunto dado I, Æ Î B, I Î B e B é fechado sob as operações conjuntistas de união (È), intersecção (Ç) e complementação com respeito a B (B–), quer dizer, se X, Y Î B, então X È Y, X Ç Y e – X também são membros de B. Em particular, B poderá ser o conjunto de todos os subconjuntos de I, Ã(I).

 

As álgebras de Boole como as do exemplo 3 são típicas, na medida em que se pode demonstrar (teorema de Stone) que toda a álgebra de Boole é isomorfa a uma álgebra de conjuntos.

      O trabalho de Boole foi apenas a primeira etapa de uma investigação sobre a algebrização da lógica (clássica e não só), que se prolonga até aos nossos dias e encontra aplicações diversas em outras áreas matemáticas. Um dos desenvolvimentos mais recentes é a chamada teoria das álgebras cilíndricas, que estão para o cálculo de predicados (de primeira ordem) como as álgebras de Boole estão para o cálculo proposicional clássico. Ver também teoria dos conjuntos, cálculo proposicional.

A. J. Franco de Oliveira

Bibliografia

Boole, George (1847) The Mathematical Analysis of Logic, Oxford.

—— (1854) An Investigation of the Laws of Thought, on which they are founded the Mathematical Theory of Logic and Probabilities, Londres.

Henkin, L., Monk, J. D. e Tarski, A. (1971) Cylindric Algebras, Part I, North-Holland, Amesterdão.

Whitesitt, J. E. (1961) Boolean Algebra and its Applications, Addison-Wesley.

 

algoritmo Termo cunhado em nome do matemático persa Mûusâ al-Khowârizm, cujas tábuas trigonométricas, redigidas em 835, foram introduzidas no Ocidente em 1126. Um algoritmo é uma sequência de instruções ou regras cuja aplicação permite resolver um problema. A soma vertical de números com vários algarismos é um exemplo simples de um algoritmo. Um algoritmo opõe-se a um processo heurístico. Este último não consiste num conjunto de regras precisas para resolver um problema, mas numa forma mais ou menos ad-hoc de tentar fazê-lo. O método da tentativa e erro é um exemplo simples de um processo heurístico. A principal diferença entre um processo heurístico e um algoritmo é o facto de o primeiro não garantir um resultado, ao passo que o segundo garante. Todas as pessoas têm uma heurística para jogar no Lotaria; mas, precisamente por ser uma heurística, ninguém tem a garantia de que lhe irá sair uma fortuna. Mas quando seguimos o algoritmo da soma de parcelas temos a garantia de que chegaremos à solução.

      Em termos mais precisos, um algoritmo é um processo efectivo que, ao ser aplicado a um certo conjunto de símbolos, produz um, e um só, conjunto determinado de símbolos. Os algoritmos têm 5 propriedades essenciais:

 

1) um algoritmo define-se por um conjunto finito de instruções e não pelos poderes causais do agente que segue as instruções;

2) um agente de computação é capaz de seguir as instruções: não existem instruções ambíguas, mas apenas ordens claras;

3) para seguir as instruções de um algoritmo é necessário poder computar, armazenar e ler informação;

4) os algoritmos são discretos: as suas instruções têm de ser passo a passo; e

5) a computação que resulta de um algoritmo pode ser levada a cabo de forma determinista.

 

      O conceito de algoritmo, tal como os conceitos de «computabilidade efectiva» e «processo efectivo», não é formal, mas intuitivo. A tese de Church afirma que a classe dos algoritmos, dos processos efectivos e do que é efectivamente computável, é idêntica à classe das funções recursivas.

Desidério Murcho

     

algum O quantificador existencial, $, que afirma a existência de pelo menos um objecto, pode ler-se como «algum».

 

alternada, negação Ver negação alternada.

 

alternativa Em lógica, o mesmo que disjunção exclusiva.

 

alternativas do dilema Ver dilema.

 

ambiguidade Uma expressão é ambígua quando se encontra associada a mais de um significado. A ambiguidade é, por conseguinte, o tipo de relação entre forma e significado recíproca da relação de sinonímia.

      Os seguintes exemplos ilustram diferentes tipos de ambiguidade, respectivamente, ambiguidade lexical, estrutural e de âmbito:

 

1) O Pedro escolheu o canto.

2) O Pedro viu a Maria com os binóculos.

3) Todas as pessoas são amadas por alguém.

 

      No exemplo (1) a ambiguidade resulta de a palavra canto poder ser interpretada como designando ou um determinado lugar num espaço interior ou uma certa actividade musical: a frase (1) pode ser usada, por exemplo, para informar acerca do lugar que o Pedro escolheu para se sentar, ou para informar acerca da demonstração de perícia que o Pedro escolheu num concurso televisivo.

      Em (2) a ambiguidade resulta da posição relativa em que o sintagma com os binóculos ocorre na frase. Esta frase pode ser interpretada como descrevendo a situação em que o Pedro usou os binóculos para ver a Maria ou como descrevendo a situação em que a Maria levava os binóculos quando o Pedro a viu. Repare-se que, colocando o referido sintagma noutra posição relativa, no início da frase, por exemplo, a frase resultante deixa de apresentar essa ambiguidade: Com os binóculos, o Pedro viu a Maria descreve apenas a primeira das duas situações atrás referidas.

      O exemplo (3) ilustra um caso de ambiguidade que resulta da co-ocorrência na mesma frase de mais de um determinante quantificacional. A frase (3) pode ser interpretada como descrevendo a situação em que cada pessoa é amada pelo seu amante, o qual pode ser distinto de qualquer dos amantes das restantes pessoas, ou como descrevendo a situação em que existe um amante universal que ama todas as pessoas.

      Cabe notar que a ambiguidade é em regra uma propriedade ausente das linguagens artificiais e que, no uso que fazem das línguas naturais, os falantes dispõem de meios para eliminar os efeitos eventualmente nocivos da ambiguidade sobre a eficiência do processo comunicativo. Estes podem usar paráfrases não ambíguas em vez das expressões ambíguas: podem usar «O Pedro viu que a Maria levava os binóculos» em vez de usar a frase (2) para descrever uma das situações descritas por esta última. Podem contar com o contexto para que a interpretação pretendida seja adequadamente seleccionada: uma eventual apresentadora de um concurso televisivo usará a frase (1) sabendo que, naquele contexto, esta frase terá como interpretação mais razoável aquela em que se informa que o Pedro irá em breve começar a cantar. E podem ainda explicitamente pedir instruções ao locutor do enunciado no sentido de este clarificar qual a interpretação originalmente pretendida.

      Cabe notar ainda que importa distinguir ambiguidade de vagueza se bem que, em muitos casos, essa distinção seja difícil de estabelecer com objectividade. Ver também âmbito, determinante, estrutura pro-funda, gramática generativa, língua natural, significado, sinonímia, vagueza.

António Horta Branco

ambiguidade acto/objecto O termo pensamento, por exemplo, sofre de uma ambiguidade acto/objecto: tanto pode ser usado para referir o acto ou o processo de pensar, como para referir o resultado desse acto ou processo, ou seja, um pensamento no sentido de uma proposição.

 

ambiguidade de âmbito Ver âmbito.

 

ambiguidade lexical Ver ambiguidade.

 

ambiguidade sistemática Na teoria dos tipos, Bertrand Russell (1872-1970) teve de admitir uma ambiguidade sistemática em símbolos como =, pois numa fórmula como a = b, em que a e b são objectos de tipo 0, o sinal = tem de ter o mesmo significado que o sinal que ocorre em A = B, em que A e B são objectos de tipo 1.

      Em geral, a ambiguidade sistemática surge quando uma palavra ou expressão tem um significado quando aplicada a coisas de um certo género e um significado diferente, mas relacionado, quando aplicada a coisas de outro género. É o caso da palavra «inválido», quando aplicada a pessoas e quando aplicada a argumentos. Ver teoria dos tipos.

Desidério Murcho

 

ambiguidade tipo-espécime Ver tipo-espécime.

 

âmbito O âmbito (ou alcance, ou escopo) de um operador numa frase ou fórmula – ou, para sermos mais precisos, o âmbito de uma ocorrência de um operador numa frase ou fórmula – pode ser informalmente caracterizado como consistindo no operador juntamente com a menor subfrase ou subfórmula, aberta ou fechada, governada pelo operador (ou pela ocorrência em questão do operador); uma definição formal da noção pode ser dada para linguagens cuja sintaxe é caracterizável de modo preciso (ver sintaxe lógica). Em geral, o âmbito atribuível a um operador numa frase ou fórmula é explicitamente indicado através do emprego de símbolos de pontuação ou de agrupamento, como parênteses e outros dispositivos similares.  

      No caso mais simples, o dos conectores da lógica proposicional, a noção de âmbito de um operador é facilmente ilustrável. Por exemplo, o âmbito do operador proposicional monádico ¬ na fórmula ¬(p ® q) (em que p e q são quaisquer fórmulas) é toda a fórmula; e o âmbito do operador proposicional diádico ® na mesma fórmula é apenas o segmento p ® q. Em contraste com isto, na fórmula ¬p ® q, o âmbito de ® é toda a fórmula; e o âmbito de ¬ é apenas a subfórmula ¬p (uma convenção usual para o operador de negação é a de que, na ausência de parênteses, ele deve ser tomado como governando a menor subfórmula possível).

      Uma noção útil é a de âmbito longo, respectivamente curto, de uma ocorrência de um operador numa fórmula relativamente a ocorrências de outros operadores na fórmula. Diz-se que uma ocorrência o de um operador O numa fórmula tem âmbito longo, respectivamente curto, relativamente a uma ocorrência o' de um operador O' (pode ter-se O = O') quando o' está no âmbito de o na fórmula, respectivamente quando o está sob o âmbito de o' na fórmula. Assim, na fórmula ¬(p Ú ¬q), a primeira ocorrência de ¬ tem âmbito longo relativamente quer à única ocorrência de Ú quer à segunda ocorrência de ¬; e estas ocorrências dos operadores têm âmbitos curtos relativamente àquela. Enquanto que, na fórmula ¬p Ú ¬q, a primeira e a segunda ocorrências de ¬ têm âmbitos curtos relativamente à ocorrência de Ú, e esta tem âmbito longo relativamente àquelas (os âmbitos destas últimas não estão, no entanto, relacionados entre si dessa maneira).

      Nas linguagens naturais, a inexistência, em muitos casos, de indicadores explícitos de âmbito gera ambiguidades sintácticas ou estruturais de um certo género, as quais são conhecidas como ambiguidades de âmbito (ver ambiguidade). Um exemplo é dado numa frase como

 

1) Vou à baixa e bebo uma cerveja ou leio um livro.

 

(1) é estruturalmente ambígua, podendo receber duas interpretações distintas: a) uma na qual se atribui ao operador frásico ou âmbito longo relativamente ao operador frásico e, e cuja simbolização pode ser dada em

 

1a) (A Ù B) Ú C;

 

b) outra na qual se atribui ao operador ou âmbito curto relativamente ao operador e, e cuja simbolização pode ser dada em

 

1b) A Ù (B Ú C).

 

Neste caso, mas não em todos, o fenómeno da ambiguidade de âmbito tem consequências semânticas. A interpretação de âmbito longo (1a) e a interpretação de âmbito curto (1b) diferem em condições de verdade e logo em valor de verdade potencial: por exemplo, uma situação em que eu não vou à baixa e fico em casa a ler um livro é suficiente para tornar (1a) verdadeira; mas (1b) é claramente falsa nessa situação.

      Ambiguidades de âmbito podem igualmente surgir em relação aos seguintes tipos de frases: I) frases que contêm quantificação múltipla, isto é, mais do que um quantificador (os quantificadores clássicos, " e $, são operadores monádicos sobre frases abertas); II) frases que contêm operadores frásicos modais e/ou temporais (os quais são operadores monádicos sobre frases abertas ou fechadas); III) frases que contêm descrições definidas (o operador descritivo é um operador monádico sobre frases abertas que gera termos singulares complexos); e IV) frases que combinam alguns ou todos esses géneros de operadores. Tome-se, como exemplo do primeiro caso, a frase:

 

2) Todos os rapazes do grupo estão apaixonados por uma rapariga.

 

(2) é ambígua entre duas interpretações distintas: a) uma em que se atribui ao quantificador universal âmbito longo em relação ao quantificador existencial, e cuja simbolização pode ser dada em

 

2a) "x [Rapaz(x) ® $y [Rapariga(y) Ù Estar-Apaixonado(x,y)]]

 

(em que os valores das variáveis são as pessoas no grupo de pessoas em questão); b) outra em que se atribui a esse quantificador âmbito curto, e cuja simbolização pode ser dada em

 

2b) $y [Rapariga(y) Ù "x [Rapaz(x) ® Estar-Apaixonado(x,y)]].

 

Intuitivamente, a interpretação de âmbito longo estabelece que qualquer rapaz no grupo está apaixonado por alguma (esta ou aquela) rapariga; a interpretação de âmbito curto estabelece a existência de uma determinada rapariga pela qual todos os rapazes no grupo estão apaixonados. Como exemplo do último caso (e logo também do segundo), tome-se a frase

 

3) Alguém descobrirá a Fonte da Juventude,

 

empregue numa certa ocasião, digamos t. (3) é ambígua entre as seguintes duas interpretações: a) uma em que se atribui ao operador temporal subjacente ao verbo âmbito longo em relação ao quantificador existencial (restrito a pessoas), e cuja simbolização é

 

3a) F $x [Descobrir(x, a Fonte da Juventude)]

 

(em que F é o operador temporal de futuro); b) outra em que se atribui ao operador temporal âmbito curto, e cuja simbolização é

3b) $x [F Descobrir(x, a Fonte da Juventude)].

 

Mais uma vez, a ambiguidade de âmbito resulta aqui em diferenças semânticas notórias: a interpretação de âmbito longo é verdadeira (relativamente à ocasião t) se, e só se, numa certa ocasião t' t, pelo menos uma pessoa existente em t', descobre em t' a Fonte da Juventude; enquanto que a interpretação de âmbito curto é verdadeira (relativamente a t) se, e só se, pelo menos uma pessoa existente em t descobre a Fonte da Juventude numa certa ocasião t' t.

      Finalmente, é possível introduzir uma noção de âmbito intermédio de um operador numa frase ou fórmula relativamente aos âmbitos de outros operadores na frase ou fórmula. Considere-se a frase

 

4) Necessariamente, algo possivelmente existe.

 

(4) é ambígua entre duas interpretações (supondo, para simplificar, que o operador modal de necessidade é o operador dominante ou de maior âmbito): a) uma em que se atribui ao quantificador existencial âmbito longo em relação ao operador modal de possibilidade, e cuja simbolização é

 

4a) , $x [àExiste(x)];

 

b) outra em que se atribui ao quantificador existencial âmbito curto, e cuja simbolização é

 

4b) , à $x [Existe(x)].

 

Em (4b) o operador de possibilidade tem âmbito intermédio em relação ao operador de necessidade e ao quantificador; em (4a) é o quantificador que tem âmbito intermédio em relação aos operadores modais. Note-se que (4b) é uma verdade lógica na semântica S5 para a lógica modal quantificada; enquanto que (4a) não o é. Ver também conectivo; de dicto/de re; sintaxe lógica; ambigui­dade.

João Branquinho

 

anáfora Expressão de uma língua natural de significado variável cuja referência é estabelecida a partir do significado de outras expressões, as quais são designadas por antecedentes (das anáforas). Veja-se os seguintes exemplos ilustrativos.

 

1a) A Maria não gosta de si própria.

1b) A Cristina não gosta de si própria.

 

2a) O Pedro prometeu que ofereceria a sua fortuna à Santa Casa da Misericórdia mas não o fez.

2b) O Pedro prometeu que saltaria da ponte sobre o Tejo no Dia dos Namorados mas não o fez.

 

      As propriedades anafóricas da expressão «si própria» são colocadas em evidência pelo par de frases 1a-1b. Na primeira frase, «si própria» refere a pessoa que é referida por «a Maria», enquanto na segunda refere outra pessoa, no caso aquela que é referida por «a Cristina». «A Maria» e «a Cristina» são portanto as expressões antecedentes da anáfora «si própria» nestas duas frases.

      Também as propriedades anafóricas da expressão «o» são colocadas em evidência pelo par 2a-2b. Na primeira frase, a interpretação de «o» refere o evento descrito pelo seu antecedente nessa frase, a oração «que ofereceria a sua fortuna à Santa Casa da Misericórdia», enquanto na segunda frase depende da interpretação da oração «que saltaria da ponte sobre o Tejo no Dia dos Namorados.»

      É usual encontrar autores que preferem usar os termos «expressão de referência dependente», «expressão anafórica» (anaphor), ou outros para classificarem o tipo de expressões atrás apresentadas, em ordem a reservarem o termo «anáfora» (anaphora) para referirem a relação entre a expressão anafórica e o seu antecedente ou antecedentes. Nesta linha, pode-se ainda encontrar a distinção entre anáfora e catáfora. Ao invés do que acontece na primeira, na segunda, a ocorrência da expressão anafórica precede a ocorrência do seu antecedente, como é o caso entre «o» e «o assassino» no exemplo seguinte: «Apesar de a polícia o ter apanhado em flagrante, o assassino nunca confessou ser o autor do crime.»

      Cabe também referir outros tipos de anáfora, diferentes das ilustradas nos exemplos anteriores.

 

Anáfora associativa (ou indirecta): neste tipo de relação anafórica, a expressão anafórica denota algo tipicamente associado à referência do seu antecedente. No exemplo:

 

3)  Nesse dia, o João entrou pela primeira vez no seu novo gabinete. A janela encontrava-se aberta para a cidade.

 

      A referência da expressão anafórica «a janela» é estabelecida a partir da denotação do seu antecedente, «o seu novo gabinete», denotando a janela do novo gabinete do João, ou seja algo que não é referido pelo antecedente mas que se encontra tipicamente associado à referência deste.

 

Anáfora de tipo e (e-type): neste caso, considera-se que a expressão anafórica tem por antecedente um sintagma nominal quantificacional e a sua referência é grosso modo o conjunto que resulta da intersecção entre as denotações que são relacionadas pela denotação do respectivo determinante.

 

4)  A maioria dos deputados rejeitou a última proposta do Governo. Eles acharam que a proposta era inconstitucional.

 

      A expressão «eles», que ocorre na segunda frase do exemplo de (4), refere os deputados que rejeitaram a proposta do Governo, os quais são a maioria dos deputados, como se ficou a saber pela primeira frase.

 

Anáfora ligada (bound): também aqui a expressão anafórica tem por antecedente um sintagma nominal quantificacional. Neste caso, a expressão anafórica não denota nenhum entidade ou conjunto de entidades em particular, apresentando antes um comportamento semântico semelhante ao das variáveis ligadas das linguagens lógicas.

 

5)  Naquele Departamento, cada um dos professores idolatra-se a si próprio.

 

Anáfora ramificada (split): neste caso a expressão anafórica depende de mais de um antecedente, sendo a sua referência o resultado da combinação da referência dos antecedentes. É o que acontece no exemplo seguinte, em que «eles» refere o João, a Maria e a Cristina.

 

6)  Foi o João que informou a Maria e a Cristina de que eles tinham sido designados pelo chefe para negociar a aquisição do novo escritório.

 

      Ver também indexicais, referência, denotação.

António Horta Branco

 

analysandum (lat.) Termo ou conceito sob análise ou a ser analisado. Ver análise.

 

analysans (lat.) Termo ou conceito ao qual se reduz outro termo ou conceito por meio de um processo de análise. Ver análise.

 

análise As expressões «análise», «análise lógica» e «análise conceptual», partilham com o termo «filosofia» de uma multiplicidade de sentidos que tornam em todos os casos impossível produzir uma definição válida para todos os sentidos envolvidos. A análise não é um corpo de doutrina mas antes um estilo que se caracteriza por valorizar o detalhe contra a generalidade, o rigor contra a ambiguidade e por focar a estrutura dos, e as implicações entre, os conceitos do esquema conceptual em uso. Torna-se assim necessário adoptar antes um ponto de vista descritivo e procurar enumerar os métodos propostos pelas diversas concepções.

 

Sistemas de análise baseados

na técnica da definição explicita

 

      Na história da filosofia um uso consciente do termo «análise» e já característico no século XIX. O sucesso do método analítico na química estimulou a analogia de que um método de estudo válido para a solução de um problema filosófico seria uma decomposição que revelasse a estrutura das suas partes, as funções destas e as relações relevantes entre elas. É neste sentido que a expressão «pensamento analítico» é usada derrogativamente por F. H. Bradley (1846-1924) em 1893 no seu livro Appearance and Reality. Para Bradley a decomposição ou a análise constitui uma falsificação da realidade uma vez que esta, na sua teoria, é constituída numa percepção de unidade, de tal modo que a exibição das suas partes constituintes torna a realidade ininteligível. Este «pensamento analítico» encontrou a sua representação inicialmente em Bertrand Russell (1872-1970), para quem a realidade consistia precisamente na existência independente de termos, predicados e relações. A análise revela uma estrutura compósita, constituída pelos pares de conceitos físico e mental, particular e universal. Russell conseguiu refutar a teoria monista de Bradley através da sua conhecida defesa da realidade das relações externas. Uma relação é externa se não é redutível a propriedades dos seus argumentos (relata) ou da totalidade argumentos-relação. Para Bradley uma proposição relacional, por exemplo, uma relação binária Rxy, deve ser concebida como uma proposição acerca da totalidade formada pelos argumentos x e y, de modo que todas as relações são apenas relações internas no sentido de redutíveis as propriedades dos seus argumentos. Nos Principles of Mathematics Russell refuta a concepção de Bradley argumentando que as relações Rxy e Ryx contêm exactamente os mesmos argumentos e constituem a mesma totalidade e não são no entanto a mesma relação se R for uma relação assimétrica. Numa outra passagem dos Principles of Mathematics Russell introduz de facto a expressão «análise conceptual» para defender justamente a sua exequibilidade contra o suposto carácter subjectivo da análise conceptual face à decomposição real em partes. Mas para Russell toda a complexidade é conceptual e a rejeição da análise por esta não fazer justiça à noção de totalidade é, para ele, apenas uma desculpa daqueles que não se querem submeter aos rigores do trabalho analítico.

      Vale a pena suspender aqui a exposição da contribuição de Russell para o desenvolvimento do método da análise para referir o trabalho de G. E. Moore (1873–1958) e a sua concepção de análise. Moore define o seu conceito de análise usando o formato e adaptando a terminologia da teoria da definição, exigindo que a análise seja uma forma de definição. O objecto da definição ou análise é um conceito ou uma proposição e não a sua expressão verbal. Essencial na técnica de Moore é que o conceito a analisar, chamado por isso analysandum, tem de ser logicamente equivalente ao analysans, o conceito ou proposição ao qual o analysandum é reduzido. Moore conseguiu isolar três condições necessárias da análise de um conceito que se podem representar nas proposições seguintes:

 

I. Extensionalidade: não se pode saber que um objecto x pertence à extensão do analysandum sem saber que x pertence à extensão do analysans.

II. Verificabilidade: não se pode verificar a validade do analysandum sem verificar a validade do analysans.

III. Sinonímia: qualquer expressão que represente o analysandum tem de ser sinónima de qualquer expressão que represente o analysans.

 

      Moore deixou vários exemplos de análise, um dos quais é útil para formular o chamado paradoxo da análise. Trata-se da análise do conceito de «irmão» para a formulação do qual adoptamos a convenção de que os filhos de uma pessoa P constituem a classe dos descendentes de P. Nestes termos a análise do conceito de «irmão» pode ser representada por qualquer das seguintes proposições:

 

1) Os conceitos «ser um irmão» e «ser um co-descendente masculino» são idênticos.

2) As funções proposicionais «X é um irmão» e «X é um co-descendente masculino» são idênticas.

3) Afirmar que uma pessoa é um irmão é o mesmo que afirmar que ela é um co-descendente masculino.

4) Ser um irmão e ser um co-descendente masculino são a mesma coisa.

 

      É fácil verificar que as proposições (1) a (4) satisfazem as condições I a III. Supondo agora que a proposição (4) é verdadeira e ainda a substituição salva veritate de termos idênticos, a proposição (4) é idêntica à proposição «Ser um irmão e ser um irmão são a mesma coisa.» Mas é óbvio que as duas proposições não são idênticas e que enquanto a primeira é uma análise do conceito de «irmão» a segunda não é. Moore não encontrou uma solução para este paradoxo e tornou a solução ainda mais difícil de encontrar ao insistir na identidade de conceitos entre o analysandum e o analysans. Em todo o caso, a sua concepção distingue-se pela separação entre palavras e conceitos ser rigorosamente prosseguida e só estes serem susceptíveis de análise. Existe uma forma verbal padrão que toda a análise tem de seguir e tal que a expressão do analysandum é equivalente à expressão sinónima (maior e mais explícita) do analysans. Mas nos Principia Ethica e sobretudo na sua «Refutação do Idealismo» Moore pratica uma forma de análise igualmente apoiada na teoria da definição mas sem o recurso às condições I a III. Esta forma de análise segue precisamente a estrutura da definição real. O que é susceptível de análise não é, por exemplo, nem a palavra «sensação», nem o conceito de «sensação» mas o complexo «sensação de azul», o qual Moore analisa ou decompõe nas suas partes constituintes, que para ele são a cor azul, a sua percepção e uma relação unívoca entre a percepção e a cor. Na sua defesa contra Bradley da existência de relações exter-      nas, também a concepção de análise em-pregue é a da definição real e não a pura elucidação de conceitos como descrita nas condições I a III.

      Em contraste com Moore, o âmbito da análise praticada por Bertrand Russell inclui não só entidades não linguísticas mas também entidades linguísticas. Mas as técnicas da teoria da definição usadas por Russell são empregues literalmente no caso da definição contextual, a eliminabilidade de um conjunto de símbolos por outro, e em sentido lato no caso da definição real. Esta tem de ser interpretada como proporcionando uma enumeração das várias partes constituintes de objectos complexos que existem independentemente. A análise revela assim a realidade ou alguns aspectos dela como formada a partir de partes atómicas, no sentido em que estas já não podem ser analisadas ou decompostas. No seu vocabulário acerca de análise Russell tem expressões recorrentes como «análise verdadeira», «análise falsa», «análise completa», as quais dependem para o seu sentido da concepção da definição real como uma decomposição de um objecto complexo nas suas partes constituintes. Mas esta decomposição pode depois ser também captada numa definição contextual. Exemplo: a análise da proposição «O tempo consiste em instantes.» O processo de análise pode ser executado em três passos:

 

1) a verificação de que não existem objectos simples que sejam a denotação dos termos «tempo» e «instante»;

2) a enumeração das partes constituintes dos conceitos expressos por «tempo» e «instante»; essas partes são acontecimentos, propriedades de acontecimentos e relações entre acontecimentos;

3) a representação da proposição na sua forma de definição contextual, cuja formulação é a seguinte: «Para qualquer acontecimento A, qualquer acontecimento que é completamente posterior a qualquer contemporâneo de A é completamente posterior a um contemporâneo inicial de A.» (Para uma extensão desta análise à filosofia da física é útil ler a discussão em Principles of Mathematics, §445 do conceito de ocupar um lugar num tempo.)

 

Nestas condições, a análise produz uma descrição da estrutura fundamental da linguagem e da realidade, revelando os diversos processos de composição subjacentes.

      A este sistema está associada uma técnica de análise que Russell vinha desenvolvendo desde 1905 («On Denoting»), subsequentemente incorporada nos Principia Mathematica e nas «Conferências sobre o Atomismo Lógico.» O conceito-chave é o conceito de forma, que Russell define através do conceito de forma proposicional. Esta é o modo como as partes constituintes de uma proposição são ligadas. A forma proposicional é revelada quando as partes constituintes são substituídas por variáveis. Nestas condições, qual é a análise de uma proposição como «O maior número inteiro não existe»? Não só é uma proposição com sentido como é também uma proposição verdadeira, embora o sujeito gramatical «o maior número inteiro» refira um objecto inexistente. A solução de Russell para a análise deste género de proposições consistiu em distinguir os símbolos constituintes de uma proposição em duas classes separadas: os nomes próprios e as descrições (ver teoria das descrições). Um nome próprio é um símbolo simples que denota um particular, o qual constitui o sentido do nome: representa o particular com o qual se está em contacto. Os verdadeiros nomes próprios são na verdade apenas «isto» e «isso» mas em sentido lato «Camões» é também um nome próprio, um símbolo simples que denota um particular directamente, o qual é o sentido do símbolo. Essencial para a análise é o facto de este sentido ser independente do contexto e obter assim mesmo quando o símbolo ocorre isoladamente. Em contraste com o nome próprio a descrição é um símbolo complexo, como «o poeta dos Lusíadas», o qual não denota um particular directamente e é por isso classificado por Russell como um símbolo incompleto, cujo sentido só pode ser estabelecido num contexto de outros símbolos e não isoladamente como o nome próprio. As descrições são símbolos incompletos também pelo facto de que os objectos que são supostas denotar não serem partes constituintes da proposição. Quando uma proposição contém uma ocorrência de uma descrição, não é a existência da parte constituinte da proposição onde ocorre a descrição que é afirmada. É por isso que é possível fazer asserções verdadeiras e com sentido sobre a inexistência de um objecto como «o maior número inteiro não existe.» Adaptando o exemplo conhecido de Russell, a análise da proposição «O autor dos Lusíadas era um poeta» mostra como o significado existencial do símbolo complexo «o autor dos Lusíadas» pode ser esclarecido. Para a análise usa-se o cálculo de predicados com identidade, definindo o predicado unário Lx, que se interpreta como «x escreveu os Lusíadas» e o predicado unário Px que se interpreta como «x era um poeta.» Nestas condições, a proposição «O autor dos Lusíadas era um poeta» pode ser analisada como sendo a conjunção das três proposições seguintes:

 

1) Existe pelo menos um x que é autor dos Lusíadas;

2) O x tal que Lx é único, isto é, para quaisquer x e y, Lx e Ly implica x = y;

3) Px.

 

      Se uma destas três formulas, nas quais já não ocorre a descrição, não é satisfeita, a proposição «O autor dos Lusíadas era um poeta» é falsa. Se agora substituirmos «x escreveu os Lusíadas» por Fx, qualquer proposição sobre «o x tal que Fx» exige as formulas (1) e (2), isto é, que pelo menos um objecto satisfaz F e que no máximo um objecto satisfaz F. Ambas são equivalentes à fórmula «Existe um c tal que x satisfazer F é equivalente a c.» Assim, «o x tal que Fx» foi completamente eliminado não sendo assim a representação directa de um objecto. Esta mesma técnica da decomposição de um símbolo descritivo em proposições do cálculo de predicados com identidade pode ser usada também na análise de proposições acerca de objectos inexistentes, uma vez que a análise revelará que essas proposições, ao serem reformuladas, não implicam a existência de tais objectos. Por isso, o método de análise da teoria das descrições foi usado por Russell na filosofia da matemática e na filosofia da física, na sua tentativa de esclarecer o estatuto ontológico de alguns dos conceitos usados, como classe, número, relação, instante, partícula, etc. Os seus símbolos passam a ser tratados também como símbolos incompletos, destituídos de sentido fora de contexto, não sendo por isso nomes próprios. As proposições em que ocorrem podem ser analisadas, com a técnica descrita, em termos de proposições cujos termos têm uma denotação.

 

Sistemas de análise com definição implícita

 

      Um resultado óbvio da análise de proposições em que ocorrem termos descritivos como «o x tal que Fx» é o contraste entre a forma gramatical da proposição antes da análise e a sua forma analisada. Este contraste sugere a interpretação filosófica de que a forma gramatical não revela a forma lógica da proposição. Nestes termos é fácil de ver como se pode postular como objectivo da análise a descoberta da forma lógica correcta de uma proposição, para lá da sua aparência gramatical. Este objectivo foi prosseguido e realizado pelo Círculo de Viena, como parte de um programa geral de redefinição da filosofia que incluía além da teoria da verificabilidade do sentido, da rejeição da metafísica, do convencionalismo na lógica e na matemática e da concepção da linguagem como um cálculo, a identidade entre a filosofia e a análise lógica. Dois sistemas de análise lógica, no entanto, eram usados no Círculo, um proveniente do Tractatus Logico-Philosophicus (1922) de Wittgenstein (1889-1951) e outro proveniente da Sintaxe Lógica da Linguagem (1934) de Carnap (1891-1970). Embora Wittgenstein não ofereça uma definição de análise lógica, infere-se do seu tratamento do cálculo proposicional que o objectivo da análise é também a decomposição, neste caso de proposições complexas nas suas partes constituintes, as proposições elementares. Uma análise completa poderia ser descrita nos passos seguintes:

 

1) a proposição complexa P é decomposta nas proposições elementares P1, ¼, Pn.

2) Cada proposição elementar Pi é decomposta nas suas partes constituintes, os nomes N1, ¼, Nn.

3) A justaposição de todos os nomes de todas as proposições Pi termina a análise de P.

 

      Esta técnica de análise, expressa no §4.221 do Tractatus Logico-Philosophicus, é teoricamente apoiada pelo princípio de que qualquer proposição P ou é uma proposição elementar ou é uma função de verdade cujos argumentos são proposições elementares. As unidades atómicas no sistema de Wittgenstein são assim os nomes, cuja denotação são aquilo a que neste sistema se chama objectos. O nome, por sua vez, já não pode ser analisado por meio de uma definição: é um símbolo primitivo, não analisável. Em relação a uma proposição P a análise de P tem a propriedade da univocidade e assim existe uma única decomposição de P que revela a sua estrutura. Embora Wittgenstein no Tractatus reconheça que o mérito de Russell tenha consistido em mostrar que a forma gramatical de uma proposição não é ainda a sua forma lógica, o sistema de análise proposto no Tractatus não explora o efeito de uma tal dicotomia. Em contraste, o sistema proposto por Carnap na Sintaxe Lógica Da Linguagem apresenta a mesma dicotomia sob uma nova faceta. A inspiração imediata de Carnap foi no entanto a filosofia formalista de Hilbert (1862-1943) (ver programa de Hilbert), em especial a sua concepção da metamatemática. Em 1934 Carnap concebia a linguagem como um sistema formal, e deste apenas a sua sintaxe. O objectivo da análise é a descoberta das regras por meio das quais a linguagem (ou a sua sintaxe) é construída. No instrumentário conceptual da Sintaxe Lógica Da Linguagem o papel principal é desempenhado pela teoria de sentido do sistema, segundo a qual uma proposição com sentido é ou uma proposição empírica ou uma proposição sintáctica. As proposições empíricas pertencem ao domínio das ciências e as proposições sintácticas ao domínio da lógica ou da matemática. Exemplos:

 

1) O sal é pesado;

2) A palavra «sal» denota um objecto.

 

      Enquanto (1) é um exemplo de uma proposição empírica, (2) é um exemplo de uma proposição sintáctica. Entre estes dois extremos existe uma terceira possibilidade, a das proposições pseudo-empíricas, que aparentam ser pela forma gramatical como as proposições empíricas e pelo seu conteúdo como as proposições sintácticas. Exemplo:

 

3) O sal é um objecto.

 

      As proposições sintácticas são formuladas no que Carnap chama o modo formal enquanto que as proposições pseudo-empíricas no chamado modo material. A generalidade dos problemas filosóficos tradicionais resulta da inconsciência acerca do seu carácter apenas quase sintáctico, tipicamente expresso pelo recurso ao modo material. O método de análise promove uma solução destes problemas através de uma tradução de proposições formuladas no modo material em proposições formuladas no modo formal. É no §78 da Sintaxe Lógica da Linguagem que Carnap desenvolve e discute a confusão causada na filosofia pelo uso do modo material. Em particular, é de notar a sua ideia de que o uso do modo material conduz a subestimar a dependência das proposições filosóficas da linguagem em que são formuladas. As proposições da filosofia não são absolutas mas relativas a uma linguagem. Supondo agora que um filósofo logicista propõe a tese

 

L) «Os números são classes de classes de objectos»

 

e que um filosofo formalista propõe a tese

 

F) «Os números pertencem ao conjunto primitivo de objectos»,

 

uma decisão sobre o que é na verdade um número nunca será atingida. A tradução das proposições (L) e (F) para o modo formal permite conciliar as duas teses. A tradução de (L) seria:

 

L*) «Expressões numéricas são expressões de segunda ordem que denotam classes.»

 

A tradução de (F) seria:

 

F*) «Expressões numéricas são expressões de primeira ordem.»

 

As diversas alternativas para a tradução de uma proposição numa forma equivalente não são entre si inconsistentes. Nestes termos, uma disputa entre as teses (L) e (F) é uma disputa acerca de pseudoteses, causada pelo uso do modo material.

      Precisamente contemporâneo da Sintaxe Lógica da Linguagem é o ensaio de John Wisdom (1904- ) «É a Análise um Método Útil na Filosofia?», o qual constitui também uma primeira sistematização dos métodos em curso. Estes métodos são separados em duas formas básicas, a partir de uma categorização dos objectos intervenientes entre primitivos, ou de grau 0 e derivados, os quais têm um grau maior do que 0. Se o grau dos objectos é igual, resultam duas formas de análise: a análise material, de que serve de paradigma o tipo de definição usado nas ciências e a análise formal, o exemplo melhor da qual é a teoria das descrições de Russell, tratada acima. Se o grau dos objectos é diferente, tem-se uma análise de proposições sobre objectos de um dado grau em proposições acerca de objectos de um grau menor. Este género de análise, chamado por Wisdom «filosófica» é típica, por exemplo, na análise de proposições acerca de objectos materiais. Se se postular como primitivo, ou de grau 0, o conceito de sense datum, então o conceito de objecto material tem um grau maior e diz-se que uma análise de proposições acerca de objectos materiais consiste na sua redução aos objectos primitivos, os sense data. O método da análise filosófica de Wisdom reflecte um aspecto da definição implícita, tal como esta é empregue na formulação do método axiomático. É a esta técnica que Gödel (1906-1978) chama «análise conceptual». Trata-se da caracterização de um conceito por meio de um conjunto de axiomas. O passo crucial é a escolha dos conceitos primitivos à custa dos quais o conceito a definir é caracterizável. Dos dois exemplos positivos de análise conceptual apontados por Gödel é útil considerar o de Dedekind (1831-1916). O conceito a analisar era o conceito de «número natural» e a descoberta de Dedekind foi que três conceitos primitivos eram suficientes para o fazer: o conceito de 0, de «número» e de «sucessor». Os axiomas a que esta escolha deu origem são conhecidos:

 

A1: 0 é um número.

A2: 0 não é um sucessor.

A3: O sucessor de um número é um número.

A4: O sucessor de um número é único.

A5: Se F(0) e se para todo o número n, F(n) implica F(sucessor de n) então para qualquer número x, F(x).

 

      Supondo que o sentido da expressão «reflectir acerca de» é bem definido, a análise conceptual para Gödel é o resultado da reflexão acerca de uma proposição ou de um conjunto de proposições. Nos seus exemplos, a essência da análise conceptual é a reflexão sobre as proposições da matemática. Gödel distingue a lógica da lógica matemática, fazendo com que a primeira seja a teoria dos conceitos e a segunda a sua formulação precisa e completa. A experiência mostra que em geral se tem boas ideias em lógica antes de se proceder à sua formulação precisa e completa. A análise conceptual é precisamente uma das formas de obter uma tal formulação. Dois objectivos podem ser alcançados com o uso da análise conceptual:

 

1) a descoberta de axiomas;

2) a solução sistemática de problemas a partir dos axiomas encontrados.

 

      Embora Gödel não tenha produzido uma enumeração dos conceitos primitivos da lógica (como teoria dos conceitos) pode-se inferir que qualquer entidade é para Gödel ou um conceito ou um objecto ou um conjunto, isto é, um objecto matemático. Nestas condições, a lógica teria na verdade três conceitos primitivos:

 

1) conceito;

2) objecto;

3) conjunto.

 

      Existe uma caracterização axiomática da teoria de Gödel sobre conceitos que se deve a Hao Wang. O ponto de partida é a ideia de que qualquer conjunto é a extensão de um certo conceito. Se estas extensões tiveram uma cardinalidade moderada, será possível obter o conceito de conjunto e os axiomas acerca de conjuntos a partir da teoria dos conceitos. O sistema de Wang é obtido do sistema de Zermelo-Fraenkel, substituindo a relação primitiva de pertença pela nova relação primitiva de aplicabilidade A(x, y), «x aplica-se a y.» Para a formula A(x, y) Wang exige que:

 

E) «se k é o tipo de x, então k + 1 seja o tipo de y»;

 

em geral, se A(x, y) contém apenas ocorrências de termos primitivos, então todas as ocorrências da mesma variável sejam atribuídas ao mesmo tipo. Uma fórmula que satisfaz esta condição diz-se estar estratificada. A análise de Wang tem o seguinte aspecto:

 

Axioma I: Se a fórmula Fx está estratificada, então existe um conceito y tal que "x Ayx « Fx.

Definição 1: Y é um conjunto, que se denota por My, significa que y é extensional e fundado.

Axioma II: x Î y « Mx Ù My Ù Ayx.

Axiomas III: Os axiomas de Zermelo-Fraenkel, com os quantificadores restritos a conjuntos.

 

M. S. Lourenço

Bibliografia

Carnap, Rudolph (1959) The Logical Syntax of Language, Routledge, Londres.

Gödel, Kurt et. al. (1979) O Teorema de Gödel e a Hipótese do Continuo, trad. e org. de M. S. Lourenço, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

Moore, G. E. (1953) Some Main Problems Of Philosophy, Routledge, Londres.

Russell, Bertrand (1956) The Principles of Mathematics, George Allen & Unwin, Londres.

Russell, Bertrand e Whitehead, Alfred (1962) Principia Mathematica, Cambridge University Press, Cambridge.

Urmson, J. O. (1956) Philosophical Analysis, Oxford University Press, Oxford.

Wang, Hao (1988) Reflections On Gödel, MIT Press, Harvard, MA.

Wittgenstein, Ludwig (1922) Tratado Lógico-Filosófico, trad. de M. S. Lourenço, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1987.

 

análise, paradoxo da Ver paradoxo da análise.

 

analítico A discussão à volta do par conceptual analítico/sintético encontra-se prefigurada nas obras de filósofos modernos como Leibniz (1646-1716), Hume (1711-76) ou Kant (1724-1804). Em Leibniz aquele par corresponde, grosso modo, à diferença entre verdades da razão e verdades de facto, sendo aquelas definidas como verdades em qualquer mundo possível e estas como verdades contingentes e por isso não ocorrendo necessariamente noutro mundo possível. Kant aplicou a distinção entre analítico e sintético aos juízos ou às formas de expressão predicativas «S é P» em geral e considerou analítico todo o acto predicativo em que o conceito do predicado esteja a priori contido no conceito do sujeito.

 

Em todos os juízos, nos quais se pensa a relação entre um sujeito e um predicado (apenas considero os juízos afirmativos, porque é fácil depois a aplicação aos negativos), esta relação é possível de dois modos. Ou o predicado B pertence ao sujeito A como algo que está contido (implicitamente) nesse conceito A, ou B está totalmente fora do conceito A, embora em ligação com ele (Kant, KrV, B10).

 

«Este corpo é extenso» exemplifica um juízo analítico, na medida em que a extensão está contida a priori no conceito de corpo. Assim o predicado não fará mais do que tornar explícito o conteúdo ou, se quisermos, o conjunto de significados que pertencem ao significado global do conceito do sujeito. Por seu lado as predicações sintéticas acrescentam algo ao conceito do sujeito, mas não possuem o valor a priori das analíticas e por isso a sua qualidade epistémica é diferente. No entanto, é de referir que a parte mais significativa da filosofia de Kant consiste na sua demonstração da existência de juízos sintéticos que não deixam, por isso, de ter uma qualidade a priori. Assim juízos analíticos e sintéticos a priori possuem em comum a característica do seu valor de verdade não depender da experiência.

      Torna-se fácil imaginar que a forma como o conceito de analítico é exposto na tradição filosófica moderna (incluindo aí a exposição mais elaborada de Kant), envolvendo frequentemente metáforas, como conceitos incluídos noutros ou significados integrando outros mais extensos, etc., tenha colocado problemas e sofrido alguma erosão na filosofia contemporânea da linguagem e da lógica. Uma das contribuições mais relevantes para a discussão do conceito foi o artigo de Quine (1908- ) intitulado «Two Dogmas of Empiricism», publicado em 1951 na revista Philosophical Review. Os pressupostos envolvidos nas chamadas verdades analíticas tornar-se-ão mais claros se distinguirmos duas classes de proposições analíticas: as logicamente verdadeiras, como «Nenhum homem não casado é casado» e aquelas que serão verdadeiras por sinonímia, como «Nenhum solteiro é casado.» A analiticidade da primeira proposição assenta no facto de ela ser verdadeira e permanecer como tal, sob todas as interpretações e reinterpretações dos seus componentes que não sejam as partículas lógicas «não», «ou», «e», «se¼, então¼», etc. A analiticidade da segunda proposição decorre de substituição de um termo por outro considerado sinónimo; neste caso, na substituição de «homem não casado» por «solteiro». Será que a analiticidade apresentada na segunda proposição se deixa reduzir à da primeira? Isto é, será a operação de sinonímia que ocorre nas proposições do segundo tipo um ingrediente irrelevante na consideração da analiticidade? A verdade é que assim se fará depender o carácter analítico de uma proposição ou de um juízo de um conceito de sinonímia, o qual precisa, ele próprio, de ser clarificado.

      Uma sugestão mais forte a favor da sinonímia, como base da analiticidade, é a que define aquela como substituição mútua de dois termos em todos os contextos, sem que se altere o valor de verdade, ou nos termos de Leibniz, salva veritate. No entanto, proposições em que a sinonímia cognitiva funcionará, do tipo «Necessariamente, todos e apenas os solteiros são homens não casados» (em que a substituição mútua salva veritate parece óbvia) pressupõem uma linguagem suficientemente rica para que essa operação seja possível: neste caso, a existência de um advérbio como «necessariamente», cuja aplicação gera afinal a verdade e a analiticidade. Mas essa aplicação pressupõe, em vez de explicar, o conceito de analítico. Num outro sentido, a substituição salva veritate, poderá ser entendida extensionalmente, isto é, quaisquer dois predicados concordantes do ponto de vista da extensão, poderiam substituir-se em qualquer contexto, sem perda do valor de verdade. Porém o ponto de vista da extensionalidade não cobre satisfatoriamente os requisitos daquilo a que Quine chama a sinonímia cognitiva. «Necessariamente, todos e apenas os solteiros são homens não casados» fica sujeito às mesmas dificuldades de «Necessariamente a criatura com rins é a mesma que a criatura com fígado», referindo-nos ao homem. A substituição dos dois termos da proposição funciona do ponto de vista da extensionalidade, mas não se pode dizer que se tenha obtido a sinonímia. Assim, para Quine,

 

temos que reconhecer que a substituição mútua salva veritate, se construída em relação a uma linguagem extensional, não é uma condição suficiente de sinonímia cognitiva, no sentido necessitado para derivar a analiticidade [¼] Se uma linguagem contém um advérbio intensional, «necessariamente», no sentido notado atrás, ou outras partículas para o mesmo efeito, então a substituição mútua salva veritate em tal língua fornece uma condição suficiente de sinonímia cognitiva; mas uma tal língua é apenas inteligível, na medida em que a noção de analiticidade é antecipadamente compreendida (Quine 1951, p. 31).

 

A hipótese de explicar a analiticidade nos limites de linguagens artificiais simples, com a aplicação de regras semânticas, a partir das quais se derivem todas as possíveis proposições analíticas, é também rejeitada por Quine. Então S é P é analítico em L, dada a regra R. O que então acontecerá é que compreendemos a que expressões é que essas regras atribuem analiticidade, mas precisamente e por definição R aplica-se apenas em L, uma linguagem específica. O equívoco das verdades analíticas reside para Quine na crença metafísica de verdades separadas da experiência ou de verdades conhecíveis a priori pelo simples conhecimento de uma particular relação semântica entre os termos de uma proposição ou de um juízo. É por isso que uma fronteira estrita entre o analítico e o sintético não foi estabelecida, já que para ser estabelecida, ela própria teria que ser a priori. No entanto é fácil verificar como de facto o analítico é um pressuposto do funcionamento da língua, da qual dependem as mais elementares operações de sinonímia e definição.

António Marques

Bibliografia

Kant, Immanuel (1787) Crítica da Razão Pura, trad. de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1985.

Quine, W. O. (1951) «Two Dogmas of Empiricism» in From Logical Point of View, Harper Torchbooks, Nova Iorque, 1963.

 

analogia Estabelece-se uma analogia quando se afirma uma semelhança entre duas coisas. Ver argumento per analogiam.

 

analogia, argumento por Ver argumento per analogiam.

 

ancestral A relação ancestral de uma relação dada R é o conjunto de todos os pares ordenados <a, b> tais que ou Rab ou há um número finito de objectos c1, c2, ¼, cn tais que Rac1 Ù Rac2 Ù¼Ù Racn.

 

anfibolia (do gr., amphibolos, fala incerta) É um caso de falácia da ambiguidade. A anfibolia ocorre quando quem argumenta interpreta mal uma premissa devido a um ambiguidade estrutural desta e daí retira uma conclusão que é baseada nessa má interpretação. Exemplo: João disse ao Pedro que ele tinha feito um erro. Segue-se que João tem a coragem de admitir os seus próprios erros. (O ele é usado de modo anfibológico como referindo-se a João em vez de ao Pedro.)

João Sàágua

 

anfibologia O mesmo que anfibolia.

 

antecedente Numa frase ou proposição condicional, «se p, então q», chama-se antecedente à frase p. Diz-se que a antecedente de uma frase condicional introduz uma condição suficiente.

      O termo tem também outro significado: a antecedente de uma expressão anafórica, numa frase dada, é aquela expressão de cujo significado ou referência depende o significado ou referência da expressão anafórica.

 

antecedente (de uma expressão) Ver anáfora.

 

antilogismo (ou antissilogismo) Conjunto de três proposições categóricas duas das quais são as premissas de um silogismo válido e a terceira das quais é a proposição contraditória da conclusão desse silogismo. Naturalmente, um tal conjunto é necessariamente um conjunto inconsistente de proposições: se um dado silogismo é válido, então é impossível que as suas premissas sejam verdadeiras e a sua conclusão seja falsa, e logo é impossível que aquelas duas proposições e a contraditória desta sejam todas verdadeiras. Conversamente, se um trio de proposições categóricas forma uma colecção inconsistente, então qualquer silogismo obtido tomando duas delas como premissas e a contraditória da restante como conclusão é um silogismo válido. Um teste de validade silogística frequentemente utilizado, o qual foi inventado por Christine Ladd-Franklin em 1883 (tal como relatado em H. Kahane, 1990), consiste em verificar a validade de um silogismo verificando a inconsistência do antilogismo que lhe corresponde.

      Um exemplo de um antilogismo é dado no seguinte trio inconsistente de proposições categóricas:

 

1) Alguns peixes não são carnívoros

2) Todos os peixes têm guelras

3) Tudo o que tem guelras é carnívoro.

 

O silogismo cuja premissas maior e menor são (respectivamente) as proposições (3) e (2), e cuja conclusão é a contraditória de (1), viz., a proposição «Todos os peixes são carnívoros», é um silogismo válido da 1.ª figura, modo Barbara. Alternativamente, o silogismo cujas premissas maior e menor são (respectivamente) as proposições (1) e (2), e cuja conclusão é a contraditória de (3), viz., a proposição «Algo que tem guelras não é carnívoro», é um silogismo válido da 3.ª figura, modo Bokardo.

      Como é referido em W. e M. Kneale (1962, p. 78 et seq.), Aristóteles parece ter utilizado a ideia de um antilogismo para reduzir a validade de alguns dos modos da 2.ª e da 3.ª figuras à validade de certos modos da 1.ª figura, a qual ele considerava central. O método de redução concebido por Aristóteles é conhecido como reductio per impossibile. Por exemplo, a fim de validar o modo Bokardo da 3.ª figura, tal como exemplificado por (1) e (2) como premissas (maior e menor) e a contraditória de (3) como conclusão, poder-se-ia proceder da seguinte maneira. Tomando (3) e (2) como premissas, obtemos de acordo com o modo Barbara da 1.ª figura, a conclusão válida «Todos os peixes são carnívoros», a qual é a contraditória de (1). Assim, se (3) e (2) fossem ambas verdadeiras, então (1) seria falsa. Logo, se (1) e (2) fossem ambas verdadeiras, então (3) seria falsa e a sua contraditória seria verdadeira (o que nos dá o exemplo de Bokardo acima introduzido). Ver também silogismo; quadrado da oposição; inconsistência; validade.

João Branquinho

 

 

 

Bibliografia

Kahane, Howard (1990) Logic and Philosophy, Wadsworth, Belmont, Califórnia.

Kneale, William e Martha Kneale (1962) O Desenvolvimento da Lógica, trad. de M. S. Lourenço, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1974.

 

antinomia Em lógica, o mesmo que paradoxo.

 

antinomia das classes O mesmo que paradoxo de Russell.

 

antinomia do mentiroso O mesmo que paradoxo do mentiroso.

 

anti-realismo Ver realismo.

 

anti-simetria Uma relação R é anti-simétrica se, e só se, "x "y ((Rxy Ù Ryx) ® x = y). Por exemplo, no domínio dos números, a relação «não ser maior que» é anti-simétrica: se x não é maior que y e se y não é maior que x, então x = y. Não confundir com assimetria nem com não-simetria. Todas as relações assimétricas são anti-simétricas; mas nem todas as relações anti-simétricas são assimétricas. A não-simetria é logicamente independente da anti-simetria.

Desidério Murcho

 

antissilogismo O mesmo que antilo­gismo.

 

apodíctico (do gr. apodeiktikós, evidente) Tradicionalmente, diz-se que as frases apodícticas afirmam a necessidade. Com­trastam com as assertivas, que afirmam a actualidade, e com as problemáticas, que afirmam a possibilidade.

 

apódose A consequente de uma frase condicional.

 

aporia Grave dificuldade filosófica ou lógica, podendo tratar-se ou não de um paradoxo.

 

a posteriori (lat.) Ver a priori.

 

a priori Usualmente entende-se por conhecimento a priori aquele que ocorre de forma independente da experiência. Na tradição filosófica esse é o tipo de conhecimento que geralmente se associa à verdade e à necessidade. Autores há, como Hume (1711-1776), que separam radicalmente os conhecimentos de certas verdades necessárias (as quais não precisam da confirmação da experiência), entendidas como mera relação entre ideias de todos os outros conhecimentos, relativos ao domínio dos factos. A partir de Kant (1724-1804) a discussão acerca dos conhecimentos a priori alterou-se substancialmente, já que estes, para além da característica da independência relativamente à experiência, passaram a ser eles próprios considerados condições de possibilidade da própria experiência. É claro que surge de imediato o problema de saber qual o significado do termo experiência e se não se incorre em círculo ao definir o a priori como condição de possibilidade daquilo que já se pressupõe. Mas se, tal como Kant pretende, for possível especificar qual o sentido em que certos conhecimentos são condições de possibilidade daquilo a que ele chama experiência, um passo muito importante se dá, tanto na compreensão do a priori, como na relação deste com todos os outros conhecimentos empíricos. De certo modo poderia então falar-se aqui num círculo virtuoso.

      Para reformular essa relação, Kant teve que introduzir distinções no interior do próprio conjunto dos conhecimentos a priori. Alguns haverá que, sendo a priori, não podem ser considerados condições de possibilidade de quaisquer outros conhecimentos de tipo empírico. A esses chama-lhes analíticos. São conhecimentos que se baseiam na identidade entre sujeito e predicado ou então, como também Kant diz, aqueles em que o predicado já está incluído na compreensão do sujeito.

Todos os juízos analíticos assentam inteiramente no princípio da contradição e são, segundo a sua natureza, conhecimentos a priori, os quais são conceitos que lhe servem de matéria e podem ser ou não conceitos empíricos. (Kant, Crítica da Razão Pura, B11)

 

Exemplos do próprio Kant: «todos os corpos são extensos» e «o ouro é amarelo.» Independentemente do acerto de tais exemplos, o que importa reter é que os predicados, quer da extensibilidade, quer da cor amarela são supostos entrar na definição dos sujeitos respectivos e de tal modo que a experiência nunca poderá apresentar contra-exemplos. No entanto não será este tipo de a priori, baseado na analiticidade, o mais sugestivo e pertinente do ponto de vista filosófico. Kant defende que será mais sugestivo filosoficamente conhecer a priori que entre a e b há uma relação R, não baseada na analiticidade, ou seja que Rab não é verdadeira a priori, unicamente pelo facto de b de algum modo estar contido ou fazer parte da definição de a. Será muito mais pertinente filosoficamente mostrar que é possível conhecer a priori proposições do tipo Rab, desconhecendo-se à partida R como relação de identidade, simplesmente através da análise de a ou de b. Estaremos então perante uma relação sintética a priori, a cuja demonstração, na Crítica da Razão Pura, Kant dedica argumentos variados e desigualmente convincentes. Em grande parte essa argumentação parte da geometria, da matemática e da mecânica newtoniana, cujos princípios e axiomas estarão repletos de proposições daquele tipo. Assim 2 + 3 = 5 será uma relação sintética a priori, pois que da análise de 5 não posso retirar necessariamente 2 + 3. No entanto a sua relação, isto é, a sua igualdade é da ordem da necessidade, característica que para Kant seria extremamente significativa. Nomeadamente a experiência em geral deveria conformar-se a esses conhecimentos fundamentais e deles depender. Por outro lado, a consciência desses conhecimentos sintéticos a priori representa um alargamento do nosso conhecimento fundamental acerca do mundo: não se trata apenas de alargar os nossos conhecimentos empíricos, mas sobretudo o âmbito daqueles que não dependem da experiência e até a fundamentam. Deste ponto de vista, o significado do a priori implica o da necessidade da ligação entre conceitos que não se implicam analiticamente e que de algum modo é assumida como um elemento indispensável do nosso sistema conceptual. Veja-se por exemplo como, no domínio moral prático, Kant relaciona necessariamente dois conceitos, o de autonomia e o de dever. Essa ligação é caracterizada como sintética, já que da análise do sentido de cada termo (dever, liberdade) não pode inferir-se o outro. À demonstração que eles se ligam necessariamente e que, para além disso, são condição de possibilidade da identificação de actos com valor moral, chama Kant, na Crítica da Razão Prática, a dedução transcendental da lei moral. O a priori possui pois uma zona de aplicação que ultrapassa o domínio dos conhecimentos objectivos. No domínio moral assume uma qualidade eminentemente prática, no sentido em que é assumindo aquela ligação necessária, sob a forma de imperativo categórico, que me é possível falar de actos livres.

      Sobre a equivalência entre a priori e necessidade, Saul Kripke (1980, pp. 36-37) apresenta uma perspectiva diferente. De facto os termos não são equivalentes ou co-extensivos. Se a priori parece requerer a possibilidade de se conhecer algo independentemente da experiência, tal é possível, muitas vezes, para quem já confirmou pela experiência uma verdade, então qualificada como necessária. Nesse caso o mais correcto é falar-se de verdades necessárias a posteriori. Uma mente finita não pode de uma só vez examinar as qualidades matemáticas necessárias e contingentes dos números e a verdade de uma conjectura como a de Goldbach, segundo a qual qualquer número par maior que 2 é a soma de dois números primos, deverá ser considerada mediante cálculo, não sendo possível a priori saber se a conjectura estaria certa. O interesse de Kripke é colocar-se de um ponto de vista metafísico e não epistemológico (Kripke, 1980, p. 35) o que o leva a ver uma discrepância entre «necessidade» e «a priori». Paralelamente ele admite a existência de verdades contingentes a priori. Neste caso, Kripke considera aquelas descrições e definições que servem para fixar referentes, como por exemplo, «a barra B tem um metro no tempo t.» Esta é uma definição de metro e sempre que uso a palavra «metro» sei a priori que me refiro àquele comprimento e não a outro. Este é nalguns casos uma forma de fixar uma referência mediante uma descrição. O sistema métrico é definido e a partir daí um sem número de verdades contingentes a priori serão conhecíveis (Kripke, 1980, pp. 56-57).

António Marques

 

Bibliografia

Kant, Immanuel (1787) Crítica da Razão Pura, trad. de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1985.

Kripke, Saul (1980) Naming and Necessity, Blackwell, Oxford.

 

argumento Assume-se que os argumentos ilustram a forma mais conspícua daquilo a que vulgarmente se chama raciocínio. Deixa-se em aberto a possibilidade de existirem raciocínios que não sejam argumentos – por exemplo, «Se não foges o leão come-te» é uma frase que diz-se que expressa uma raciocínio, mas não um argumento (talvez seja uma forma ultra-abreviada de entimema). No que se segue falaremos apenas de raciocínios que tenham a forma de um argumento.

      É habitual, e correcto, distinguir dois géneros de raciocínio: indutivo e dedutivo. A característica mais conspícua dos raciocínios indutivos reside no facto de eles partirem de certas frases e chegarem a uma outra que generaliza, de algum modo, sobre as frases de que se partiu. Os raciocínios dedutivos têm como característica mais conspícua o facto de o seu propósito ser o de partir de certas frases para chegar a outra que extrai das primeiras informação que elas, de algum modo, já continham. Os exemplos I e II ilustram, respectivamente, cada um destes dois gé­neros.

 

I

a) Até 1995 nenhuma mulher foi Presidente da República Portuguesa.

b) Nunca uma mulher será Presidente da República Portuguesa.

 

II

a) Até 1995 nenhuma mulher foi Presidente da República Portuguesa.

b) Dona Maria II, sendo mulher, não foi Presidente da República Portuguesa até 1995.

 

Note-se que a frase (a) é comum a I e II. Pode-se, pois, construir um raciocínio indutivo ou, em alternativa, dedutivo, a partir de uma mesma frase, ou conjunto de frases.

      Em geral, o problema, comum a ambos os géneros de raciocínios, consiste em justificar o processo por meio do qual se passa das frases «de que se parte» para         as frases «a que se chega.» No caso de I, por exemplo, há a intuição de que essa passagem não se justifica, de que a gene­ralização feita de (a) para (b) é abusiva. Ao passo que a passagem de (a) para (b) em II parece justificável (se bem que não tenha sido por nós justificada). No entanto, muitos outros raciocínios indutivos parecem conter fortes razões para a generalização que propõem. Por exemplo:

 

III

a) 100% das amostras estudadas, contendo vírus da Hepatite B, revelaram que estes vírus são resistentes à penicilina.

b) O vírus da Hepatite B é resistente à penicilina.

 

Como há também inúmeros raciocínios dedutivos nos quais as frases «de que se parte» não parecem justificar de modo suficiente a frase «a que se chega.» Aqui está um:

 

IV

a) Saramago é escritor; e

b) Alguns escritores são ricos; logo

c) Saramago é rico.

 

Um argumento, dedutivo ou indutivo, é composto por um conjunto de frases a que chamamos premissas, por uma frase a que chamamos conclusão e por uma expressão que representa a relação que se reclama existir entre as premissas e a conclusão, por exemplo, a expressão logo – a qual traduz a expressão latina ergo. Esta expressão que representa a relação entre premissas e conclusão, seja ela logo seja outra do género, ocorre mais tipicamente nos argumentos dedutivos; no entanto, algo que se lhe assemelhe deve de igual modo estar presente nos argumentos indutivos visto que, nestes também, se reclama existir uma relação entre premissas e conclusão.

      Dos exemplos I a IV podemos, desde já, extrair a forma geral de um argumento: {P1, ¼Pn} \ C. Onde {P1, ¼Pn} representa um conjunto finito de frases chamadas premissas; C uma frase chamada conclusão; e \ simboliza a expressão que descreve o tipo de relação que se afirma existir entre as premissas e a conclusão. É óbvio que raros são os argumentos com que quotidianamente nos deparamos que apresentam esta forma. Mas isso não é de admirar. Eles são construídos para servir a comunicação em contexto e, amiúde, para servir dois dos objectivos desta: justificar uma crença, científica ou comum, ou persuadir um auditório. Contudo, para fins lógicos, eles podem, com maior ou menor esforço, ser reconduzidos à forma geral que acabámos de lhes atribuir.

      As premissas de um argumento são para ser compreendidas como conjugadas. Como se estivessem ligadas pela expressão «¼e¼» num dos seus usos típicos em português, ou pelo símbolo Ù (ou outro que represente a conjunção) se o argumento estiver escrito numa linguagem formal. Digamos que, quando se avança um argumento que satisfaça a forma geral dada acima, se está a afirmar: «Dado que temos P1 e temos P2¼ e temos Pn, logo (ou: segue-se que) temos C.» Há também muitas vezes a pretensão de que as premissas sejam consistentes, visto que, para muitos, um conjunto inconsistente de premissas seria, no mínimo, um ponto de partida algo duvidoso para um argumento (ver, no entanto, reductio ad absurdum).

      Quando se constrói um argumento há a pretensão de que as premissas sejam relevantes para a conclusão. Com efeito, de acordo com tal pretensão, se as premissas forem desgarradas da conclusão (por exemplo, se tratarem de um assunto distinto do desta) apenas impropriamente se pode chamar a essa colecção de frases um argumento; nestes casos, a expressão que representa a relação entre premissas e conclusão ocorre vazia­mente.

      Será que a expressão que representa a relação entre premissas e conclusão, ou o símbolo \, representam um conectivo entre as premissas e a conclusão? Não. A sua função é metalinguística. Ela é usada para referir uma certa relação lógica que se reclama existir entre as premissas e a conclusão. Como se afirmássemos: «As frases P1, ¼, Pn são uma boa justificação desta outra, C.» Deve ser claro que, numa afirmação deste tipo, as frases P1, ¼, Pn e C estão a ser mencionadas. De igual modo, a expressão uma boa justificação de está, nessa frase, a ser usada para afirmar que uma dada relação se verifica entre as frases mencionadas, as premissas e a conclusão (ver uso/menção, metalinguagem).

      Um argumento é, como temos estado a ver, composto de frases. Tomadas individualmente, cada uma das frases que o compõe é verdadeira ou falsa (pelo menos na versão clássica, que adoptamos aqui, a qual assume a