DICIONÁRIO DE FILOSOFIA
Simon Blackburn
FILOSOFIA ABERTA
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- Abbagnano, Nicola (1901-) Destacado *existencialista italiano. Nasceu em
Salerno, estudou em Nápoles e ensinou em Turim. A sua «filosofia do possível»
condena os outros existencialistas quer por negarem as possibilidades humanas
(porque todos os nossos esforços são fúteis num universo hostil e sem sentido),
quer por as exagerarem, imaginando que podemos fazer coisas que, na verdade,
estão para além das nossas capacidades. Nas últimas obras tendeu para a adopção
de uma abordagem mais naturalista e científica da filosofia, embora tenha
continuado a condenar o «mito da certeza», implícito nas concepções
científicas do mundo autocomplacentes. A monumental Storia della filosofia
(1946-50, trad. História da Filosofia, 1969-70), em três volumes, e Possibilità
e Libertà (1956) são duas das suas obras principais.
abdução Termo introduzido por *Peirce para qualquer processo em que se usam
certos dados para se chegar a uma conclusão mais ampla, como acontece nas
inferências a favor da melhor *explicação. Peirce descreveu a abdução como um
processo criativo, mas sublinhou que os seus resultados estão sujeitos à
apreciação racional. No entanto, ao negar que possamos avaliar os resultados da
abdução em termos de probabilidades, Peirce antecipou o pessimismo posterior
relativo às promessas da *teoria da confirmação.
Abelardo, Pedro (1079-1142) Filósofo escolástico francês. Abelardo nasceu
perto de Nantes e teve uma vida agitada, para além do infortúnio que lhe sucedeu
em resultado do romance que viveu em 1118 (para pormenores, ver Heloísa).
Estudou em Chartres e em Paris, e viveu como monge e abade numa série de
mosteiros. Sobreviveu a uma tentativa de homicídio num mosteiro de Breton em
1132. Figura controversa, viu a sua obra condenada em 1121, e o seu cepticismo
acerca das lendas de S. Dionísio forçou-o a abandonar a Abadia de S. Dinis. Em
1125 tornou-se abade de S. Gildas, tendo mais tarde voltado a Paris. A sua obra
foi denunciada por *Bernardo de Claraval, que o acusou de ter suado as
estopinhas ao tentar provar que *Platão era cristão, para no fim só conseguir
provar que ele próprio era um herege. Foi de novo censurado em 1140, mas mesmo
assim morreu num dos mosteiros subordinados à Abadia de Cluny.
Abelardo escreveu profusamente sobre o problema dos *universais, adoptando
talvez um *realismo moderado, embora se defenda por vezes que era um
*nominalista. Escreveu também comentários sobre *Porfírio e outras autoridades.
O seu Scito te Ipsum («Conhece-te a ti mesmo») é um tratado de ética onde se
defende que o pecado consiste apenas no desprezo pelos desejos de Deus; os
estados mentais intencionais são, portanto, mais importantes do que a acção.
Consistente com tudo isto, a sua doutrina da *expiação afirma que a paixão de
Cristo é unicamente um exemplo supremo que devemos seguir. Abelardo viveu numa
época em que se ganhava consciência do choque entre as autoridades tradicionais;
as traduções revelavam opiniões divergentes e geraram a atmosfera de disputas em
que se formou. O seu Sic et Non («A favor e contra») é uma colecção de
contradições das escrituras e de escritos antigos, às quais acrescentou as suas
próprias regras para resolver disputas, o que proporcionou o programa inicial do
método escolástico. O quanta qualia («Oh, quão grandes e gloriosos são esses
domingos!») é um dos hinos de Abelardo.
aborto Interrupção da vida do feto, depois da concepção, mas antes do
nascimento. Este acontecimento pode ser natural ou provocado intencionalmente e
é este último que suscita os problemas tratados pela filosofia moral. Estes
problemas dividem os conservadores ou partidários «pró-vida», que acham que o
aborto provocado deliberadamente não pode ser permitido, e os liberais ou
partidários «pró-escolha», que acham que este acto pode ser permitido em vários
casos. A posição liberal pode abranger quase todos os casos em que a mãe deseje
abortar, ou envolver várias restrições, entre elas a idade do feto. Os moderados
restringem os casos em que o aborto é permitido, mas não se pode dizer que todo
este debate se caracterize pela moderação. Algumas questões relevantes a apontar
são: a natureza do que constitui uma pessoa e a determinação do seu início; o
alcance do direito à vida; a frágil noção da santidade da vida; o modo como os
direitos em conflito devem ser tratados; as questões políticas e sociais acerca
de quem tem o direito de decidir e de fazer cumprir as medidas jurídicas e
morais.
absolutismo Em teoria política, a posição de que não deve haver restrições sobre os direitos e poderes do governo.
Absoluto, o Ver idealismo absoluto.
abstracção Suposto processo de formação de ideias que consiste em isolar o que é comum a diferentes casos; foi um
processo destacado, por exemplo, por *Tomás de Aquino na sua solução moderada do problema dos universais
(abstrahentium non est mendacium: «abstrair não é mentir»). O problema consiste no facto de a abstracção sem
restrições nos levar a supor que qualidades como a substância, a causalidade, a mudança e o número se podem aplicar
não apenas aos corpos sensíveis que originam as ideias que temos delas, mas também a um domínio espiritual (ou
outro) que está para além da experiência. *Locke é veementemente atacado por *Berkeley devido a este e a outros
erros com ele relacionados. Ver também ideias abstractas.
abstracta, ideia Ver ideias abstractas.
abstracto/concreto Muitas filosofias sentem-se desconfortáveis com um domínio de entidades abstractas, tais como
os números e os *universais, enquanto entidades que se opõem a objectos empíricos e substâncias localizadas no
espaço e no tempo. O *nominalismo é o programa geral que consiste em mostrar que a menção a objectos abstractos
não é o que parece, sendo apenas uma maneira enganadora de falar de objectos mais comuns. Os partidários dos
objectos abstractos dizem que nada há de errado em referi-los, mas que não podemos cometer o erro de imaginar que
são tipos de objectos concretos especialmente grandes ou difundidos. Outra disputa diz respeito à questão de saber se,
ao fazermos coisas como ler uma edição do jornal matutino, apreciar um programa de computador ou ouvir uma
palavra, vemos ou ouvimos literalmente objectos abstractos, que nesse caso seriam elementos da nossa experiência.
absurdo Qualquer crença que seja obviamente indefensável (ver também reductio ad absurdum). No *existencialismo,
um nome para a natureza inútil ou desprovida de sentido da vida e acção humanas.
Abunaser Ver Alfarrabi.
Academia de Atenas Centro de ensino fundado por *Platão por volta de 387 a. C. Ainda que o conhecimento da sua
organização seja parcelar, supõe-se que privilegiava um método de ensino baseado em discussões e seminários. Os
estudos fundamentais eram a Matemática e a Dialéctica. Habitualmente, distingue-se a Academia Antiga (Platão e os
seus sucessores imediatos) da Nova Academia, que começa com *Arcesilau; esta distinção foi feita pela primeira vez
por *Antíoco de Ascalão. À Academia Antiga pertenciam *Aristóteles, *Espeusipo, *Eudoxo, *Xenócrates e
*Teeteto de Atenas. Dedicava-se, sobretudo, a temas matemáticos e cosmológicos emergentes nas últimas obras de
Platão, até certo ponto a par de interesses éticos. Arcesilau corta radicalmente com esta tradição, instaurando a céptica
Nova Academia, que se manteve em contínuo conflito com os ensinamentos dos *Estóicos. O último dirigente da
Academia céptica foi *Fílon de Larissa, que partiu para Roma c. 87 a. C., altura em que Atenas se viu ameaçada por
Mitridates VI, da Pérsia, acabando por isso a Academia como instituição. A reabilitação de temas platónicos
dogmáticos, que se seguiu a Antíoco de Ascalão (c. 79 a. C.; ver também platonismo médio), não foi, na realidade, um
mérito da Academia, mas preparou o caminho para o *neoplatonismo emergente.
Academia de Florença Círculo formado em torno de *Ficino entre 1462 e 1494, numa villa em Careggi posta à sua
disposição por Cosimo de’ Medici. Teve uma influência intelectual crucial no Renascimento italiano, sendo as suas
actividades principais a tradução, o estudo e a reinterpretação de textos *platónicos e *neoplatónicos.
acaso O acaso é frequentemente encarado como algo irreal, um mero reflexo da ignorância humana, condenada a ser
derrotada pela intervenção da ciência determinista. Na filosofia antiga e medieval, o acaso podia ser contrastado com o
desígnio divino, mas, até ao século XVIII, o conceito tinha pouca aplicação, uma vez que, se o desígnio divino se revela
em toda a criação, nada se deve estritamente ao acaso. A oposição igualmente antiga entre o acaso e a ciência foi
eliminada depois do aparecimento da estatística e da teoria das probabilidades, no século XVII. As probabilidades
tornaram-se o «guia da vida», fornecendo os instrumentos para avaliar fenómenos aleatórios importantes para as
companhias de seguros, assim como para os jogos, descobrindo-se desta forma conexões causais, taxas de mortalidade,
de criminalidade e de matrimónio, ainda antes da investida das teorias probabilistas na física, tal como a mecânica
estatística e, mais tarde ainda, a *mecânica quântica. O problema da interpretação das probabilidades consiste em
decidir se estas medem algo «real» ou se reflectem meramente as crenças de pessoas razoáveis colocadas perante
diferentes quantidades de dados (ver personalismo). A perspectiva largamente partilhada de a mecânica quântica ser
irredutivelmente probabilista (de tal modo que os acontecimentos quânticos não manifestam meramente uma aleatoriedade
superficial que cobre uma base determinista) é o estímulo principal para tentar formular teorias sobre o que
«é realmente» o acaso, ou sobre a questão de saber como podem as leis fundamentais da natureza ter uma forma
probabilista. Uma das dificuldades consiste em ver como podem dois universos, iguais no que diz respeito aos
acontecimentos que neles ocorrem, diferir, no entanto, com respeito à probabilidade relativa desses acontecimentos.
acção O que um agente faz, por oposição ao que acontece a um agente (ou com o que acontece na mente de um
agente). Descrever os factos que acontecem não permite, só por si, que se fale de racionalidade e de intenção, que são
as categorias que podemos aplicar se os concebermos como acções. A compreensão desta distinção suscita problemas
muito importantes relativamente à natureza da *causalidade mental e à compreensão da *vontade e do *livre arbítrio.
acção à distância Conceito polémico na história da física. Na física *aristotélica sustenta-se que todos os movimentos
exigem um motor que lhes esteja associado. Logo, não pode ocorrer uma acção à distância, dado ser preciso existir um
intermediário que envolva o corpo, se separe na sequência do seu movimento e o empurre por detrás (ver antiperís
tase). Embora os movimentos naturais, como a queda livre e a atracção magnética (singularmente denominada
«coito»), tenham sido reconhecidos no período pós-aristotélico, o surgimento da filosofia *corpuscular veio banir de
novo as «atracções», ou acções à distância sem mediações. O argumento clássico é o de que «a matéria não pode agir
onde não existe». Na teoria física *cartesiana também se postulou uma «matéria subtil» para preencher o espaço e
fornecer o meio para a actuação da força e a propagação do movimento. O seu sucessor, o *éter, foi postulado para
constituir o meio para a transmissão de forças e de influências causais entre objectos que não estão em contacto
directo. Até *Newton, que parecia conceber a gravidade como uma acção à distância, supôs que se deve postular um
intermediário, embora não tenha conseguido avançar qualquer hipótese sobre a sua natureza. *Locke, tendo dito de
início que os corpos interagem «manifestamente por impulsos e nada mais» (Ensaio, 1.a ed., II. VIII. 11), mudou de
opinião na 4.a edição, eliminando as palavras «e nada mais», embora o impulso tenha permanecido como «a única
maneira de podermos conceber como operam os corpos». Nos Fundamentos Metafísicos da Ciência da Natureza,
*Kant apresenta claramente a ideia de que o modo de os corpos se afastarem por repulsão não é mais natural, ou
inteligível, que o de estes agirem à distância. Kant insiste, em particular, num aspecto que só parcialmente fora
compreendido por Locke: qualquer concepção de átomos sólidos e materiais requer a compreensão da força que faz
que estes se agreguem numa única unidade, e esta força não pode ser compreendida através de colisões elásticas. Em
muitos casos, as teorias de *campo contemporâneas admitem formulações alternativas equivalentes: uma com acção à
distância, a outra apenas com acção local.
acção básica Muitas acções são praticadas ao fazer outras coisas: compro a casa ao passar o cheque, o que faço ao
assinar o meu nome, o que, por sua vez, faço ao escrever cada uma das letras. Uma acção básica é aquela que faço
simplesmente, sem fazer mais nada. Não deve ser identificada com a capacidade de produzir acontecimentos em áreas
cada vez mais remotas do sistema nervoso: se uma pessoa conseguir fazer que se dê um acontecimento fisiológico na
base ou na parte superior do cérebro, consegue-o fazendo coisas macroscópicas, tais como, por exemplo, cerrar os
punhos ou pestanejar, numa situação em que estas acções têm esse efeito no sistema nervoso. Isto quer apenas dizer
que a ordem de explicação dos acontecimentos enquanto acções não é a mesma que a ordem neurofisiológica dessas
ocorrências.
acção correcta A descoberta da coisa correcta a fazer põe fim à discussão moral e ética acerca do que fazer. Nem
sempre põe fim à discussão prática, como quando a expediência, a exequibilidade, o custo, etc., por exemplo, são
introduzidos como factores não morais com uma voz independente.
acédia (do lat. accidie) Estado que inibe o prazer e que conduz à rejeição da vida, sendo um dos *sete pecados
mortais. *Tomás de Aquino associa-o à atitude de estar de costas voltadas para o mundo, através da depressão e do
ódio a si mesmo, e define-o muito bem como um torpor do espírito que impede a concentração no que há de bom
(Summa Theologiae, IIa 35. 1). Muitas vezes é traduzido como preguiça, o que, na verdade, é completamente diferente.
Ver também apatia.
aceitação Aceitar uma proposição é a mesma coisa que acreditar nela? Apesar de as palavras em causa não
assinalarem uma distinção geral, diversas razões levaram alguns filósofos a distinguir a aceitação da crença. O
*paradoxo da lotaria, por exemplo, pode ser analisado fazendo notar que, apesar de eu aceitar que uma qualquer
cautela arbitrária não terá o primeiro prémio, não se pode dizer que acredite que não o terá — evitando-se assim que
me seja atribuído um conjunto inconsistente de crenças. Na filosofia da ciência, várias posições anti-*realistas podem
aconselhar-nos a aceitar uma teoria científica — por exemplo, com o objectivo de prever e controlar a natureza, ou
então apenas com o estatuto de uma conjectura arrojada — sem que acreditemos nela. A dificuldade principal deste
tipo de recomendação está em definir com exactidão o que é suposto que não façamos; por outras palavras, a
dificuldade é dizer aquilo que distingue a crença da aceitação, supostamente mais fraca e legítima. Ver empirismo
construtivo.
acesso privilegiado A maneira especial que cada um tem de conhecer os seus próprios pensamentos, intenções e
sensações. Muitos filósofos de tendência *behaviourista e *funcionalista têm considerado que é importante negar a
existência desse acesso privilegiado, argumentando que a maneira como conheço a minha mente é, na verdade,
semelhante à maneira como conheço a mente de outra pessoa (e. g., vendo o que digo quando me fazem uma
pergunta). Outros filósofos, no entanto, fazem notar que o comportamento que consiste em relatar o resultado da
introspecção é um tipo legítimo e especial de comportamento que merece ser tido em conta em qualquer tratamento da
psicologia humana. Ver também heterofenomenologia, privacidade (mente).
acidentalismo Teoria que afirma que o devir dos acontecimentos é imprevisível ou, no caso dos *epicuristas, que os
acontecimentos mentais são especificamente imprevisíveis. Ver também caos, determinismo, libertismo, tiquismo.
acidente Na metafísica aristotélica, um acidente é uma propriedade que não faz parte da *essência de uma coisa: algo
que esta poderia perder, ou passar a ter, sem deixar de ser a mesma coisa ou a mesma substância. Os acidentes
dividem-se em *categorias: quantidade, acção (i. e., lugar na ordem causal, ou capacidade para afectar coisas ou ser
afectado por elas), qualidade, espaço, tempo e relação.
acolutia (do gr. akolouthia, sequência discursiva) Termo aplicado a uma experiência sensível que supostamente tem
como parte do seu conteúdo o facto de se dar a seguir a um acontecimento prévio. A existência deste tipo de
experiências explicaria porque podemos ver agora um acontecimento como o fim de um processo cujas fases iniciais já
não nos estão perceptivamente presentes. Em gramática, uma anacolutia (do gr. anakolouthía, que não acompanha) é
uma frase de tal modo dividida que uma parte não se segue da outra (e. g., «O facto é, vamos embora»).
acontecimento Uma mudança ou ocorrência. O debate central na filosofia dos acontecimentos consiste em discutir se
estes devem ser entendidos, à semelhança dos objectos, como indivíduos susceptíveis de serem localizados no espaço e
no tempo e descritos de maneiras diversas, ou se são mais como proposições ou *factos cuja identidade depende
essencialmente dos conceitos em que se encontram enquadrados. No primeiro modelo pode tornar-se mais fácil
compreender como podem os acontecimentos ser causas de coisas e como pode um acontecimento (e. g., uma alteração
no cérebro) ser idêntico a outro (e. g., ter um pensamento). O segundo modelo assimila acontecimentos a factos,
pelo que, tal como pode ser um facto o almirante não ter chegado, a não chegada deste pode ser um acontecimento
significativo (e de modo algum um não-acontecimento) que pode ter as suas próprias causas e efeitos. De forma
semelhante, podem existir acontecimentos disjuntivos (a ida do Pedro para a Índia ou para a China) ou acontecimentos
quantificacionais (uma procura de emprego pela Maria, i. e., existir pelo menos um acontecimento tal que é uma
procura de emprego pela Maria).
acontecimentos mentais Sentir, pensar, querer são exemplos de acontecimentos mentais que constituem a vida
consciente de um indivíduo. Saber se acontecimentos mentais são idênticos a acontecimentos físicos complexos, ou se
esta identidade tem sequer sentido, são questões centrais para o *problema da mente-corpo. Ver também monismo
anómalo, fisicalismo, identidade tipo-tipo.
acrasia (do gr. akrasia, incontinência) Fraqueza de vontade: condição em que, apesar de se saber o melhor que há a
fazer, se faz outra coisa. Este fenómeno intrigou *Platão e *Aristóteles porque a identificação socrática entre saber que
uma coisa é boa e desejá-la torna difícil ver como é possível a fraqueza de vontade. Filosofias menos optimistas acham
igualmente difícil ver como é possível a força de vontade.
activismo A doutrina segundo a qual, em certas conjunturas políticas, a acção é mais necessária do que a teoria. Um
activista é assim aquele que se esforça para que a mudança surja.
acto e potência A oposição entre o que é de facto, ou realmente, o caso e o que podia ter sido ou pode vir a ser o caso.
Um dos problemas principais do pensamento *escolástico é o de compreender que razão poderá Deus ter tido para
actualizar uma possibilidade particular, em vez de actualizar uma alternativa, ou até mesmo nenhuma. Os problemas
de saber se este é o *melhor dos mundos possíveis e porque há algo em vez de nada são algumas das questões que esta
concepção levanta. Ver também potencialidade, princípio da razão suficiente.
acto ilocutório (força ilocutória) Termo introduzido por J. L. *Austin no seu livro How to Do Things with Words
(1962) para denominar os actos praticados quando se produzem elocuções. Assim, ao dizer «Prometo» em
circunstâncias adequadas, estou a fazer uma promessa; ao dizer «Parabéns!», estou a dar os parabéns a alguém, e assim
por diante. O acto ilocutório distingue-se daquilo que a elocução provoca (a sua força perlocutória): é irrelevante para
o facto de ter prometido algo ou ter dado os parabéns a alguém que a pessoa em causa acredite na minha promessa ou
se sinta confortada pelos meus parabéns. Austin alertou os filósofos para a possibilidade de certos termos poderem ser
tratados ilocutoriamente. Por exemplo, ao dizer «sei que p», dou a uma pessoa a minha palavra de que p. Pode muito
bem acontecer que esta descoberta nos leve a encarar de maneira diferente os problemas tradicionais associados à
definição de conhecimento, que assumem que o conhecimento é um estado especial, descrito por uma pessoa que em
verdade diga que sabe que p. Ver também actos de fala.
acto locutório Acto de dizer. Um acto locutório consiste no acto de fala básico de proferir (escrever ou tornar pública
de qualquer outra maneira) uma sequência de palavras com sentido.
actos de fala Actos praticados quando são proferidas palavras. No seu How to Do Things with Words (1962), J. L.
Austin classificou estes actos da seguinte maneira: há o acto fonético, de produzir sons; o acto fático, de produzir uma
frase gramatical, e o acto rético, de dizer algo com sentido, actos que, conjuntamente, constituem o acto locutório.
Depois há o que se faz ao dizer qualquer coisa, como ameaçar, orar ou prometer: são os actos ilocutórios. Finalmente,
dizer qualquer coisa pode produzir efeitos nos ouvintes, como assustá-los: são os actos perlocutórios. Austin
acreditava que a consideração atenta destas distinções iluminaria ou eliminaria muitos problemas filosóficos; mas,
apesar de ter mostrado ser útil em algumas circunstâncias, a sua classificação não teve o efeito revolucionário
esperado. Um lúcido recenseamento anterior das diferentes funções ilocutórias da linguagem pode encontrar-se em
*Hobbes, Natureza Humana, XIII. 6.
actos linguísticos Actos de comunicação, praticados através da fala ou de outros tipos de acção. Ver actos de fala.
actos/omissões Ver doutrina dos actos/ /omissões.
actos perlocutórios Actos de fala realizados apenas se certos resultados forem obtidos — como, por exemplo, os de
persuadir, ridicularizar ou assustar alguém. Os actos perlocutórios contrastam, portanto, com os *actos locutórios e
com os *actos ilocutórios, que são realizados independentemente de a elocução respectiva ter o efeito desejado, ou
sequer qualquer efeito que seja.
actual Na *lógica modal, o mundo actual é o mundo tal como é, contrastando com outros *mundos possíveis, que
representam maneiras como o mundo actual poderia ter sido. O problema central é compreender como se poderá
caracterizar o estado actual do mundo sem fazer referência a possibilidades alternativas.
actualismo Por vezes chamado «idealismo actual». A este respeito ver Gentile. O termo aplica-se também, em obras
contemporâneas, à perspectiva que defende que só o mundo actual é real, sendo os outros *mundos possíveis encarados
como inexistentes, apesar de se supor erradamente que existem porque os idiomas modais (ver modalidade) são
instrumentos úteis para pensar acerca do mundo real. Ver também realismo modal.
actualização Uma coisa é actualizada quando se torna real, ou quando passa a fazer parte do mundo *actual. Em
teologia pode ser importante considerar que Deus nada tem em potência que não esteja actualizado, visto que isto
implicaria uma mudança da perfeição presente para algo diferente e pior, ou uma mudança da imperfeição presente
para algo melhor, não sendo qualquer destas hipóteses aceitável.
adaptação Em biologia é uma característica de um organismo que surgiu, através da selecção natural, para o seu uso
corrente (ver darwinismo). Contrasta-se a adaptação com a exaptação, em que uma característica evoluiu, através da
selecção natural, para um outro uso que não o corrente. Uma inaptação é uma característica que existe sem promover
em nada a capacidade de sobrevivência.
adequação Ver teoria dos modelos, completude.
ad hoc Ver hipótese ad hoc.
adiáforo (do gr. adiáphoros, indiferente) Na filosofia *estóica, as coisas em que pode encontrar-se valor, como o
conhecimento, o poder, o prazer e a saúde, mas não exactamente da mesma maneira em que se encontra na *virtude,
que constitui a única coisa realmente boa ou «escolhida». A distinção tem uma certa relação com a distinção de *Kant
entre o valor necessário e insuperável de uma vontade moralmente boa e as qualidades genuínas, mas menores, de
outras coisas.
a dicto secundum quid ad dictum simpliciter (lat., da asserção qualificada para a inqualificada) A falácia que consiste
em retirar uma qualificação necessária: «Se é sempre lícito matar na guerra, então é sempre lícito matar.» Também
conhecida como a falácia conversa do acidente.
a dicto simpliciter ad dictum secundum quid (lat., da asserção inqualificada para a qualificada) A (alegada) falácia de
argumentar de um caso geral para um caso particular, sem reconhecer factores qualificativos: «Se as pessoas não
devem estacionar aqui, então não devem estacionar aqui para ajudar a combater o fogo.» Existem outros argumentos
mais claramente inválidos que não são generalizações e que podem ser assim classificados, como, por exemplo, «se
algumas cobras são inofensivas, então algumas das cobras que estão neste saco são inofensivas». Também conhecida
como a falácia do acidente.
ad infinitum Lat., ao infinito.
adjectivo pseudoqualificativo Um adjectivo que parece qualificar a descrição que acompanha, mas que de facto
funciona como algo que nega ou que deixa em aberto a questão de saber se a descrição se aplica: um papagaio falso, o
alegado criminoso, uma vitória aparente.
Adorno, Theodor W. (1903-69) Sociólogo e pensador político alemão. Adorno foi um membro muito importante da
*escola de Frankfurt, partilhando a sua postura geral. A sua obra pertence sobretudo à sociologia, ocupando-se
especialmente das contradições e distorções impostas às pessoas pela sociedade. A sua obra de carácter geral mais
conhecida é The Authoritarian Personality (1950), que descreve o tipo de personalidade conformista e rígida, submissa
à autoridade superior mas arrogante para os inferiores. A apologia que Adorno fez do *paradoxo e da *ambiguidade
teve também influência na crítica literária e cultural *pós-modernista.
advaita (sânscr., não-dualidade) Doutrina da escola vedanta atribuída a *Shankara que defende a identidade entre o
*brahman e o *atman; o mundo empírico é um dos *phenomena bene fundata e, tal como o eu, é unicamente uma
manifestação de Deus.
afasia Distúrbio ou perda total da faculdade da linguagem, que, em regra, resulta de uma lesão localizada no
hemisfério esquerdo do *cérebro. Para a tradição *céptica da antiguidade, a afasia é o silêncio de que se frui depois de
se suspender o juízo acerca das coisas.
afectiva A qualidade afectiva de uma experiência é a característica que a torna aprazível ou desejável, ou o inverso,
ou que lhe confere um matiz emocional característico.
afinidade electiva Termo usado por *Weber para descrever a correspondência entre certos aspectos do protestantismo
e certos aspectos do ethos do capitalismo. Um prepara o terreno para que o outro floresça, mas as pessoas não se dão
conscientemente conta desta relação.
afirmação O que é afirmado, tal como um juízo é o que é julgado e uma proposição o que é proposto. Contudo, os
três termos têm sido usados para indicar o *conteúdo de uma elocução ou frase escrita. A distinção entre uma frase ou
uma elocução e o seu conteúdo introduz um problema central na teoria do significado. Por um lado, esta distinção
existe, pois pode identificar-se uma frase sem se saber o que ela significa; qualquer frase dada poderia ter tido um
conteúdo diferente; e frases diferentes podem partilhar o mesmo conteúdo (ver tradução). Por outro lado, identificar o
que se diz não parece ser mais do que poder dizê-lo por palavras próprias: a mente não tem um contacto «puro» com
pensamentos independentes, separados da sua expressão linguística.
afirmação do antecedente Argumentar validamente que de p e de se p, então q se segue q. Ver modus ponens.
afirmação do consequente Argumentar invalidamente que de q e de se p, então q se segue p; e. g., argumentar a
partir de «se ela está a estudar Matemática, então não está a estudar Inglês» e de «ela não está a estudar Inglês» que
«ela está a estudar Matemática».
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