Índice
Prólogo 7
Sobre as limitações dos
genes egoístas e da sociobiologia 11
Bibliografia 20
Prefácio à edição de 1976
21
Prefácio à edição de 1989
25
1. Porque existem
as pessoas? 31
2. Os replicadores
45
3. Espirais
imortais 57
4. A máquina
genética 89
5. Agressão: a
estabilidade e a máquina egoísta 115
6. Saber gerir-se
143
7. Planeamento
familiar 169
8. O conflito de
gerações 187
9. A guerra dos
sexos 209
10. Amor com amor se paga
241
11. Memes:
os novos replicadores 269
12. Os bons rapazes ficam
em primeiro 285
13. O longo braço do gene
323
Notas finais 363
Bibliografia 449
Prólogo
O chimpanzé e o homem compartilham cerca de 99,5 % da sua história
evolutiva. Contudo, a maioria dos pensadores humanos considera o chimpanzé uma
excentricidade malformada e irrelevante, enquanto se
vê a si mesma como uma antecâmara do Todo-Poderoso. Para um evolucionista, tal
perspectiva é inaceitável. Não existe um fundamento objectivo para elevar uma
espécie acima da outra. O chimpanzé e o homem, a lagartixa e o fungo, e todos
nós, evoluímos durante cerca de 3 biliões de anos por um processo conhecido por
selecção natural. Dentro de cada espécie, alguns indivíduos deixam atrás de si
um maior número de descendentes que sobrevivem do que outros; dessa forma, as
características hereditárias (os genes) dos primeiros, com maior êxito
reprodutivo, tornam--se mais numerosas na geração seguinte. É isso a selecção
natural: a reprodução diferencial*, não aleatória,
dos genes. Foi a selecção natural que
nos formou e é a selecção natural que teremos de entender, se
quisermos entender a nossa própria identidade.
Embora a teoria da evolução de Darwin seja central ao estudo do
comportamento social (especialmente quando associada à genética mendeliana),
tem sido largamente negligenciada. Nas ciências sociais têm-se desenvolvido
verdadeiras indústrias dedicadas à construção duma visão pré-darwiniana
e pré-mendeliana do mundo social e psicológico. No
interior da própria biologia, a negligência e o uso ilegítimo da teoria darwinista têm sido surpreendentes. Mas, sejam quais forem
as razões deste estranho desenvolvimento, torna--se evidente que está a chegar
ao fim. A grande obra de Darwin e de Mendel tem sido desenvolvida por um número
crescente de investigadores, nomeadamente R. A. Fisher,
W. D. Hamilton, G. C. Williams
e J. Maynard Smith. Agora, e pela primeira vez, esse
importante tronco da teoria social baseada na selecção natural é apresentado
duma forma simples e popular por Richard Dawkins.
Um a um, Dawkins analisa os principais temas dos
trabalhos recentes em teoria social: os conceitos de comportamento altruísta e
egoísta, a definição genética do interesse próprio, a evolução do comportamento
agressivo, a teoria do parentesco (incluindo as relações entre pais e filhos e
a evolução dos insectos sociais), a teoria da proporção entre os sexos, o
altruísmo recíproco, o engano e a simulação animal e a selecção natural das
diferenças sexuais. Com uma confiança que provém do domínio da teoria
subjacente, Dawkins dá a conhecer os trabalhos de
pesquisa recentes com um estilo e uma clareza admiráveis. Possuindo um extenso
conhecimento de biologia, introduz o leitor na sua literatura rica e
fascinante. Quando discorda de trabalhos publicados (como o faz ao criticar uma
falácia minha), acerta quase invariavelmente no alvo. Dawkins
também se esforça por tornar clara a lógica dos seus argumentos, de forma que o
leitor, aplicando a lógica apresentada, possa estender os argumentos (e mesmo
virá-los contra o próprio Dawkins). Os argumentos, em
si, estendem-se em muitas direcções. Por exemplo, se (tal como Dawkins argumenta) o engano e a simulação são fundamentais
para a comunicação animal, então a capacidade de detecção da fraude deve ser
fortemente seleccionada, devendo isto conduzir, por sua vez, à selecção de um
certo grau de auto-alienação, de forma que se tornem
inconscientes alguns factos e motivos para não trair — pelos
sinais subtis do autoconhecimento — a fraude
praticada. Assim, a ideia convencional de que a selecção natural favorece os
sistemas nervosos que produzem imagens do mundo cada vez mais exactas deve ser
uma visão muito ingénua da evolução mental.
O desenvolvimento recente da teoria social foi suficientemente vasto para
gerar um pequeno alvoroço de actividade contra-revolucionária. Tem sido
alegado, por exemplo, que esse desenvolvimento é, na realidade, parte duma
conspiração cíclica para impedir o progresso social, e isso por fazer parecer
tal progresso geneticamente impossível. Estas e outras ideias lamentáveis têm
sido reunidas para produzir a impressão de que a teoria social darwinista é reaccionária nas suas implicações políticas.
Ora isto é andar muito longe da verdade. A igualdade genética dos sexos é, pela
primeira vez, claramente estabelecida por Fisher e Hamilton. A teoria e os dados quantitativos sobre os
insectos sociais demonstram que não existe tendência hereditária para os pais
dominarem a sua descendência (ou vice-versa). E os conceitos de investimento
parental e de escolha do parceiro sexual pela fêmea fornecem uma base objectiva
e imparcial para encarar as diferenças sexuais, um avanço considerável sobre os
esforços populares para fixar os poderes e os direitos da mulher no pântano da
identidade biológica. Em suma, a teoria social darwinista
dá-nos uma imagem de lógica e simetria dos factos subjacentes às relações
sociais, as quais, quando forem mais completamente entendidas por nós, decerto
revitalizarão as nossas concepções políticas e fornecerão um suporte
intelectual para uma ciência e medicina da psicologia; ao mesmo tempo que nos
darão uma compreensão mais profunda das raízes do nosso sofrimento.
Robert L. Trivers
Prefácio à edição de 1976
Este livro deverá ser lido quase como um livro de ficção científica. Está
feito de forma a despertar a imaginação. Mas não é ficção científica: é
ciência. Seja ou não um lugar-comum, «mais estranho do que a ficção», exprime exactamente como me sinto em relação à
verdade. Nós somos máquinas de sobrevivência — robots cegamente
programados para preservar as moléculas egoístas conhecidas por «genes». Esta é uma verdade que ainda me enche de
admiração. Embora o saiba há muitos anos, não consigo habituar--me
completamente à ideia. E é minha esperança ter algum sucesso em surpreender
também os outros.
Três leitores imaginários espreitaram por cima do meu ombro enquanto eu
escrevia e agora é a eles que dedico este livro. Em primeiro lugar, ao leitor
comum, o leigo. Por ele evitei, sempre que me foi possível, recorrer a gíria
técnica e, onde tive de utilizar palavras especializadas, procurei defini-las.
E agora pergunto-me porque conservamos a maior parte da nossa gíria nas
revistas especializadas. Supus que o leigo não tinha um conhecimento
especializado, mas não supus que ele fosse estúpido. Qualquer pessoa pode
popularizar a ciência simplificando bastante as questões. Trabalhei arduamente
para popularizar algumas ideias subtis e complicadas em linguagem não
matemática, sem perder de vista a sua essência. Não sei até que ponto fui bem
sucedido nesta tarefa, nem até que ponto atingi outra da minhas
ambições: tentar tornar o livro tão divertido e empolgante quanto o
assunto merece. Sinto, desde há muito tempo, que a biologia deveria parecer tão
excitante quanto uma história de mistério, pois é exactamente isso que ela é.
Não me atrevo a esperar ter conseguido transmitir mais do que uma pequena
fracção do entusiasmo que o assunto oferece.
O meu segundo leitor imaginário foi o especialista. Este tem sido um crítico
severo, suspirando profundamente a alguma das minhas analogias e figuras de
linguagem. As suas frases favoritas são «com excepção de»,
«mas, por outro lado» e «uf!». Ouvi-o com
atenção e até reescrevi completamente um capítulo inteiro, apenas para seu
benefício. Mas, por fim, tive de contar a história à minha maneira. O
especialista não estará ainda totalmente satisfeito com a forma como expus o
assunto. Apesar disso, a minha maior esperança é que mesmo ele poderá encontrar
aqui algo de novo; talvez uma nova maneira de encarar velhas ideias, ou até a
simulação de ideias novas da sua própria autoria. Se esta for uma aspiração
demasiado elevada, poderei, pelo menos, esperar que o livro o distraia numa viagem de comboio?
O terceiro leitor que tive em mente foi o estudante, a meio caminho entre o
leigo e o especialista. Se ele ainda se não tiver decidido quanto ao assunto em
que deseja tornar-se especialista, espero encorajá-lo a conceder ao meu próprio
campo, a zoologia, uma segunda olhadela. Existe uma razão para estudar Zoologia
que ultrapassa a sua possível «utilidade»
e o gosto pelos animais. Essa razão é que nós, animais, somos as peças de
maquinaria mais complicadas e mais perfeitamente elaboradas conhecidas no
universo. Colocando a questão desta forma, é difícil entender como pode alguém
estudar outra coisa! Por outro lado, para o estudante que já escolheu a
Zoologia, espero que o meu livro tenha algum valor educativo. Ele estará a
estudar directamente os artigos originais e os livros técnicos sobre os quais
se baseia a minha exposição. Se ele achar as fontes originais difíceis de
digerir, a minha interpretação não matemática poderá, talvez, ajudá-lo, como
introdução e complemento.
Há perigos óbvios em tentar-se cativar, simultaneamente, três tipos
diferentes de leitores. Só posso dizer que estou consciente desses perigos, mas
que me pareceu que eles seriam suplantados pelas vantagens.
Sou um etólogo, e este é um livro sobre o comportamento animal. A minha
dívida para com a tradição etológica na qual fui treinado será óbvia. Em
particular, Niko Tinbergen
não pode imaginar a importância da sua influência sobre mim durante os doze
anos que trabalhei sob a sua direcção em Oxford. A frase «máquina de
sobrevivência», embora não seja, de
facto, criação sua, poderia muito bem tê-lo sido. Mas, recentemente, a etologia
tem sido revitalizada por uma invasão de ideias novas, oriundas de fontes
convencionalmente não consideradas como etológicas. Este livro baseia-se, em
grande parte, nessas ideias novas. Os seus autores são mencionados nos lugares
apropriados do texto; as figuras dominantes são G. C. Williams,
J. Maynard Smith, W. D. Hamilton
e R. L. Trivers.
Diversas pessoas sugeriram títulos para o livro, que eu, agradecidamente,
utilizei como títulos dos capítulos: «Espirais imortais»,
John Krebs; «A máquina genética»,
Desmond Morris; «Saber gerir-se»*, Tim Clutton-Brock e Jean Dawkins, independentemente, com um pedido de desculpa a Stephen Potter.
Os leitores imaginários podem servir de alvos para esperanças e aspirações
piedosas, mas não de menor utilidade prática que os leitores e os críticos
reais. Sou muito dado a revisões, e Marian Dawkins tem sido sujeita a inúmeros rascunhos de cada
página. O seu conhecimento considerável da literatura biológica e a sua
compreensão das questões teóricas, juntamente com o seu encorajamento e apoio
moral incessantes, têm sido essenciais para mim. Também John Krebs leu o livro inteiro, ainda em rascunho. Ele conhece o
assunto melhor do que eu e tem sido generoso e incansável com os seus conselhos
e sugestões. Glenys Thompson e Walter
Bodmer criticaram de forma gentil, mas firme, o
tratamento que dei aos tópicos de genética. Temo que a minha revisão final não
os satisfaça ainda por completo, mas espero que a encontrem algo melhorada.
Estou muito grato pelo seu tempo e paciência. John Dawkins
exercitou uma atenção infalível para as construções ambíguas e propôs
excelentes reformulações. Não poderia ter desejado um «leigo inteligente» mais adequado que Maxwell
Stamp. A forma perspicaz como detectou falhas gerais
importantes no estilo do primeiro rascunho contribuiu muito para a versão
final. Outros, que criticaram construtivamente capítulos específicos ou que
deram a sua opinião de especialistas, foram John Maynard
Smith, Desmond Morris, Tom Maschler, Nick Blurton Jones, Sarah Kettlewell, Nick Humphrey, Tim Clutton-Brock,
Louise Johnson, Christopher Graham,
Geoff Parker e Robert Trivers.
Pat Searle e Stephanie Verhoeven, não só dactilografaram com habilidade, como
também me encorajaram, ao parecerem fazê-lo com prazer. Finalmente, quero
agradecer a Michael Rogers, da Oxford University
Press, que, para além de criticar proveitosamente o manuscrito, ultrapassou em
muito o seu dever ao atender a todos os aspectos envolvidos na produção deste
livro.
Richard
Dawkins
Prefácio à edição de 1989
Na dúzia de anos que decorreu desde a publicação da 1.a edição de O Gene Egoísta, a sua
mensagem central tornou-se ortodoxa como um livro de texto. É um paradoxo,
embora não seja aquele que é mais óbvio. Não se trata de um daqueles livros que
são vituperados de revolucionários aquando da sua publicação, que ganham
rapidamente adeptos e que acabam por tornar-se tão
ortodoxos que até nos perguntamos hoje sobre a razão de tanto estardalhaço.
Antes pelo contrário. Desde o início que as críticas foram francamente
favoráveis, não sendo encarado, a princípio, como um livro controverso. A sua
reputação de pouco ortodoxo levou anos a crescer até aos dias de hoje, em que é
encarado como uma obra extremamente radical. Mas, ao longo destes mesmos anos,
à medida que ia crescendo a sua reputação de extremismo, o seu conteúdo
começou a parecer cada vez menos extremo e a fazer cada vez mais parte da moeda
corrente.
A teoria do gene egoísta é a teoria de Darwin aplicada de um modo que não
foi escolhido por Darwin, mas cuja aptidão, como gosto de pensar, seria prontamente
reconhecida por ele e o encantaria de imediato. Trata-se, na realidade, de um
desenvolvimento lógico do neodarwinismo ortodoxo, mas
expresso sob a forma de uma nova imagem; em vez de focar o organismo
individualizado, apresenta a perspectiva da natureza do ponto de vista do gene.
É uma maneira diferente de ver, e não uma teoria nova. Nas páginas de abertura
de The Extended Phenotype
expliquei este ponto recorrendo à metáfora do cubo de Necker.
Esta figura não passa de um padrão bidimensional de tinta em papel, mas é
apreendido como a imagem tridimensional de um cubo transparente. Se fixarmos
este cubo durante alguns segundos, verificamos que as suas faces tomam outra
orientação. Se continuarmos a fixá-lo, o cubo volta então à posição original.
Ambos os cubos são compatíveis com a informação bidimensional existente na
retina e, portanto, o cérebro alterna alegremente entre eles. Nenhum deles é
mais correcto do que o outro. Aquilo que quero dizer com esta metáfora é que
existem duas maneiras de encarar a selecção natural: sob o ângulo do gene e sob
o ângulo do indivíduo. Quando adequadamente compreendidas, estas maneiras são
equivalentes; duas perspectivas de uma verdade única. Podemos alternar entre
uma e outra e continuará a ser o mesmo neodarwinismo.
Agora penso que esta era uma metáfora cautelosa de mais. Mais do que propor
uma teoria nova ou trazer à luz um novo facto, a melhor contribuição que um
cientista pode dar é, frequentemente, descobrir uma nova maneira de olhar para
as teorias e para os factos antigos. O modelo do cubo de Necker
é enganador, pois sugere que as duas maneiras de ver são igualmente boas.
Evidentemente que a metáfora dá uma ideia parcialmente correcta: ao contrário
das teorias, os «ângulos» não podem
ser testados experimentalmente; não podemos refugiar-nos no critério de
verificação e invalidação de hipóteses, que nos é tão familiar. No seu melhor,
uma mudança de perspectiva pode conseguir algo mais majestoso do que uma
teoria. Pode introduzir-nos em todo um clima de pensamento em que nascem muitas teorias excitantes
e testáveis e onde estão à vista os factos inimagináveis. A metáfora do cubo de
Necker passa totalmente ao lado deste aspecto.
Captura a ideia de uma mudança repentina da visão, mas não faz justiça ao seu
valor. Não estamos a falar aqui de uma mudança súbita para uma visão
equivalente, mas sim, em casos extremos, de uma transfiguração.
Sou o primeiro a negar qualquer estatuto deste género à minha modesta
contribuição. Todavia, é por este tipo de razões que prefiro não fazer uma
distinção clara entre a ciência e a sua «popularização».
A exposição de ideias que, até agora, só têm sido veiculadas na literatura
técnica é uma arte difícil. Exige perspicácia nas novas deturpações de
linguagem e metáforas reveladoras que usa. Se levarmos a inovação da linguagem
e da metáfora suficientemente longe, podemos acabar por ter uma nova maneira de
ver. E, tal como acabei de argumentar, uma nova maneira de ver é, por direito
próprio, um contributo original para a ciência. O próprio Einstein não era
sequer um popularizador médio e sempre suspeitei que
as suas metáforas vivas fizeram bem mais do que se limitarem a ajudar-nos. Não
eram elas que alimentavam o seu génio criativo?
O darwinismo visto pela perspectiva dos genes encontra-se implícito nos
escritos de R. A. Fisher e de outros grandes
pioneiros do neodarwinismo do início dos anos 30, mas
só foi tornado explícito por W. D. Hamilton e por G.
C. Williams nos anos 60. Para mim, as suas ideias
eram visionárias. Mas achei que as exprimiram muito laconicamente e que não as
espalharam e divulgaram suficientemente. Estava convencido de que o
desenvolvimento e a amplificação de uma versão podiam fazer que todos os factos
da vida fizessem sentido, tanto no coração como no cérebro. Eu escreveria um
livro para enaltecer a evolução vista pelos genes. Ele concentrar-se-ia em
exemplos sobre o comportamento social, para ajudar a corrigir a febre de
selecção de grupo inconsciente que então invadia o darwinismo popular. Comecei
este livro em 1972, numa altura em que os cortes de electricidade, resultantes
de conflitos industriais, interromperam a minha pesquisa de laboratório.
Infelizmente (para mim, pelo menos), o corte de energia durou apenas dois meros
capítulos e arquivei o projecto até entrar em licença sabática em 1975.
Entretanto, a teoria tinha sido alargada, especialmente por John Maynard e Robert Trivers. Vejo
agora que este foi um daqueles períodos misteriosos em que as ideias novas
andam a pairar no ar. Escrevi O Gene Egoísta possuído por algo parecido
com uma febre de excitação.
Quando a Oxford University Press me propôs uma 2.a edição, insistiram em que uma revisão convencional,
esclarecedora, página a página, seria inadequada. Existem alguns livros que,
devido à sua concepção, estão obviamente destinados a um rol de edições e O
Gene Egoísta não é um deles. A 1.a
edição tinha uma qualidade juvenil, que lhe foi emprestada pelos tempos em que
foi escrita. Havia uma lufada de revolução lá fora, laivos da aurora
bem-aventurada de Wordsworth. Seria uma pena
modificar um filho desses tempos, engordando-o com novos factos ou enrugá-lo
com complicações e precauções. Assim, manter-se-ia o texto original, os cravos,
os pronomes sexistas e tudo o mais. As notas no final deveriam cobrir as
correcções, as respostas e os desenvolvimentos. E deveriam existir capítulos
inteiramente novos sobre assuntos cuja novidade, na sua época, levaria para a
frente a aurora revolucionária. O resultado foram os
capítulos 12 e 13. A sua fonte de inspiração veio dos dois livros editados
neste campo que mais me entusiasmaram durante os anos que entretanto passaram: The
Evolution of Cooperation,
de Robert Axelrod, porque parece dar-nos algum tipo
de esperança para o futuro, e The Extended Phenotype, da minha própria autoria, porque, sem
nenhuma garantia, é provavelmente a melhor obra que alguma vez escreverei.
O título «Os bons rapazes ficam em primeiro»
foi emprestado pelo título do programa de televisão Horizon,
que apresentei em 1985 na BBC. Tratava-se de um documentário de
cinquenta minu-tos com um jogo de abordagens teóricas
sobre a evolução da cooperação, produzido por Jeremy Taylor. A realização deste
e de outro filme, O Relojoeiro Cego, pelo mesmo produtor, fizeram que
ganhasse um novo respeito pela sua profissão. No seu melhor, os produtores de Horizon (alguns dos seus programas podem ser vistos
nos Estados Unidos da América, frequentemente rebapti-zados
com o nome de Nova) transformam-se em especialistas académicos do tema
que focam. O capítulo 12 deve-lhes mais do que simplesmente a minha experiência
de trabalhar de perto com Jeremy Taylor e com a equipa de Horizon
e estou-lhes grato por isso.
Tomei recentemente conhecimento de um facto desagradável: existem cientistas
influentes com o costume de colocarem os seus nomes em publicações em cuja
composição não desempenharam qualquer papel. Aparentemente, alguns cientistas
de categoria mais elevada reivindicam autoria conjunta de artigos em que a sua
contribuição se resumiu ao espaço de bancada, aos fundos de investigação e à revisão
do manuscrito. Pelo que sei, podem ter-se construído reputações científicas
inteiramente baseadas no trabalho de estagiários e de colegas! Não sei o que se
poderá fazer para combater esta desonestidade. Talvez os editores das revistas
científicas devam requerer uma declaração assinada com as contribuições de cada
autor. Mas isto vinha a propósito. A razão pela qual abordei este assunto foi a
de fazer uma antítese. Helena Cronin fez tanto para
melhorar cada linha, cada palavra, que, se não fosse o facto de o ter recusado
terminantemente, devia ser co-autora de todas as partes novas deste manuscrito.
Estou-lhe profundamente grato e lamento que o meu agradecimento tenha de se
limitar a isto. Agradeço também a Mark Ridley, a Marian Dawkins e a Alan Grafen os
conselhos e a crítica construtiva de determinadas secções. E a Thomas Webster, a Hilary McGlynn e às outras pessoas da Oxford University Press
agradeço o terem tolerado com alegria os meus caprichos e procrastinações.
Richard
Dawkins