O GENE EGOÍSTA
Richard Dawkins
CIÊNCIA ABERTA

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Índice

Índice

Prólogo 7

Sobre as limitações dos genes egoístas e da sociobiologia 11

Bibliografia 20

Prefácio à edição de 1976 21

Prefácio à edição de 1989 25

 1. Porque existem as pessoas? 31

 2. Os replicadores 45

 3. Espirais imortais 57

 4. A máquina genética 89

 5. Agressão: a estabilidade e a máquina egoísta 115

 6. Saber gerir-se 143

 7. Planeamento familiar 169

 8. O conflito de gerações 187

 9. A guerra dos sexos 209

10. Amor com amor se paga 241

11. Memes: os novos replicadores 269

12. Os bons rapazes ficam em primeiro 285

13. O longo braço do gene 323

Notas finais 363

Bibliografia 449

Prólogo

O chimpanzé e o homem compartilham cerca de 99,5 % da sua história evolutiva. Contudo, a maioria dos pensadores humanos considera o chimpanzé uma excentricidade malformada e irrelevante, enquanto se vê a si mesma como uma antecâmara do Todo-Poderoso. Para um evolucionista, tal perspectiva é inaceitável. Não existe um fundamento objectivo para elevar uma espécie acima da outra. O chimpanzé e o homem, a lagartixa e o fungo, e todos nós, evoluímos durante cerca de 3 biliões de anos por um processo conhecido por selecção natural. Dentro de cada espécie, alguns indivíduos deixam atrás de si um maior número de descendentes que sobrevivem do que outros; dessa forma, as características hereditárias (os genes) dos primeiros, com maior êxito reprodutivo, tornam--se mais numerosas na geração seguinte. É isso a selecção natural: a reprodução diferencial*, não aleatória, dos genes. Foi a selecção natural que nos formou e é a selecção natural que teremos de entender, se quisermos entender a nossa própria identidade.

Embora a teoria da evolução de Darwin seja central ao estudo do comportamento social (especialmente quando associada à genética mendeliana), tem sido largamente negligenciada. Nas ciências sociais têm-se desenvolvido verdadeiras indústrias dedicadas à construção duma visão pré-darwiniana e pré-mendeliana do mundo social e psicológico. No interior da própria biologia, a negligência e o uso ilegítimo da teoria darwinista têm sido surpreendentes. Mas, sejam quais forem as razões deste estranho desenvolvimento, torna--se evidente que está a chegar ao fim. A grande obra de Darwin e de Mendel tem sido desenvolvida por um número crescente de investigadores, nomeadamente R. A. Fisher, W. D. Hamilton, G. C. Williams e J. Maynard Smith. Agora, e pela primeira vez, esse importante tronco da teoria social baseada na selecção natural é apresentado duma forma simples e popular por Richard Dawkins.

Um a um, Dawkins analisa os principais temas dos trabalhos recentes em teoria social: os conceitos de comportamento altruísta e egoísta, a definição genética do interesse próprio, a evolução do comportamento agressivo, a teoria do parentesco (incluindo as relações entre pais e filhos e a evolução dos insectos sociais), a teoria da proporção entre os sexos, o altruísmo recíproco, o engano e a simulação animal e a selecção natural das diferenças sexuais. Com uma confiança que provém do domínio da teoria subjacente, Dawkins dá a conhecer os trabalhos de pesquisa recentes com um estilo e uma clareza admiráveis. Possuindo um extenso conhecimento de biologia, introduz o leitor na sua literatura rica e fascinante. Quando discorda de trabalhos publicados (como o faz ao criticar uma falácia minha), acerta quase invariavelmente no alvo. Dawkins também se esforça por tornar clara a lógica dos seus argumentos, de forma que o leitor, aplicando a lógica apresentada, possa estender os argumentos (e mesmo virá-los contra o próprio Dawkins). Os argumentos, em si, estendem-se em muitas direcções. Por exemplo, se (tal como Dawkins argumenta) o engano e a simulação são fundamentais para a comunicação animal, então a capacidade de detecção da fraude deve ser fortemente seleccionada, devendo isto conduzir, por sua vez, à selecção de um certo grau de auto-alienação, de forma que se tornem inconscientes alguns factos e motivos para não trair — pelos sinais subtis do autoconhecimento — a fraude praticada. Assim, a ideia convencional de que a selecção natural favorece os sistemas nervosos que produzem imagens do mundo cada vez mais exactas deve ser uma visão muito ingénua da evolução mental.

O desenvolvimento recente da teoria social foi suficientemente vasto para gerar um pequeno alvoroço de actividade contra-revolucionária. Tem sido alegado, por exemplo, que esse desenvolvimento é, na realidade, parte duma conspiração cíclica para impedir o progresso social, e isso por fazer parecer tal progresso geneticamente impossível. Estas e outras ideias lamentáveis têm sido reunidas para produzir a impressão de que a teoria social darwinista é reaccionária nas suas implicações políticas. Ora isto é andar muito longe da verdade. A igualdade genética dos sexos é, pela primeira vez, claramente estabelecida por Fisher e Hamilton. A teoria e os dados quantitativos sobre os insectos sociais demonstram que não existe tendência hereditária para os pais dominarem a sua descendência (ou vice-versa). E os conceitos de investimento parental e de escolha do parceiro sexual pela fêmea fornecem uma base objectiva e imparcial para encarar as diferenças sexuais, um avanço considerável sobre os esforços populares para fixar os poderes e os direitos da mulher no pântano da identidade biológica. Em suma, a teoria social darwinista dá-nos uma imagem de lógica e simetria dos factos subjacentes às relações sociais, as quais, quando forem mais completamente entendidas por nós, decerto revitalizarão as nossas concepções políticas e fornecerão um suporte intelectual para uma ciência e medicina da psicologia; ao mesmo tempo que nos darão uma compreensão mais profunda das raízes do nosso sofrimento.

Robert L. Trivers

Prefácio à edição de 1976

Este livro deverá ser lido quase como um livro de ficção científica. Está feito de forma a despertar a imaginação. Mas não é ficção científica: é ciência. Seja ou não um lugar-comum, «mais estranho do que a ficção», exprime exactamente como me sinto em relação à verdade. Nós somos máquinas de sobrevivência — robots cegamente programados para preservar as moléculas egoístas conhecidas por «genes». Esta é uma verdade que ainda me enche de admiração. Embora o saiba há muitos anos, não consigo habituar--me completamente à ideia. E é minha esperança ter algum sucesso em surpreender também os outros.

Três leitores imaginários espreitaram por cima do meu ombro enquanto eu escrevia e agora é a eles que dedico este livro. Em primeiro lugar, ao leitor comum, o leigo. Por ele evitei, sempre que me foi possível, recorrer a gíria técnica e, onde tive de utilizar palavras especializadas, procurei defini-las. E agora pergunto-me porque conservamos a maior parte da nossa gíria nas revistas especializadas. Supus que o leigo não tinha um conhecimento especializado, mas não supus que ele fosse estúpido. Qualquer pessoa pode popularizar a ciência simplificando bastante as questões. Trabalhei arduamente para popularizar algumas ideias subtis e complicadas em linguagem não matemática, sem perder de vista a sua essência. Não sei até que ponto fui bem sucedido nesta tarefa, nem até que ponto atingi outra da minhas ambições: tentar tornar o livro tão divertido e empolgante quanto o assunto merece. Sinto, desde há muito tempo, que a biologia deveria parecer tão excitante quanto uma história de mistério, pois é exactamente isso que ela é. Não me atrevo a esperar ter conseguido transmitir mais do que uma pequena fracção do entusiasmo que o assunto oferece.

O meu segundo leitor imaginário foi o especialista. Este tem sido um crítico severo, suspirando profundamente a alguma das minhas analogias e figuras de linguagem. As suas frases favoritas são «com excepção de», «mas, por outro lado» e «uf!». Ouvi-o com atenção e até reescrevi completamente um capítulo inteiro, apenas para seu benefício. Mas, por fim, tive de contar a história à minha maneira. O especialista não estará ainda totalmente satisfeito com a forma como expus o assunto. Apesar disso, a minha maior esperança é que mesmo ele poderá encontrar aqui algo de novo; talvez uma nova maneira de encarar velhas ideias, ou até a simulação de ideias novas da sua própria autoria. Se esta for uma aspiração demasiado elevada, poderei, pelo menos, esperar que o livro o distraia numa viagem de comboio?

O terceiro leitor que tive em mente foi o estudante, a meio caminho entre o leigo e o especialista. Se ele ainda se não tiver decidido quanto ao assunto em que deseja tornar-se especialista, espero encorajá-lo a conceder ao meu próprio campo, a zoologia, uma segunda olhadela. Existe uma razão para estudar Zoologia que ultrapassa a sua possível «utilidade» e o gosto pelos animais. Essa razão é que nós, animais, somos as peças de maquinaria mais complicadas e mais perfeitamente elaboradas conhecidas no universo. Colocando a questão desta forma, é difícil entender como pode alguém estudar outra coisa! Por outro lado, para o estudante que já escolheu a Zoologia, espero que o meu livro tenha algum valor educativo. Ele estará a estudar directamente os artigos originais e os livros técnicos sobre os quais se baseia a minha exposição. Se ele achar as fontes originais difíceis de digerir, a minha interpretação não matemática poderá, talvez, ajudá-lo, como introdução e complemento.

Há perigos óbvios em tentar-se cativar, simultaneamente, três tipos diferentes de leitores. Só posso dizer que estou consciente desses perigos, mas que me pareceu que eles seriam suplantados pelas vantagens.

Sou um etólogo, e este é um livro sobre o comportamento animal. A minha dívida para com a tradição etológica na qual fui treinado será óbvia. Em particular, Niko Tinbergen não pode imaginar a importância da sua influência sobre mim durante os doze anos que trabalhei sob a sua direcção em Oxford. A frase «máquina de sobrevivência», embora não seja, de facto, criação sua, poderia muito bem tê-lo sido. Mas, recentemente, a etologia tem sido revitalizada por uma invasão de ideias novas, oriundas de fontes convencionalmente não consideradas como etológicas. Este livro baseia-se, em grande parte, nessas ideias novas. Os seus autores são mencionados nos lugares apropriados do texto; as figuras dominantes são G. C. Williams, J. Maynard Smith, W. D. Hamilton e R. L. Trivers.

Diversas pessoas sugeriram títulos para o livro, que eu, agradecidamente, utilizei como títulos dos capítulos: «Espirais imortais», John Krebs; «A máquina genética», Desmond Morris; «Saber gerir-se»*, Tim Clutton-Brock e Jean Dawkins, independentemente, com um pedido de desculpa a Stephen Potter.

Os leitores imaginários podem servir de alvos para esperanças e aspirações piedosas, mas não de menor utilidade prática que os leitores e os críticos reais. Sou muito dado a revisões, e Marian Dawkins tem sido sujeita a inúmeros rascunhos de cada página. O seu conhecimento considerável da literatura biológica e a sua compreensão das questões teóricas, juntamente com o seu encorajamento e apoio moral incessantes, têm sido essenciais para mim. Também John Krebs leu o livro inteiro, ainda em rascunho. Ele conhece o assunto melhor do que eu e tem sido generoso e incansável com os seus conselhos e sugestões. Glenys Thompson e Walter Bodmer criticaram de forma gentil, mas firme, o tratamento que dei aos tópicos de genética. Temo que a minha revisão final não os satisfaça ainda por completo, mas espero que a encontrem algo melhorada. Estou muito grato pelo seu tempo e paciência. John Dawkins exercitou uma atenção infalível para as construções ambíguas e propôs excelentes reformulações. Não poderia ter desejado um «leigo inteligente» mais adequado que Maxwell Stamp. A forma perspicaz como detectou falhas gerais importantes no estilo do primeiro rascunho contribuiu muito para a versão final. Outros, que criticaram construtivamente capítulos específicos ou que deram a sua opinião de especialistas, foram John Maynard Smith, Desmond Morris, Tom Maschler, Nick Blurton Jones, Sarah Kettlewell, Nick Humphrey, Tim Clutton-Brock, Louise Johnson, Christopher Graham, Geoff Parker e Robert Trivers. Pat Searle e Stephanie Verhoeven, não só dactilografaram com habilidade, como também me encorajaram, ao parecerem fazê-lo com prazer. Finalmente, quero agradecer a Michael Rogers, da Oxford University Press, que, para além de criticar proveitosamente o manuscrito, ultrapassou em muito o seu dever ao atender a todos os aspectos envolvidos na produção deste livro.

Richard Dawkins

Prefácio à edição de 1989

Na dúzia de anos que decorreu desde a publicação da 1.a edição de O Gene Egoísta, a sua mensagem central tornou-se ortodoxa como um livro de texto. É um paradoxo, embora não seja aquele que é mais óbvio. Não se trata de um daqueles livros que são vituperados de revolucionários aquando da sua publicação, que ganham rapidamente adeptos e que acabam por tornar-se tão ortodoxos que até nos perguntamos hoje sobre a razão de tanto estardalhaço. Antes pelo contrário. Desde o início que as críticas foram francamente favoráveis, não sendo encarado, a princípio, como um livro controverso. A sua reputação de pouco ortodoxo levou anos a crescer até aos dias de hoje, em que é encarado como uma obra extremamente radical. Mas, ao longo destes mesmos anos, à medida que ia crescendo a sua reputação de extremismo, o seu conteúdo começou a parecer cada vez menos extremo e a fazer cada vez mais parte da moeda corrente.

A teoria do gene egoísta é a teoria de Darwin aplicada de um modo que não foi escolhido por Darwin, mas cuja aptidão, como gosto de pensar, seria prontamente reconhecida por ele e o encantaria de imediato. Trata-se, na realidade, de um desenvolvimento lógico do neodarwinismo ortodoxo, mas expresso sob a forma de uma nova imagem; em vez de focar o organismo individualizado, apresenta a perspectiva da natureza do ponto de vista do gene. É uma maneira diferente de ver, e não uma teoria nova. Nas páginas de abertura de The Extended Phenotype expliquei este ponto recorrendo à metáfora do cubo de Necker.

Esta figura não passa de um padrão bidimensional de tinta em papel, mas é apreendido como a imagem tridimensional de um cubo transparente. Se fixarmos este cubo durante alguns segundos, verificamos que as suas faces tomam outra orientação. Se continuarmos a fixá-lo, o cubo volta então à posição original. Ambos os cubos são compatíveis com a informação bidimensional existente na retina e, portanto, o cérebro alterna alegremente entre eles. Nenhum deles é mais correcto do que o outro. Aquilo que quero dizer com esta metáfora é que existem duas maneiras de encarar a selecção natural: sob o ângulo do gene e sob o ângulo do indivíduo. Quando adequadamente compreendidas, estas maneiras são equivalentes; duas perspectivas de uma verdade única. Podemos alternar entre uma e outra e continuará a ser o mesmo neodarwinismo.

Agora penso que esta era uma metáfora cautelosa de mais. Mais do que propor uma teoria nova ou trazer à luz um novo facto, a melhor contribuição que um cientista pode dar é, frequentemente, descobrir uma nova maneira de olhar para as teorias e para os factos antigos. O modelo do cubo de Necker é enganador, pois sugere que as duas maneiras de ver são igualmente boas. Evidentemente que a metáfora dá uma ideia parcialmente correcta: ao contrário das teorias, os «ângulos» não podem ser testados experimentalmente; não podemos refugiar-nos no critério de verificação e invalidação de hipóteses, que nos é tão familiar. No seu melhor, uma mudança de perspectiva pode conseguir algo mais majestoso do que uma teoria. Pode introduzir-nos em todo um clima de pensamento em que nascem muitas teorias excitantes e testáveis e onde estão à vista os factos inimagináveis. A metáfora do cubo de Necker passa totalmente ao lado deste aspecto. Captura a ideia de uma mudança repentina da visão, mas não faz justiça ao seu valor. Não estamos a falar aqui de uma mudança súbita para uma visão equivalente, mas sim, em casos extremos, de uma transfiguração.

Sou o primeiro a negar qualquer estatuto deste género à minha modesta contribuição. Todavia, é por este tipo de razões que prefiro não fazer uma distinção clara entre a ciência e a sua «popularização». A exposição de ideias que, até agora, só têm sido veiculadas na literatura técnica é uma arte difícil. Exige perspicácia nas novas deturpações de linguagem e metáforas reveladoras que usa. Se levarmos a inovação da linguagem e da metáfora suficientemente longe, podemos acabar por ter uma nova maneira de ver. E, tal como acabei de argumentar, uma nova maneira de ver é, por direito próprio, um contributo original para a ciência. O próprio Einstein não era sequer um popularizador médio e sempre suspeitei que as suas metáforas vivas fizeram bem mais do que se limitarem a ajudar-nos. Não eram elas que alimentavam o seu génio criativo?

O darwinismo visto pela perspectiva dos genes encontra-se implícito nos escritos de R. A. Fisher e de outros grandes pioneiros do neodarwinismo do início dos anos 30, mas só foi tornado explícito por W. D. Hamilton e por G. C. Williams nos anos 60. Para mim, as suas ideias eram visionárias. Mas achei que as exprimiram muito laconicamente e que não as espalharam e divulgaram suficientemente. Estava convencido de que o desenvolvimento e a amplificação de uma versão podiam fazer que todos os factos da vida fizessem sentido, tanto no coração como no cérebro. Eu escreveria um livro para enaltecer a evolução vista pelos genes. Ele concentrar-se-ia em exemplos sobre o comportamento social, para ajudar a corrigir a febre de selecção de grupo inconsciente que então invadia o darwinismo popular. Comecei este livro em 1972, numa altura em que os cortes de electricidade, resultantes de conflitos industriais, interromperam a minha pesquisa de laboratório. Infelizmente (para mim, pelo menos), o corte de energia durou apenas dois meros capítulos e arquivei o projecto até entrar em licença sabática em 1975. Entretanto, a teoria tinha sido alargada, especialmente por John Maynard e Robert Trivers. Vejo agora que este foi um daqueles períodos misteriosos em que as ideias novas andam a pairar no ar. Escrevi O Gene Egoísta possuído por algo parecido com uma febre de excitação.

Quando a Oxford University Press me propôs uma 2.a edição, insistiram em que uma revisão convencional, esclarecedora, página a página, seria inadequada. Existem alguns livros que, devido à sua concepção, estão obviamente destinados a um rol de edições e O Gene Egoísta não é um deles. A 1.a edição tinha uma qualidade juvenil, que lhe foi emprestada pelos tempos em que foi escrita. Havia uma lufada de revolução lá fora, laivos da aurora bem-aventurada de Wordsworth. Seria uma pena modificar um filho desses tempos, engordando-o com novos factos ou enrugá-lo com complicações e precauções. Assim, manter-se-ia o texto original, os cravos, os pronomes sexistas e tudo o mais. As notas no final deveriam cobrir as correcções, as respostas e os desenvolvimentos. E deveriam existir capítulos inteiramente novos sobre assuntos cuja novidade, na sua época, levaria para a frente a aurora revolucionária. O resultado foram os capítulos 12 e 13. A sua fonte de inspiração veio dos dois livros editados neste campo que mais me entusiasmaram durante os anos que entretanto passaram: The Evolution of Cooperation, de Robert Axelrod, porque parece dar-nos algum tipo de esperança para o futuro, e The Extended Phenotype, da minha própria autoria, porque, sem nenhuma garantia, é provavelmente a melhor obra que alguma vez escreverei.

O título «Os bons rapazes ficam em primeiro» foi emprestado pelo título do programa de televisão Horizon, que apresentei em 1985 na BBC. Tratava-se de um documentário de cinquenta minu-tos com um jogo de abordagens teóricas sobre a evolução da cooperação, produzido por Jeremy Taylor. A realização deste e de outro filme, O Relojoeiro Cego, pelo mesmo produtor, fizeram que ganhasse um novo respeito pela sua profissão. No seu melhor, os produtores de Horizon (alguns dos seus programas podem ser vistos nos Estados Unidos da América, frequentemente rebapti-zados com o nome de Nova) transformam-se em especialistas académicos do tema que focam. O capítulo 12 deve-lhes mais do que simplesmente a minha experiência de trabalhar de perto com Jeremy Taylor e com a equipa de Horizon e estou-lhes grato por isso.

Tomei recentemente conhecimento de um facto desagradável: existem cientistas influentes com o costume de colocarem os seus nomes em publicações em cuja composição não desempenharam qualquer papel. Aparentemente, alguns cientistas de categoria mais elevada reivindicam autoria conjunta de artigos em que a sua contribuição se resumiu ao espaço de bancada, aos fundos de investigação e à revisão do manuscrito. Pelo que sei, podem ter-se construído reputações científicas inteiramente baseadas no trabalho de estagiários e de colegas! Não sei o que se poderá fazer para combater esta desonestidade. Talvez os editores das revistas científicas devam requerer uma declaração assinada com as contribuições de cada autor. Mas isto vinha a propósito. A razão pela qual abordei este assunto foi a de fazer uma antítese. Helena Cronin fez tanto para melhorar cada linha, cada palavra, que, se não fosse o facto de o ter recusado terminantemente, devia ser co-autora de todas as partes novas deste manuscrito. Estou-lhe profundamente grato e lamento que o meu agradecimento tenha de se limitar a isto. Agradeço também a Mark Ridley, a Marian Dawkins e a Alan Grafen os conselhos e a crítica construtiva de determinadas secções. E a Thomas Webster, a Hilary McGlynn e às outras pessoas da Oxford University Press agradeço o terem tolerado com alegria os meus caprichos e procrastinações.

Richard Dawkins

 

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